Eduardo Leite e a comunidade LGBTQIAP+

Foto: reprodução do Instagram de Eduardo Leite, 06.07.2021

A recente entrevista de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul pelo PSDB, na qual assume publicamente sua homossexualidade ao jornalista Pedro Bial, repercutiu no país e de imediato gerou manifestações de solidariedade e apoio ao político. No entanto, não tardou para que críticas também lhe fossem direcionadas, principalmente pelo equívoco cometido em 2018, quando declarou seu apoio à Bolsonaro. Erro estratégico admitido pelo próprio governador em coletiva de imprensa concedida no domingo, 04 de julho.  

Nas redes sociais, o assunto ainda reverbera, com acusações de que sua recente declaração se trata de uma estratégia política visando às eleições presidenciais de 2022. Há os que também falam em falta de representatividade do governador junto à comunidade LGBTQIAP+. Para estes, só contam aqueles cujo histórico é de envolvimento direto com a causa e com a comunidade. Se existem críticas de alguns, por outro lado, desde que se manifestou publicamente, o número de seguidores de Leite nas redes sociais continua crescendo. 

Cabe lembrar que assumir ou não a orientação sexual é uma decisão que só diz respeito àquele ou àquela diretamente afetado por tal decisão. Numa sociedade machista e homofóbica, com medo de represálias, das reações familiares e das incertezas profissionais, cada um tem seu tempo de maturação até decidir assumir-se publicamente ou não. E não são poucos os que só conseguiram assumir o que de fato são após transporem, tardiamente, as barreiras do medo e dos preconceitos. 

Como político bem-sucedido, Eduardo Leite deve ter ponderado que chegara a hora de tornar pública uma questão de foro íntimo que já era de conhecimento de familiares e de amigos mais próximos. Penso que assim o fez não apenas para lidar com mais tranquilidade com o assunto, mas para inviabilizar ou neutralizar ataques que possivelmente viriam em algum momento.

Num país homofóbico como o Brasil, não enxergo na atitude do governador gaúcho uma estratégia política para catapultar sua candidatura e angariar votos. Ao contrário, na conjuntura política brasileira, na qual imperam as redes de ódio e de Fake News, vejo sua atitude mais como uma estratégia de defesa para que sua homossexualidade não viesse à tona por meio do jogo sujo de um adversário político, que poderia usá-la para atacá-lo de forma mais direta. De forma indireta, sabemos, já vinha acontecendo.

Orientação sexual não torna alguém melhor ou pior gestor. Essa é uma qualidade que se molda independentemente de questões de gênero. Mas, no tabuleiro político, sempre haverá mal-intencionados capazes de tudo para vencer um páreo eleitoral, trabalhando com a distorção de fatos e embaralhando a cabeça de eleitores e eleitoras suscetíveis ao submundo das redes, inclusive daquela parcela mais conservadora e ligada a determinados grupos religiosos. 

A população LGBTQIAP+ há anos luta por espaço e representatividade nas mais diversas áreas. E o respeito às diferenças talvez esteja no topo daquilo que se almeja pelos que buscam igualdade. Aos membros da comunidade gay que não se sentem representados por Eduardo Leite, cabe lembrar que a própria comunidade é diversa, e é justamente essa diversidade que está representada no conjunto das letras da sigla que cresce cada vez mais.

Para além do significado de cada letra, dentro de cada uma delas há um universo particular que precisa ser considerado e respeitado, e isso inclui a opção por não empunhar bandeiras e a opção por filiações político-partidárias distintas. Um direito individual inquestionável. Pensamentos divergentes sobre visão de mundo e de gestão pública precisam ser respeitados, desde que não representem perigo à existência, à extinção de direitos e às manifestações de liberdade das pessoas, principalmente das minorias.

Por isso, não se pode negar a contribuição que o governador deu à comunidade e à cultura LGBTQIAP+ ao assumir publicamente que é gay. Político e gestor público que se fez à margem das pautas do movimento, entendo que, ao se afirmar como homem gay, a partir de agora Leite contribui para inibir possíveis manifestações preconceituosas e homofóbicas de lideranças que transitam por seu espectro político, que comungam da sua maneira de pensar e de fazer política. Inclusive eventuais colegas de partido. E isso é sim um inegável avanço e uma grande conquista.

Não fosse assim, sua iniciativa não teria sido saudada também por importantes lideranças da esquerda nacional, que o parabenizaram, que com ele se solidarizaram e que comemoraram sua manifestação. Até mesmo essas lideranças foram criticadas e questionadas por parte de seus eleitores. Uma tremenda contradição para quem luta e defende as liberdades individuais dentro do campo democrático.

Embora não empunhe a bandeira da comunidade gay nem dela tenha se valido para construir sua carreira, Eduardo Leite, mesmo que de forma discreta, vem privilegiando e dando especial atenção às pautas da comunidade. Depois de recriar a Secretaria Estadual da Cultura do RS, extinta por seu antecessor, nomeou Gabriella Meindrad para Secretária Adjunta da Cultura, a primeira mulher trans a ocupar o cargo. Assim o fez atendendo a indicação de Beatriz Araujo, Secretária da Cultura do seu governo.

Aliás, na contramão do que acontece no governo federal, a pasta gaúcha vem recebendo especial atenção e cada vez mais significativos investimentos do governador – atitude reconhecida até mesmo por adversários políticos que dele divergem em outras pautas –, indicativo da sensibilidade de alguém que entende a importância da área para a identidade e o desenvolvimento de um povo.

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