Poder terapêutico da arte em tempos de crise

Poder terapêutico da arte em tempos de crise

Cristiano Goldschmidt*

Mais do que em qualquer outro momento desde o início da pandemia, os primeiros meses de 2021 trouxeram manifestações de pesar e solidariedade que se multiplicaram nas redes sociais. Houve incontáveis notas de falecimento seguidas de condolências.

Diariamente, estamos sendo afetados pela perda de entes queridos. São amigos, conhecidos, colegas de trabalho ou de estudos, familiares que partem sem a chance da despedida. E deixam muitas pessoas órfãs, de pais, filhos, irmãos, tios, tias, primos, avós.

Não dá para normalizar a dor de um número tão expressivo de perdas quando sabemos que houve negligência da Presidência da República na administração de uma pandemia que vem empurrando muitos para a morte antes da hora.

E o tempo da partida não pode ser entendido como o da “chegada a hora” quando sabemos que o tamanho da tragédia podia ter sido evitado se medidas corretas tivessem sido adotadas no seu devido tempo.

Num tempo em que deveríamos estar comemorando a redução dos enlutados, porque já adentramos o segundo ano da pandemia, ainda se veem famílias perdendo dois ou mais integrantes porque a vacina não chegou a tempo.

Aos que ficam, cabe a difícil tarefa de administrar suas dores. E aplacá-las também leva tempo. Empatia e solidariedade são ingredientes que contribuem para amenizar as tristezas. Cercar-se do afeto dos que permanecem conosco também ajuda.

Um amigo psicólogo me relata que aumentou o número de pacientes que o procuram com ansiedade, insegurança, medo e pânico. Segundo ele, são pacientes que desenvolveram esses transtornos em circunstâncias diretamente ligadas à pandemia.

Apoio e orientação profissional ajudam a enfrentar as dificuldades e a diminuir nossas dores. Passado o período inicial do luto, acrescentar atividades prazerosas na rotina contribui para cicatrizar as feridas da alma e ajuda a melhorar nosso estado de espírito.

Nesse sentido, a arte e o riso possuem efeito terapêutico, auxiliam muitos a superarem os momentos de crise e amenizam o sofrimento.

Rir em tempos difíceis

Foi para aliviar a tristeza de amigos e de desconhecidos que os atores Damiel Brocker e Vinicius Gomes criaram o projeto “Clown que encanta Toca e Canta”, uma série de dez lives (com transmissão pelo Instagram) com as histórias dos palhaços Toca (Vinicius) e Canta (Damiel), que passam a quarentena juntos.

O projeto foi contemplado com o Edital de Ocupação de Territórios Culturais da Lei Aldir Blanc (Lei federal 14.017/2020) em Gravataí/RS. Apesar de atuarem com mais frequência na capital, onde cursam graduação em Teatro na Ufrgs, os atores comemoram ter seu trabalho também reconhecido em um município menor.

Em momentos de dor, levar arte e riso às pessoas constitui-se em ato de generosidade, permitindo por alguns momentos a abstração desses tempos permeados pelas más notícias. E a arte do clown é fundamental nesse processo, porque traz alegria em meio ao caos, devolvendo aquilo de que mais estamos carentes no momento: acolhimento.

Na atual calamidade sanitária, que impossibilita apresentações artísticas presenciais, a Aldir Blanc tem proporcionado apresentações em ambiente virtual, indo para as cidades do interior ou delas partindo, num intercâmbio que aproxima artistas e espectadores.

O projeto “Clown que encanta Toca e Canta” foi contemplado para ocupar o território virtual, e nas dez lives Damiel e Vinicius abordam um pouco da história e de tudo o que se passou com os palhaços na quarentena, ou seja, há um recorte de um período de dez meses da pandemia.

“Idealizamos essas lives porque reconhecemos que o riso nos ajuda a superar o luto, nos dá a esperança necessária para uma vida com mais leveza, ajuda a afastar a tristeza das perdas e do isolamento social. O projeto deu tão certo que pretendemos transformá-lo em uma peça de teatro quando tudo isso passar”, afirma Damiel.

Produção artística sob a influência da pandemia

Se todos sofrem, não restam dúvidas de que a pandemia também afeta e interfere na produção artística, e foi justamente em períodos de crise como o que vivemos agora que muitos artistas produziram algumas de suas maiores obras. Muito do que Willian Shakespeare escreveu foi em um contexto pandêmico, lembra o ator Gustavo Lops Susin, que acrescenta:

“Entre tantas histórias, registradas em diversos documentos, mas nem todos de legitimidade atestada, uma delas é a de que o dramaturgo e poeta inglês teria não somente prosperado no circuito teatral londrino graças à epidemia da Peste Bubônica que assolou Londres em diferentes períodos do séculos XV e XVI (culminando na Grande Peste de Londres no ano de 1665), como inclusive teria produzido suas melhores peças em períodos de quarentena forçada”.

Para Gustavo, eventos históricos passados nos servem de exemplo porque mostram que as pestes nunca foram capazes de eliminar o germe da criação teatral nem a capacidade humana de inventar histórias a partir dessa linguagem artística e da interação dos artistas com o que acontecia no mundo em determinado contexto histórico.

Se for mito ou verdade que peças como Rei LearRomeu e Julieta e Macbeth tenham sido escritas em períodos de confinamento, não deixa de ser relevante que um dos períodos mais importantes da história do teatro tenha sido marcado por interrupções forçadas devido às barreiras de controle epidemiológico postos em prática à época.

No que diz respeito à atualidade, cabe seguirmos atentos à luta contra o processo da invisibilidade que já nos era costumeira antes da pandemia, e que permanece cegando parcela da sociedade, que nega ou não enxerga a potência das artes como instrumento de transformação pessoal e social.

“Os incentivos financeiros e prêmios de fomento já eram escassos antes do Coronavírus se propagar. A economia criativa foi conduzida a um encolhimento sem precedentes, diante de todas as ausências de iniciativas e de comprometimento das esferas pública e privada com a manutenção do setor cultural”, afirma Susin.

Em concordância com o colega, o artista da cena e professor de teatro Julio Zaicoski comenta que, no cenário teatral, o que já era precário – a extinção do Ministério da Cultura, falta de verbas, editais reduzidos ou cancelados e escassez de público – se intensificou. Para ele, os editais emergenciais surgiram para apagar um incêndio que é antigo.

Por outro lado, na pandemia, com a Lei Aldir Blanc, voltada para a sobrevida dos artistas, viu-se uma produção gigantesca em todos os segmentos das artes, com as criações disponibilizadas ao público nos meios digitais. E, na opinião de Gustavo, é justamente por isso que esses recursos não podem ser interrompidos neste momento.

“Essa é a nossa verdadeira vacina no plano da possibilidade da produção artística. Precisamos ser valorizados, sem sermos escamoteados à margem dos ciclos econômicos catalisados pelo Estado. Enfrentar a quarentena e a peste à espera da vacina, para nós, é moleza. Difícil seguirá sendo a dura batalha contra obscurantistas que enxergam na arte algo a ser destruído, enquanto em qualquer sociedade que respeita sua origem e sua realidade, a cultura sempre tem lugar de destaque.”

Desafios das aulas de teatro on-line

Professor de Teatro em dois colégios privados da capital, Zaicoski afirma que, nas escolas, o teatro quase sempre está na categoria extraclasse e que os professores da disciplina precisam se contentar com qualquer espaço disponível para as suas práticas, “algum canto de uma sala que não está sendo utilizada ou outros espaços sem estrutura, afinal de contas, o teatro sempre foi visto mais como uma atividade recreativa irrelevante do que artística e produtora de conhecimento, e se antes isso já acontecia, agora, com a pandemia, praticamente desaparecemos”, lamenta.

Para além dos aspectos inerentes ao fazer artístico, é também graças às artes que a situação psicológica dos alunos que permanecem em casa não é pior. Sem romantizar as dificuldades e todas as adversidades, o teatro e as artes, de um modo geral, têm sido importantes para os alunos durante a quarentena, porque são eles que em alguma medida, contribuem para os processos criativos dos alunos, inclusive no processo de aprendizagem de outras disciplinas. No entanto, isso não significa reconhecimento e melhores condições.

“Nesse período da pandemia, a situação se agravou para nós, artistas e professores de artes. Somos cada vez mais marginalizados e tratados como carne de segunda. Perseguidos e acuados, precisamos sobreviver adaptando a nossa casa para trabalharmos de forma remota. Claro que sobreviveremos, porque não há outra saída. E, sim, nossa arte é essencial”, comenta Julio. 

Professora da rede municipal de Gravataí e estadual em Porto Alegre, Mariana Vellinho também se viu enredada em incertezas sobre a docência em Teatro, principalmente no que diz respeito à metodologia de ensino que a pandemia exigiu dos professores.

Como malabaristas de uma rua movimentada e barulhenta, os professores procuram uma brecha quando o sinal está vermelho a fim de descobrirem o que ainda os faz continuar. E foi com o sinal fechado da pandemia que a atriz e professora se fez algumas perguntas, para as quais busca respostas.

“Como trabalhar o teatro à distância, sem deixar esmorecer o fascínio dos jovens pela linguagem teatral? Como manter os vínculos que são criados, cotidianamente, com os alunos, no espaço da escola, onde a presença do outro é o que nos move e nos entusiasma? Além do fator da distância física, trabalhar na rede pública em pleno isolamento social implicou entender os fracassos que a educação brasileira atravessa. Como utilizar os meios virtuais e digitais se a escola não possui nem um quadro negro decente? Como se conectar ao aluno que não tem acesso às redes e à internet?”

Talvez a resposta esteja em uma mensagem que Mariana me mostrou e que foi enviada por uma aluna que diz sentir saudade da alegria de suas aulas. Enquanto isso, a professora-artista tenta reinventar maneiras de não deixar vazio o espaço entre ela e os alunos.

“Embora as aulas sejam em modo remoto, busco maneiras que façam os olhos brilhar por entre as telas que nos separam. E, apesar das feridas que a pandemia causou e ainda provoca, tento lecionar com amor, comprometimento, coragem e alegria”, finaliza.

*Doutorando e Mestre em Artes Cênicas (Ufrgs). Conselheiro de Estado da Cultura do RS.

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