Morte de Radaelli deixa vazio e legado nas Artes

Morreu na madrugada do último sábado (28/11), aos 60 anos, o artista plástico gaúcho Gelson Radaelli. Natural de Nova Bréscia, adotou Porto Alegre há mais de 30 anos, onde mantinha, desde o início da década de 1990, o restaurante Atelier de Massas. No espaço, situado no Centro Histórico da capital, Radaelli conseguiu conjugar duas de suas maiores paixões: as artes visuais e a gastronomia.

Considerado por muitos como um dos melhores restaurantes da cidade – há quem diga, sem exageros, que é um dos melhores restaurantes italianos especializados em massa do mundo –, o local também chama a atenção pelo cuidado com a decoração. Ali, enquanto os clientes saboreiam as refeições tendo à sua escolha uma das melhores e mais completas cartas de vinho do estado, também se impressionam com as obras de arte que emolduram o ambiente. Uma vez acomodados, o espaço dá a sensação de que os próprios clientes passam a fazer parte de uma obra de arte em construção.

Segundo um de seus braços direitos no restaurante, o garçom Nadir Lodi Rossini, mais conhecido pelos clientes como “gaúcho”, Radaelli teve um infarto por volta das 2h30 da madrugada de sábado, quando foi encontrado pela esposa, Rogéria, caído na sala de casa. Além da mulher, o artista deixa dois filhos, Tulia e Teodoro. Tão logo a notícia de sua inesperada e repentina morte começou a circular, amigos e admiradores passaram a se manifestar nas redes sociais, gerando comoção.

Radaelli conseguia imprimir um estilo próprio e inconfundível em suas obras, identificadas tanto pelos traços quanto pela paleta de cores. Natureza morta e figuras humanas, sempre representadas com uma forte carga dramática, eram uma constante em sua produção. Essas escolhas, sem dúvidas, indicavam um artista que em sua rotina refletia e demonstrava preocupação com as questões da natureza humana, do meio ambiente e com as mazelas do mundo, o que se percebe no resultado final do seu trabalho.

Sua mostra mais recente, No espelho não sou eu, permaneceu em cartaz na Galeria Bolsa de Arte até o dia 14 de outubro, nela, Radaelli apresentou uma série de pinturas produzidas durante o isolamento causado pela Covid-19. Com uma produção intensa e ininterrupta, Radaelli dedicava-se à pintura, à escultura e à ilustração. E transitava de forma confortável entre uma linguagem e outra. Suas obras integram coleções privadas e acervos de instituições públicas. A partir de agora, fazer o mapeamento dessas obras é uma tarefa a ser pensada pelos pesquisadores. Uma individual em sua homenagem, que possa traçar um panorama (ou uma linha histórica) de sua produção, também deve ser considerada pelos nossos museus.

Nos últimos dias, pude conversar com muitos amigos do artista, todos ainda impactados e incrédulos com a sua morte. Segundo Eduardo Veras, Professor do Instituto de Artes da UFRGS, responsável pelo texto de apresentação de sua última exposição, Gelson Radaelli deixa uma saudade imensa entre familiares, amigos e fãs do seu trabalho:

“Parte do que fazia dele alguém tão especial vinha de certa costura pelo avesso: gostava de franzir o cenho e se mostrar meio tosco, afetando mau humor, mas era (seus interlocutores logo percebiam) de uma gentileza, uma sensibilidade e uma generosidade sem limites. Onde não se esperava grandes coisas, no combalido centro de Porto Alegre, instalou um restaurante que se tornou referência, não apenas em termos de gastronomia e coleção de vinhos, mas, sobretudo, no que diz respeito a aconchego e bem viver. Sua pintura, de incontornável melancolia, com figuras que se torciam sobre si mesmas, exaustas, doloridas, funcionavam, também, como índices de uma entrega apaixonada. O artista trabalhava sem parar, pintando, desenhando, moldando barro, dia a dia, sem trégua. Mesmo quando essas imagens pesavam, calhavam de ser uma celebração. Não esqueceremos”.

Arquiteta, urbanista e artista plástica, Daniela Giovana Corso, que também integra o Conselho Estadual de Cultura do RS (CEC-RS), ao falar de Radaelli, lembra que muitas vezes um artista se torna referência para outros sem a necessidade de um vínculo afetivo ou de uma maior proximidade:

“Nunca fomos próximos. Nunca trabalhamos juntos. Nunca sentamos à mesma mesa, nem dividimos um bom vinho. Mas um jantar no seu Atelier de Massas, depois de um espetáculo no Teatro São Pedro, é aquela mistura do melhor antepasto do mundo com paredes de milhares de pinceladas e cores, compostas pelo olhar do artista único. Naquela ebulição caótica inspiradora do “tudo ao mesmo tempo agora”, já sentei e deixei a imaginação desenhar. Para um projeto e até para questões corriqueiras da vida. Na ocasião de N E O N, sua individual de 2017 no MARGS, eu me perguntava como ele conseguiu chegar naquele rosa-quase-digital. Claro, era o seu rosa-neon. Apelidei de rosa-topázio. Uma das cores preferidas da minha paleta da vida. Radaelli é a prova de que a arte, de fato, alimenta. Camadas fortes, densas, intensas. Para mim, é inquietude, meio rastro. Melhor: permanência do gesto, do movimento, da pincelada, do artista. E agora, dele. E assim seja. Ouço e dedico a ele, neve de papel, de Vitor Ramil …“Foi por ali e ficou por aqui”…

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