Chapada dos Veadeiros, um paraíso ameaçado pelo fogo e pelo agronegócio

Vale da Lua, Alto Paraíso de Goiás (GO), Setembro de 2020. Foto de Cristiano Goldschmidt

Na última semana de setembro, estive na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Antes disso passei alguns dias em Brasília, onde fiquei hospedado na casa de um amigo, em um condomínio próximo ao Parque Nacional de Brasília. Foi minha primeira vez na Capital Federal e em Alto Paraíso de Goiás, num total de 18 dias. Havia 120 dias não chovia na região. Em Brasília, durante o dia, o calor era intenso, a umidade do ar não passava dos 12%, e a região sofria com a fumaça das queimadas, causando mal-estar, desconforto, cansaço, sangramento no nariz e dificuldades respiratórias. Os brasilienses afirmam que, com o tempo, a gente acostuma. O fogo na vegetação seca do Cerrado era diário, e naturalizado. A vizinhança não reclamava, não demonstrava indignação ou espírito combativo. A fuligem da fumaça se acumulava no assoalho e nos móveis da casa, que precisava ser higienizada pelo menos duas vezes ao dia.

De Brasília a Alto Paraíso de Goiás, a viagem dura duas horas e meia de carro. O primeiro trajeto é pela BR 020, o segundo é na GO 118, uma rodovia relativamente nova, bem conservada e sinalizada. Todos com quem pude conversar dizem que a GO 118 é uma rodovia que nasceu da pressão e do lobby dos fazendeiros afortunados que, nos últimos anos, ampliaram a aquisição de terras na região, substituindo a biodiversidade do Cerrado pelas monoculturas, principalmente de soja e de eucalipto, além da pecuária.

Segundo meus anfitriões, em poucos anos o agronegócio fez o que as belezas naturais da Chapada não conseguiram nas décadas anteriores: sensibilizar autoridades para a necessidade de uma rodovia transitável. Numa escala de prioridades, embora nem sempre seja mais rentável, a produção e o escoamento de grãos mostraram-se mais importantes que o investimento na preservação do bioma e no turismo ecológico e de aventura.

Um casal de amigos de Brasília que há anos visita a Chapada e que há um ano abriu um negócio em Alto Paraíso afirma que a devastação no Cerrado se intensificou nos últimos cinco anos, modificando a paisagem da região. Saindo de Brasília, passamos por duas cidades satélites, Sobradinho e Planaltina. Pegando a GO 118, antes de chegarmos a Alto Paraíso de Goiás, passamos pelos municípios de São Gabriel e São João da Aliança. É nesse trajeto que identificamos a brusca alteração da paisagem, com a imensidão de lavouras a perder de vista, com os nomes de algumas fazendas estampados em placas na beira da estrada, além de outdoors em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. É também em muitos pontos desse trajeto que vimos um Cerrado que havia sido queimado em dias anteriores, restando uma vegetação carbonizada contrastando com aquela que ainda insistia em sobreviver.

A situação só melhorou nas proximidades do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros e de Alto Paraíso. A cidade faz jus ao nome. As belezas naturais da região atraem milhares de turistas nos finais de semana, de pessoas comuns a astros da televisão. Há hospedagem para todos os tipos, gostos e bolsos. Além do Parque Nacional, muitas atrações turísticas, com trilhas, cachoeiras e rios de águas transparentes, ficam em propriedades particulares, que cobram ingresso, algumas com guias locais disponíveis e outras com trilhas autoguiáveis.

O turismo ecológico no Brasil é uma fonte de riqueza historicamente desprezada pelos governos. Essa situação piorou muito recentemente. Não é à toa que, atualmente, a administração de alguns Parques Nacionais está sendo oferecida à iniciativa privada. Se o negócio não fosse rentável, não haveria investidores interessados.

O proprietário de uma das atrações mais visitadas de Alto Paraíso já recusou uma oferta de R$ 17 milhões por suas terras, uma porção bem menor do que muitas da região. Sua propriedade chega a receber mais de 500 visitantes por dia (com a covid-19 o acesso foi reduzido), geralmente nos finais de semana, quando turistas de diversos lugares procuram por suas cachoeiras de águas cristalinas, com ingresso a um custo de 20 reais por pessoa. Dos lugares que visitei, esse foi o de menor valor.

Os atrativos de Alto Paraíso não se resumem às cachoeiras. A flora e a fauna caraterísticas do Cerrado, resistentes a longos períodos de seca, também chamam a nossa atenção. O chalé que alugamos, nos limites da cidade e ladeado por um morro, nos brindava com dezenas de araras que nos visitavam diariamente, pela manhã e no final da tarde, e que se alimentavam do abacateiro defronte à casa e dos frutos das árvores próximas.

No início de outubro, após a minha partida de Alto Paraíso, um incêndio de grandes proporções atingiu a região. O fogo se estendeu por mais de 10 dias, destruindo 67 mil hectares, 22 mil no interior do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o equivalente a 9% de sua área total. Segundo o Programa Queimadas, do Inpe, entre os dias 1 e 11 de outubro deste ano, foram registrados 9.884 focos de incêndio no Cerrado, incluindo a área da Chapada dos Veadeiros, sendo que em todo o mês de outubro de 2019 foram 8.356 focos.

No período em que lá estive, percebi que moradores de Alto Paraíso e arredores, pequenos comerciantes, donos de pequenas ou grandes propriedades que vivem do turismo ecológico e sustentável, turistas, todos têm consciência da necessidade da preservação do Cerrado. Todos também sabem que os incêndios que anualmente lá ocorrem são criminosos. Muitos se perguntam até quando o Cerrado resistirá ao descaso das autoridades e ao desprezo de fazendeiros que, em nome do agronegócio, avançam sobre o bioma, encurralando e condenando à morte milhares de espécies, além de colocarem em risco a sobrevivência de quem vive do turismo. 

Soja avança sobre o Cerrado, em torno do km 100 da GO 118, Set 2020. Cristiano Goldschmidt

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