Covid-19: Projeto Belchior Solidarius, rede de solidariedade e apoio a pessoas em vulnerabilidade social

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Foto: Bruno Blanco Arámburu / Divulgação

Iniciativa já distribuiu milhares de lanches, materiais de higiene e cinco toneladas de roupas

Neto de uma uruguaia, Bruno Blanco Arámburu, 37, nasceu em Uruguaiana, viveu 17 anos em Porto Alegre e, atualmente, reside em Caxias do Sul. Professor de matemática, escritor – tem nove livros publicados – e violonista fã de Belchior, Bruno criou, desde o início da pandemia da covid-19, o Belchior Solidarius, projeto que distribui alimentos, materiais de higiene e roupas aos moradores de rua e pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Coincidência ou não, parte da família de Bruno ainda vive em Artigas, cidade uruguaia vizinha à brasileira Quaraí, onde em 2012 Belchior viveu por um período. É também na poesia das músicas do artista, falecido em 2017, que Bruno busca inspiração para ajudar as pessoas. Em janeiro deste ano, quando estava no Rio de Janeiro e ouviu que no carnaval teria um bloco de rua chamado “Amar e mudar as coisas”, Bruno começou a pensar em uma forma de colocar esse desejo em prática. Como as desigualdades sociais ficaram ainda mais latentes com a crise do novo coronavírus, chegara a hora. E assim surgiu o Belchior Solidarius.

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Bruno entregando alimentos / Arquivo Pessoal / Divulgação

O envolvimento com ações sociais não é algo inédito na vida de Bruno, que já se engajou em diferentes iniciativas que requerem alguma dedicação solidária. Entre 2006 e 2009, trabalhou em um projeto dos Irmãos Maristas, onde atendiam 120 alunos carentes que recebiam aulas de pré-vestibular, lanche, vale-transporte e material de estudos durante todo o ano. “Um trabalho emocionante, com o qual tivemos um bom nível de aprovações nas Universidades Federais. E a minha relação com essas pessoas sempre foi de respeito, empatia e troca. Ali, havia a valorização plena nas relações com os alunos, desde a abordagem nas aulas, a entrega, o carinho e a atenção. Até hoje mantenho amizade com quem tenho contato daquela época”, conta.

Em 2013, Bruno também trabalhou como Educador Social no Centro de Promoção da Criança e do Adolescente (CPCA) da Lomba do Pinheiro, também em Porto Alegre: “Foi onde conheci muita gente boa da assistência social, convivi com franciscanos naquela instituição, e apesar de eu ser ateu, digo que sou franciscano a partir daquela experiência. Até música eu fiz pro São Chico de Assis”.

Além dessas experiências em instituições filantrópicas, até 2019 Bruno lecionava matemática em duas instituições privadas de ensino e, desde 2013, tem publicado um livro por ano. As edições são viabilizadas com o financiamento cultural de amigos, parentes e pessoas que de alguma maneira se identificam e apreciam o seu trabalho como escritor: “Fiz isso oito vezes de lá para cá. Recebo os valores que possibilitam a publicação dos livros. Vendo parte dos exemplares e os demais eu distribuo para alunos, amigos, parentes, patrocinadores e comunidade em geral”.

Desde o início de 2020, Bruno vinha pensando numa mudança radical de vida. Queria viver apenas da sua arte, escrevendo. Estava iniciando um ano sabático quando o próprio mundo, aos poucos, teve que desacelerar. Inclusive o Brasil, a partir de março.  Com a covid-19, tudo começou a parar, as pessoas tiveram que reaprender a ficar sozinhas em suas casas, repensar suas vidas e reorganizar suas rotinas e seu futuro: “Percebi a necessidade da sociedade repensar o que considera felicidade, geralmente entendida como o acúmulo de capital e de bens, o que é uma característica imposta pela burguesia e pelo modelo econômico vigente. A época é de economizar energias, alimentos. Época de sermos organizados e unidos – duas coisas que o Brasil não é: organizado e unido”, lamenta.

A partir do que aconteceu na China, em alguns países europeus e, mais recentemente, nos Estados Unidos, onde o número das vítimas do novo coronavírus chegou aos milhares, Bruno arregaçou as mangas e, com a ajuda de algumas pessoas, foi para a rua doar sanduíches para quem não tem casa. “A ordem da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos governos é para que as pessoas fiquem em casa, mas e quem não tem casa? quem não tem a dignidade do alimento?” questiona. Segundo ele, foi nesse momento que “bateu o sino” na consciência e sentiu que era a hora de “amar e mudar as coisas”.

Aos poucos, os dias foram passando, mais gente foi chegando e os vínculos foram se estabelecendo. Bruno sai todos os dias, por volta das 21h, para o carro, deixa tudo aberto e com a chave na ignição. Geralmente, estaciona em locais com 40 a 50 pessoas, onde distribui sanduíches e bolos e conversa com todas. Destas, 90% são homens. Segundo ele, alguns com alguma dependência química, outros cometeram delitos e já pagaram suas penas. E ainda outros que estão foragidos.

“Não nos cabe julgar. Temos um objetivo: alimentação é dignidade humana. Parei de ficar reclamando em rede social, e com a ajuda de outras pessoas fui para a rua transformar, alimentar e dar carinho. Hoje, somos uma rede de afeto. Os que ajudam e os que precisam de ajuda. Acabei me responsabilizando por alimentá-los todos os dias. Hoje (22/04) faz um mês da primeira saída, e aqui em Caxias do Sul, levo 100 sanduíches e bolos por dia, feitos com a contribuição e com a ajuda de muitas pessoas.”

Atualmente, a rede de amigos que forma o Projeto Belchior Solidarius já chegou a seis cidades brasileiras: Caxias do Sul, Uruguaiana, Porto Alegre, Curitiba, Aracaju e Goiânia. Desde o início, foram distribuídos em torno de cinco mil lanches nessas cidades, dezenas de itens de higiene e cinco toneladas de roupas. Segundo Bruno, em Caxias do Sul, são atendidos 100 moradores de rua por dia:

“Saímos todos os dias aqui em Caxias e em Uruguaiana. Em Porto Alegre, o grupo está fazendo isso duas vezes por semana, embora alguns voluntários também estejam agindo individualmente toda vez que saem à rua, levando alguns sanduíches para doar. As cidades que aderiram ao projeto mais recentemente, por enquanto, não estão conseguindo organizar suas saídas diárias. Em Curitiba, por exemplo, foram duas ações, em Aracaju, uma. E em Goiânia, estão organizando a primeira saída para a próxima sexta-feira”.

Questionado sobre como os grupos vêm se organizando nas diferentes cidades e como as pessoas contribuem para a continuidade das atividades, Bruno explica que há alguns doadores que apoiam o projeto desde o início, como é o caso do ator Matheus Nachtergaele, que o ajudou a idealizar o projeto e a quem define como patrono. “Além do Matheus, algumas pessoas entram em contato comigo através de nossa página no Instagram, e também do meu perfil pessoal do Facebook, onde ofereço dois dos meus livros, Tem seda? e Cabaré. O valor integral de toda a renda arrecadada com a venda dos exemplares é repassado para o projeto. E enviamos os livros para todo o Brasil.”

Segundo Bruno, essas contribuições, mais as vendas dos livros, possibilitaram que os o lanches estejam garantidos para os próximos dez dias, período em que atenderão os catadores da Vila do Cemitério e os dependentes químicos da subida da Borges, em Caxias do Sul. Nas outras cidades, a mobilização dos organizadores e dos doadores tem permitido o preparo de marmitas com feijoada, além de cachorro-quente e hambúrgueres. “A adesão só cresce. Nós seguimos cada vez mais fortes, e neste primeiro mês atravessamos o Brasil de Uruguaiana a Aracaju. Quem diria que iríamos aproximar esses 4.000 km? E isso tudo ao som de Gal Costa e George Harrisson, ao canto de Belchior e aos cuidados de Matheus Nachtergaele, nosso patrono. Seguimos nos amando e mudando as coisas pra melhor”, finaliza.

Os interessados em contribuir podem acessar o Instagram do Belchior Solidarius ou, ainda, entrar em contato por telefone no número (54) 99125-8322 para mais informações. Bruno orienta e direciona que as doações sejam feitas para os coordenadores das respectivas cidades. Além disso, quem quiser apoiar com a aquisição dos dois livros, o custo é de 100 reais, com as taxas dos Correios já inclusas para todo o Brasil.

catadores

Arquivo Pessoal / Divulgação

sanduíches

Arquivo Pessoal / Divulgação

alimentos

Arquivo Pessoal / Divulgação

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