Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 11. Roger Bundt: Cascais, Portugal

Roger Bundt 2

Roger Bundt / Arquivo Pessoal / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos onze brasileiros ouvidos até o momento, oito buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na Holanda, um mora na Finlândia, um na Noruega, um mora na França, um em Israel e outro em Portugal. Dos demais, três estavam de férias no exterior: um na Espanha, um em Israel e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros que estavam de férias tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os que residem no exterior relatam suas rotinas e a forma como os governos vêm enfrentando a pandemia, além de falarem sobre o impacto da mesma no dia a dia da população. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Quinta-feira, 16 de abril: Dia 11. Roger Bundt: Cascais, Portugal

Portugal mantém sob controle o avanço do coronavírus, com números bem abaixo de muitos países europeus

Após uma reconhecida e ainda promissora carreira acadêmica em Instituições de Ensino Superior, em Porto Alegre, RS, onde lecionava como professor nos cursos de Publicidade, Roger Bundt, 48, decidiu emigrar para Portugal em 2017, passando a viver em Cascais, onde atua como Sommelier. Ao falar sobre como têm lidado com a pandemia do coronavírus, ele afirma que o período está sendo enfrentado com um misto de tranquilidade e medo.

Como muitos portugueses, o brasileiro, que há poucos dias optou por exonerar-se do trabalho, até então mantinha uma rotina profissional diária, “até porque eu trabalhava numa loja de produtos gourmet que acaba servindo também como supermercado na região em que atua, oferecendo produtos bem específicos, como carnes, pães, groceries, mercearia, arroz e produtos de limpeza. O local permanece aberto, e os funcionários trabalhando, com o horário alterado para se adaptar ao estado de emergência”.

Sobre as medidas de segurança adotadas, Roger diz que todos trabalham com máscaras e luvas, e que o acesso dos clientes à loja foi limitado ao mínimo possível. Como a loja em que trabalhava é pequena, a nova situação imposta pelo coronavírus fez com que focassem mais nas encomendas do que no atendimento presencial. O curioso, segundo ele, é que desde que começou o confinamento, a opção pelas encomendas desencadeou um aumento das vendas e do faturamento: “Em alguns dias chegou a ser dez vezes maior, depois foi normalizando, mas continua muito forte”.

Ao falar da sua percepção do comportamento da população local e sobre a gravidade do coronavírus, Roger lembra que Portugal é um país com um alto índice de idosos, que a grande maioria está assustada e que desapareceu dos locais públicos e dos estabelecimentos comerciais. Em dias normais, anteriores às regras do confinamento, os idosos eram a maioria nos passeios diários, e muitos gostavam de ir à loja fazer suas compras, escolher seus produtos.

“Na loja em que eu trabalhava tem produtos muito específicos, premiumgourmet, e as pessoas continuam querendo esses produtos, seus chocolates de Jacarta, seu caviar beluga. A diferença é que agora as pessoas não estão podendo ir pessoalmente, estão ficando em casa. E mesmo entre os que se deslocam até a loja, eu percebia uma mudança muito grande no comportamento das compras. Antes, as pessoas iam à loja e ficavam olhando, escolhendo. Agora, elas fazem as compras o mais depressa possível. E ninguém está pagando com dinheiro. Nosso movimento sempre foi maior com o cartão, mas depois, com a covid-19, em torno de 95% das operações passaram a ser feitas no cartão e até com transferência bancária. As pessoas não querem nem tocar na máquina do cartão, chega a ser engraçado. E tá certo, né? Na real, é o certo”.

Como usava o transporte coletivo para se deslocar diariamente, pegando o trem – chamado de comboio em Portugal – para ir e voltar do trabalho, Roger afirma ter adotado todos os cuidados possíveis para evitar o contágio. O que ele percebe, é que nas ruas, nos transportes e nos estabelecimentos comerciais em funcionamento, as pessoas procuram ficar mais afastadas umas das outras, e qualquer proximidade, voluntária ou involuntária, gera as mais diversas reações: “Quando você passa pelas pessoas elas te olham de cara feia, é compreensível, mas ao mesmo tempo muito engraçado”.

Questionado sobre como enxerga a situação em Portugal, ele afirma que diante de tudo o que está acontecendo, as coisas estão tranquilas em comparação a outros países: “Hoje, 16 de abril, Portugal tem 18.841 casos confirmados. Destes, 493 já se recuperaram e 629 vieram a óbito, além de 154.727 suspeitos. Números baixos se comparados a outros países europeus, e até mesmo aos números dos Estados Unidos”. Ele lembra ainda que a lei do isolamento social vai até esta sexta-feira, dia 17 de abril, quando, à noite, o governo português fará um novo pronunciamento à população, oportunidade em que falará sobre a continuidade das medidas: “Creio que irão manter a quarentena por mais quinze dias, como aconteceu na Alemanha, por exemplo. E pelos números, podemos ver que a situação está bem controlada em Portugal, com um número baixo de mortes, bem abaixo de mil”.

Muitos portugueses moram na Itália, inclusive alguns amigos de Roger, o que acabou aproximando-os dos trágicos acontecimentos ligados ao coronavírus na Itália. Aquilo que inicialmente estava muito distante, depois se tornou motivo de preocupação, porque os portugueses sabiam que era uma questão de tempo para a covid-19 chegar em terras portuguesas: “Todo mundo lá me avisava: te liga, que vai acontecer com vocês. Então, eu já estava bem informado a respeito do vírus e da doença. Tenho uma amiga lá que já foi contaminada. Os sogros de outra amiga morreram”.

Roger afirma que os bons números de Portugal, se comparados a outros países, devem-se ao fato de que desde o início o governo português agiu com seriedade, mas também com tranquilidade, ao adotar as medidas necessárias ao combate ao coronavírus. Tranquilidade que ele considera uma característica de Portugal. Ele lembra que as medidas adotadas pelo governo foram implementadas em meados de março, mais precisamente na virada da primeira para a segunda quinzena. Segundo o brasileiro, na primeira semana, se percebia que as pessoas não estavam levando a sério, com os transportes seguindo seus fluxos de operação, com muita gente nas ruas.

A rua em que Roger trabalhava é cheia de barzinhos e hotéis, em frente à praia. Ele comenta que, inicialmente, percebia-se que o movimento havia baixado, mas as pessoas ainda estavam lá. A mudança só aconteceu a partir da segunda e da terceira semana, quando os casos confirmados em Portugal passaram de mil, e as mortes, também aumentaram, “foi aí que os portugueses entenderam a necessidade do confinamento”. Hoje, passado um mês do início do decreto da quarentena, as ruas estão bem vazias, não importa a hora do dia. “Volta e meia vamos dar uma caminhada na beira da praia, e para chegarmos à praia normalmente temos que usar os acessos subterrâneos, porque tem uma avenida que é muito movimentada. Agora, a gente atravessa essa avenida de boa, em qualquer hora do dia. E todos os acessos aos bancos para sentar na beira da praia foram bloqueados”.

Roger salienta que desde que a quarentena foi decretada, praticamente tudo fechou no país.  Ele lembra que inicialmente estava indo de carro para o trabalho, e que voltou a usar o transporte público porque a polícia também estava parando os automóveis e perguntando seus destinos, os motivos dos deslocamentos. “As pessoas aqui respeitam o governo. Eu me sinto tranquilo. Tenho medo, óbvio, mas tinha mais ainda antes, porque eu estava exposto por causa do meu trabalho, onde mesmo com o movimento reduzido, estava em contato com diferentes pessoas diariamente”.

A fiscalização policial nas ruas se tornou uma constante, com abordagens e interpelações que visam controlar o deslocamento das pessoas. “Eu moro perto do meu antigo trabalho. Pegava um comboio e em três estações chegava lá. Em um dos meus últimos dias de trabalho eu fui abordado pela polícia e os gajos me perguntaram o que eu estava a fazer na rua. Aí eu disse: eu trabalho aqui perto e estou indo em casa almoçar. Há um quiosque, na saída da estação do comboio, esse quiosque estava aberto e eu vi os policiais mandando o gajo fechar. Porque ali se reuniam pessoas para tomar um café e conversar. Eles mandaram fechar e prontamente foram atendidos”.

Perguntado sobre como Portugal encara a questão dos problemas econômicos causados pelo coronavírus, uma bandeira muito defendida pelo presidente brasileiro, Roger afirma categoricamente que a regra número um do governo português é cuidar das pessoas. “Aqui, o discurso é outro: Vamos cuidar das pessoas, depois vamos cuidar da economia. E isso me dá um orgulho, sabe? Não está sendo debatida a questão econômica como foco principal. Sabe-se que vai haver uma recessão, mas não estão preocupados se vai afetar agora, porque agora a preocupação é a vida das pessoas, a economia se resolve num segundo momento. É muito diferente de ver o Trump e esse imbecil aí do Brasil falando. Ambos só falam na economia, deixando em segundo ou terceiro plano a vida das pessoas. Aqui a proposta é o coletivo. Numa situação dessas, ficar pensando se a economia vai parar me parece uma falta de senso de humanidade. A economia não existe sem pessoas, e ela precisa das pessoas vivas. A economia a gente recupera depois. Vidas perdidas não tem como recuperar”.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Terça-feira, 31 de março: Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

Quarta-feira, 01 de abril: Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

Sexta-feira, 03 de abril: Dia 8. Carolina Pamplona: Holanda

Segunda-feira, 06 de abril: Dia 9. Pedro Velho: França

Sábado, 11 de abril: Dia 10. Daniel Kwintner: Israel

Roger Bundt

Roger Bundt / Arquivo Pessoal / Divulgação

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s