Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 9. Pedro Velho: França

Pedro Velho

Pedro Antônio Velho com a esposa Lívia Zanchet e o filho Francisco / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos nove brasileiros ouvidos até o momento, seis buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na Holanda, um mora na Finlândia, um na Noruega e outro na França. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Segunda-feira, 06 de abril: Dia 9. Pedro Velho: França

Na França, respeito aos pesquisadores, às universidades e à Organização Mundial da Saúde

Doutor em Informática pela Université de Grenoble, na França, e Pós-doutor em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Pedro Antônio Madeira de Campos Velho, 39, vive e trabalha em Antibes, no sul da França, para onde se mudou em 2015 com a esposa, a psicóloga Lívia Zanchet, 35. O filho Francisco, que completa 3 anos agora em maio, nasceu na cidade francesa. Ao falar sobre a rotina da família no país antes da pandemia da covid-19, ele diz que, por morarem em um apartamento próximo ao mar, gostavam muito de passear na praia, além de estarem acostumados a fazer de tudo, arrumar e faxinar a casa, cozinhar e cuidar do filho.

“Desde o dia 13 de março, a nossa rotina mudou. Foi quando busquei meu filho na creche, talvez o último dia de creche da vida dele. Apesar de eu ser lead software engineer em home office em tempo integral e já estar acostumado a trabalhar em casa, a creche fechou e tenho que cuidar do nosso filho ao mesmo tempo em que eu trabalho. Isso está acontecendo duas vezes por semana, pois minha esposa, que é psicóloga em uma clínica geriátrica, está trabalhando. No trabalho dela, estão se preparando para o pior, pois em clínicas geriátricas se tem notícias de 1/3 dos moradores falecendo de covid-19”.

Segundo Pedro, com a pandemia do coronavírus, o governo francês decretou o confinamento obrigatório, com uma lei federal que determina a todos permanecerem em casa. Pode-se sair apenas em algumas situações, para fazer exercícios ou para comprar produtos essenciais, e por no máximo uma hora por dia. Cada cidadão ou residente no país, caso esteja na rua, deve carregar um atestado consigo, e tanto o exército quanto a polícia podem a qualquer momento pedir este documento e multar o cidadão que não esteja de sua posse e obedecendo a lei.

Pedro diz que acompanha a evolução da pandemia pelo site oficial do governo francês, além de buscar informações diárias com pesquisadores das universidades e com a Organização Mundial da Saúde: “Diariamente eu tenho um update de quantas pessoas faleceram nas últimas 24 horas, e são centenas a cada dia. Tem alguns dashboards que eu acompanho, e já percebi que a curva de casos acumulados da Itália está bem estabilizada, mas aqui na França ainda não. Esses dashboards, um é de uma universidade, e o outro é da própria Organização Mundial da Saúde, a World Health Organization”.

A imprensa francesa noticia todos os dias que o sistema de saúde já está sobrecarregado. Segundo o brasileiro, atualmente há um TGV (um trem-bala) que sai diariamente de Paris levando, em média, 30 pacientes a cada viagem a um hospital de outras cidades que ainda não estejam saturados. Para ele, além da crise do coronavírus, o que amplifica o problema é o fato de todo mundo estar adoecendo ao mesmo tempo, com pessoas precisando de tratamento para outras questões. Ele afirma que a situação francesa é séria. Na sua percepção, para cada onda de infecção, uma parte da população será imunizada, mas outra sofrerá bastante, como já está acontecendo. Na opinião do brasileiro, há que se considerar que a sobrecarga do sistema de saúde não afeta só quem é acometido pela covid-19. Dentre os exemplos, ele cita as vítimas de acidentes de carro, que também precisam de tratamento e não têm acesso a eles.

“Por exemplo, tem uma pessoa que tem um parto previsto, uma que precisa de uma cirurgia, outra de hemodiálise. O sistema de saúde está à beira de um colapso, e é um país que tem dinheiro, que sempre investiu e que está investindo nisso. Está transformando trem-bala em hospital móvel. Mas o pessoal aqui também já está tendo que improvisar”, comenta.

Numa análise mais abrangente, Pedro diz estarmos vivendo um momento difícil da história da humanidade, e que tem procurado refletir sobre a crise contemporânea anterior à pandemia covid-19. O brasileiro via muita tensão nesse começo de século, com a possibilidade eminente de uma grande guerra, com o estremecimento das relações entre os Estados Unidos, Rússia, e outras nações. “E no mundo todo cresce a polarização entre as pessoas, com o aumento do autoritarismo e de ideias violentas que vão contra o que os Direitos Humanos e os pensamentos religiosos de base defendem que é termos mais tolerância, empatia e solidariedade no mundo”, pondera.

Com os olhos voltados para o Brasil, Pedro enxerga como positivo o fato de que os estados tenham autonomia na adoção de medidas de prevenção e de proteção da população. Para ele, os governadores podem exigir o confinamento, mesmo que o presidente da república já tenha se manifestado contrariamente em várias oportunidades. Ele afirma que a exemplo de outros países, na ausência de uma vacina para a covid-19, o isolamento social é a prática mais eficaz para minimizar seus danos.

“Eu tenho a percepção de que esse inimigo externo, que não é humano, ele está ajudando muitas pessoas a se unirem e a perceberem que algumas pessoas são burras demais para estar no comando de algumas nações, por assumirem publicamente certas posturas e formas de pensar. Temos que entender que a economia só existe porque existem pessoas, pessoas que trabalham, produzem e compram produtos. Se as pessoas morrerem, não tem como segurar qualquer economia. Por isso, a prioridade deve ser a preservação da vida das pessoas”.

Ao lembrar que o primeiro caso de covid-19 foi confirmado entre o final de janeiro e início de fevereiro, Pedro pensa que as medidas de prevenção foram adotadas um pouco tarde pelo governo francês. Ele também lembra que a Itália teve uma explosão exponencial do contágio do vírus. “Na Itália, por exemplo, os jogos ainda não tinham parado mesmo com casos confirmados. Teve jogo de Milan e Lyon. A minha família estava me visitando e eles foram para Roma depois que se soube dos primeiros casos, justamente no Vaticano. Eles foram para o Vaticano, para a audiência do Papa. Eu até perguntei: mas vocês vão para o Vaticano? Claro, era muito cedo ainda, ninguém estava levando isso muito a sério. Acho que nem eu estava levando a sério. Eu perguntei, mas depois achei que não tinha nada a ver”.

A crise têm proporcionado momentos de reflexão para o brasileiro, que acredita no poder de uma ciência que deve priorizar a busca de soluções para os problemas da humanidade. Outro ponto positivo apontado por ele está relacionado com o meio ambiente, que se beneficia com a desaceleração das pessoas e com a diminuição no consumo dos combustíveis fósseis. Para ele, a pandemia está mudando a vida das pessoas, a ponto de muitas estarem mais solidárias e unidas, além de estarem entendendo a importância da ciência para a construção e produção de conhecimento. E que ela ajuda nas tomadas de decisões que beneficiam as coletividades.

Ao falar sobre a experiência do isolamento, Pedro conta que como trabalha desenvolvendo programas de computadores, de certa forma está habituado a trabalhar sozinho, com muitas horas do dia sentado em frente ao computador. A profissão exige uma dose de solidão e um tanto de concentração. Está acostumado e até gosta de ficar em casa. Mas sempre pensou nessa possibilidade de trabalhar desde o apartamento também como uma possibilidade de ir a pé até a praia sempre que fosse necessário arejar a cabeça. E essa impossibilidade atual está pesando bastante. Pedro não tem dúvidas de que quem sofre mais é o filho, que gostaria de poder brincar com outras crianças e que pergunta pela creche: “Seguidamente ele quer brincar de aniversário, cantar ‘Parabéns pra você’, porque eu acho que ele se lembra dos momentos na creche, que eram legais, tinha um pouco mais de brincadeira, aquele clima de festa”, lamenta.

Embora tenham direito a sair uma hora por dia, Pedro afirma que praticamente não têm saído de casa, primeiro por precaução, segundo porque a recomendação é de que as pessoas não saiam sem necessidade. “A última vez que a gente saiu foi no sábado, e hoje eu prometi para o Francisco que vou mostrar para ele uns esquilos que tem na pracinha, porque eu acho que tem um extremo, e eu cheguei ao limite, com uma criança de quase três anos – agora em maio vai fazer aniversário – presa o tempo todo em casa. Para o aniversário, a gente gostaria de fazer um piquenique do lado de fora, mas talvez a gente tenha que fazer no apartamento mesmo”.

Ainda sobre a rotina, Pedro diz que acordam cedo e fazem yoga. Depois, claro, tem as atividades profissionais e a atenção com o filho. Ele e a esposa estão tentando reduzir ao máximo os desenhos animados da televisão que ele assiste, mas confessa que ainda é difícil. “Acho que das quatro semanas que nós estamos confinados, só conseguimos por cinco dias não colocar ele na frente de um desenho, e estamos cuidando para que não passe de uma hora por dia. Nós inventamos brincadeiras, teatrinho, temos brinquedos, jogos”.

Assim, o dia a dia tem sido com altos e baixos, e os momentos mais pesados se dão quando começa a ver as notícias e o impacto disso tudo na vida das pessoas em diferentes países. Mas, principalmente, quando pensa na família que está no Brasil e que “sofre diariamente com a desinformação vinda diretamente do presidente da República”. Pedro não consegue acreditar que o líder de uma nação queira o mal da população em prol da sua reeleição: “Realmente eu acho um desperdício que esse ser humano tenha uma voz que seja escutada, embora também acredite que cada vez mais por uma minoria. Pelo que percebo das atitudes do presidente, se as pessoas vierem a contrair o vírus e precisarem de um respirador, elas não vão ter acesso a isso, elas vão morrer esperando esse serviço. E claro que os mais pobres sofrerão mais. Torço para que poucas pessoas tenham que sofrer com esta saturação do sistema de saúde, que vai acontecer. Disso, não se tem dúvidas. A questão é se vai acontecer na pior situação possível, tudo ao mesmo tempo, ou se vai acontecer devagar, com as pessoas tendo tempo para se preparar e principalmente para o governo investir na estrutura necessária para minimizar ou evitar esse sofrimento”.

Como a sede da empresa para a qual trabalha fica em Lyon, Pedro sente falta das viagens mensais que fazia a trabalho, rotina que espera poder retomar em um futuro próximo. E ao pensar nesse futuro, também espera poder voltar a rever os amigos e familiares, levar o filho para brincar no parque, viajar e fazer caminhadas na montanha. “Estou sentindo muita falta disso”, finaliza.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Terça-feira, 31 de março: Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

Quarta-feira, 01 de abril: Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

Sexta-feira, 03 de abril: Dia 8. Carolina Pamplona: Holanda

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