Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 8. Carolina Pamplona: Holanda

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Carolina Pamplona / Arquivo Pessoal / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na Holanda, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Sexta-feira, 03 de abril: Dia 8. Carolina Pamplona: Holanda

Holanda: Governo chama os jovens a contribuírem para barrar o avanço do coronavírus

A biomédica brasiliense Carolina Campos Pamplona, 25, está em Amsterdã desde agosto de 2018, onde faz mestrado em pesquisa cardiovascular na Vrije Universiteit, a Universidade Livre de Amsterdã. Hospedada na casa de uma idosa, a pandemia do coronavírus aumentou a preocupação da estudante, o que a fez redobrar os cuidados com a higiene e com a saúde. Se antes passava a maior parte do tempo fora, porque estava envolvida com seu estágio, agora passa os dias dentro de casa, trancada em seu quarto, sem saber quando poderá retomar suas atividades. Com a formatura prevista para o meio do ano, qualquer mudança nas datas inicialmente previstas poderá comprometer o término do seu mestrado no prazo regulamentar.

“Eu passo quase o tempo todo dentro de casa, no meu quarto, evitando ao máximo o contato com a senhora com quem eu moro. A gente está em um isolamento social sério, porque tudo fechou desde o dia 15 de março, inclusive foi o dia que eu voltei do Brasil, porque eu passei três semanas aí”, conta.

Segundo Carolina, a recomendação do isolamento social inicialmente estava prevista para até o dia 6 de abril, mas como parte da população não respeitou essa orientação, nos últimos dias o governo estendeu o prazo para o dia 28 de abril. Assim como a sua universidade está ministrando as aulas à distância, restaurantes e demais estabelecimentos comerciais deverão permanecer fechados até esta data. “As aulas que podem estão sendo ministradas à distância pelos professores, à exceção das atividades práticas, que ainda estão sendo avaliadas pelo corpo docente juntamente com a direção da instituição. Eles buscam uma solução para como poderão ser realizadas, analisando as especificidades de cada curso. Já o estágio, no momento foi interrompido”.

Sobre a evolução dos casos na Holanda, Carolina conta que quando retornou ao país, no dia 15 de março, havia entre 1000 e 2000 casos confirmados. Já neste dia 03 de abril, pouco mais de duas semanas após o seu retorno do Brasil, o país contabiliza 15.723 casos confirmados, com 1.182 em estado sério ou crítico, 1.487 mortes e 250 pacientes recuperados. Como só o grupo de risco estava sendo testado, ela acredita que o número de contaminados deve ser maior, aumentando também a probabilidade de ser maior o número de pessoas assintomáticas. “Apesar de o isolamento não estar contendo o avanço da doença tanto quanto o esperado, com certeza ele ajuda de alguma forma, e acredito que haveria muito mais casos se não fosse o isolamento. Mas, querendo ou não, o número de infectados está crescendo. E, se não me engano, em torno de 300 médicos já foram acometidos pelo coronavírus”.

Questionada sobre o sistema de saúde local, Carol diz que na Holanda existem os médicos da família, que são os médicos de bairros, e que normalmente quando o cidadão precisa, vai até ele: “Você procura o médico e diz o que tem, o que está sentindo, aí você debate com ele sobre os seus sintomas. Ele te analisa, e se achar necessário, te encaminha para um especialista ou te manda para o hospital. Normalmente, se você não está tendo um sangramento externo ou algo que aparentemente não seja grave, você não vai direto para o hospital, tudo tem que passar pelo médico da família, e se ele achar necessário, você é encaminhado adiante e o tratamento segue”.

A biomédica conta que a crise na Holanda começou muito antes de retornar para Amsterdã. Segundo ela, quando a população soube que o país podia fechar e entrar em isolamento, houve um princípio de pânico, o que levou a uma corrida aos supermercados em busca de comida e demais mantimentos para serem estocados. Depois, passado o período inicial do isolamento, os mercados começaram a repor as prateleiras: “Fui ao mercado hoje, algumas poucas coisas faltam, mas não tudo, inclusive o papel higiênico que foi um item bastante procurado já está sendo reposto”, conta.

Segundo Carolina, desde o último pronunciamento do governo, quando mudou a data do isolamento, estendendo-o para o dia 28 de abril, as regras e a fiscalização também se intensificaram. Embora desde o início a recomendação fosse para que as pessoas mantivessem a distância de um metro e meio umas das outras, boa parcela não estava respeitando, o que levou o governo a estabelecer uma multa. Atualmente, no máximo três pessoas podem andar juntas na rua, e só em caso de necessidade. Se não estiverem mantendo a distância regular estipulada, ou com mais pessoas no grupo, a multa é de 400 euros por pessoa do grupo. A mesma regra vale para grupos de pessoas dentro dos estabelecimentos comerciais, que estão sendo penalizados com uma multa de 4000 euros.

“Se o estabelecimento não pode oferecer para o cliente essa possibilidade de ter a distância de um metro e meio, o governo fecha o negócio e aplica a multa. É um problema bem grande. Então, no mercado, quando eu fui hoje, eles colocaram uma grade para uma fila do lado de fora, e só deixam entrar uma quantidade X de pessoas por vez. Também tem linhas no chão marcando um metro e meio de distância. Cada um que entra tem que passar álcool gel na mão, e um funcionário do mercado te dá um carrinho, porque ele te ajuda a manter essa distância. Você faz suas compras e paga normalmente no final. Mas o cliente não tem mais contato com a pessoa que passa suas compras. Você devolve o carrinho, eles o limpam inteiro com álcool gel e botam de novo na fila. E não aceitam mais dinheiro em lugar nenhum.”

Como têm permanecido a maior parte do tempo em casa, depois de duas semanas praticamente sem sair do quarto, acompanhando as notícias pela internet e pelos noticiários, recentemente Carolina achou que era hora de sair um pouco: “Aqui você ainda pode sair, se for necessário, mas eles pedem que as pessoas evitem. Fui para o parque e tinha mais gente do que eu esperava, mas todo mundo respeitando a distância, e as pessoas só estavam acompanhadas de quem mora junto”.

Segundo ela, os jovens que não respeitam o isolamento social e as regras foram um dos assuntos abordados pelo primeiro-ministro no pronunciamento do início da semana. “Ele chamou esses jovens que estão desrespeitando as regras de “associais”, que em português não é uma palavra muito forte, mas em holandês é. Ele deu uma chamada de atenção bem pesada na população em geral, mas especialmente nos jovens, porque eles são os que mais transmitem o vírus”. Outra medida do governo da Holanda foi dar liberdade, outorgando autoridade para os dirigentes das cidades restringirem o que acharem necessário, como fechar o acesso aos parques durante o período da quarentena.

“Hoje, eu acho que a situação está um pouco mais tranquila. Como te disse, fui ao mercado, as prateleiras estavam abastecidas. Eu não estou mais vendo as pessoas surtarem, e de certa forma acho que isso pode vir a ser um problema, porque quando deixam de se preocupar e se acostumam com a situação, as pessoas voltam a ficar desleixadas. Mas, até onde pude observar, estão respeitando”.

Carol, como é chamada pelos amigos e familiares, caracteriza a atual situação como esquisita, diz ter percebido que às vezes deixava de sair por pura preguiça, perdendo momentos de prazer, muitos deles memoráveis. Com a experiência do confinamento deu-se conta que ir para o trabalho não é algo tão ruim assim, que ela não é uma home officer, e que aprendeu a curtir mais sua própria companhia, votando também a se conectar mais com as pessoas do Brasil. Afirma que têm tido muito tempo para refletir e pensar no que quer para o seu futuro e quais passos precisam ser dados para atingir a sua meta. “Quando tudo isso acabar, vou voltar mais motivada para trabalhar e curtir cada momento com o dobro de gratidão por ter saúde, uma família e amigos que me dão suporte nessa jornada longe de casa. Sem falar em curtir cada segundo fora de casa como se fosse o último”, finaliza.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Terça-feira, 31 de março: Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

Quarta-feira, 01 de abril: Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

 

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