Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

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Gustavo Majewski / Arquivo pessoal / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Quarta-feira, 01 de abril: Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

Noruega, onde os cidadãos têm direito aos melhores tratamentos de forma gratuita

Gaúcho de Porto Alegre, Gustavo Majewski, 31, vive há 13 anos na Europa. Bacharel em Arquitetura pela Universitat Internacional de Catalunya (UIC), na Espanha, e atualmente cursando o mestrado em Arquitetura em Bergen, na Noruega, ele se diz preocupado com o que pode acontecer no Brasil caso medidas eficazes não sejam tomadas pelo governo brasileiro para conter o avanço do coronavírus. Para ele, a seriedade com que a pandemia é tratada por países como a Noruega, que tem um dos melhores sistemas de saúde do planeta, deveria servir de exemplo para nortear as políticas públicas de países como o Brasil.

Gustavo conta que, desde o dia 12 de março, a população norueguesa está em isolamento social. Saídas, somente para caminhar ao ar livre em locais sem aglomeração ou para ir ao supermercado, sempre mantendo uma distância de dois metros uns dos outros. Segundo o brasileiro, as pessoas que podem estão trabalhando em casa, e somente os que exercem profissões na área da saúde, como médicos, enfermeiros e socorristas estão em seus locais de trabalho.

Para ele, as medidas de isolamento adotadas pelo governo contribuem para preservar o sistema de saúde, para que este não entre em colapso, já que nenhum país está preparado para receber tantos infectados em tão pouco tempo. O arquiteto lembra que a Noruega tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo, baseado no modelo nórdico, onde todos os cidadãos têm direito aos melhores tratamentos de forma gratuita: “Isso se deve graças ao sistema social democrata vigente no país, com um sistema progressivo de impostos, onde os mais ricos pagam mais, o que garante um estado de bem-estar social próspero aos seus cidadãos”.

Diferentemente do Brasil, Gustavo aponta o fato de o Estado norueguês ter a grande maioria das ações no setor industrial do país, principalmente no de petróleo. Segundo ele, a forte presença do Estado neste setor faz com que o governo pegue para si a responsabilidade de garantir o bem-estar da população, que atualmente está em cerca de cinco milhões de habitantes.

“Percebo também que aqui o que é recomendado pelas autoridades governamentais é levado a sério pela população. Considerando os 47 países que já visitei nestes 13 anos que vivo na Europa, acredito que a Noruega seja um dos mais justos com os seus cidadãos. Saber que tenho a oportunidade de passar esse momento tão crítico da história da humanidade num dos países mais desenvolvidos do mundo me deixa de alguma forma mais tranquilo. Estou acompanhando a situação na Espanha e também na Itália, onde tenho muitos amigos próximos, e o que percebo é que a falta de informação e a crença em teorias da conspiração, entre outras coisas, fizeram com que as medidas de confinamento fossem adotadas tardiamente, o que está levando agora a um elevado número de mortes diárias”.

No dia a dia, ele observa os cuidados redobrados com a higiene em todos os locais públicos, principalmente nos supermercados, onde há álcool gel e luvas disponíveis para os clientes, além de não permitirem o acúmulo de pessoas dentro dos estabelecimentos, com a recomendação de todos manterem-se a dois metros de distância uns dos outros. “Lembro-me que quando o governo anunciou o confinamento, alguns produtos já estavam faltando nos supermercados, mas isso foi algo daquele momento inicial da quarentena, porque nos dias de hoje eu noto tudo dentro da normalidade”.

Para o brasileiro, a situação que estamos vivendo em nível mundial é gravíssima, “e qualquer governo que negue a gravidade dessa pandemia é irresponsável”, comenta.  Segundo ele, as autoridades precisam entender que neste momento todos são responsáveis pela saúde da coletividade, “e o isolamento social por um período que ainda não sabemos ao certo qual será é a única maneira de nos protegermos”. O arquiteto afirma que em um país como o Brasil, onde o atual presidente não dá garantias de segurança e de saúde à população, vivem-se várias crises ao mesmo tempo.

“Tenho acompanhado por meio da televisão norueguesa os acontecimentos no Brasil. Confesso que me entristecem profundamente e que me causam grande ansiedade, já que minha família e amigos queridos seguem vivendo lá. Os pronunciamentos do presidente do Brasil são muito comentados e criticados pela imprensa norueguesa. Os meios de comunicação daqui consideraram desafortunadas as declarações de Jair Bolsonaro, que deixou claro para a população brasileira que a crise do coronavírus é uma trapaça inventada pela mídia. Repercutiu também a notícia de que seu governo está contra as medidas tomadas por governadores e prefeitos para prevenir os contágios, já que ele classifica a pandemia como um simples resfriado. A televisão norueguesa mostrou extrema preocupação pelas regiões mais pobres do Brasil”.

Segundo o brasileiro, as medidas tomadas pelo governo da Noruega, como a disponibilização de testes para detectar o covid-19, além do compromisso da população em cumprir as orientações das autoridades, têm surtido efeito. Prova disso é que o número de infectados não tem aumentado de forma exponencial como aconteceu em outros países, o que também ajuda a não saturar os hospitais do país.

Questionado sobre as medidas adotadas pelas escolas e universidades frente à pandemia do coronavírus, Gustavo explica que a exemplo da Bergen School of Architecture (BAS), onde realiza o seu mestrado, as demais instituições de ensino Norueguesas já informaram que as atividades acadêmicas do semestre em curso se darão através de plataformas virtuais, com algumas exceções para estudantes de arquitetura, artes etc. O correio eletrônico enviado aos alunos pela BAS informa inclusive que a atual situação poderá se estender até finais de junho, e que os alunos devem se preparar para um possível exame final online, o que seria algo totalmente novo.

“Entre os dias 16 e 23 de março eu tinha uma viagem de estudos à Copenhaga, na Dinamarca, e à Estocolmo, na Suécia. No dia 12, me chamaram à Universidade e me aconselharam a não fazer a viagem. Já havia uma preocupação por causa do aumento no número de infectados na Noruega e na Dinamarca. Nesta mesma tarde, o governo fez uma declaração a respeito das medidas que estavam sendo tomadas, dentre elas, o fechamento por tempo indeterminado de todas as instituições de educação públicas ou privadas, todos os espaços de esportes, cinemas e teatros. Então, decidi cancelar a viagem e, naquela mesma tarde, recebemos um correio eletrônico da universidade solicitando que deveríamos preparar todo material que tínhamos no estúdio para trabalharmos em casa”.

No dia 13 de março, dia seguinte à sua decisão de não mais viajar, Gustavo recebeu um correio eletrônico da companhia aérea Norwegian comunicando que seu voo até a Dinamarca havia sido cancelado, pois o país havia restringido o aceso a qualquer pessoa que não fosse cidadão ou residente. No dia 14 de março, foi a vez de o governo norueguês comunicar que, a partir do dia 16, os aeroportos passariam a funcionar de forma a restringir o acesso ao país, sendo permitida a entrada somente de cidadãos ou residentes.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Segunda-feira, 30 de março: Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

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Gustavo Majewski / Arquivo Pessoal / Divulgação

Um comentário sobre “Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 7. Gustavo Majewski: Noruega

  1. Cumprimentos pela brilhante explanação, Gustavo! É disso que nós, aqui no Brasil precisamos: pessoas que nos façam ver e levar a sério a realidade atual em toda sua gravidade. Infelizmente, aqui, quem deveria conduzir o país está colocando disputas políticas acima do interesse da população. Parabéns pelo discernimento! Grande abraço! Luizinho

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