Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

Gilson em Berlim

Gilson Scolari / Acervo Pessoal

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Segunda-feira, 30 de março: Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

Em meio à pandemia de coronavírus, dias de aflição e incertezas entre a Alemanha e Portugal

Psicólogo de formação, técnico de enfermagem há 17 anos, os últimos 14 exercidos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, RS, Gilson Scolari, 40, embarcou para a Alemanha no dia 11 de março. Com a viagem, se contabilizaria a marca de dezesseis países visitados pelo gaúcho. O roteiro inicial incluía outros destinos, alguns já visitados por ele em outras oportunidades. Na Alemanha, conheceria as cidades de Munique, Berlim, Hamburgo, Brenner, Colônia e Frankfurt. De Frankfurt, iria para Luxemburgo, e de lá para Bruxelas, na Bélgica, de onde seguiria para Paris e depois para Milão, de onde retornaria para o Brasil.

Antes de sair do Brasil, as condições em Milão, na Lombardia, já estavam complicadas por causa do coronavírus. Com receio da situação que se apresentava e com medo de não poder sair da Itália, o psicólogo optou por trocar a passagem. “Em vez de Milão, fiquei com a passagem até Paris. Meu voo era pela TAP, então a volta seria Paris-Lisboa-São Paulo”. O que ele não esperava, é que a viagem seria interrompida 10 dias antes do previsto, marcada inicialmente para o dia 31 de março.

Gilson conta que alguns dias antes da viagem estava com um pouco de dúvida quanto ao cancelamento ou não de suas férias, aconselhando-se com familiares, amigos e colegas de trabalho: “Perguntei se achavam que eu deveria viajar ou não, porque se eu não fosse, ia perder todo o investimento. A TAP ainda não estava aceitando troca ou qualquer outra forma de ressarcimento. Então, as pessoas disseram: se cuida, usa máscara, álcool gel, e vai. Acabei decidindo por ir”.

A chegada em Munique, no dia 12 de março, foi marcada pelo anúncio da oficialização da pandemia em todo o mundo. Embora as coisas começassem a mudar, Gilson conta que nos dias em que permaneceu na cidade, tudo transcorreu de forma tranquila, com muitas pessoas nas ruas. No segundo dia, fez um passeio guiado em espanhol, com a presença de doze turistas da América do Sul, entre mexicanos, colombianos e duas argentinas. Durante o passeio, falaram pouco sobre o coronavírus, e a única orientação da guia foi para que todos ficassem cerca de um metro e meio de distância uns dos outros. “Tinha pouca gente usando máscaras, quase todos turistas asiáticos. Eu também usava quando estava em locais fechados com muitas pessoas, no metrô, no trem”, comenta.

No sábado, dia 14 de março, Gilson pegou o trem para Berlim. Segundo ele, os passageiros usavam máscaras, mas estavam tranquilos, conversando, lendo jornais, livros, ouvindo músicas com fone no ouvido, apreciando a paisagem. A viagem transcorreu dentro da normalidade. Chegou à tardinha no hostel onde tinha uma reserva. Na manhã seguinte, domingo, acordou cedo, tomou café da manhã e saiu para conhecer os pontos turísticos de Berlim. Foi até o portão de Brandemburgo, onde um jovem aguardava um grupo de vinte e cinco turistas que guiaria em espanhol. O passeio estava previsto para iniciar às 10h30, mas ninguém apareceu.

“Esperamos até 10h45, daí fiquei conversando um pouco com ele. Falou-me sobre alguns locais para que eu pudesse fazer o passeio sozinho, porque possivelmente não ia ter mais passeios guiados naquele dia. Então, acabei seguindo mais ou menos o percurso que ele me indicou, caminhei por toda a rota dos museus, mas já estavam todos fechados. Isso era domingo, dia 15, e percebi que tinha bem menos pessoas nas ruas. As notícias diziam que havia aumentado muito a quantidade de pessoas infectadas na Alemanha. Quando eu cheguei a Munique eram três mil, e depois, quando estava em Berlim, já eram seis mil”.

À tardinha, finalizado o passeio, quando retornou ao hostel e acessou a internet, Scolari recebeu uma mensagem comunicando o cancelamento da passagem do trem que iria de Frankfurt para Luxemburgo.  A viagem fora cancelada porque a Alemanha estava, de domingo para segunda, bloqueando todas as fronteiras terrestres do seu território. “Comecei a repensar se era o momento de continuar a viagem ou de retornar ao Brasil. Porque eu não sabia se poderia fazer os demais passeios pela Alemanha. Pela ordem do meu roteiro, eu teria mais Hamburgo, Brenner, Colônia e Frankfurt. Porém, quando eu chegasse a Frankfurt, minha viagem ia parar, eu não ia poder continuar pela questão das fronteiras fechadas. Eu estava na Alemanha, onde não sei falar o idioma, e o meu inglês não é dos melhores. Então, eu fiquei meio receoso de ter que ficar mais tempo lá, porque é um país mais caro, ia ser bem mais difícil se eu tivesse que permanecer mais tempo em Frankfurt”.

Na noite daquele domingo, tomado pela ansiedade, Gilson praticamente não dormiu. Na segunda-feira, dia 16, levantou cedo, tomou o café da manhã, arrumou a mala e partiu para o aeroporto Berlin-Tegel, não sem antes conversar com os donos do hostel, porque tinha direito a mais uma diária, que já estava paga, caso precisasse voltar. Desistira de suas férias a partir dali. Uma das possibilidades agora seria pegar um voo de Berlim até Lisboa, de onde tentaria adiantar seu retorno ao Brasil. Ou seja, iria de Berlim para Lisboa, e depois de Lisboa tentaria um voo para São Paulo. Queria trocar não somente a data, mas a rota original, que era Paris-Lisboa-São Paulo. “Falei com o pessoal do hostel, que concordou que se eu não conseguisse, poderia voltar e permanecer por mais aquela diária que estava paga. Então, fui até o Aeroporto Berlin-Tegel, e lá foi muito difícil achar o local da TAP. Não tinha nenhum quiosque, apenas o local de embarque da companhia. Tentei me comunicar com eles para fazer a troca, falei que pagava se tivesse que ressarcir algum valor. Havia um voo que saía ao meio dia, indo de Berlim para Lisboa e de lá para São Paulo, mas não aceitaram. Eu estava às 10h no aeroporto e não consegui fazer essa troca. E teve uma brasileira que estava passeando em Berlim, que já morou um tempo lá e que também estava com dificuldades, e até onde pude acompanha-la, ela não conseguiu entrar naquele voo”.

Sem sucesso em sua tentativa, Gilson foi do Aeroporto Berlin-Tegel para o aeroporto Berlin-Schönenfeld, onde, após uma pesquisa na internet, soube da existência de um voo da Ryanair – uma companhia aérea de voos low cost, mais baratos – de Berlim até Lisboa. “Soube que tinha esse voo à uma da tarde. Saí correndo de um aeroporto para o outro, mas cheguei lá e já tinham fechado as portas, não tive como embarcar nesse voo”. Com duas frustrações no mesmo dia, tendo percorrido sem sucesso dois aeroportos, o brasileiro voltou desanimado para o hostel. “Voltei chateado, mas aí entrei no site da Ryanair, isso era segunda-feira, e consegui para quarta-feira um voo Berlim-Lisboa, por 100 euros, uma média de 500 reais. Fiquei um pouco mais aliviado, e ao mesmo tempo com receio de que eles começassem a fechar as fronteiras aéreas também”.

Com um dia a mais em Berlim, ele aproveitou a terça-feira para conhecer outros lugares e voltar a alguns dos quais havia visitado anteriormente, percebendo uma cidade bem mais fechada, com as pessoas ansiosas para retornarem aos seus países de origem. Dormiu pouco naquela noite, com receio de que as fronteiras aéreas fossem fechadas e os voos cancelados. Na quarta-feira, 18 de março, acordou cedo e foi para o aeroporto, onde embarcou para Lisboa às 13h35, aonde chegou às 16h10. “Peguei minha mala e fui até o balcão da TAP para remarcar meu voo, e quando eu me aproximei do balcão me assustei com o que estava acontecendo. Havia uma fila enorme de pessoas esperando para rever suas passagens. Muitos brasileiros em frente à TAP. Os funcionários da companhia aérea chegavam para cada um da fila e falavam que naquele dia já tinham fechado, que não tinham o que fazer, e que era melhor procurarmos um lugar, nos retirarmos dali. Caso o tumulto se intensificasse, iam chamar a polícia”.

Percebendo que nada se resolveria naquele momento, Gilson decidiu não perder tempo e ir logo para o centro de Lisboa. Antes de embarcar em Berlim, havia encontrado um hostel que a princípio ainda estava recebendo hóspedes. Precisava um local para passar a noite. As cancelas do metrô haviam sido liberadas, não estavam cobrando as passagens para facilitar o deslocamento das pessoas. Dado a gravidade da situação, o uso do metrô ficaria liberado até 31 de março, para que as pessoas pudessem ter seu deslocamento facilitado, e também para que os trabalhadores do metrô não entrassem em contato com tantas pessoas, embora àquela altura a grande maioria já estivesse reclusa em casa.

“Cheguei ao centro e comecei a ficar aflito, porque já estava anoitecendo. Fui até o hostel que eu tinha procurado, demorei um pouco para acha-lo, e chegando lá me disseram que não estavam mais recebendo ninguém, porque não tinham mais condições de atender. Era um hostel grande, mas havia pouca gente hospedada. Começou a me bater um desespero e eu quase chorei. A menina que me atendeu percebeu minha aflição e me deu um copo d’água. Eu estava suado, estava com fome, estava com sede. Estava com dor de cabeça de fome, e pra piorar eu ainda não tinha um lugar onde pudesse dormir. Aí eu falei com ela, disse que tinha visto um mercadinho ali perto, na mesma rua. Falei que estava com muita fome e ela deixou guardar minha mala com ela, mas que dentro de uma hora ia fechar tudo e eu devia voltar para pegá-la o quanto antes”.

Chegando ao mercadinho, Gilson conta que havia uma fila do lado de fora. Já haviam limitado o número de clientes e somente grupos de cinco pessoas podiam entrar para fazer compras. Uma pessoa tinha que sair para a próxima poder entrar, ou seja, somente cinco pessoas por vez podiam ficar no interior do estabelecimento. Sua sorte foi ter encontrado um brasileiro que também aguardava na fila. Conversa vai, conversa vem, este lhe disse: “Olha, acho que no hostel em que eu estou ainda tem vaga, e parece que vai ficar aberto até o próximo sábado, dia 21”. Desesperado e vislumbrando uma saída para aquela situação aflitiva, Gilson perguntou se poderia espera-lo para poder ir junto com ele. Ao ter uma resposta afirmativa, concluíram suas compras e seguiram.

“Saiu-me um peso das costas quando aconteceu isso, porque estava anoitecendo e eu sem saber onde ia passar a noite. Já estava até pensando em voltar ao aeroporto. Esse rapaz me deu uma ajuda incrível, porque me esperou até que eu fosse ao outro hostel pegar a minha mala. Quando voltei, ele estava me aguardando e fomos para o hostel em que ele estava hospedado”.

O hostel tinha capacidade para 150 pessoas, mas Gilson descobriu que naquele dia havia apenas 13 hospedadas. Logo na chegada, em frente ao prédio, foi bem recebido por um dos donos, um português gente fina que conversava na calçada com os clientes. Parece que a maré estava mudando para o brasileiro. Ao ser conduzido para o quarto, o único até então ocupado, perceberam que já estava lotado, o que lhe garantiu a exclusividade de desfrutar sozinho de outro cômodo. Depois do sufoco dos últimos dias, nada melhor do que dormir num quarto sozinho e poder respirar melhor, tendo o mínimo de contato possível com outras pessoas.

“Naquela noite, eles serviram uma sopa para os que estavam no hostel. E quando a gente estava na sala tomando aquela sopa, pensei: ‘nossa, estou matando minha fome também! ’. Além de mim e do outro brasileiro, tinha uma alemã, uma angolana, um japonês, um casal de franceses e quatro ingleses. Dos outros não lembro. Naquele momento de confraternização, sentados à mesa, me deu uma vontade de chorar, porque eu senti que ali era como se a gente estivesse vivenciando uma guerra invisível, onde nós estávamos sem saber o que fazer refugiados dentro de um hostel em Portugal, cada um querendo voltar para a sua terra. Ao menos naquela noite, todos comemos bem. Depois, voltei para a cama e dormi como não dormia há dias”.

No dia 19 de março, Gilson acordou cedo e foi encontrar Maria Tereza, uma amiga portuguesa que morou muitos anos em Porto Alegre e que o levou para conhecer os arredores de Lisboa. Percorreram de carro alguns vilarejos e a região rural das cercanias, o que lhe deu uma injeção de ânimo e a certeza de que tudo daria certo. Voltou para o hostel no início da noite e deixou tudo organizado para ir ao aeroporto na manhã seguinte para resolver o seu retorno ao Brasil. Sua ideia era conseguir voar naquele mesmo dia, mesmo sabendo que sua hospedagem estava garantida até o sábado, dia 21.

No dia 20, Gilson chegou cedo ao aeroporto, onde foi um dos primeiros da fila. Lá, encontrou dois rapazes de Fortaleza que, como ele, esperavam poder embarcar para o Brasil num dos próximos voos. Quando finalmente foram atendidos, a empresa aérea passou os cearenses na sua frente, pois tinham passagem para o dia seguinte, enquanto que o voo do gaúcho estava marcado para o dia 31 de março, o que significava uma antecipação de 10 dias. Segundo Gilson, os funcionários da TAP orientavam os brasileiros a alterar seus voos pela internet ou pelo telefone, o que gerou certo tumulto, só solucionado com a iniciativa da empresa aérea de consultar individualmente o localizador de todos, dando a cada um dos clientes alternativas reais do que poderia ser feito. “Cheguei ao aeroporto às 6h30 da manhã e só me ofereceram uma alternativa às 12h30. Como eu buscava um adiantamento de retorno de dez dias, teria que pagar um valor muito alto. Sem outra saída, aceitei retornar no voo das onze da noite do sábado, 21, chegando domingo cedo, dia 22, em Guarulhos. E isso a um custo de 1660 euros, fora o trajeto São Paulo-Porto Alegre”.

Gilson conta que, no dia 21, o aeroporto estava fechado e só entrava quem tinha passagem para aquele dia. Outras pessoas não tinham acesso. Os seguranças estavam sendo bem severos, o que ele já havia percebido assim que desembarcou em Lisboa. Desde então, a situação se agravara, e os ânimos dos portugueses também.

“No aeroporto, quando consegui fazer o check-in e despachar a mala, respirei tranquilo e pensei: esse voo vai sair e eu tô voltando, graças a Deus! O avião estava lotado, não tinha uma poltrona vazia. Cheguei a Guarulhos domingo de manhã, mas só consegui um voo para Porto Alegre às 19h30. Fiquei todo o domingo lá, aguardando no aeroporto. À noite, quando embarquei, meu cansaço era tanto que não vi nem o avião decolar. Uma hora e meia depois acordei e fiquei aflito, vi que o avião estava no chão e achei que nem havia decolado. Pra minha felicidade, em poucos minutos percebi que já estava em Porto Alegre. Eu dormi todo o voo, de tanto cansaço e estresse dos últimos dias. Viajar em meio a essa pandemia não foi uma boa ideia, e essa, sem dúvida, foi a viagem mais desgastante da minha vida”.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Gilson em Munique

Gilson Scolari / Acervo Pessoal 

Um comentário sobre “Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 6. Gilson Scolari: Alemanha e Portugal

  1. Bom retorno meu querido, que bom que encontrou com a Maria Teresa. E que estás bem. Seja bem vindo. Um grande abraço

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