Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Estevan

Cléber Ferrari e Estevan Stegues / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, a partir do domingo, 22 de março.

Sexta-feira, 27 de março: Dia 5. Estevan Stegues: Espanha (parte 1)

Na Espanha, Prohibido viajes no justificados

O cirurgião dentista Estevan Marçal Stegues, 36, e seu companheiro Cléber Daniel Ferrari, 39, engenheiro de sistemas, partiram, no dia 10 de março, de Porto Alegre para Madri, na Espanha. Antes da viagem, Estevan estranhou o fato de não conseguirem fazer o check-in online. Em seguida, receberam uma mensagem da companhia aérea Aerolíneas Argentinas solicitando que o check-in fosse feito no aeroporto.

Acostumados às viagens internacionais, e com as notícias sobre o coronavírus dominando grande parte dos noticiários, Estevan pensou que a empresa exigiria alguns exames antes do embarque. Com o radar da desconfiança ativado, telefonou para a companhia aérea para saber por que não estavam conseguindo realizar o check-in. “Avisaram-nos que possivelmente podia ser algo relacionado ao coronavírus. Aí eu comecei a ficar nervoso, achando que não conseguiríamos embarcar. Já estávamos com tudo comprado. Somos bem organizados com as viagens, já tínhamos reservado os hotéis de todas as cidades, os passeios pagos, os deslocamentos de trem e de avião comprados. Até restaurantes reservados”, conta.

No dia da viagem, o casal chegou ao aeroporto internacional de Porto Alegre três horas antes do embarque, mas ficou uma hora fazendo o check-in e depois se organizando para conseguirem entrar no avião. Naquele momento, ainda acreditavam que não conseguiriam entrar na Espanha. Havia um clima estranho no ar. O avião partiu de Porto Alegre para a Argentina, e de lá para Madri: “Em Madri, a gente desembarcou de forma tranquila. Eu achei que a imigração ia exigir algum tipo de exame, fazer algumas perguntas, por onde a gente andou nos últimos dias, mas não aconteceu nada”, lembra Estevan.

O cirurgião-dentista conta que, em Madri, a cidade estava funcionando normalmente. A única coisa que perceberam naquele dia é que as escolas haviam sido fechadas e que os noticiários informavam que em Barcelona, na Catalunha, e em Valência, a coisa estava começando a ficar mais complicada, que a contaminação não estava mais tão incipiente. Ainda naquele primeiro dia em Madri, eles foram para a estação central de Atocha, onde pegariam o trem para Sevilha. Estevan lembra que, até aquele momento, o passeio acontecia conforme o esperado: “A gente sentou nos bares, tinha muita gente nas ruas, jovens passeando, pessoas bebendo. Pensamos em visitar o Museu Reina Sofia, porque estávamos ali perto. Cogitamos entrar, mas resolvemos ficar bebendo e passeando pelas ruas. No final da noite daquele dia, 11 de março, pegamos o trem para Sevilha”.

Chegando a Sevilha, tudo ainda transcorria dentro da normalidade. No dia seguinte à chegada fizeram um passeio turístico, se desligando das redes sociais, do Whatsapp e dos noticiários. Foi quando saiu um pronunciamento do presidente. “Eu vi que o pessoal estava comentando sobre esse pronunciamento, mas não dei muita bola para isso”, recorda. No outro dia, iam a Cádiz, mas desistiram. E foi aí que os estabelecimentos começaram a fechar. “No final da tarde, a gente estava num passeio na Plaza de los Toros, que é uma arena de touradas, quando eles avisaram: ‘Olha, amanhã tudo vai estar fechado. Toda a parte turística da Espanha vai estar fechada’. Nós fomos averiguar a informação e era a repercussão da fala do presidente, dizendo que estava fechando tudo, que a Espanha estava entrando em estado de alarme, e que a coisa não estava muito boa em Madri, onde o contágio pelo vírus estava evoluindo muito rápido”. No dia 14 de março, partiram para Cádiz.

“Em Cádiz, no início da manhã, o comércio e demais estabelecimentos estavam meio abertos, meio fechados. Até então nenhuma loucura. Depois do meio-dia, fomos para Córdoba, e lá já não tinha nada aberto. Para você ter uma ideia, a gente teve que comer no McDonalds porque não tinha sequer um restaurante aberto. Lá tem uma catedral bem conhecida, que é uma mesquita que foi transformada em catedral pela Igreja Católica, e ali estava tudo fechado. Dentro do bairro judeu antigo, não tinha um único estabelecimento aberto para comer. Nada”, conta Estevan.

A partir deste momento, o casal começou a ficar ainda mais preocupado. Preocupação que os fez adiantar sua partida para Jaén, onde ficaram hospedados na casa de amigos. A parada em Jaén estava planejada desde o início da viagem. Lá chegando, no mesmo dia, o presidente fez um novo pronunciamento falando que as saídas às ruas estavam proibidas: “As pessoas não podiam andar nas ruas e, se saíssem sem motivos graves ou por alguma necessidade real, a infração era passível de multa de 600 a 30 mil euros, e quem desrespeitasse as regras poderia pegar de um a dois anos de reclusão. E eles seguem muito à risca as orientações do governo. Se é dito que ninguém vai sair hoje, ninguém sai. E as ruas ficaram desertas”.

Embora assustados com as restrições impostas pelo governo espanhol, inicialmente os brasileiros não estavam muito preocupados em relação à contaminação, porque a informação de que dispunham é que teoricamente o vírus é mais perigoso para os idosos. A preocupação aumentou quando começaram a aparecer alguns áudios lá na Espanha, de pessoas que trabalham na área da saúde e que passavam informações seguras de dentro dos hospitais. “Nós ficamos hospedados na casa de um amigo, formado em administração hospitalar, e que é enfermeiro. Ele é sanitarista e está fazendo mestrado lá nessa área, na área da saúde coletiva. Então, ele está por dentro das coisas que estão acontecendo, as notícias chegam muito fresquinhas para ele. E ele falou que começaram a receber mensagens de colegas, enfermeiros e médicos, dizendo que realmente já estavam ficando sem leitos. Que a coisa estava começando a ficar preta. E que talvez houvesse o início de algum tipo de mutação do vírus, porque jovens também estavam sendo afetados. Enfim, uma loucura”.

Em Jaén, “presos” por dois dias na casa dos amigos, perceberam que a situação não ia melhorar, ao contrário, só estava piorando. O governo resolvera botar o exército nas ruas, e mesmo com toda a tristeza que já tomava conta da Espanha, à noite os espanhóis iam para as sacadas e batiam palmas para os trabalhadores da área da saúde. “Fizemos vídeos da sacada do apartamento de nossos amigos [Estevan enviou-me um vídeo gravado por ele]. Todas as pessoas saem nas janelas de suas casas e batem palmas para os trabalhadores que trabalham até a exaustão”. Ali, decidiram antecipar o voo de volta ao Brasil.

Segundo Estevan, no primeiro dia em Jaén ficaram três horas tentando contato com a companhia aérea para tentar adiantar o retorno ao Brasil e, mesmo com a ajuda dos amigos, não conseguiram. “Foi muito difícil conseguir fazer as alterações das passagens”. No dia seguinte, insatisfeito com a falta de contato da empresa, e cada vez mais preocupado com a situação que se agravava, ele resolveu ligar para o Brasil: “Liguei para cá e aqui eu consegui trocar as passagens de forma rápida”. Estevan também já havia feito uma tentativa de contato pelo chat, mas a empresa só tinha conseguido remarcar para muito tempo depois: Eu falei não! Eu não vou ficar aqui todo esse tempo. Até porque, ficar enclausurado na Europa é muito mais caro do que ficar no Brasil. Fora que eu queria voltar para a minha casa. Lá eu estava sob jurisdição de um seguro saúde que eu tinha feito, mas eu não queria utilizar. Porque se acontece alguma coisa, primeiro tu paga tudo, e depois eles te ressarcem. E vai que não ressarçam. Comecei a ficar preocupado. E quando a gente foi de Jaén para Madri, no dia 16, tinha mensagens na estrada que diziam ‘Prohibido viajes no justificados”.

O brasileiro lembra que algumas empresas já estavam começando a cancelar os voos, o que os levou a ficar o tempo inteiro monitorando para ver se o voo deles não seria cancelado. “Eu não sei o que vai acontecer com as pessoas que ficaram por lá. Parece que vão ter que permanecer, talvez, até por 30 dias. Daqui a pouco não vai entrar nem sair ninguém. Ainda quando estávamos lá, nós passamos a acompanhar os noticiários, e é só o que passava na televisão espanhola. E daqui também damos uma olhada, a televisão da Espanha ainda é só coronavírus, eles ficam atualizando o número de casos, quantas pessoas foram contaminadas, qual foi a taxa de mortalidade, e está aumentando muito a taxa de mortalidade na Espanha, assim como na Itália”.

Estevan conta que na Espanha todos seguiam as recomendações do distanciamento social, mantendo dois metros de distância uns dos outros nas ruas e nas filas. E todo mundo usava álcool gel, máscaras e luvas. Embora o cuidado redobrado com a higiene tenha passado a fazer parte da rotina diária dos espanhóis, muitos tocavam no rosto com a luva, ou porque não sabiam utilizá-la ou porque acabavam esquecendo. “Por onde a gente foi, fomos com álcool gel no bolso. Eu não tocava em nada. Limpei todo meu celular e não tocava em nada. Só ficava com a mão no bolso, e toda a vez que tirava a mão e tivesse que fazer alguma coisa, automaticamente limpava com álcool gel. Foi muito difícil não levar a mão ao rosto, não levar a mão à boca”.

A cidade de Girona também estava no roteiro do casal, e os restaurantes foram os primeiros que cancelaram as reservas: “Tem um restaurante muito conhecido em Girona, eles mandaram uma mensagem para mim, no celular, avisando que tinha sido cancelada a reserva. Eu achei estranho, mas logo veio um e-mail deles avisando que estavam cancelando tudo por causa do vírus. Só iriam reabrir um mês depois”, diz.

Quando chegaram ao Brasil, no dia 17 de março, o que chamou a atenção do casal foi a diferença no comportamento dos brasileiros, cujo egoísmo faz com que raspem as prateleiras dos supermercados. “Lá não, as pessoas estão normais, só estão reclusas. Respeitam, não saem na rua. Aqui as pessoas estão todas na rua, mesmo com o pedido para ficarem em casa, ainda tem muito movimento. E aqui eu acho que está só no começo. Pode ser que a progressão seja um pouco mais lenta, mas eu acho que em proporção, aqui, o estrago pode ser maior. A impressão que tenho, é que a coisa não está sendo levada a sério, até por uma questão cultural do brasileiro não respeitar as regras. Não respeitam os médicos, não respeitam os cientistas. E talvez aqui a coisa não seja muito respeitada porque também tem uma questão que é a questão econômica, com muitos trabalhadores informais, muito mais gente que precisa estar na rua pra poder se sustentar. Sem contar a falta de apoio do governo federal, com nosso presidente falando que não tem tanto problema assim, que é uma histeria. Eu orientei meus pais a ficar em casa, minha mãe, meu pai, meus avós de 80 anos. Mas as pessoas aqui são muito incrédulas. Lá na Espanha é como se estivessem em estado de guerra, mas existe um respeito às ordens do governo. É impressionante”.

Em contraponto ao descaso do presidente brasileiro, o dentista cita as medidas do governador do Rio Grande do Sul, que está seguindo o que recomenda a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exemplo do que outros países estão fazendo. Aponta a preocupação e as ações de países como Itália, que tem números recordes de mortes, além da Espanha e da Alemanha, que estão fechando suas fronteiras. “O governo alemão está falando que talvez a recuperação dessa crise do vírus leve uns dois anos para se resolver, e aí o governo brasileiro vem e diz que não tem problema. É desacreditar mesmo na ciência, desacreditar nas pessoas que são mais cultas. A gente com certeza não tem um líder”, finaliza.

Neste domingo, 29 de março, um relato vindo da Alemanha.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

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