Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 4. Airton Ortiz: Israel

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Airton Ortiz / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, diariamente, a partir do domingo, 22 de março.

Quarta-feira, 25 de março: Dia 4. Airton Ortiz: Israel

Em Israel, pânico e reações hostis na Terra Santa

Airton Ortiz, 65, é jornalista e escritor. Com mais de vinte livros publicados, considerado o criador do Jornalismo de Aventura, gênero onde o repórter é também o protagonista da reportagem, o brasileiro desembarcou em Tel Aviv no dia 1º de março com um pequeno grupo de amigos. Ao todo, eram seis pessoas. Depois de quase duas semanas percorrendo alguns dos principais pontos turísticos do país, no dia 13 de março, deram início a uma caminhada que duraria quatro dias, um trajeto conhecido como a Trilha de Jesus: “Estávamos fazendo a Trilha de Jesus, uma caminhada de 70 km entre Nazaré e Cafarnaum. Ao completarmos o primeiro dos 4 dias previstos, quando chegamos em Canaã, fomos informados que nossas reservas seguintes haviam sido canceladas porque os hotéis seriam fechados devido ao coronavírus. Sem ter onde dormir, no dia 14 de março suspendemos a caminhada e voltamos para Tel Aviv”.

A Trilha de Jesus havia sido programada com meses de antecedência, e renderia ao escritor seu mais novo livro. No trajeto, Ortiz guiava os amigos por um roteiro que os conduziria por Canaã (onde Jesus fez seu primeiro milagre, transformando água em vinho), Migdal (aldeia natal da Maria Madalena), Monte das Bem-aventuranças (onde Jesus pregou o Sermão da Montanha e multiplicou os pães e peixes), Mar da Galileia (onde Jesus andou sobre as águas) e Cafarnaum (onde morou na casa de Pedro e estabeleceu a base do seu ministério). Com a interrupção inesperada da caminhada, sem terem onde pernoitar nas noites seguintes, correndo o risco de serem hostilizados pela população e penalizados pelas autoridades, a única alternativa, mesmo que forçada, foi o retorno à Tel Aviv.

Ao voltarem para Tel Aviv, o escritor hospedou-se com seu grupo de amigos em um hotel a uma quadra do calçadão da praia, a região hoteleira da cidade, e embora esta seja uma zona bastante movimentada, logo constataram que no hotel não tinha nenhum outro hóspede. Eram os únicos. Quando chegaram à recepção, Ortiz conta que haviam colocado uma fita preta no chão fazendo uma divisória, a mais ou menos um metro do balcão, atrás do qual ficava o recepcionista. No local, tinha um cartaz, em inglês, pedindo que os hóspedes não se aproximassem para além daquela linha: “Para fazer nosso registro no hotel, normalmente a gente entrega o passaporte, eles tiram xerox, aquela coisa toda. Desta vez, o recepcionista pediu para eu pegar os passaportes, fotografá-los e passar para ele por Whatsapp, mesmo a gente estando ali a um metro, um metro e meio de distância. Eu passei uma foto dos nossos passaportes como solicitado e a partir dessa foto ele fez o nosso registro no hotel”.

Foram três dias hospedados neste hotel até conseguirem resolver as questões burocráticas relativas à interrupção da viagem e garantir um retorno seguro ao Brasil antes do previsto. Três dias sem contato pessoal com ninguém, inclusive com os funcionários: “Nós ficamos três dias no hotel. Nesses três dias, na hora do café da manhã, nós chegávamos para tomar o café e não tinha ninguém, nenhum atendente. O café estava posto, nós tomávamos café e quando saíamos eu percebia que alguém ia recolher a louça e arrumar a sala. Nos três dias em que estivemos no hotel não teve serviço de quarto e nós não fizemos contato com ninguém e ninguém fez contato conosco”.

Ortiz percebeu que naquele momento o pânico já se instalara entre os israelenses, e a orientação do gerente do hotel foi de que não andassem a menos de um metro de distância das pessoas, aconselhando-os a não saírem à rua, e que só o fizessem se realmente fosse necessário, pedindo que não conversassem em português para os locais não se darem conta que eram estrangeiros. “Ali já havia uma animosidade contra os estrangeiros, mesmo num país como Israel, que depende muito do turismo. Tem uma animosidade porque os locais avaliam que foram os estrangeiros que levaram o coronavírus para lá”, relata o escritor.

O governo já havia determinado que não poderia haver reunião com mais de dez pessoas, e no máximo um grupo deste tamanho e restrito aos locais de trabalho. Mesmo com a orientação do gerente para que não saíssem do hotel, o grupo liderado por Ortiz resolveu dar uma volta, ir até o calçadão da praia, a uma quadra de onde estavam hospedados: “Não havia ninguém nas ruas. As ruas estavam desertas. O calçadão da praia de Tel Aviv estava deserto. Os bares fechados, restaurantes fechados, os supermercados fechados, os shoppings fechados. Todo comércio fechado. O único comércio que tinha eram alguns pequenos mercadinhos, onde nós compramos sardinha, pão, e eu comprei vinho também, porque o vinho israelense é muito bom, e comemos no quarto do hotel. Algumas pizzarias pequenas vendiam pizza, mas você tinha que levar para comer em casa, não podia ficar ali”.

Resolvidas as questões necessárias para o retorno ao Brasil, na terça-feira, dia 17 de março, Ortiz conta que em Tel Aviv já não tinha trem, ônibus e nem metrô funcionando. Na hora de embarcarem na van, que os levou do hotel ao aeroporto, o motorista não só não desceu da van, como mandou que eles mesmos colocassem suas mochilas no bagageiro: “Nós colocamos nossas mochilas lá atrás, e quando entramos na van ele pediu que nós sentássemos lá no fundo. Era uma van para 16 pessoas, nós éramos apenas seis, mas ele pediu que ocupássemos os bancos mais atrás, ficou o mais longe possível de nós, e quando chegamos ao aeroporto ele não desceu da van, nós é que descemos e tiramos a nossa bagagem”.

Ao chegarem ao aeroporto Ben Gurion, em Tel Aviv, um dos mais movimentados do Oriente Médio, os brasileiros perceberam que o primeiro andar, que é o setor de chegada, estava fechado. Ortiz lembra que no dia 17 de março, quando embarcaram de volta ao Brasil, já há dez dias o governo israelense havia proibido a entrada de qualquer estrangeiro no país. E no andar superior, que é o andar de embarque, só estava funcionando o check-in de três ou quatro companhias aéreas: “Só funcionava o check-in. Todo aquele sistema de segurança que tem para embarcar em Israel, que é dantesco, estava desativado – uma vez, eu embarquei de Tel Aviv para Bombaim e fiquei seis horas até passar pelo sistema de segurança – ou seja, o governo queria que as pessoas realmente saíssem do país. E no setor de embarque, depois que passamos pelo raio x com nossas mochilas, no setor de passaporte, todo automatizado, não tivemos contato com ninguém. Na área de embarque do aeroporto estava tudo fechado, freeshop fechado. Aquelas lojas que tem em aeroporto, cafeteria, lanchonete, bar, pequenos e grandes restaurantes, todo o comércio fechado, não tinha um comércio aberto. Então sentamos em uns bancos, e dali direto para o avião e viemos embora”.

Nesta sexta-feira, 27 de março, um relato vindo da Espanha.

Os seguintes depoimentos já foram publicados:

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

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Airton Ortiz / Divulgação

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