Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

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Martin Heuser / Arquivo pessoal

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, diariamente, a partir do domingo, 22 de março.

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Terça-feira, 24 de março: Dia 3. Martin Heuser: A Finlândia

Finlândia, um país com poucos casos graves até o momento

Morando em Espoo, na região de Helsinque, Finlândia, onde faz mestrado em Artes Visuais na Aalto Universty, Martin Heuser, 40, acompanha com preocupação a evolução do coronavírus no Brasil. Vivendo num país que apresenta uma das melhores qualidades de vida do planeta, com um sistema de seguridade social que já protege a população em todos os casos de desemprego ou falta de recursos, Martin informa que a primeira vítima de coronavírus na Finlândia morreu no último sábado, 21: “uma pessoa idosa que mora na mesma região que eu, aqui no sul da Finlândia”.

O governo finlandês decretou estado de emergência no dia 17 de março, implementando diversas medidas que permanecerão em vigor até o próximo dia 13 de abril: piscinas públicas, academias e outros estabelecimentos foram fechados. Bares e restaurantes continuam abertos, mas o governo está propondo medidas que precisam ser aprovadas pelo parlamento para poder fechá-los. Universidades e escolas também tiveram suas aulas presenciais canceladas, e o ensino, na medida do possível, é feito na modalidade à distância.

Embora inicialmente o governo não tenha reforçado muito o pedido para que todos ficassem em casa, muita gente já havia optado pelo isolamento. Segundo o brasileiro, hoje a movimentação de pessoas nas ruas já está bem menor, mesmo que algumas ainda não estejam dando muita importância para o problema. “Eu estou num meio termo. Ninguém me obriga a ficar em casa, então eu acabo saindo para caminhar, mas não estou indo em lugares com muita gente, até porque nem tem como. Mas há uns quinze dias, quando a crise estava bem menor, eu fui a bares, sem problemas, mas acho que agora eu não iria a locais cheios de gente. Acho que, aos poucos, como todo mundo, eu estou me dando conta da situação”, pondera.

Segundo o estudante, somente a partir desta semana as pessoas estão mais resguardadas e começando a entender a gravidade do problema, mas nada como na Itália e na Espanha, onde está todo mundo realmente trancado em casa e recebendo multa quando vai para a rua sem necessidade: “E só hoje que eu comprei comida para deixar em casa, mas mesmo assim não é comida para um mês. Eu comprei pensando em no máximo uma semana. E pensando assim: ah, se eu esquecer alguma coisa eu posso ir ao supermercado e comprar”.

Na Finlândia, como no Brasil, está muito difícil encontrar álcool gel e máscaras nas farmácias e supermercados. E quando o estoque é reabastecido, eles tentam limitar a quantidade. Martin diz que as farmácias e os supermercados também estão limitando o número de pessoas no interior dos estabelecimentos. “Na farmácia só podia entrar cinco pessoas de cada vez, e os funcionários usam luvas. Funcionários de supermercados também estão usando luvas, mas não vejo muita gente usando máscaras na rua. E na farmácia eu comprei uma garrafinha de álcool gel bem pequenininha, eu não podia comprar duas, é uma por cliente”.

Para o brasileiro, a situação na Finlândia está como no Brasil em termos de conscientização, com a diferença de que é um país bem menor e a evolução no número de casos, por enquanto, nem se compara. Outra diferença apontada por ele é a preocupação do governo finlandês e os investimentos na saúde. E mesmo com estes constantes investimentos, uma das reclamações dos finlandeses é que ainda na semana passada não estavam testando as pessoas o suficiente. “Uma colega minha que tem filhos pequenos, tem um menino, filho dela, que foi para o hospital, e ela queria muito que testassem, mas não testaram. Porque só testam em circunstâncias do tipo ‘esteve em uma área de risco’, na Itália, ou no Irã, senão eles não testam”.

Segundo os números da Organização Mundial da Saúde (OMS), a Finlândia registrou até nesta terça-feira, 24 de março, 626 casos, mas os finlandeses estimam que este número deve ser de 20 a 30 vezes maior, porque não há testagem, e isso acaba diminuindo o número de casos confirmados. “Como pararam de testar muita gente, isso tem sido uma reclamação geral aqui na Finlândia. Talvez a única coisa realmente grave nessa história toda. Daqui uma semana ou duas vamos ver o resultado disso”, completa Martin.

Nesta quarta-feira, 25 de março, um relato vindo de Israel.

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