Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

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Gleisa Fontoura / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que atingirá seu pico nas próximas semanas segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos inicialmente, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias e cuja experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos estão sendo publicados um a um, diariamente, a partir do domingo, 22 de março.

Domingo, 22 de março: Dia 1. Ivory Junior: A China

Segunda-feira, 23 de março: Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

Descaso inicial dos italianos deve servir de alerta aos brasileiros

A fisioterapeuta Gleisa Silveira da Fontoura, 39, está na Itália há pouco mais de dois anos, para onde se mudou em função do trabalho do marido, que é engenheiro. Enquanto não valida seu diploma, dá aulas de português em uma escola de línguas na cidade de Quattro Castella, na província de Reggio Emilia (Emilia Romagna), onde moram.

Gleisa conta que, quando apareceram na Itália as primeiras notícias sobre o coronavírus na China, muitas pessoas faziam piadas e expressavam descaso com a situação. Do descaso para o desprezo não demorou muito, bastou um casal de turistas chineses ser diagnosticado em Roma: “As pessoas começaram a evitar os bares e demais negócios de chineses, as crianças nas escolas discriminavam os filhos de imigrantes chineses e houve algumas agressões físicas também”.

Gaúcha de Porto Alegre, a fisioterapeuta lembra que com o tempo apareceram alguns casos na Lombardia, depois na Emilia Romagna e Vêneto, regiões localizadas no Norte da Itália, o que fez com que as primeiras medidas de quarentena fossem adotadas aos poucos e de forma localizada nas cidades onde haviam pessoas contaminadas, o que, segundo ela, gerou pânico na população. Na sequência, estas regiões fecharam suas fronteiras. “No final de semana em que anunciaram o fechamento das instituições de ensino as pessoas fizeram a limpa nos supermercados. Eram filas e filas, pessoas com dois carrinhos de compras, parecia que estavam estocando recursos para a guerra”, lembra.

Desconsiderando os alertas da gravidade do problema, Gleisa diz que nas semanas que se seguiram o que mais se via nas ruas eram aglomerações de adolescentes nos bares e nos parques. Os idosos continuavam se reunindo em centros de convivência, e os netos, por estarem sem aulas, ficavam com os nonos [avós]. A situação começou a piorar porque nessa época muitas pessoas começaram a viajar para o sul da Itália, onde até então não havia nenhum caso registrado, iniciando assim a contaminação do Sul. Gleisa afirma que a partir destes episódios o governo federal decretou a quarentena nacional, “mas aí a contaminação já tinha tomado as proporções que vemos hoje. E as restrições mais radicais foram decretadas apenas há 15 dias, e a contaminação pelo vírus continua crescendo exponencialmente”.

Para a brasileira, a sensação é que só com o crescente número de mortos os italianos se conscientizaram do seu papel na proteção das pessoas mais vulneráveis ao coronavírus. A triste realidade, com o significativo aumento dos óbitos, fez com que todos passassem a ficar a maior parte do tempo em casa, só saindo para ir ao supermercado ou por algum motivo muito relevante. E as regras passaram a ser mais rígidas: “O número de pessoas que podem entrar no supermercado por vez é limitada. Temos que manter a distância de no mínimo um metro uns dos outros e só uma pessoa por família pode sair para fazer as compras. Não se pode ter um carona no carro, e se tiver, tem que justificar. A polícia está nas avenidas para fazer a fiscalização. Caso alguém desrespeite as regras é multado, ou, dependendo do caso, pode até ser preso”.

Atualmente, na província onde moram, Reggio Emilia, todos estão colaborando: “Temos muitos idosos aqui e a vida deles depende das nossas atitudes. Esse vírus não é tão perigoso para crianças, adultos e jovens saudáveis, mas neste momento todos somos responsáveis pelos mais vulneráveis. Parece que só agora a população conseguiu despertar para isso”.

Questionada se está acompanhando a situação brasileira e sobre o que o exemplo da Itália pode nos ensinar, Gleisa diz que no Brasil, a exemplo da Itália, o povo deve exigir do governo federal a obrigatoriedade da quarentena geral, bem como as medidas assistenciais e econômicas para resguardar e proteger as pequenas empresas e os profissionais autônomos. “Por ser um vírus de fácil disseminação, enquanto todo mundo não ficar em casa, os números de contaminados só vai crescer. Nosso sistema de saúde não tem capacidade para atender a todos em um caso de surto. Muitos dos que amamos vão ter uma morte muito sofrida por insuficiência respiratória”, lamenta.

Sobre o papel dos meios de comunicação e das redes sociais na divulgação das informações, embora a situação seja crítica, Gleisa considera que neste momento parte da mídia está fazendo muito terrorismo, “o que está acontecendo aqui é muito sério, mas nesta hora devemos agir de forma racional, devemos proteger nossos idosos e quem tem alguma doença crônica, horror e sensacionalismo só pioram as coisas”, pondera. Para ela, o momento é de união e de colaboração. Exemplos? “Ao invés de comprar todo o supermercado, o que só vai fazer o preço das coisas inflacionar, como aconteceu com o álcool gel e as máscaras de procedimentos, vamos perguntar se aquele vizinho idoso ou doente precisa de alguma compra ou de alguma outra coisa, de modo que ele não precise sair. Vamos ser mais conscientes. Acho que esse vírus está nos apresentando a oportunidade de sermos mais solidários, de repensarmos os nossos valores, de cuidarmos de quem amamos. O sistema de vida atual nos impõe uma vida muito egoísta, muito autocentrada. Esta talvez seja a oportunidade de vermos que como seres humanos precisamos uns dos outros”.

Nesta terça-feira, 24 de março, um relato vindo da Finlândia.

2 comentários sobre “Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 2. Gleisa Fontoura: A Itália

  1. Está gaúcha soube bem exemplificar o que está acontecendo na Itália, onde inúmeras pessoas estão sucumbindo graças ao corona vírus. Vamos continuar prestando atenção ao que está sendo feito lá e procurar fazer no nosso país e nossa cidade.

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