Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 1. Ivory Junior: A China

Ivory

Ivory de Souza da Silva Junior / Divulgação

Em meio à preocupação com o aumento no número dos casos de coronavírus no Brasil, que terá seu pico entre os dias 06 e 20 de abril, segundo prognósticos feitos por especialistas da área da saúde, brasileiros relatam suas experiências em diversos países que já enfrentaram ou que ainda lutam contra o avanço da pandemia e para diminuir o máximo possível o número de vítimas fatais.

Dos oito brasileiros ouvidos até o momento, cinco buscaram fora do Brasil oportunidades de estudo ou de trabalho: um mora na China, uma mora na Itália, uma mora na França, um mora na Finlândia e outro na Noruega. Dos demais, dois estavam de férias no exterior: um na Espanha e outro havia iniciado seu roteiro europeu pela Alemanha, com passagem prevista por Luxemburgo e Itália. A viagem teve que ser interrompida na segunda das sete cidades alemãs a serem visitadas. Já o jornalista e escritor Airton Ortiz estava em Israel acompanhado de um pequeno grupo. Havia iniciado a Trilha de Jesus, um trajeto de 70 quilômetros de caminhada entre Nazaré e Cafarnaum que duraria quatro dias. A experiência resultaria em seu novo livro. A trilha teve que ser interrompida ao final do primeiro dia, sendo obrigados a retornar para Tel Aviv.

Em meio ao caos que se previa, gerando pânico na população local e nos estrangeiros, que passaram a ser tratados com ostracismo, e com a previsão de cancelamento dos voos e fechamento das fronteiras, os brasileiros tiveram que interromper suas viagens e retornar ao Brasil, não sem enfrentar algumas dificuldades. Os depoimentos serão publicados um a um, diariamente, a partir deste domingo, 22 de março.

Como a China, onde tudo começou, controlou o problema

Formado em Relações Públicas pela Universidade Federal de Santa Maria (Ufsm), Ivory de Souza da Silva Junior, 34 anos, mora desde 2012 em Shenzhen, cidade vizinha a Hong Kong e que tem em torno de 18 milhões de habitantes, onde atua na área de vendas e marketing de uma empresa de biotecnologia chinesa. Gaúcho de Santa Maria, Ivory veio ao Brasil quando o problema começou a ficar grave na China, para onde retornou no último dia 20 de março, oportunidade em que conversamos, enviando algumas informações adicionais assim que chegou em Hong Kong, neste sábado (21), onde ficará confinado em um hotel por 14 dias por determinação do governo chinês.

Ainda na sexta, antes de embarcar de volta à China, Ivory mostrou-se preocupado com os brasileiros. Segundo ele, a população desconsidera a gravidade do problema e do que pode acontecer no país. Para ele, o governo brasileiro demora a adotar medidas que possam garantir a segurança necessária para enfrentarmos essa crise. Questionado se considera o momento seguro para retornar à China, ele pondera que embora alguns amigos tenham optado por passar toda a turbulência na China, outros, como ele, decidiram voltar aos seus países de origem quando o problema ainda estava em seu estágio inicial, sendo que muitos já retornaram ao país asiático a partir da última semana.

Ao falar sobre a gravidade do coronavírus e sobre o comportamento dos chineses no enfrentamento à doença, ele afirmou que o povo chinês é muito respeitoso e obediente em relação a todas as medidas que o governo tomou: “As regras lá foram bastante rígidas, com bastante controle. A China é muito boa para controlar. Por exemplo, quando o governo determinou que não era para sair de casa, as pessoas simplesmente não saíram de casa. E se precisavam, era proibido sair sem máscara. E essa não é uma determinação indicada aqui no Brasil, porque aqui eles falam que a máscara é só para quem está doente. Mas lá na China, era proibido sair na rua sem máscara.”

Ivory conta também que somente supermercados e hospitais ficaram abertos, sendo decretado o fechamento das escolas, shoppings, academias e restaurantes, além de medidas de controle de circulação das pessoas: “Todos os condomínios na China têm vários prédios e várias entradas, mas eles bloquearam todas as entradas e deixaram só uma aberta, onde foi montada uma tenda, na frente de cada condomínio, para as pessoas que moram naquele condomínio serem obrigadas a entrar e sair pelo mesmo lugar. Nessa tenda, todo mundo checava a temperatura quando saía e chegava no condomínio. E você tem que passar na administração do condomínio para pegar um documento provando que tu moras lá, e só com esse documento é que tu podes entrar e sair do prédio. E só pode entrar quem mora no condomínio, ninguém pode receber visitas, e essa regra continua valendo até agora.”

Segundo ele, a organização e a conscientização da sociedade, aliadas ainda às medidas adotadas pelo governo chinês, contribuíram para o controle da doença. “Agora já está bem controlada, conforme informações que recebi dos meus amigos e de colegas de trabalho, e como a gente pode ver nos noticiários. A China já não tem mais novos casos de contágio de coronavírus entre as pessoas, os novos casos são todos de pessoas que estão voltando de outros países, ou indo de outros países para lá. E o número de casos hoje em Shenzhen é de 18, são menos de 20. E a grande maioria foi de pessoas que vieram de outros países.”

Conforme Ivory, mesmo que a situação neste momento esteja mais calma, os chineses continuam com todas as precauções, obedecendo e respeitando as regras impostas pelo governo, fazendo de tudo para zerar, o máximo possível, em todas as cidades, os casos de coronavírus. “As escolas não abriram, vão abrir só em abril, ainda sem data definida. Aos poucos estão abrindo os restaurantes, mas com todas aquelas medidas de proteção, de manter no mínimo um metro de distância entre as pessoas, com a obrigatoriedade do uso de álcool gel e máscaras.”

Assim que chegou em Hong Kong, neste sábado (21), Ivory informou que todas as pessoas que desembarcam na cidade precisam preencher alguns formulários e assinar um documento se responsabilizando pela quarentena imposta pelo governo. Caso não a cumpram, terão que pagar uma multa de em torno de 25 mil dólares, e ainda poderão ir para a prisão. As pessoas são testadas e mandadas para uma quarentena de 14 dias, ou em casa, ou para algum hotel, ou para os prédios do governo em caso de dificuldades financeiras. A partir daí, se o exame der positivo, as autoridades encaminham para um hospital.

“Então todo mundo segue à risca as recomendações. No aeroporto eles te dão uma pulseirinha, que não tem como arrancar, só depois de 14 dias, e tem um código QR nessa pulseira. Quem tem essa pulseira não pode ficar na rua. Tu tens que baixar um aplicativo e escanear essa pulseira para cadastrar a tua quarentena. E nesse aplicativo eles vão te monitorando e você vai informando, dentre outras coisas, onde estás. No aeroporto mesmo, nos formulários que tu preenches, tem que informar onde tu vais ficar, em qual hotel, data de chegada e de saída. E assinar um documento se comprometendo a não sair do quarto. Eu ficarei confinado aqui em Hong Kong por 14 dias, mesmo morando em Shenzhen, uma cidade do lado de Hong Kong. Isso porque há dois dias entrou em vigência uma nova regra, segundo a qual 100% das pessoas que chegam no aeroporto precisam ficar em quarentena, ou em casa, se moram sozinhas; ou em hotel, por conta da pessoa; ou em prédios ou containers que o governo disponibilizou para quem não tem grana ou não tem aonde ficar. Eu optei por um hotel, onde precisarei ficar por 14 dias, e só depois disso poderei ir para Shenzhen. Eu não tenho certeza ainda do que vai acontecer quando eu for para Shenzhen daqui a 14 dias, mas provavelmente ainda tenha que ficar mais 14 dias em casa, mesmo que eu possa comprovar que fiquei esses 14 dias confinados aqui em Hong Kong.”

Nesta segunda-feira, 23 de março, um relato vindo da Itália.

2 comentários sobre “Brasileiros falam sobre o coronavírus em diferentes países. Dia 1. Ivory Junior: A China

  1. Eu também moro aqui na China. Como o Ivo disse, as coisas aqui funcionam: o governo fala, os cidadãos cumprem. No entanto, é hora de fazermos nossa parte como cidadãos e sabemos o risco deste vírus! Fiquemos em casa. Aqui na China, os casos já diminuíram muito. Muito dos novos casos são devido a volta de pessoas que estavam no exterior. Cuidem-se! É hora de nos unirmos!

  2. Sim e não né… eu moro na China desde 2006 e apesar da boa resposta da população, o pessoal mais idoso sempre tem um problema em obedecer esse tipo de imposição.
    No meu condomínio em Chengdu, onde as coisas são um pouco mais relaxadas que no meu outro endereço em Pequim, existiu um conflito diário entre a segurança e os idosos na época mais dura da quarentena, eles até comentaram que a nossa geração estava reagindo bem e obedecendo todas as regras, enquanto os idosos insistiam em desobedecer pra manter seus hábitos diários.

    Comentei só por achar que muitos dos comentários quanto a sociedade chinesa, não por maldade acredito, acabam retratando um bando de robôs obedientes e um super governo impositor… as relações são bem mais humanas que isso.

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