Jornalista Fernando Eichenberg relata a situação atual (17/03) do coronavírus em Paris e chama a atenção do Brasil

fernando eichenber

Fernando Eichenberg / arquivo pessoal

Em mensagem enviada aos amigos, nesta terça-feira, 17 de março, o jornalista Fernando Eichenberg relatou como está a situação na capital francesa e pediu aos brasileiros que não esperem “de braços cruzados o vírus chegar e fazer a festa”. Leia a íntegra da mensagem.

Eu sou você amanhã

Eu faço compras normalmente para uma semana, fui na sexta passada no super, e devo voltar a ir agora na próxima sexta, e já deverei me abastecer por duas semanas desta vez. Na próxima ida, devo ir de máscara e luvas. Mas os supermercados estão fazendo direito aqui, não deixam exceder um certo número de pessoas no interior, e se forma fila na rua as pessoas estão respeitando religiosamente a distância de um metro de intervalo. Como jornalista, posso sair de casa, mas até agora não o fiz, e só vou sair se for realmente necessário. Já trabalhava de casa antes, e continuarei trabalhando. E as entrevistas agora é só por telefone, ninguém mais se encontra – hoje fiz três. Continuo fazendo meus exercícios físicos em casa todos os dias, o jogging tá permitido, mas vou evitar. A situação é grave. E não dá pra perder tempo. A Europa perdeu, e muito, desdenhando o que estava acontecendo na China, desprezando como uma “crise asiática”. E a China dizendo claramente para o mundo: “Eu sou você amanhã”. Depois foi a Itália atingida, que fez o mesmo aviso, mais uma vez ignorado. No dia 6 de março, quando a epidemia ainda estava no início aqui, o Macron dizia: “Não devemos, exceto para as populações frágeis, modificar nossos hábitos de sair”. Hoje, apenas 11 dias depois, se viu obrigado a decretar o confinamento do país inteiro. O Brasil já perdeu tempo demais, e continua perdendo, já era para estar todo mundo confinado aí, mas tanto as autoridades como a sociedade em geral estão, infelizmente, minimizando. Isso não é uma brincadeira nem uma conspiração e nem obra de Satanás, é uma pandemia. Não há vacina por enquanto, e a única maneira de diminuir a progressão é pela quarentena e evitando o contato social. Não é nenhum político que está dizendo, são as organizações mundiais de saúde, são os melhores especialistas e infectologistas. O Boris Johnson também tava brincando com fogo, e ontem parece que finalmente começou a acordar. O Conselho Científico, grupo de dez experts criado desde o dia 11 aqui, por ordem do Macron, estimou que sem a adoção de nenhuma medida preventiva e sustentando-se nas hipóteses de transmissão e mortalidade mais elevadas, o coronavírus seria capaz de provocar de 300 mil a 500 mil mortes na França. Só assim para cair a ficha. Aqui demorou, aí está demorando ainda mais, mas sempre dá tempo de fazer algo para evitar o pior, pois preparem-se quando os casos começarem a se multiplicar por aí – e eles vão –, os hospitais começarem a ficar sobrecarregados e as mortes aumentarem. Triste ouvir os “rebeldes” aqui, que saíram para os parques no domingo passado dizendo “não sou velho, não vou ficar doente, então foda-se o coronavírus e a quarentena”. Esse idiota não sabe, primeiro, que os casos de não idosos com sintomas e com mortes estão aumentando; segundo, que é estimado que dois terços do contágio é feito por pessoas sem sintomas, então ele pode contagiar e causar a morte de alguém. Fechar fronteiras, confinar as pessoas, estagnar a economia, nada disso são medidas fáceis e desejadas, mas é hora de responsabilidade individual e espírito coletivo. Não é uma questão de direita nem de esquerda, mas de saúde pública, de vidas humanas. São medidas excepcionais e temporárias, e sabe-se lá quanto isso vai durar, mas é preciso enfrentar. O governo aqui está fazendo o máximo para não deixar as empresas quebrarem e ajudar os trabalhadores. Já admitiram recessão de pelo menos -1% este ano. Mas não dá pra ficar esperando de braços cruzados o vírus chegar e fazer a festa, mas fazer o melhor possível para evitar o pior. Não é catastrofismo nem histeria, é a realidade. Um amigo meu aqui está em casa fudido, com febre e garganta inflamada que não consegue engolir, a médica disse para ele que a falta de ar começa entre o quinto e o sexto dia, o que para ele vai ser a partir desta quinta-feira. Confinem-se aí, urubuzada, e cuidem-se, de vocês, das famílias de vocês, dos amigos e de todo mundo, não saindo de casa.

Abração a todos e tamu junto

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