Professor deixa formatura escoltado após discurso sobre ataques de Jair Bolsonaro à imprensa

felipe boff

Felipe Boff / Reprodução do Youtube

Na noite do último sábado (7), o professor Felipe Boff, paraninfo de uma turma de formandos do curso de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, Rio Grande do Sul, teve que deixar o auditório escoltado por seguranças após fazer um discurso crítico aos constantes ataques do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) à imprensa.

Parte dos familiares e demais convidados que estavam na plateia prestigiando os 21 jornalistas que se formavam interromperam o discurso do professor Felipe Boff com vaias, gritos e agressões verbais.

Leia a íntegra do discurso do professor Felipe Boff

“A imprensa brasileira vive seus dias mais difíceis desde a ditadura militar. Entre 1964 e 1985, jornalistas foram censurados, perseguidos, presos, torturados e até assassinados, como Vladimir Herzog. Hoje, somos insultados nas redes e nas ruas; perseguidos por milícias virtuais e reais; cerceados e desrespeitados por autoridades que se sentem desobrigadas de prestar contas à sociedade. Todos sabem – mesmo aqueles que não acompanham as notícias – quem é o principal propagador dessa ameaça crescente à liberdade de imprensa. É o mesmo que também considera como inimigos os cientistas, professores, artistas, ambientalistas – como se vê, estamos bem acompanhados.

No ano passado, segundo levantamento da Federação Nacional dos Jornalistas, o presidente da República atacou a imprensa 116 vezes em postagens nas suas redes sociais, pronunciamentos e entrevistas. Um ataque a cada 3 dias.

Querem exemplos? “É só você fazer cocô dia sim, dia não.” “Você está falando da tua mãe?” “Você tem uma cara de homossexual terrível.” “Pergunta pra tua mãe o comprovante que ela deu para o teu pai.” É dessa forma chula e rasteira que o presidente da República, a maior autoridade do país, costuma responder aos jornalistas. Seus xingamentos tentam desviar a atenção das respostas que ele ainda deve à sociedade. Nos casos citados, explicações sobre o retrocesso da preservação ambiental no país, sobre os depósitos do ex-assessor Fabrício Queiroz na conta da hoje primeira-dama, sobre o esquema da “rachadinha” de salários no gabinete do filho hoje senador, sobre o envolvimento da família presidencial com milicianos.

O presidente das fake news, que bate na imprensa cada vez que ela informa um fato negativo sobre ele e seu governo, é o mesmo que deu 608 declarações falsas ou distorcidas – quase duas por dia – ao longo de 2019. O levantamento é da agência de checagem Aos Fatos. Querem exemplos? “O Brasil é o país que mais preserva o meio ambiente no mundo.” “Leonardo Di Caprio tá dando dinheiro pra tacar fogo na Amazônia.” “O Brasil é o país que menos usa agrotóxicos.” “Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira.” “Nunca teve ditadura no Brasil.”

Em 2020, depois de completar um ano de mandato com resultados pífios na economia e desastrosos na educação, na cultura, na saúde e na assistência social, o presidente não serenou. Redobrou os ataques à imprensa. Aplicou o duplo sentido mais tosco à expressão jornalística “furo” para caluniar a repórter que denunciou a manipulação massiva do WhatsApp na campanha eleitoral. Atacou outra jornalista, mentindo descaradamente, para negar a revelação de que compartilhou vídeos insuflando manifestações contra o Congresso e o STF.

E segue promovendo o boicote à imprensa, com exceção daqueles que aproveitam o negócio de ocasião para vender subserviência e silêncios estratégicos. Aos veículos que não se dobram ao seu despotismo, o presidente da República impinge pessoalmente retaliações financeiras diretas, pressão sobre anunciantes e difamação de seus profissionais. Pratica, enfim, toda sorte de manobras sórdidas para tentar asfixiar o jornalismo e alienar a população dos fatos. E já nem se preocupa em disfarçar suas intenções. Querem um último exemplo? Declaração de 6 de janeiro deste ano, dita pelo presidente aos jornalistas “Vocês são uma raça em extinção”.

Não, presidente, não somos uma raça em extinção. Ao contrário. Somos uma raça cada dia mais forte, mais unida, mais corajosa, mais consciente. Basta olhar para estes 21 novos jornalistas que estamos formando hoje. Basta ler os dizeres na camiseta deles: “Não existe democracia sem jornalismo”.

Esta é a mensagem a ser destacada nesta noite: quando tenta calar e desacreditar a imprensa, o atual presidente da República ameaça não só o jornalismo e os jornalistas. Ameaça a democracia, a arte, a ciência, a educação, a natureza, a liberdade, o pensamento. Ameaça a todos, até aqueles que hoje apenas o aplaudem – estes, que experimentem deixar de bater palma para ver o que acontece.

Para encerrar, gostaria de citar o exemplo e as palavras do grande escritor e jornalista argentino Rodolfo Walsh. Precursor da reportagem literária e investigativa e destemida voz contra o autoritarismo e o terrorismo de Estado, Walsh pregava que “Ou o jornalismo é livre, ou é uma farsa, sem meios-termos”. Dizia também que “um intelectual que não compreende o que acontece no seu tempo e no seu país é uma contradição ambulante; e aquele que compreende e não age, terá lugar na antologia do pranto, não na história viva de sua terra”.

Rodolfo Walsh foi sequestrado e assassinado pela ditadura argentina em 25 de março de 1977. Na véspera, publicara corajosamente uma “carta aberta à junta militar”, denunciando os crimes do sanguinário regime, que então completava apenas seu primeiro ano. Estas foram as últimas palavras que Walsh escreveu: “Sem esperança de ser escutado, com a certeza de ser perseguido, mas fiel ao compromisso que assumi, há muito tempo, de dar testemunho em momentos difíceis”.

Jornalistas, este é o nosso compromisso. Não deixaremos que a tirania nos cale mais uma vez.”

33 comentários sobre “Professor deixa formatura escoltado após discurso sobre ataques de Jair Bolsonaro à imprensa

  1. PARABENS PROFESSOR FALOU SOMENTE A VERDADE .UM RETROCESSO EM TODAS AS AREAS .COM ATAQUES DIRETOS A IMPRENSA A JORNALISTAS .INFELISMENTE TEM OS QUE BATAM PALMAS PARA ESSE GOVERNO QUE CADA VEZ MAIS COLOCA O BRASIL NO FUNDO DO POÇO DESRESPEITANDO O POVO QUE CONSTROI QUE TRABALHA .PRECISAMOS SIM DE JORNALISTAS SERIOS COMPROMETIDO COM A VERDADE .

  2. Excelente e real discurso. Não falou nenhuma fake. Foi um discurso apropriado à ocasião, pois nada mais fez do que defender a profissão de jornalista. E os únicos palavrões utilizados não eram de sua autoria e foi ético ao dizer quem era o autor de tais palavrões…

  3. ESTOU REALIZANDO 2 ABAIXOS ASSINADOS PARA DIMINUIR SALÁRIOS DE VEREADORES DE PACAJUS-CEARÁ E DEPUTADOS ESTADUAIS DO CEARÁ, PARA QUE AMBAS AS CATEGORIAS GANHEM O MESMO QUE OS PROFESSORES DA REDE PÚBLICA MUNICIPAL E ESTADUAL SIMULTANEAMENTE. nenamulherdopicole.blogspot.com

  4. Os formandos não precisam de inimigos, com parentes e amigos que não defendem a profissão que escolheram. Convidaram pessoas erradas para comemorar com eles.

  5. Parabéns professor.
    Siga sempre em frente. Estás com a verdade. Não permita que inferiores e pobres de espírito te calem.
    Grande abraço.

  6. Professor Felipe Boff deixo aqui registrado minha total admiração e respeito por voce. Faço suas minhas palavras e gostaria de acrescentar que eu não pensei, essa vida, presenciar um desgoverno tão estúpido e medíocre como esse que estamos vivenciando , em pleno Século XXI, é lamentável 😞

  7. Esse é o país kafkiano que vivemos.. a intransigência total da parte ignóbil que não aceita o contraditório… parabéns mestre

  8. A humanidade é um paradoxo. Busca, por princípio, a felicidade. Mas não se importa de destruir o semelhante para alcançar, por meios tortuosos, seus objetivos delirantes. Sim, nós somos seres delirantes. Cometemos as mais cruéis atrocidades contra iguais que vemos como nossos diferentes. Parabéns, pela manifestação consciente e humanista! Pobres aqueles que não enxergam e loucos os que enxergando preferem odiar.

  9. Parabéns, que texto….que texto….que discurso… parabéns… Além de tudo os ataques em sua totalidade se dão as jornalistas… Que barbárie…

  10. Admirável a coragem do professor Boff. Não se apequenou diante da onfâmia, da vilania, da falta de ética e decoro. Meus mais calorosos aplausos pelas suas palavras. Faço votos que não se torne mais uma vítima da truculência e da covardia descabida.

  11. A miséria de uma nação é diretamente proporcional a falta de liberdade de expressão. Uma nação sem jornalistas não terá o que pensar.

  12. Parabéns e minha vaia aos manifestantes contrários às suas palavras que retratam a triste realidade de nosso país! Unidos eles jamais conseguirão implantar a Ditadura que pretendem nem a total submissão à USA !

  13. Sábias e verdadeiras palavras professor ,vc tem meu respeito, é grande a sua visão e sua coragem.

  14. A Unisinos é um daqueles casos de instituição particular que, em vez de receber gente de ensino público que não consegue entrar em universidade pública, recebe aqueles alunos de escolas privadas que foram aprovados porque pagavam. Ela tem um corpo docente qualificado e procura oferecer qualidade, mas quem está ali na plateia vindo do churrasco na sociedade neonazista só lembra que havia dinheiro suficiente para pagar.

  15. Parabéns Professor, o Sr. falou o que muitos gostariam de falar e xomo um colega comentou estes formandos não precisam de inimigos pois seus inimigos estão dentro de casa, pois com parentes e amigos como estes pra que inimigos .
    Abraços e que Deus te abençoe…

  16. Parabéns professor.
    Mais uma vez vemos q a boiada está a cabresto defendendo este terrorista do bozo…deixando de homenagear seus parentes q com certeza com sacrifício concluíram o curso de jornalismo.
    Admiração a este professor.

  17. Estive nessa belíssima Universidade, para proferir uma palestra. Fiquei um tanto decepcionado com o reacionarismo do público. Ao contrário do professor, que fez um discurso muito bom, fiquei desconcertado. Não sofri qualquer agressão, mas observei que falava pras paredes

  18. Caro Professor, é uma pena quando pessoas se acovardam e defendem o inimigo de Jesus que manda aniquilar quem dele falar mal. Infeliz é aquele que calca peso sobre o que é mau, aquele que impõem opressão e não sabendo governar usa de força maligna para atacar os mais hiposuficientes.
    Parabéns pela transparência e conhecimento genial ao dizer exatamente a verdade e nada mais do que a clara verdade.

  19. Parabéns professor, você não defendeu somente o jornalismo e os jornalista, você nos defendeu, defendeu todas as profissões, com muita competência, poi hoje, não sabemos até onde vamos poder nos sentir respeitados como cidadãos profissionais, não temos mais o respeito humano e nem profissional

  20. Parabéns professor. O Brasil precisa de mais professores como você. Totalmente de acordo com o seu discurso , falou o q muitos gostariam de expressar porém não tem coragem ou oportunidade. Bravo.

  21. Parabenizo o professor pela verdade que estava cravada em sua garganta, assim como estamos nós, todos os brasileiros que se sentem sufocados por essa tsunami ordinária que se instalou em nosso país, querendo nos ditar as regras, as suas regras toscas e doentes. Preocupa-me, sobremaneira as vaias à verdade expressa pelo paraninfo. Aí está o perigo. Em seguida teremos a política “dedo-duro”, dos cidadãos entregando seus vizinhos, colegas, parentes, desconhecidos, até seus familiares… Não está longe disso, pessoa… Alguns insanos já causam estrago… Mas a insanidade coletiva é muito mais perigosa. Principalmente agora com as redes.

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