Ana Mae Barbosa: “A escola pública foi a minha salvação: ali eu me sentia cobrada, valorizada, as notas eram justas e a competição minimizada”

ANA MAE -91 Foto de Adrise Ferreira

Ana Mae Barbosa – Foto de Adrise Ferreira / Divulgação

No dia 29 de outubro, a convite do Grupo de Pesquisa em Educação e Arte (GEARTE), Ana Mae Barbosa (USP, ANHEMBI-MORUMBI) esteve na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na oportunidade, além de proferir uma palestra para um público de pouco mais de cem pessoas, entre estudantes, professores(as) e pesquisadores(as), ela lançou o livro “Mulheres não devem ficar em silêncio” (mais um, dentre dezenas de livros e artigos de sua autoria), obra organizada em parceria com a professora Dra. Vitória Amaral (UFPE). Na noite do dia 28, Ana Mae, que em julho deste ano completou 83 anos, recebeu-me para uma entrevista no Hotel Embaixador, onde estava hospedada. Em quase duas horas de conversa, ela fez um retrospecto de sua trajetória, desde a infância até a fase adulta. A morte precoce dos pais, a criação pela avó materna e os anos de estudos foram abordados e lembrados com riqueza de detalhes. Primeira mulher brasileira a fazer mestrado em Arte-Educação no exterior, em 1971, ela narra essa experiência seguida do período em que retorna aos Estados Unidos para o seu doutorado, em 1977. Sua formação inicial com Paulo Freire, as lutas pela inserção das Artes no currículo do ensino público brasileiro, as dificuldades enfrentadas no período da ditadura militar e as crises política e educacional pelas quais o Brasil passa atualmente, dentre outros assuntos, também foram abordados.

Eis a entrevista:

1 – Em sua área de atuação, você é uma das precursoras no país. Gostaria que falasse sobre os caminhos que a conduziram para trabalhar com o ensino da Arte no Brasil.

Ana Mae: Minha opção pelo ensino da Arte foi meio labiríntica, e surgiu de maneira inesperada. Eu sempre fui péssima aluna de desenho e de matemática. E jamais me passou pela cabeça, quando jovem, ensinar desenho, porque era o nome da disciplina na época.

Sou de uma família muito conservadora, e embora todos os meus antepassados, pai, avô, bisavô, tivessem curso superior, fui a primeira mulher de minha família a ter um curso superior. Com muita resistência. Perdi meus pais muito cedo, com três e seis anos de idade, e fui criada pela minha avó materna, que se opôs terminantemente a que eu fizesse curso superior. Ela me orientou, aliás, ela me obrigou, porque era bem repressiva – muito carinhosa, mas repressiva – a fazer o curso normal, ou pedagógico. Acho que naquela época chamava pedagógico, que era a formação de professor em nível médio. Ela queria que eu fosse professora, porque achava que era o único trabalho digno para uma mulher.

2 – Em relação a esse curso de formação, eu andei revisitando algumas de suas falas anteriores e me chamou a atenção você afirmar que, ao frequentar esse curso para ser professora, mais especificamente na primeira aula de português, você teve como mestre o professor Paulo Freire…

Ana Mae: Não, não foi nesse curso. Paulo Freire vai chegar depois. O curso a que eu me refiro era um curso excepcional que tinha na época, a Universidade ainda não estava muito desenvolvida no Recife, e os intelectuais ensinavam neste curso. Então, por exemplo, Mauro Mota, que era um poeta, era meu professor de geografia. Era fantástico ter o contato semanal com o Mauro Mota. Sílvio Rabelo, que era outro intelectual de Pernambuco, um homem de esquerda, um homem ligado à Literatura, era meu professor de Psicologia, mas ele trabalhava muito mais na Psicologia Social. Era fascinante, eu gostei muito do curso, me dei muito bem, era considerada a melhor aluna do curso. Mas ao terminar eu queria fazer Medicina, que era minha paixão, por uma razão muito clara: meu pai morreu louco e eu queria fazer Psiquiatria.

3 – Ele morreu novo?

Ana Mae: Morreu com 42 anos. Ele estudou Engenharia Elétrica na Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, teve sífilis e morreu de sífilis cerebral, que é uma coisa absurda. Pelo que eu li, é um sofrimento brutal. Para ele, e eu imagino que para minha mãe, que acompanhou o sofrimento dele, também tenha sido. E minha mãe morreu depois, de tifo. As duas doenças, do meu pai e da minha mãe, teriam sido curadas com penicilina. Na época da minha mãe já havia antibiótico. Ela morreu em 1942, mas todo antibiótico produzido era para esforço de guerra. O meu padrasto era médico, e foi uma frustração muito grande não conseguir o remédio para curá-la. E minha avó ficou apavorada, porque nós éramos uma família em decadência econômica, e a decadência econômica gera um conservadorismo maior que o conservadorismo quando em pleno apogeu econômico, porque os ricos podem se dar ao luxo de se rebelarem, de serem excêntricos. E no caso de outras famílias conservadoras, não só a minha, mas as que eu vi no Nordeste, o que restava era seguir a norma ipsis literis.

4 – E o sonho da medicina ficou pelo caminho?

Ana Mae: Então minha vó disse: “não, de jeito nenhum, não vai fazer Medicina”. Por quê? Por uma razão absolutamente boba. Imagina estudar vendo corpos nus na frente de homens! Porque na época, na Medicina, eram raríssimas as mulheres. Como raríssimas eram as mulheres que estudavam Direito. Mas aí eu resolvi cair na vala comum do Direito. Havia três áreas, e meus professores diziam: “Você tem que fazer Medicina, Direito ou Engenharia, porque é boa aluna.” E bom aluno tinha que fazer uma dessas três. Mas eu odiava matemática, para fazer Engenharia. Já existia Pedagogia, já existia a faculdade de Filosofia, mas era considerado uma coisa de segunda categoria, uma aprendizagem de segunda categoria. Eu disse “bom, eu tenho que fazer vestibular, e vestibular eu não vou conseguir fazer com o que eu aprendi no curso pedagógico, então eu vou precisar fazer cursinho.” E minha avó disse “Ah, não, se você quiser fazer cursinho você trabalhe para pagar.” Então pensei, “vou pedir emprego a um pai de uma amiga minha.” Porque, por nome de família, eu frequentava a alta sociedade, e me divertia com isso. E como dizia meu marido depois, a Sociologia ainda não tinha subido à minha cabeça. Então eu topei ser professora substituta de uma escola primária, caí na alfabetização, que era uma coisa que ninguém queria na época. As teorias de alfabetização ainda não estavam muito bem desenvolvidas e não era fácil alfabetizar as crianças dos Alagados, para onde eu fui, numa escola terrível que não tinha sequer lugar para as crianças merendarem, tinha que ser dentro da sala de aula, não havia lugar para brincar, nada. É um edifício que ainda existe, hoje em dia decadente. Inclusive, o filme “Amarelo Manga” foi feito nesse edifício completamente decadente.

5 – Como foi essa primeira experiência?

Ana Mae: O professor era bem pago na época, o professor da escola primária era bem pago. Então, eu conseguia pagar o cursinho. Mas como professora primária eu me sentia muito responsável por aquelas crianças, mas também me sentia um pouco deficiente, pensei comigo e resolvi: “já que eu vou me sustentar na faculdade de Direito como professora, eu vou fazer um curso bom em matemática”, porque eu era péssima em matemática, e chegou um professor que vinha da França, com a Matemática Moderna, que me fez descobrir que o problema não era meu, que o problema é que eu fui muito mal ensinada. E ao mesmo tempo, eu fui me preparar para fazer o concurso. Tinha concurso aberto para professora efetiva e eu fui procurar um curso, e caí no curso de Paulo Freire e Elza Freire. E neste cursinho em que ele foi meu professor de Português e de Teoria da Educação, a primeira coisa que ele nos pediu que respondêssemos foi: “por que é que vocês querem ser professoras?”

6 – Foi quando, ao invés disso, você escreveu um texto respondendo que não queria ser…

Ana Mae: Porque não queria.

7 – E após esse seu texto, a senhora teve uma conversa com ele, não é?

Ana Mae: Ele me pediu para eu ir conversar com ele. E foi uma conversa tão maravilhosa, porque ele me mostrou que o que eu tinha tido não era educação, era repressão.

8 – Era sobre isso que eu queria que você falasse um pouco. Se você pudesse refletir um pouco sobre essa repressão, de que forma ela se deu, contextualizá-la um pouco no seu histórico de vida.

Ana Mae: Começa assim, eu tive uma experiência que eu não posso recordar em detalhes, e não tive testemunhas adultas que pudessem me contar depois. Foi na época que eu vivi com a minha mãe, no Recife. Pelas poucas coisas que eu lembro, lá pelos cinco anos, eu devo ter tido um jardim de infância baseado na Escola Nova. Porque eu lembro muito bem da talagarça. Uma talagarça, uma agulha, uma lã, eu trabalhando, bordando em talagarça, fazendo pontos com a lã na talagarça, que era uma coisa que se usava na Escola Nova para desenvolver a capacidade motora das crianças, para a aprendizagem da escrita. Eu não lembro muito dos desenhos, mas era um lugar que eu adorava. Pelo que eu estudei deste período, a Escola Nova já devia estar florescendo no Recife.

Nisso, a minha mãe morre e eu vou para Maceió, viver com meus avós. Morava num sítio, que até hoje eu não entendo aquela urbanização em Maceió, era um sítio que tinha uma lagoa no fundo do quintal, a lagoa Mundaú, mas ele era urbano porque tinha bonde passando na frente. Essa mistura do rural com o urbano eu nunca entendi e nunca ninguém conseguiu me explicar. Aí minha vó achava que a melhor maneira de educar uma criança, naquela época, seria com preceptora, o que eles chamam hoje homescholling. Quando eu ouço isso eu me arrepio, penso: “gente, isso vai voltar para torturar as crianças?” Eu tinha pânico da preceptora, detestava.

9 – Porque houve uma discussão, recentemente, sobre homeschooling…

Ana Mae: Eles inclusive já legalizaram a homeschooling, você não precisa mais mandar seu filho para a escola, você pode enlouquecer ele em casa mesmo. É uma barbaridade.

10 – Essa mudança para Maceió foi em que ano, Ana Mae?

Ana Mae: Minha mãe morreu em 1942. Foi em 1943. Aí minha avó ficava desesperada, porque minha mãe, obviamente, era uma mulher muito inteligente, era pianista. E minha avó nunca se recuperou da morte da minha mãe, que morreu com 33 anos. Minha avó não entendia nada de psicologia, então dizia: “Meu Deus! A mãe era tão inteligente. Essa menina não vai dar para nada!” Dizia isso na minha frente, e eu simplesmente fugia para o fundo do quintal, que era o pânico da minha avó. Na lagoa, tinha até jacaré, era mangue que a gente se enfiava até o joelho. Então a maneira de me defender da professora e desta aula era ir pro fundo do quintal.

Aí alguém disse para minha avó: “essa menina precisa de companhia, precisa de outras crianças para brincar.” E ela concordou. Essa mesma professora dava aula na escola paroquial, na sacristia da igreja, uma escola para crianças pobres. Minha avó combinou com ela que continuaria pagando a ela, mas que me mandaria todos os dias para a aula. E foi um desastre.

Primeiro, porque minha professora usava a palmatória. E eu tinha pânico da palmatória. Eu não entendia que, porque eu pagava, eu não ia levar palmatória, só hoje em dia que eu entendo. Porque a professora dizia: “você fica sentada junto de mim, não quero você brincando com esses meninos.” Adiantava? Adiantava ter contato com outras crianças se eu ficava isolada? Então, eu usava a mesma técnica para não ir para a escola: eu fugia para o fundo do quintal. (Risos.)

11 – Você traz essa referência de que sua mãe foi pianista. Então você sempre teve contato de alguma forma com a manifestação artística no ambiente familiar?

Ana Mae: Muito pouco, muito pouco. Artes visuais, nada. A minha mãe foi, como mandava o figurino da mulher naquela época, educada para o piano e também para o desenho. Eu tenho alguns desenhos dela, algumas almofadas desenhadas pela minha mãe, principalmente a carvão. Não era muito salientado na minha família o visual. Tinha um ou outro quadro, mas era muito paisagens, essas mais convencionais. E a música, era música erudita, que ficou proibida quando minha mãe morreu. Minha avó vendeu o piano, deu todos os discos, e se o rádio tocasse uma música que ela tocava, minha avó desligava imediatamente, porque eles continuaram sofrendo a vida inteira. Então, a música erudita foi praticamente interditada para mim.

12 – A partir de que momento você se liberta dessa situação repressora, desse período de repressão?

Ana Mae: Eu começo a me libertar quando uma amiga de minha avó, que era minha madrinha, diz: “Põe ela no bonde, ela precisa de uma escola boa, eu pego ela no bonde na frente da escola e entrego.” Nisso eu já estava com sete anos, totalmente analfabeta, né? E essa escola foi maravilhosa, de freiras. A escola era tão boa que fechou, porque não respondia aos anseios da burguesia da cidade.

13 – Foi essa a escola responsável pelo restante da sua formação?

Ana Mae: Não. Depois minha avó me põe na escola que foi da minha mãe, para fazer o primeiro ano ginasial, uma escola de freiras, estas sim, repressoras. Passo no exame de admissão e fui pro primeiro ano ginasial. Eu estudava bastante, tirava boas notas. Mas as freiras eram umas freiras muito venais. Como era internato, elas só davam importância às meninas ricas, as meninas que eram filhas de usineiros, que davam o açúcar, que davam a manteiga, enfim, que os pais supriam o internato. E as meninas nos diziam, o bullying na época era esse: “vocês estudam, estudam para tirar dez, a gente não precisa estudar, a gente tira dez porque papai dá isso, aquilo, aquilo outro.” E isso foi me enervando até que um dia aconteceu uma coisa terrível na aula de desenho: O desenho era copiado, a freira fez uma borboleta na lousa e mandou que a gente copiasse e colorisse, ela não coloriu, mandou a gente colorir. E todo mundo entregava a borboleta a ela, que mostrava às demais meninas, dizia alguma coisa e guardava. Eu fui, entreguei a minha, ela olhou, não mostrou para as outras meninas e disse “mas que coisa horrorosa!”, rasgou e jogou no lixo. Aquilo foi demais. Eu saí de lá dizendo: “eu não fico nesta escola.” E também tinha outra coisa, porque eu sempre fui preguiçosa para exercício físico, e para me deslocar até o ponto do bonde para ir à escola tinha que subir uma enorme ladeira. Aí eu usei a ladeira para convencer minha avó de que eu não queria mais ir para aquela escola. E fui procurar uma escola pública.

Perguntei a umas primas mais velhas qual era a melhor escola para fazer o ginásio. “Ah, é o Instituto de Educação.” Eu disse “pois é nesse que quero ir”. Minha vó disse: “ah, não, escola pública de jeito nenhum.” Eu fui ao Instituto de Educação, procurei saber todas as informações, o que eu teria que fazer para pegar a minha transferência, o que eles exigiam. Soube que eu teria que tirar minha carteira de identidade. Eu fui, fiz tudo o que eu tinha que fazer e disse a minha vó: “você agora só precisa ir lá para pegar a minha transferência.” E aí fiquei argumentando: “porque eu não aguento a perna, o joelho dói”, não sei mais o que, até que consegui.

14 – E conseguiu se encontrar no Instituto de Educação?

Ana Mae: Eu sempre digo que a escola pública foi a minha salvação: ali eu me sentia cobrada, valorizada, as notas eram justas e a competição minimizada. Não havia uma competição exagerada, era uma escola muito boa na época. Eu desconfio que também era resultado da Escola Nova aquilo ali. Porque era muito bom. Professores extraordinários. Como naquela época não havia nenhuma universidade desenvolvida, os intelectuais iam ensinar nas escolas, nos ginásios. Já existia a profissão de educador, que começa a existir antes do Estado Novo, e que é destruída pela ditadura Vargas, como o foi a Escola Nova. Eu me lembro do fim do Estado Novo, a escola, por exemplo, fez uma festa na ocasião. Então, havia, desconfio, participação política, e lembro-me bem que o ensino de História era muito bom. Colonialista, mas bom. (Risos)

15 – Nesse ambiente você encontra então os seus pares para…

Ana Mae: Fiquei dois anos nessa escola. Dei-me muito bem, tinha notas muito boas. Depois meu avô morreu. Eu digo que minha vida é sempre povoada por mortes. Então, minha avó só tinha uma filha no Rio e um filho em Recife, que disse: “não vou deixar uma adolescente e uma mulher idosa morando sozinhas num sítio, vocês vem morar comigo em Recife.” O que foi outra sorte na minha vida. Como eu já era do Instituto de Educação, fui para o Instituto de Educação no Recife, e foi maravilhoso. Fui para o quarto ano – cursei os três anos pedagógicos –, que foi uma beleza. Aí, em 1956 fui para a Faculdade de Direito, que foi uma desgraça total. (risos)

16 – Concluíste a Faculdade de Direito?

Ana Mae: Sim, porque eu tinha lutado tanto para fazer. Lembro-me do dia do vestibular, quando eu fugi de casa sem dizer para onde ia. Só que tinha a mãe de uma amiga minha, que era uma mulher de uma família importantíssima, os Cavalcante, do Recife. Inclusive o pai dela era o médico mais importante da cidade. Ela casou com um médico, ele morreu e ela ficou com cinco filhos para criar. E foi estudar. Ela estudou Biblioteconomia e era bibliotecária da Faculdade de Direito. E por sorte eu era muito amiga da filha dela. Essa mulher era extraordinária. O vestibular da Faculdade de Direito era um ritual. Os pais iam com os filhos. As salas eram um anfiteatro. Hoje eu trabalho numa escola que tem uma arquitetura totalmente contemporânea e as salas são anfiteatros, mas na Faculdade de Direito naquele tempo as salas já eram anfiteatro. A gente ficava lá embaixo e o pessoal todo ficava escutando, a família ia para escutar. Tinha as provas escritas nas quais os familiares não entravam, mas tinha as provas orais, que eram abertas, realmente uma espécie de demonstração de orgulho: “esse é meu filho”, porque a Faculdade de Direito era da classe hegemônica.

17 – E qual foi o papel da mãe da sua amiga nesse processo?

Ana Mae: Ela me protegeu. Como ela era bibliotecária, ela ia comigo. Os professores perguntavam “é sua filha?”, ela respondia “não, mas é quase.” A força que essa mulher me deu foi extraordinária, mas a Faculdade de Direito foi terrível. Era perseguição. Por azar, eu passei em segundo lugar. Por azar.

18 – Azar?

Ana Mae: Foi terrível. No primeiro dia de aula, era Teoria Geral do Direito, o professor fez uma pergunta para mim. Uma pergunta que aluno de primeiro ano nenhum responderia, assim como eu não respondi. E aí ele disse: “olha, passou na frente de todos vocês, mas não sabe de nada.” E não jogou a pergunta para o público. Era uma repressão machista tremenda. E éramos oito alunas mulheres para duzentos homens. Os colegas não me incomodaram muito, pois comecei a namorar meu marido no primeiro dia de aula. Mas eu fui obrigada a aprender a me defender, a defender o meu trabalho.

E eu só terminei Direito porque o Paulo Freire me convenceu. Chegou o terceiro ano, eu disse, “eu vou largar, eu não aguento mais” –, e ele disse “não, você vai terminar porque o Direito te dá uma capacidade hermenêutica que você pode aplicar a qualquer coisa que você vá fazer na vida.” E ele participou do meu concurso de livre-docência na Universidade de São Paulo (USP), como examinador, na banca, e ele lembrou esse fato, porque o meu livro “A imagem no ensino da Arte”, que é a introdução de “A imagem na sala de aula”, aborda não só a expressão do Modernismo, mas também o desenvolvimento da capacidade crítica do aluno vendo a imagem, e aí ele disse: “olha aí, você termina introduzindo na arte-educação a análise da imagem.”

19 – Desse período como estudante de Direito, além de Paulo Freire, quais as relações afetivas e profissionais que de alguma forma contribuíram para o seu crescimento pessoal e profissional?

Ana Mae: Fiz amizades com os intelectuais mais velhos. Os encontrei num grupo muito interessante, em Recife, o “Gráfico Amador”, que era um grupo de intelectuais formado, entre outros, por João Cabral de Melo Neto e Aloísio Magalhães. João Cabral, poeta, não tinha onde publicar seus poemas, então criou-se um grupo de intelectuais, compraram uma gráfica e começaram a publicar seus títulos, especialmente a poesia. (José) Laurenio de Melo, Gastão de Holanda, que era romancista, e comecei a frequentar esse grupo. Fui a convite de Gastão pro grupo do Gráfico Amador, onde eu encontrei um apoio fantástico, onde dei a minha primeira palestra. O Orlando da Costa Ferreira, que depois escreveu um livro excepcional sobre as artes de reprodução no Brasil, era um pesquisador incrível, leu o meu primeiro livro, “Teoria e Prática da Educação Artística”, fez anotações e críticas muito boas, do tipo: “você bota muito adjetivo, diminua os adjetivos, etc.” Então, esse grupo me deu muita força, para ler mais, para me expressar melhor, para aprender a me defender.

20 – O que mudou de lá para cá na trajetória profissional das mulheres? Embora a gente saiba que ainda impere o machismo no ambiente profissional, obviamente, conquistas vieram aos poucos. Como você percebe essas transformações, com mulheres ocupando cargos que antes eram predominantemente masculinos?

Ana Mae: Para você ter uma ideia, a única colega bem-sucedida em Direito, foi a primeira professora da Faculdade de Direito de Pernambuco. A mãe era viúva e ela ia com a filha para a faculdade. O problema do preconceito era tão grande, que na visão dos colegas, se a mulher entrava na faculdade de Direito, eles comentavam: vai ser amante de qual professor? de qual juiz? Então, o que eu vejo hoje é uma mudança enorme. Mas a mudança se deve à luta das mulheres. Hoje, eu vejo muitos homens feministas. Os meus colegas, os da minha geração, eram muito machistas, e era para acabar mesmo com qualquer expectativa da mulher.

21 – No início de nossa conversa, falamos do seu encontro com o Paulo Freire e de sua resposta à ele, dizendo que não queria ser professora. Tenho a impressão de que ainda ficou uma lacuna na sua fala, sobre o concurso que ia realizar…

Ana Me: Sim. Esqueci-me de falar do interregno que eu fiquei na Secretaria de Educação, depois do meu contato com Paulo Freire, trabalhando só com alfabetização, o que não era normal, o normal era ficar do primeiro ano até o quarto com a mesma turma. Mas eu alfabetizava uma turma e entregava, e aí vinha outra turma para alfabetizar. Eu tinha muito sucesso na alfabetização. Tinha umas coisas engraçadas, eu não admitia criança aprender a escrever sem saber ler. Era um absurdo porque, em geral, se escrevia na lousa e mandava a criança copiar. Como é que ela copia sem saber ler? Nem sequer mimeógrafo tinha naquela época, e eu preparava tudo em papel com carbono, para fazer duas, três cópias de uma vez só. Eu escrevia os deveres das crianças para elas completarem. Também não tinha livro didático destes para completar, então era isso que eu fazia.

22 – E toda essa sua criatividade funcionou?

Ana Mae: Era assim que eu resolvia essas coisas no dia-a-dia. Eu queria a descoberta do ler para eles, porque é sempre uma coisa fascinante para a criança quando ela descobre que pode ler. Eu fiz concurso para professora, passei em segundo lugar também, e a Secretaria de Educação me deu a possibilidade de escolher para onde ir. Eu escolhi ir para Escolinha de Artes do Recife, porque no curso de Paulo Freire eu tinha tido contato com Arte-Educação, com a Noêmia Varela, que foi a grande professora do Brasil e também da América Latina. Depois ela se muda para o Rio de Janeiro, cria e difunde um curso, o CIAE (Curso Intensivo de Arte Educação), que muita gente fez. A base de Arte-Educação no Rio Grande do Sul foi nesse CIAE, e a Iara Rodrigues, esqueci o nome das outras, mas especialmente a Iara, era fiel ex-aluna. Noêmia Varela era professora da Escola de Belas Artes do Recife, onde ensinaram Paulo Freire, Rego Monteiro e outras pessoas bem interessantes. A Noêmia Varela vai então para o Rio de Janeiro e me deixa encarregada do estágio da Escola de Belas Artes, que era na Escolinha. Então, pela primeira vez, eu lido com estudantes universitários, na Escolinha.

23 – E de Recife vocês vão para Brasília?

Ana Mae: Sim. De Recife saio para Brasília. Eu fui uma mulher muito bem comportada. Eu comecei a paquerar meu marido no cursinho vestibular, começamos a namorar no primeiro dia de aula da Faculdade de Direito. Mas como eu disse, a minha vida era pontuada de mortes, e vinte dias depois que eu me casei, minha sogra morreu. E minha sogra tinha sete filhos, o meu marido era o mais velho, o único casado. E aí eu fiquei com os seis dela, mais uma de criação. E como mulher bem comportada, meu marido estava em primeiro lugar, ele era o intelectual que ninguém podia perturbar. E eu me encarreguei de tudo, do colégio das crianças, tudo era comigo. Aí veio a ditadura. Nós não tínhamos nenhum envolvimento político, mas os amigos todos tinham. Você imagina que o Gastão de Holanda era do Banco do Brasil, porque o Banco do Brasil no Recife tinha muitos intelectuais, eles só trabalhavam à tarde, não trabalhavam de manhã. Então, de manhã, eles escreviam. O Osman Lins, o Gastão de Holanda, vários deles eram romancistas. O Gastão de Holanda, usando as máquinas d’O Gráfico, fazia um jornalzinho para os bancários. E o último artigo dele tinha sido “Receita para Fritar Banqueiro.” Você imagina! Claro que houve uma perseguição horrível e houve uma diáspora, todo mundo querendo ir embora. É quando vamos para Brasília, para a Universidade de Brasília.

Brasília foi uma coisa excepcional, a Universidade de Brasília era absolutamente revolucionária. Em 1965 o aluno podia escolher suas disciplinas. Tinha pouquíssimas disciplinas obrigatórias. Eu fui para o Instituto Central de Arte para fazer meu Mestrado e criar uma escolinha de artes lá. Uma escolinha de artes bem embasada, do ponto de vista teórico. E com o Alcides da Rocha Miranda, que era um “bauhausiano”. Ali eu aprendi Bauhaus à vontade. Eu passava o dia na universidade, mas a festa durou pouco, porque o Exército invadiu, e nós fizemos a bobagem de, em protesto, pedir demissão coletiva. Duzentos professores foram embora.

24 – E então essa situação faz com que vocês retornem para Recife, antes de irem para São Paulo.

Ana Mae: Exato. E ao voltar para Recife, o orientador da minha dissertação, que era o Dr. Alcides da Rocha Miranda, me disse: “eu acho que você pode parar por aí com a captação de dados e começar a escrever. Eu vou dar um jeito de conseguir colocar vocês, meus ex-orientandos, em alguma pós-graduação no Rio de Janeiro. Vou pegar alguma disciplina lá e vou conseguir orientar vocês.” Não havia essas pós-graduações organizadas como hoje. Acontece que minha bagagem para no Rio de Janeiro, onde teve uma enchente, e eu perdi todos os meus dados de pesquisa. Minha pesquisa era sobre a criança de fora chegando em Brasília, a influência do espaço de Brasília no desenho da criança. Ia dar uma tese muito interessante, mas eu perdi tudo.

Então, nós voltamos para Recife, mas foi horrível. Para mim, não, porque eu ia para um lugar, uma instituição protegida, de pouca gente, onde todos eram amigos. Mas meu marido sofreu muito. Voltou para a Universidade de Pernambuco e o que diziam sobre ele era: “é tão comunista, que a Universidade de Brasília, que é comunista, o expulsou”.

25 – E vocês permaneceram quanto tempo em Recife até irem para São Paulo?

Ana Mae: Nós ficamos nove meses, que foi o tempo de eu ter minha filha. Eu chego lá, tenho o bebê e a gente vem para São Paulo quando ela tinha nove meses. E ali começamos a vida do zero. E tivemos muita sorte, excelentes ligações. José Mindlin, Antônio Cândido de Melo e Souza. José Mindlin reuniu um grupo para criarmos a Escolinha de Arte de São Paulo, onde estive durante três anos. Existe uma tese sobre a Escolinha de Arte de São Paulo, do Sidiney Peterson, da UNESP, porque já começávamos a fazer pesquisa na escolinha, que tinha um trabalho diferenciado mesmo.

26 – Ana Mae, você foi a primeira mulher brasileira, se eu não estou enganado, e se eu estiver me corrija, a fazer mestrado em Arte-Educação fora do Brasil. Como é que se deu esse percurso?

Ana Mae: Sim, fui a primeira no Brasil. Isso se deu porque o Antônio Cândido queria se aposentar, e como não tinha um titular para ficar no lugar dele, acabou arrumando uma bolsa da FAPESP para o meu marido fazer o doutorado. E se agilizou a ida do meu marido para a Universidade de Yale, nos Estados Unidos, para fazer pesquisa para livre-docência. Pensei comigo, “agora chegou a minha hora”, e fui fazer um requerimento, pedi uma bolsa à CAPES, que respondeu que Arte-Educação não era área de pesquisa prioritária naquele momento, isso em 1971. Mas eu disse “eu vou, eu vou de qualquer jeito.” Eu não conhecia nada nem ninguém nos Estados Unidos. Cheguei lá e encontrei um college com mestrado em Arte-Educação. E tive muita sorte. Na primeira festa de departamento de Spanish and Portuguese de Yale em que fui – americano adora fazer festa de departamento – me dei muito bem com o professor que dava aula de Português, e ele disse: “escuta, eu vou te convidar para dar aula um semestre aqui, você topa?” Eu disse “claro que eu topo” – dar Português, imagina! Mas ele disse: “olha, os contos eu escolho, e você liga com artes visuais”, que era bem a minha praia.

27 – E como foi a experiência?

Ana Mae: Foi muito boa. Ele escolheu alguns contos, que eu não conhecia, mas eu tinha quem me ajudasse, e eu tinha que trabalhar os contos com as artes visuais. Foi uma maravilha, um trabalho fantástico. E ganhei dinheiro para pagar o meu mestrado. Então, fiz o meu mestrado lá, encontrei um professor, que foi meu orientador, e que me disse “eu não entendo nada de Brasil, de América Latina”, e acrescentou: “você trabalha por sua conta e risco, mas eu tenho um amigo que é professor aqui, de História da Arte-Educação Americana”. Ele me apresentou a esse cara, que se tornou meu grande amigo, o Robert Saunders, que infelizmente já faleceu, mas que foi incrível comigo porque me conectou com as pessoas, inclusive me ofereceu emprego para que eu ficasse morando nos Estados Unidos. E esse período de estudos resultou na dissertação “Arte-Educação no Brasil”, que é meu primeiro livro que saiu pela Perspectiva.

E nós saímos dos Estados Unidos, eu e meu marido, nos perguntando: “a gente volta mesmo pro Brasil?” Saímos de Nova York para Miami, e no aeroporto eu ainda disse para ele: “ainda dá tempo de desistir e ficar, se você quiser.” Porque eu tinha emprego garantido, e meu marido tinha emprego em Yale.

28 – Foi difícil a decisão de retornar?

Ana Mae: Foi muito difícil, porque a gente estava no período da ditadura. Mas foi interessante, porque uma coisa que convenceu a nós dois foi que a gente gostava de escrever. E escrever em inglês é difícil, demoraria muitos anos para pegarmos o jeito, para pegar um estilo em inglês. Então, faço o mestrado lá, volto para o Brasil e ganho uma bolsa da Fundação Ford para fazer pesquisa. Essa bolsa da Ford foi a primeira bolsa que eu tive, extraordinária, porque foi bem rica, bastante dinheiro para mim, que tinha sido contratada na USP como professora de tempo parcial, porque antes da USP eu ensinei na FAAP, onde não se fazia pesquisa.

29 – Qual foi o ano do retorno de vocês?

Ana Mae: Fomos em setembro de 1971, para pegar o primeiro semestre, e passamos o ano de 1972 todo. Foi um ano e meio de aulas e estudos. Nesse primeiro semestre de 1971, eu dei aula, e em um ano eu fiz as dez disciplinas do Mestrado.

30 – E quando volta aos Estados Unidos para fazer o seu doutorado?

Ana Mae: Em 1977, novamente, eu tomei carona na bolsa do meu marido. Ele já era professor titular e ganhou uma bolsa Fulbright. Foi quando eu fui fazer meu doutorado em Boston, onde não tinha doutorado em Arte-Educação, e eu tive que fazer meu doutorado em Educação Humanística. Mas novamente eu dei muita sorte, porque encontrei um professor inglês, do Labour Party, extremamente provocador, um excelente professor, embora não tenha sido orientada por ele. Fui orientada por um russo socialista, anticomunista, contrário, naquele momento, de uma maneira geral, à política do Stalin. Muito interessante também. Ele só tinha um problema: proibia-me de citar certos autores que ele dizia que eram muito de direita. E eu concordei, fazer o que?

31 – Ana Mae, a gente fala muito da função subjetiva da Arte. Eu gostaria que você falasse um pouco sobre a contribuição da Arte para o desenvolvimento racional das crianças.

Ana Mae: Há um pesquisador, James Cartterall, que já morreu, que passou a vida fazendo pesquisas que provam que a arte desenvolve a inteligência, o raciocínio. Até a inteligência medida pelo teste de QI. A gente sabe que a inteligência medida pelo teste de QI é limitada, mas até essa é desenvolvida através da arte. Em Artes Visuais tem muitas pesquisas. Mas em Teatro, por exemplo, são mais de 50 teses em Teatro. Ele trabalhou e estudou teses sobre teatro, demonstrando o desenvolvimento da inteligência racional, que as artes visuais também desenvolvem. É um tremendo exercício racional você passar do tridimensional para o bidimensional. Isso é um exercício incrível. Quando você faz um desenho de observação ou outra coisa do tipo. E em uma das pesquisas que ele encontrou foi demonstrado que o desenho livre, o desenho autônomo – eu não digo espontâneo porque não tem nada espontâneo em cultura – o desenho autônomo da criança desenvolve nela a capacidade de ler três textos de diferentes temas e inter-relacioná-los. Então ele comprova que a arte desenvolve o racional.

32 – Você pode explicar a diferença entre autônomo e espontâneo?

Ana Mae: O espontâneo eu acho que não existe, em cultura não existe nada espontâneo. Fala-se muito em desenho espontâneo, se falava muito, eu usei muito isso. Usávamos. Hoje, eu estou convicta de que não há nada espontâneo em cultura. É autônomo porque a criança escolhe o tema, escolhe o que ela quer fazer, com quem vai fazer, com que material fazer. Isso tudo é da liberdade da criança. Mas isso não é espontâneo. É um desenho influenciado pela cultura em que ela vive.

33 – Passados tantos anos do início do seu trabalho, o que ainda falta para que a importância da arte no desenvolvimento da percepção, da criatividade e da inteligência seja reconhecida como uma política educacional?

Ana Mae: Ainda falta bastante. Acho que nesses últimos 25 anos nós avançamos muito. Graças às pós-graduações, às pesquisas, avançamos muito. E graças a governos que tiveram a capacidade de entender que arte não é adorno, que arte influi no processo mental do indivíduo. Mas ainda falta muita coisa.

34 – Você acha que tivemos no Brasil um governo que tirou o ensino de Artes desse patamar de “adorno”?

Ana Mae: Não, eu acho que nós, arte-educadores, tiramos. Nós, batalhando, brigando com deputado, com senador, com o Conselho Nacional de Educação, com ministros da Educação. Conseguimos alguma coisa, mas foi com a pressão da gente. Não apareceu nenhum iluminado que dissesse, como aquele presidente do Peru, o Pedro Pablo Kuczynski Godard (presidente do Peru de 28 de julho de 2016 até 23 de março de 2018), que na fala inaugural da presidência disse que ia dar importância especial à Arte na Educação. Depois do discurso dele, no mês seguinte passou-se de uma hora de Arte por semana nas escolas para três horas. Porque ele era ligado à Arte. A gente nunca teve a sorte de ter um presidente que fosse ligado a Arte.

35 – Mesmo nesse período em que a gente teve um avanço nas políticas educacionais?

Ana Mae: Mesmo nestes períodos. Sabe por que a gente ganhou muito espaço nesse período? Por causa das ONGs. As ONGs conseguiram provar, sem fazer muita pesquisa, a olho nu, que a Arte dá uma possibilidade de ressocialização do ser humano. Então se recuperava socialmente crianças de rua. Foi um período riquíssimo, porque havia dinheiro para trabalhar nas ONGs, porque todo mundo queria aparecer, os empresários queriam parecer simpáticos ao governo, sabiam que era um governo que se importava com o social e aí a coisa acontecia, se tinha dinheiro para trabalhar. Eu mesma trabalhei em várias ONGs. Com liberdade para trabalhar, com dinheiro para trabalhar, com tudo. Então, as ONGs provaram à educação conservadora que a gente tende a ter no Brasil, que a arte desenvolve a cognição. E com isso a gente teve um avanço muito grande.

36 – Desenvolvimento da cognição no sentido da arte como possibilidade de produção de conhecimento?

Ana Mae: Produção de conhecimento, não só na arte, mas da transferência do conhecimento que a arte produz. Ela pode ser transferida para outra disciplina, como nesse caso da leitura de textos que eu falei há pouco para você. Acho o trabalho da Analice (Dutra Pillar, professora titular da Faculdade de Educação da UFRGS), de estimular a leitura da imagem, não importa a origem – TV, revista, jornal, arte, etc – uma coisa extraordinária, porque é um trabalho que mostra resultados. Ela não se omite de organizar encontros para professores que não tenham acesso à pós-graduação, a mestrados e doutorados, para eles irem aprendendo também por esses caminhos, entende?

37 – Como você avalia essa nova Base Nacional Comum Curricular? Existe a possibilidade de retirarem o ensino de Artes da educação brasileira?

Ana Mae: Eu acho que a gente ainda vai ter que pressionar muito e muitos governos para começar a surgir gente, deputados e senadores que sintam que é preciso dar um espaço na legislação, na política educacional, para as Artes. E a luta é de cada um. Por exemplo, em 1996, nós lutamos quando quiseram retirar a obrigatoriedade da Arte do currículo, porque se acabar com a obrigatoriedade do ensino da Arte, ninguém vai querer colocá-la no currículo. Agora, a gente tem que continuar na luta, tem que continuar pressionando. Está tudo indo mal, neste governo atual já tiraram as Artes do Ensino Médio. Eu ando trabalhando muito no sentido de ver se retorna agora em termos de design. Porque tira a Arte, mas e o design? Porque a moda agora é profissionalizar, né? Já não deu certo na ditadura, mas eles querem novamente.

38 – Que análise você faze das políticas governamentais do governo Bolsonaro para a área educacional?

Ana Mae: Eu acho um desastre total. O problema é o seguinte: eles querem desestruturar as instituições. A gente não pode dizer que temos um sistema bom de universidades. Nós temos universidades boas. As universidades são boas, o sistema universitário, não. Por quê? Primeiro, porque são vulneráveis. A universidade americana é vulnerável? Não é vulnerável. O Trump pode fazer o que ele quiser, mas as universidades são blindadas contra a sua loucura. E a nossa universidade não é.

39 – Na sua opinião, qual a intenção do atual governo brasileiro para com as universidades públicas brasileiras?

Ana Mae: Destruir completamente qualquer vestígio de pensamento crítico, de esquerda. E eles implantarem a cultura deles, porque eles têm uma cultura para implantar, que é a cultura moralista, para que “cada um conheça o seu lugar”. É uma cultura discriminatória. Eu acho que é dar mais poder aos poderosos, e assim por diante. Não é que eles não liguem para a cultura. Eles ligam, eles sabem que cultura é importante. Mas eles querem colocar a cultura deles e para os deles.

40 – Você acha que existe a possibilidade de uma reversão de todas as perdas que já tivemos e que ainda possamos ter com esse governo?

Ana Mae: Eu tive um alumbramento nesses últimos dias, porque eu andei muito em museu com uma turma de Mestrado e Doutorado, da Anhembi-Morumbi, que é muito boa, os alunos são ótimos, é uma turma bem especial. Visitando museus e contando com os educativos, eu lhes disse: “se a gente conseguir preservar pelo menos os educativos, haverá destruição, mas quando sair essa turma que está aí, pode ser que os museus possam fazer a gente recuperar a qualidade do ensino da arte que a gente já tem na escola.”

Em São Paulo, é interessante o quanto foram importantes os trabalhos realizados por Paulo Freire e Cortella (Mário Sergio) naquela prefeitura. Depois, com a Marta (Suplicy) na prefeitura, o que ela fez? Ela pegou os professores que tinham sido formados e atualizados pelo Cortella e pelo Paulo Freire e os chamou de volta, chamou os professores aposentados para atualizarem os professores que estavam chegando quando ela foi eleita prefeita. Foi muito interessante esse movimento, o que tornou a rede municipal de São Paulo uma das melhores redes do país. Eu não sei como está agora, mas até três anos atrás, a rede municipal era melhor do que a estadual graças a esse tipo de trabalho.

41 – Ana Mae, como é que a gente pode ensinar as crianças a verem criticamente as imagens de forma a enriquecer-lhes a iconografia do olhar? Como é que pode ser dar esse trabalho a partir da perspectiva educacional?

Ana Mae: Esse trabalho pode se dar muito facilmente, expondo as crianças a imagens de todas as origens. Eu insisto muito nas imagens de diferentes origens, não só código europeu e norte-americano branco, mas também outros códigos, locais, códigos asiáticos, gravura japonesa. E inclusive aprender a ter o olhar que julga diferentemente, desenvolver um olhar específico para cada linha cultural com as quais elas têm contato. Não ficar aplicando os “ismos” em cima da arte japonesa e etc. Eu acho que tem umas universidades boas nesse sentido agora. A UNIFESP está com um curso de História da Arte muito interessante. Tem desde os quadros dos europeus até os aborígenes australianos, arte japonesa. E têm especialistas. Não enfatiza só a história da arte europeia, mas a história de diversas culturas.

42 – Um dos problemas que você apontava sobre o ensino em sala de aula é que as crianças aprendiam sobre arte sem a oportunidade de ver arte, mesmo nas escolas com mais recursos. Você acredita que a inclusão digital tenha modificado ou minimizado de alguma forma esse problema?

Ana Mae: Não só a inclusão digital, mas também outra perspectiva, que surge antes da inclusão digital, que é o convencimento de que só a expressão não realiza toda a potencialidade do desenvolvimento que a Arte pode produzir na mente da criança. É necessário também o outro lado, o lado do ver, do analisar, do discriminar visualmente. Eu não uso a palavra crítica porque ela tem uma carga do significado cotidiano, que é menosprezar, é botar para baixo. Eu não uso a palavra apreciação porque tem outra carga, que é uma carga de aceitação. Se eu digo que aprecio você, significa que eu gosto de você, que eu vejo qualidades em você. E eu acho que em arte não é por aí, eu tenho medo do discurso de convencimento sobre a Arte, então eu uso muito a palavra leitura, que todo mundo acha que é muito associada à semiótica, mas eu nunca associei à semiótica, é leitura muito mais no sentido do Paulo Freire, de decodificação. E você usa o que você quiser para decodificar: a Gestalt; a estética empírica; a semiótica, e está aberto. Os instrumentos para leitura estão abertos. E a estética empírica eu gosto muito porque é o corpo a corpo, a tua experiência e a imagem.

43 – Você ainda está atuando no doutorado de Ensino e Aprendizagem em Arte que implantou na Escola de Comunicações e Artes da USP?

Ana Mae: Estou, estou dando História do Ensino da Arte lá. E tenho sempre dois orientandos na ECA-USP, porque lá eu pude escolher: só oriento História do Ensino e Aprendizagem da Arte.

44 – E na Anhembi-Morumbi?

Ana Mae: Na Anhembi, é um leque enorme, que abriu muito a minha experiência porque eu sempre tive fascínio por design, e agora eu trabalho num Mestrado e Doutorado de Artes, Design e Tecnologia. Tecnologia eu não opero, não adianta porque realmente eu não sou digital, não tem jeito.

45 – Quais os resultados que você acredita ter alcançado nesses cursos, para o aperfeiçoamento do ensino da Arte-Educação no Brasil?

Ana Mae: Acho que os mestrados e doutorados conseguiram criar um corpus de conhecimento. Eu chegava a dizer antigamente que arte-educador tinha anemia teórica. Hoje em dia eu não posso dizer mais isso. Hoje há um corpus de pesquisa, há uma tendência a buscar teorizar sobre seu trabalho. Na América Latina, a gente está na liderança. Chile está chegando com a gente. Estamos muito bem. Não sei se daqui a cinco anos eu lhe digo isso. Porque uma coisa que eu acho magnífica é que os mestrados profissionalizantes em arte exigem que o professor esteja em sala de aula.

Antes, se dava uma bolsa ao professor para ele fazer uma tese pensando no seu trabalho prático de sala de aula, pensando em fazer materiais didáticos. Enfim, o professor pós-graduando tem que pensar acerca do seu trabalho prático de sala de aula. Isso é muito interessante. Mas agora, a partir de 2016, por exemplo, acabaram as bolsas. Todo mundo tinha bolsa, vinte alunos entravam, vinte tinham bolsa. Para quê? Para transporte, para comer fora de casa, material de apoio, tudo isto. Não eram bolsas grandes. E agora, por exemplo, de 23, só três podem ter bolsa. O professor orientador dá a bolsa para aquele que mora mais longe, que tem que pagar uma passagem mais cara. Isso está limitando o acesso.

46 – Como é que você avalia essa onda de ataques à figura e ao trabalho do Paulo Freire? Onde se situa o papel da Arte-Educação dentro dessa onda ideológica que abala a educação brasileira? E ainda: o ensino da arte pode constituir uma forma de resistência ao obscurantismo vigente?

Ana Mae: Eu acho que sim, que a gente tem que lutar para isso. Para resistir. E essa onda de barbárie é uma onda que ataca a todos nós que temos alguma conexão com cultura. E cada um de nós vai ter que lutar a sua maneira. Eu acho muito coerente eles atacarem Paulo Freire. Me admiraria muito que eles o elogiassem. Eles têm que atacar. Porque você tornar o indivíduo consciente, não simplesmente obediente a meras normas, “menino veste rosa e menina veste azul”, ou é o contrário? (risos) Então é uma coisa que tem sentido. Eles têm uma Gestalt, tudo deles faz sentido. O problema é isso, é redondinho ali. Não tem nenhuma incoerência. Incoerentes, às vezes, somos nós, porque lidando com cultura, você tem que lidar com ambiguidades. Agora ali, não. Ali é uma coerência artificial absoluta. É um bloco de concreto contra uma massa de modelar, porque eu acho que a nossa cultura é mesmo uma massa de modelar.

47 – Para finalizar eu gostaria que você falasse um pouco sobre a sua palestra de manhã (29 de outubro de 2019), quando falará sobre “Arte, Design e Educação” na Faculdade de Educação da UFRGS.

Ana Mae: O convite partiu da professora Analice (Dutra Pillar). Tenho enorme orgulho de agora fazer parte do GEARTE (Grupo de Pesquisa em Educação e Arte, da Ufrgs). Eu acompanho o GEARTE desde que foi criado. Acho uma coisa extremamente importante não só para o Rio Grande do Sul, mas para o Brasil inteiro.

Eu ando muito feminista ultimamente, então, em parceria com a professora Vitória Amaral, escrevi um livro sobre as mulheres na Arte-Educação, que é o “Mulheres não devem ficar em silêncio. Arte, Design, Educação”. Como eu sou velha, quando me apresentam hoje em dia, dizem que sou a pioneira da Arte-Educação no Brasil, e me dá um arrepio, e eu digo que me sinto uma usurpadora, porque tem tanta mulher que veio antes de mim. Tem muito tempo que eu venho recolhendo dados, pesquisando sobre essas mulheres, vendo quem está pesquisando, quem entrevista mulheres para suas teses, etc. Então convidei algumas pessoas e escrevi esse livro, organizado com a Vitória. Mas não pedi a ninguém que escrevesse especialmente para essa obra, só tem um artigo escrito especificamente para o livro. Os outros são teses e artigos que eu fui lendo, e assim que os lia fui convidando as pessoas a colaborar no livro com estes artigos.

48 – Como surgiu a ideia deste livro?

Ana Mae: Eu estava pensando em reescrever a história das mulheres que foram importantes na Arte-Educação, de algumas artistas que colaboraram com a Arte-Educação e a estimularam; e de jornalistas que estimularam a Arte-Educação, porque no penúltimo livro que eu escrevi, que é “Redesenhando o desenho”, fica clara a importância dos jornalistas na modernização do ensino da Arte nos anos 20 e 30, com debates de jornal diários sobre o ensino da Arte. Então eu pensei nisso: eu vou procurar as mulheres. E foi incrível.

Quando eu terminei, eu tinha muita coisa, e eu acabei tendo que limitar o meu trabalho aos lugares em que eu vivi: Nordeste, Brasília e São Paulo. Mas deixei de lado Porto Alegre, por exemplo. E é uma coisa impressionante, deve dar uns três livros a pesquisa sobre as mulheres aqui em Porto Alegre. E tem muita gente esquecida aqui em Porto Alegre. Por exemplo, tem uma tese interessante em Santa Maria, levantando a escolinha de Santa Maria; tem uma tese da Flávia, aluna da Analice, acerca da escolinha da Universidade, da Associação de Ex-Alunos da Universidade. Então está havendo pesquisa aqui, mas ainda há muito a ser feito. A Ivone Richter merece um estudo. Você está fazendo sobre a Olga Reverbel, de Teatro. Eu  fiz só de Artes Visuais por necessidade de fazer um livro mais enxuto.

A Vitória foi minha aluna, eu estava enrolada com esse livro, e ela disse “ah, não, vamos terminar”. E passou comigo o mês inteiro de janeiro de 2018, me obrigando a escrever, a me organizar, me ajudou muito na organização. E tem um trabalho sobre uma artista que é incrível, a Teresa Costa Rio. A vida dessa mulher é uma coisa espantosa. Era uma menina rica, que teve a educação que a minha mãe teve, tocava piano. É um pouco mais velha do que eu, está com 90 anos, é a única viva do livro. E ela faz umas pinturas incríveis. Mulher nunca foi aceita na pintura histórica, e ela faz pintura histórica, “Guerra dos Guararapes”, aquela imensidão. Ela se apaixona por um dos diretores do Partido Comunista do Brasil, larga filho, marido, família, e vai embora com ele para o Rio de Janeiro. Aí vem a ditadura. Eles tiveram que ir embora para a França. Aí o Partido Comunista a obriga a fazer um Mestrado em Sociologia na Sorbonne. Ela mesma disse: “saí da tutela da família para a tutela do Partido Comunista.” A história dessa mulher é muito interessante. É uma das que está nesse livro.

ANA MAE -23 Foto de Adrise Ferreira

Palestra de Ana Mae Barbosa: “Conversas sobre Arte, Design e Educação” na FACED/UFRGS.    Foto de Adrise Ferreira / Divulgação

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