Escritora Luisa Geisler é censurada em Nova Hartz

Luisa Geisler - Foto CEC-RS Divulgação

Luisa Geisler – Foto de Natan Cauduro / CEC-RS / Divulgação

Na tarde desta segunda-feira, 18, a escritora gaúcha Luisa Geisler esteve na sede do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul (CEC-RS), em Porto Alegre, para relatar e discutir a censura que resultou no cancelamento de sua participação na 15ª Feira do Livro de Nova Hartz (RS), que ocorre entre os dias 27 e 30 de novembro, na qual sua presença estava confirmada desde julho deste ano. Escritora desde 2011, Luisa foi vencedora do Prêmio SESC de Literatura por dois anos consecutivos: em 2011, quando ganhou na categoria conto, pelo seu livro de estreia, Contos de Mentira – obra também finalista do Prêmio Jabuti daquele ano –, e em 2012, quando seu livro Quiçá venceu o prêmio de melhor romance.

Reconhecida nacionalmente por suas obras voltadas para o público jovem, Luisa Geisler relatou que na semana passada foi pega de surpresa por um telefonema da produtora responsável pela organização da Feira do Livro de Nova Hartz, quando foi informada de que a prefeitura estava cancelando a sua participação no evento mesmo após a compra de 20 exemplares de seu livro Enfim, Capivaras, que já estava em processo de leitura e de discussão pelos estudantes das escolas do município.

Sob a alegação de que a obra contém linguajar inadequado para os alunos, o vereador Pastor Robinson Bertuol (PSC) foi um dos principais responsáveis pela articulação que culminou no cancelamento da participação da escritora e no recolhimento de todos os exemplares do livro. Ao avaliar os argumentos usados pelo pastor Robinson para criticar sua obra, Luisa sugere que o mesmo sequer deve tê-la lido, caso contrário teria apontado outros aspectos por ela abordados e que costumam permear a vida dos adolescentes e jovens.

Embora alguns meios de comunicação tenham destacado a fala do vereador e da secretária de educação do município, que vendem a ideia da obra ser inadequada para alunos entre 11 e 14 anos, a escritora afirma que o livro é indicado para adolescentes e jovens a partir dos 11 anos, e que a obra – publicada pelo selo Seguinte, da Companhia das Letras – passou por uma criteriosa avaliação editorial.

Após a repercussão do caso, Luisa afirma que tem recebido pelas redes sociais muitas mensagens de apoio e de solidariedade, inclusive dos alunos diretamente atingidos pela censura, com relatos de profunda decepção, pois o recolhimento dos livros interrompeu suas leituras, deixando um vazio e aguçando sua curiosidade sobre os desdobramentos e os acontecimentos que envolvem os personagens. Sobre a retirada de circulação dos vinte exemplares, imposta de forma repentina, obrigando os alunos à devolução antes de concluírem suas leituras, a escritora lamenta o ocorrido e afirma desconhecer o paradeiro dos livros.

Arquiteto e Urbanista, o conselheiro Jorge Luís Stocker Jr. salientou que tem sido recorrente alguns municípios fazerem uma espécie de cruzada contra a cultura, sendo que aparentemente Nova Hartz se enquadra neste aspecto. Cita como exemplo o projeto de restauro da Igreja Luterana Redentora, aprovado pelo CEC-RS e que teve os prazos esgotados devido ao desinteresse do Município. Segundo o conselheiro, no mesmo município, houve interferência no museu municipal, além de ter sido descontinuada a maior festa cultural do município, a Kolonie Hartz Fest, que veio a dar lugar a um novo evento de linhas mais comerciais. Jorge lembrou ainda que estamos em ano pré-eleitoral, e que ações como a que aconteceu em Nova Hartz servem muitas vezes para emplacar campanhas conservadoras.

Para o jornalista, escritor e conselheiro Airton Ortiz, patrono da Feira do Livro de Porto Alegre em 2014, o compromisso e a fidelidade de Luisa, assim como os de qualquer escritor ou escritora, devem ser exclusivamente com o seu público leitor. Com duas décadas de carreira e mais de vinte livros publicados, Ortiz criticou os meios de comunicação que de forma sensacionalista e irresponsável privilegiam e dão publicidade a políticos oportunistas, enfatizando que o bom jornalismo deve ajudar a garantir o direito à liberdade e às manifestações culturais, premissas de uma nação democrática. Para ele, uma matéria que trata da censura de uma obra literária – ou artística – e que deixa a palavra final com o responsável pela censura ao invés de priorizar a fala da escritora – sujeito da censura – é somente a ponta de um iceberg, e que o ocorrido é de grande valor simbólico. Segundo Ortiz, a sociedade não pode se calar frente a episódios como este: “agentes literários e instituições como o Ministério Público devem agir com o rigor que lhes cabe, de forma a punir e buscar reparação pelos danos causados por qualquer ato de censura”.

Ao finalizar sua fala, Luisa Geisler disse que sua participação na Feira do Livro seria em um evento aberto ao público, e, portanto, também com a possibilidade de participação e de interação dos adultos, não entendendo sua ida à Nova Hartz como um encontro para conversar exclusivamente com adolescentes e jovens. Por isso, lamentou não ter havido por parte da organização da Feira nenhum diálogo para contornar a situação, tampouco uma tentativa de remanejar o público destinatário da obra literária. Responsável por intermediar a visita da escritora ao CEC-RS, o doutorando em Letras pela UFRGS e conselheiro Benhur Bortolotto agradeceu a sua disponibilidade em compartilhar este lamentável episódio, lembrando que a dimensão pessoal do que a escritora sofreu deve ser observada, assim como as diversas demonstrações de solidariedade que a mesma tem recebido desde a última semana.

enfim, capivaras

Um comentário sobre “Escritora Luisa Geisler é censurada em Nova Hartz

  1. Espero que a esperança possa se efetivar através de medidas judiciais contra atos arbitrários , desqualificados e injustos q teimam em ceifar da nossa sociedade a liberdade de expressão.
    Não se pode amordaçar a cultura, um propósito infeliz q hoje assola nosso País. Fiquei indignada

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