Glaci Borges (Cultura Doadora): “a doação de órgãos é o único braço da medicina que depende da sociedade”

foto glaci borges 1 - igor sperotto

Glaci Borges – Foto de Igor Sperotto

A Fundação Ecarta, mantida pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), mantém desde 2012 o Projeto Cultura Doadora, iniciativa que busca contribuir na formação de uma cultura de solidariedade e uma atitude proativa para a doação de órgãos e tecidos, bem como na qualificação da infraestrutura de atendimento à saúde no Rio Grande do Sul. No dia 25 de setembro, dois dias antes do Dia Nacional da Doação de Órgãos, a instituição recebeu para um café da manhã um grupo de jornalistas para falar sobre o Cultura Doadora e divulgar os resultados obtidos até o momento, principalmente na região do Vale do Caí, onde, de janeiro de 2018 a setembro de 2019, foram captados 28 órgãos, com 17 transplantes efetivados. Na oportunidade, entrevistei a coordenadora do projeto, Glaci Borges, que falou da necessidade da ampliação do número de pessoas doadoras de órgãos, da importância das instituições e dos profissionais envolvidos, da mudança na vida dos transplantados e do sentimento de gratidão pelos familiares dos doadores, que mesmo em um momento de dor se mostram solidários. Desinformação, medos, diferença entre morte encefálica e coma também foram questões abordadas e respondidas e que ajudarão a derrubar mitos, fazendo o leitor compreender e enxergar de outra forma a doação de órgãos e tecidos, podendo assim ajudar a salvar mais vidas.

Eis a entrevista:

1 – Como nasceu o Projeto Cultura Doadora?

Glaci Borges: Eu entrei na Fundação Ecarta em 2011, para ser coordenadora do Projeto Conversa de Professor. Em 2012, recebi um convite do Professor Marcos Fuhr (presidente da Fundação Ecarta) para ser coordenadora do Projeto Cultura Doadora. Num primeiro momento, isso me assustou, porque era um projeto permanente sobre doação de órgãos, e eu não tinha nenhuma informação sobre esse assunto. Naquele momento, eu lembrei muito do Dr. José Camargo, que tinha sido médico do meu pai, em 2009, e eu sabia que ele era um grande transplantador. Eu fui conversar com ele para ver o que achava da ideia, e ele me estimulou muito a aceitar esse convite, e inclusive foi meu grande parceiro no início do Cultura Doadora. Tanto que nós abrimos o projeto aqui na Fundação Ecarta com a fala dele.

Mas na verdade, esse projeto surgiu na cabeça do presidente da Fundação Ecarta (professor Marcos Fuhr), em 2005, quando ele perdeu a mãe, que era uma possível doadora. Ela teve uma parada cardíaca e ele foi consultado se ela era uma doadora, porque ela podia doar as córneas. Ele não sabia e foi consultar a irmã, e a irmã disse que não, que a mãe não era doadora. E aquilo ficou guardado na cabeça dele durante todo esse tempo, porque ele não havia encontrado alguém com perfil para coordenar o projeto. Aí eu cheguei, e ele convidou a mim.

A partir dali, a gente pensou em formatar algo muito periódico, que tivesse algumas atividades dentro da Fundação, mas isso não funcionou. Era um trabalho que exigia um esforço muito grande, porque a gente tinha que vencer muitos obstáculos para poder falar sobre o assunto.

2 – Que atividades iniciais eram essas e quais foram os obstáculos?

Glaci Borges: Fizemos um coletivo para falar mais sobre o assunto, mas percebemos que as pessoas tinham as suas dificuldades para lidar com isso. Chamamos alguns pedagogos, professores, para nos abastecer com materiais pedagógicos sobre o tema. E também não foi uma coisa muito fácil de encontrar, porque as pessoas não tinham informação. Esse assunto nunca foi um assunto abordado em lugar algum, nem em sala de aula. Pouquíssimas vezes se ouve falar sobre isso. Eu mesma sabia muito pouco sobre o assunto. Fizemos umas tentativas, tentamos entrar nas escolas, e foi muito difícil. E assim se percebeu que havia uma barreira que são os pré-conceitos das pessoas e conceitos cristalizados, de medos. Por exemplo: antigamente, havia uma lei que a gente colocava na carteira de identidade se era ou não doador. Quando entrou essa lei, as pessoas chegavam para fazer a carteira de identidade e perguntavam: “É doador ou não é doador?” “Mas, o quê? Doador do quê?” “Doador de órgãos.” “Não sei, eu nunca ouvi falar sobre isso.” Tinha gente que falava: “Bota que não, porque se tu entrares no hospital e verem que tu és doador de órgãos, vão te roubar os órgãos.” Tinha uma coisa mascarada por trás disso tudo. Então, o que aconteceu? Aquele foi o momento em que menos teve doação. As pessoas tinham medo, porque não tinham nenhuma informação sobre esse assunto. Claro que a gente ficou sabendo disso no andar da carruagem.

Comecei então a procurar parceiros para montarmos o projeto. Eu, tateando muito no escuro, porque também não tinha informação, fui atrás da Santa Casa, que era uma referência para mim, e descobri a Dra. Clotilde Garcia, na UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre), professora da cadeira de Doação de Órgãos e Transplantes. Naquele momento, eram três faculdades que tinham essa cadeira, que era eletiva. E aí eu me apresentei para ela, falei do projeto e participei como aluna convidada durante um ano, para poder ter alguma informação para trabalhar sobre isso.

E o resultado do trabalho dessa disciplina fechava com os objetivos do projeto. Eu sempre apresentava nosso projeto Cultura Doadora, mas estávamos engatinhando nesse assunto. Via-se que tudo ficava numa nuvem, literalmente, porque muito pouca coisa era concretizada. E em 2013, tentando entrar em alguns lugares, percebi que a gente tinha mais entrada nas universidades do que em escolas privadas, e mais entrada também nas escolas públicas. Em 2014, trabalhamos em algumas escolas, em algumas universidades e, no dia 27 de setembro, fizemos o lançamento do “Los 3 Plantados”, na Fundação Ecarta.

3 – Para quem não sabe, quem são e como surgiu a ideia do “Los 3 Plantados”?

Glaci Borges: O Jimi Joe, jornalista e músico; o King Jim, músico, e o Bebeto Alves, também músico, eles tinham sido transplantados em 2013. Um foi visitar o outro no hospital. Eu não sei bem a ordem dos transplantes, no ano de 2013, mas sei que numa dessas visitas, a mulher de um deles disse assim: “Vocês tem que fazer uma banda. Porque estão os três transplantados esse ano.” E eles se olharam e aquilo ficou meio no ar. E, daqui a pouco, alguém falou assim: “Los 3 Plantados!” No início foi uma brincadeira, mas os três passaram por situações muito delicadas, com risco de morte muito grande, tanto o Bebeto, quanto o King Jim e o Jimi. O Jimi foi o que ficou mais tempo na lista de espera para o transplante. E assim surgiu a banda. O King Jim, que toca saxofone, só foi tocar sax depois de dois anos. Ele ficou um bom tempo sem poder tocar sax, mas ele é da banda.

Aí a gente começou a fazer as aulas-show, o que funcionou muito bem. Porque levávamos um médico para fazer a fala do processo todo da doação, e eles fazendo o show e dando seus depoimentos. E aquilo ali foi muito rico. Acho que isso foi o início do projeto Cultura Doadora. A partir dali começamos a fazer bons trabalhos dentro de universidades, fizemos imersões em escolas municipais e estaduais. E então começamos a ver que podia não ficar só em escola, porque as pessoas começaram a nos chamar para outras coisas. E a gente foi desenvolvendo algumas falas em lugares fora do comum.

4 – E de 2014 para cá, quais foram os resultados efetivos que vocês conseguiram?

Glaci Borges: Na verdade, de 2012 para cá, podemos dizer que chegamos diretamente em quase 15 mil pessoas. Porque onde abria um espaço para a gente entrar, eu estava lá. Acho que eu aproveitei muito bem esses espaços. E começamos a fechar parcerias, sempre com as OPOs (Organização de Procura de Órgãos) dos hospitais, tanto com a PUC quanto com a Santa Casa, os médicos sempre nossos parceiros. Fui me envolvendo bastante, porque teve um envolvimento com pessoas que estão na lista de espera e com os pós-transplantados também. Eu me aproximei de algumas pessoas, algumas que, infelizmente, morreram na lista. Tudo é muito lento nesse processo. Tudo é muito conversado para se fechar uma palestra. Quem é o público? quem é que vai falar? é muito formiguinha, como Dr. Valter Garcia me dizia.

5 – Qual é a maior dificuldade para fazer chegar essas informações nas escolas e universidades?

Glaci Borges: É encontrar pessoas sensíveis a causa. Não é o diretor, não é o pedagogo, não é o coordenador. Tem que encontrar uma pessoa sensível que pelo menos já ouviu falar sobre isso, ou teve alguém, ou conhece alguém que transplantou, ou conhece alguém que morreu na lista, ou conhece alguma família doadora. Essa pessoa sensível é que abre a porta. Não tem outra maneira. Por exemplo, nós temos um trabalho muito bonito no IPA, onde encontramos uma psicóloga. Eu liguei para lá, para a Faculdade de Enfermagem, e conheci a Fabiane Bock, uma enfermeira, coordenadora do curso de enfermagem, e naquele momento, imediatamente, ela disse: “Eu quero. Eu conheço o King Jim.” Esse detalhe é muito importante, o “Eu conheço uma pessoa que esteve no processo”. Pelo menos ter uma referência ou já ouvir falar de uma pessoa. Porque as pessoas acham que isso nunca vai acontecer com elas.

Em 2017, teve uma coisa muito significativa que foi a pauta do jornal Extra Classe – de dois em dois anos eles fazem um caderno especial sobre a doação de órgãos. Temos uma parceira, que é a Naara Vidal Nunes, e do final de 2015 até início de 2017, ela estava esperando por dois pulmões, e ela era nossa parceira para tudo, aonde a gente ia ela ia junto, com seu oxigênio. Ela tinha oxigênio 24 horas por dia, e ela tinha uma excitação muito grande, sabendo do risco altíssimo que estava passando. Em 2017, naquele momento, a Naara seria a pauta para o nosso jornal, ela ia dar entrevista porque ela era nossa parceira. E quando eu liguei, quem atendeu foi o marido dela. Eu disse: “Paulo, eu gostaria de falar com a Naara.” Ele me disse: “Tu não vais conseguir falar com a Naara.” E eu disse: “Poxa, o que é que houve?” Me assustei, porque ela estava muito mal. Ele disse: “Ela está transplantando.” Então aquilo me mostrou que a gente estava no caminho certo. Porque, de alguma maneira, não necessariamente as pessoas que hoje doam órgãos ouviram nossa palestra, mas percebemos que quanto mais a gente fala, a coisa vibra de uma maneira diferente.

6 – É uma questão delicada falar sobre a morte?

Glaci Borges: Falar da morte, achar que isso nunca vai acontecer. Quem consegue pensar sobre isso, quem consegue ter uma portinha aberta para imaginar que isso possa acontecer, não necessariamente consigo, mas com alguém próximo, essa pessoa vai se sensibilizar e vai abrir a porta pra gente. Então eu fui fazendo esse caminho. Em muitas escolas eu chego na coordenadora pedagógica, com quem eu vou conversar, ela me atende, me escuta, mas nunca mais me retorna. Muitas vezes isso acontece. Então eu acabo chegando e entrando nos lugares por pessoas que alguém encontrou em algum lugar e que essa pessoa indicou nosso projeto, conversou e disse “olha, vou te dar uma referência.” Essa particularidade, ela é muito significativa.

7 – Estamos falando de medo e de dificuldades. Além da dificuldade em aceitar a morte, quais são as dificuldades ou mitos em relação a doação de órgãos?

Glaci Borges: Tem uma coisa, num primeiro momento, que é uma pequena demora na entrega do corpo. Até entregarem o corpo de volta para a família para ela poder velar e fazer os atos fúnebres tem um tempo que pode durar até 17 horas. É um processo que muita gente não aguenta. Dá para entender também, né? São pessoas que, às vezes, estão dentro de um hospital há 30, 45, 60 dias, e elas estão exaustas. Elas não querem esse tempo. Isso é uma coisa que se respeita muito. Todos os “nãos” que são dados são respeitados. Mas em primeiro lugar tem o “não falamos sobre isso.” A principal desculpa que é dada é “a gente nunca conversou sobre isso e a gente não tem interesse.” Segundo: “o corpo vai ficar deformado, vão entregar um corpo deformado.” O corpo é entregue completamente íntegro. Se a família não informar que aquele ente foi um doador, ninguém vai saber. Tanto córneas, como pele, como os órgãos, não tem, não existe nenhuma deformação no corpo. Outros dizem: “ah, mas a gente não quer que o corpo seja mais invadido do que foi.” No caso de pessoas que sofreram um acidente ou em alguns casos que tem que ir pro IML (Instituto Médico Legal), esse corpo vai ser invadido também. Então tem coisas que precisam ser bem ponderadas. Outra: “ele dizia que não queria ser doador, porque ele ia entrar no hospital e não ia ter morrido direito e iam roubar os órgãos dele.” Então, o que acontece? Quando a família é entrevistada, o atestado de óbito já está assinado. São dois médicos e um exame de imagem que confirmam a morte encefálica. Na hora que esse exame é feito e está confirmada a morte encefálica, é assinado o atestado de óbito. Aí é que a família vai ser entrevistada, que se conversa com a família. A gente está mostrando: “ele está morto”.

8 – O que caracteriza a morte encefálica e o que caracteriza o coma?

Glaci Borges: O coma é uma pessoa que está dormindo e tem atividade cerebral. Por exemplo, o coma induzido. Uma pessoa que fez uma cirurgia ela fica num coma induzido para baixar as atividades cerebrais dela, para o corpo entrar num estado para poder se refazer, ter mais força, mais energia para isso. Todo o corpo fica numa baixa atividade. Mas essa pessoa está em coma, ela está viva. Ela tem atividade cerebral. A morte encefálica é uma perda irreversível, não tem volta. Do coma, as pessoas acordam. Da morte encefálica, ninguém acorda. Por quê? Porque morre o tronco encefálico. Existe uma pressão tão grande na cabeça que não deixa com que o sangue suba para circular no cérebro. E os exames de imagem mostram isso. E, claro, existem dois médicos que fazem o diagnóstico, eles são capacitados, tem médico neurologista ou médico intensivista, que trabalha na UTI, e eles fazem alguns exames clínicos, de botar água no ouvido, passar cotonete no olho, alguns casos em que, imediatamente, a pessoa, se estivesse viva, reagiria, mesmo estando dormindo.

A pessoa que está em morte encefálica, ela está dentro de uma UTI, ou de uma emergência, com respirador artificial, recebendo medicações para que o coração continue batendo, o pulmão continue em atividade e o organismo continue recebendo sangue. Porque nenhum órgão pode parar. Se o órgão pára, se perde esse órgão. Essa pessoa está morta, mas ela está quente, com o coração batendo, com o pulmão em movimento, dentro de uma UTI ou de uma emergência. Se a família aceita doar, vai para o processo de doação. Se a família não aceita doar, são desligados os aparelhos e é entregue o corpo.

Aí as pessoas perguntam: “mas como que desligam os aparelhos?” Porque ela está morta. E isso é por lei, o hospital faz isso por lei. Porque aquele corpo está ocupando uma vaga numa UTI ou numa emergência, aonde você tem um monte de gente esperando por uma vaga.

E a pessoa em coma, uma hora ela pode acordar. A diferença é muito significativa, é só ver o exame de imagem. A gente tem os exames que a gente leva para as palestras, que são muito significativos. Quando existe atividade cerebral se enxerga um crânio com atividade cerebral. E o exame, quando não tem nenhuma atividade cerebral, o crânio está vazio, o cérebro está parado, não tem nada, não tem nem uma veia que esteja recebendo sangue. Isso é uma das coisas mais importantes das pessoas entenderem.

9 – O Vale do Caí, aqui no Rio Grande do Sul, era uma região com 0% de doadores, e em um determinado momento vocês iniciaram um trabalho bem específico a partir da cidade de Montenegro. O trabalho deu tão certo que a região chegou ao índice atual de 62% de doadores. Pode nos falar um pouco sobre o trabalho desenvolvido naquela região?

Glaci Borges: Isso tudo começou em 2017, quando fizemos um encontro aqui na Fundação Ecarta, uma homenagem aos profissionais que trabalham conosco, nossos parceiros. Num determinado momento, uma das enfermeiras da OPO da Santa Casa, que é a OPO que dá suporte para vários hospitais dessa região – são 22 hospitais, se não me engano, e entre eles o hospital de Montenegro – uma das enfermeiras comentou que Montenegro era uma cidade que tinha 100% de negativa, e aquilo me deixou impactada. “Mas por que será que Montenegro? Será que eles são maus?” Até fizemos essa brincadeira. E a gente não tinha nenhuma informação sobre esse assunto. E isso ficou guardado em mim.

Uma semana depois, fui convidada para fazer uma palestra sobre a Cultura Doadora na cidade de Portão. Fui lá falar sobre a Cultura Doadora, sobre o processo, como é que funcionava esse projeto. E logo que eu saí da fala, foi para o palco uma médica, a Dra. Tatiana Michelon, nefrologista de Montenegro. Portão também utiliza muito esse hospital de Montenegro. Ela disse que tinha muitos pacientes em lista, inclusive de Portão. Muitos ali eram pacientes dela, por isso que ela tinha sido convidada para estar nessa fala e ela achava que era importante, porque ela tinha muita gente em lista e achava que alguma coisa precisava ser feita, que ela tinha visto uma luz ali adiante.

Quando terminou o evento, ela veio conversar comigo. Nós nos olhamos e dissemos “precisamos conversar”. E naquele momento, junto com ela, chegou o Marcelo Fiori, que é um jornalista do jornal Ibiá, que também não tinha essa informação e ficou bem impressionado com esse assunto. E naquele momento nos olhamos e dissemos: “Vamos fazer um trabalho em Montenegro ano que vem?” “Vamos levar o Cultura Doadora?” ela perguntou para mim. E eu disse: “mas com o maior prazer, doutora”.

A partir dali, começamos a estruturar o que faríamos. Ficamos novembro e dezembro conversando muito por telefone. E começamos em fevereiro de 2018, na escola Sinodal Progresso. E daquele momento em diante fizemos muitas palestras. Ela como médica do Hospital Montenegro, 100% SUS, e o Marcelo pelo jornal Ibiá nos abriu um espaço muito significativo, porque ele se comprometeu a cobrir todos os movimentos que nós fizéssemos em Montenegro. E a Dra. Tatiana pediu muito nossa ajuda porque o hospital precisava montar uma CIHDOTT, uma Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes, porque o hospital é uma referência naquela região, porque ele é um hospital grande e que atende todos aqueles municípios à volta. Muito poucos chegam a Porto Alegre hoje, porque eles conseguem dar conta daquela região. É um hospital extremamente preparado.

Então, o que aconteceu naquele ano foi que, além de fazer todas essas palestras, a gente se propôs a dar suporte para criar a CIHDOTT do hospital. O jornal Ibiá nos deu total apoio, e tivemos matérias durante o ano todo. Era pulverizado, mas sempre tinha um assunto. Em uma semana ia alguém falar sobre a entrevista familiar, na outra semana alguém falava como se transporta os órgãos, como é que funciona a OPO cirúrgica. A gente conseguiu fazer com que esse assunto ficasse em pauta o tempo inteiro ao longo de um ano.

10 – Em média, quantas palestras foram feitas na região de Montenegro, no Vale do Caí?

Glaci Borges: Foram 32 palestras em Montenegro. Depois disso, começou a reverberar, porque como o hospital é mantido pelas senhoras da OASE (Órdem Auxiliadora de Senhoras Evangélicas), que é uma congregação religiosa de evangélicas, as OASEs da região ficaram sabendo. A primeira OASE que nos chamou foi a da cidade de Maratá, a segunda foi a da cidade de Brochier. Agora já tem a terceira nos chamando, em São Pedro da Serra. E a partir dali começamos a falar com as comunidades da região. E na palestra em Brochier estavam a Secretária da Educação e a Secretária da Saúde do município, que já nos levaram para fazer outras cinco palestras na cidade. E isso foi um efeito dominó. Onde as pessoas assistem nossas falas, uma vai chamando a outra. Então, em Montenegro, em 2018, fechando o ano, nós tivemos 62% de doação, e tivemos a captação de 28 órgãos.

11 – Ou seja, de 100% de negatividade, Montenegro pulou para 62% de positividade?

Glaci Borges: No início do processo de Montenegro um dos diretores do hospital, naquele momento, ficou muito emocionado com o que a gente estava começando e disse: “Vamos transformar o Vale do Caí num vale doador.” E a gente está trabalhando para isso. As meninas lá já estão extremamente capacitadas para poder fazer muita coisa, continuamos dando todo apoio para elas. E foi isso que aconteceu. Foram captados 28 órgãos e foram transplantados 17 órgãos. Eles são captados em Montenegro, a OPO cirúrgica sai de Porto Alegre, vai lá, capta os órgãos e traz tudo para Porto Alegre, e aqui é distribuído para os transplantadores. Porque aqui, como são ligados ao OPO 1, da Santa Casa, provavelmente os órgãos serão transplantados na Santa Casa.

12 – Quais são os centros de transplantes no Rio Grande do Sul?

Glaci Borges: Santa Casa, Hospital da PUC, que é um altíssimo centro transplantador, Hospital de Clínicas, Hospital Moinhos de Vento. Lajeado já está transplantando rins e córneas. Acho que é isso que tem no Rio Grande do Sul. Não tenho certeza, mas acho que é isso. Nós somos uma referência em transplantes para o Brasil todo, e todos os órgãos captados na região sul, por Paraná e por Santa Catarina, vêm para Porto Alegre.

13 – Quais são os órgãos mais transplantados?

Glaci Borges: Se consegue muito fígado e rins, que é o que mais se transplanta aqui no RS. Córneas também. Perdemos muito pulmão, porque é o único órgão que tem contato direto com o ar, então, ele infecta. O pulmão e o coração são órgãos muito difíceis de ser captados, porque eles são os primeiros a serem perdidos. Eles recebem muita medicação para continuar funcionando. Enquanto aquela pessoa que está morta, para os órgãos continuarem sendo oxigenados, o coração e o pulmão estão recebendo a medicação. Então são os primeiros que se perdem.

14 – Pelo que estou entendendo da sua fala, há uma sintonia muito grande entre todos os profissionais envolvidos nesse processo.

Glaci Borges: E quanto mais qualificado estiver esse processo, melhor vai estar a saúde no seu todo. E eu sempre reforço que a doação de órgãos acontece muito em função da CIHDOTT. Da equipe de enfermeiros e psicólogos, ou assistentes sociais, alguns hospitais têm assistente social. São eles que fazem o contato e que acolhem a família. E são muitas as mulheres que atuam nesse processo. Mas aqui em Porto Alegre nós temos também uma referência muito boa, do Hospital da PUC, que é o Dagoberto Rocha, doutor em enfermagem, ele é muito capacitado para isso, e no Hospital da PUC eles também têm um trabalho muito bonito. Geralmente todas as pessoas têm uma capacitação muito grande. E é muito importante que cada vez haja mais capacitação dessas pessoas para ampliar esses quadros, porque é uma situação muito difícil. Eles conversam com as pessoas quando elas acabaram de perder alguém, é o pior momento para aquela família. Não se sabe quanto aquela pessoa que partiu representava. Muitas vezes era a base da família, e tudo se desconfigura. Então, para fazer uma entrevista com o familiar, é preciso todo o tempo do mundo, toda a amorosidade do mundo, para poder esperar que aquela família reaja, sofra, grite, chore, para que ela entenda que aquela pessoa tem o direito de ter os seus órgãos transplantados em outra. Porque eu acho que a gente tem esse direito de continuar vivo no outro.

Não desprezando os médicos transplantadores, que são geniais, maravilhosos e imprescindíveis, mas eu ainda acho que o enfermeiro é a profissão mais importante do mundo. Porque quem está no processo de fragilidade de uma doença sabe a importância deles. A gente olha para eles, sabe que eles estão ali, e sabe que se a gente precisar eles são as primeiras pessoas que vão nos atender. E precisamos considerar também a equipe da família doadora, que é de um valor inestimável. As pessoas que estão em lista, os transplantados, quando a gente consegue mostrar em nossas palestras todo esse conjunto de pessoas, falar do processo e ter essas pessoas para darem seus depoimentos nas palestras que a gente leva, a população sai dali, realmente, muito mexida e muito transformada. E é isso que a gente vai seguir fazendo.

15 – Qual a mensagem a se deixar para que as pessoas sejam doadoras de órgãos?

Glaci Borges: Eu acho que tem uma fala que é muito importante, que é a de que a doação de órgãos é o único braço da medicina que depende da sociedade. Por isso, aonde a gente vê que precisam e onde quiserem nos levar a gente vai lá para conversar sobre doação de órgãos. Porque em quase todas as cidades do estado hoje tem uma pessoa transplantada ou em lista. Esse número está aumentando cada vez mais, porque as pessoas estão vivendo mais. Precisamos ter esse olhar. É um tratamento, o transplante não é uma cura, a gente sabe disso. Então, se é um tratamento, esse tratamento tem que ser oferecido para o maior número de pessoas. E também é importante lembrar que 98% dos transplantes que acontecem no Brasil são feitos pelo SUS. A pessoa pode ter um plano de saúde, mas quando ela necessita de um transplante, imediatamente ela passa para o SUS e o atendimento é igual para quem tem dinheiro e para quem não tem. Então isso é muito rico e essa é a importância da gente lutar e preservar esse sistema de saúde que é único e intocável. A gente precisa cuidar muito disso para isso não se perder.

Conheça mais sobre o Projeto Cultura Doadora em:

https://www.ecarta.org.br/projetos/cultura-doadora/apresentacao-3/

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Glaci Borges – Foto de Igor Sperotto

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