Vinicius Vieira: “A obra de arte permanente, pública, vem perdendo sua importância”

© Nilton Santolin 2019

Vinicius Vieira / Foto de Nilton Santolin

No momento em que manifestações artísticas em espaços públicos voltam ao debate, gerando discussões principalmente nas grandes cidades, entrevistei com exclusividade o arquiteto, urbanista e artista plástico Vinicius Vieira. Graduado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Vinicius tem como foco de atuação a produção de obras de arte em espaços públicos, instituições e edifícios, tendo realizado dezenas de intervenções de grande porte em diferentes técnicas, incluindo pinturas, painéis e esculturas em materiais como aço corten, inox, granito, mármore, resina, bronze e alumínio. Em Porto Alegre é autor de obras públicas na Av. Carlos Gomes, na Praça da Alfândega, na Av. Goethe, no bairro Menino Deus, na UFRGS, na UFCSPA, na saída do Túnel da Conceição, no Parque Farroupilha, na Av. Cristóvão Colombo, entre outras. Já participou de mais de 50 exposições nos últimos 15 anos e possui obras nos acervos do Museu de Artes do Rio Grande do Sul – MARGS, do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/RS) e de diversos colecionadores brasileiros. Dentre as questões abordadas durante a entrevista, Vinicius, que também integra o Conselho Estadual de Cultura (CEC-RS), fala do “avanço significativo das manifestações efêmeras” no campo das artes, lembrando que “desde a década de 60, cada vez menos a iniciativa privada estava entendendo a obra de arte como algo essencial”. O artista destaca ainda que no campo do urbanismo as revisões dos planos diretores se dão, em média, a cada dez anos: “estamos vivendo esse processo agora, inclusive em Porto Alegre. Esse é o momento de debater a importância da arte pública”.

Eis a entrevista:

1 – Vinicius, qual o conceito ou noção de arte pública?

Vinicius: As obras de arte, quando situadas em lugares de grande visibilidade, se tornam bens de natureza material portadoras de identidade e de memória das coletividades. Nesse contexto, as obras de arte tem um papel muito maior do que o objeto em si. No âmbito contemporâneo, a obra de arte está associada a um lugar, ela nasce como fruto de um processo oriundo daquele lugar. Claro que tem exceções nesse sentido. O próprio conceito de manifestação pública contemporânea de artes visuais tem essa necessidade do lugar como algo relevante, não só importante, mas relevante e necessário para que a obra tenha essa afinidade. A gente tem diversos exemplares recentes nesse contexto, mas cada vez menos manifestações públicas de artes visuais têm acontecido em caráter permanente. Percebemos um avanço significativo das manifestações efêmeras. A gente vê feiras, eventos, instalações acontecendo em diversos processos contemporâneos, e a obra de arte permanente, pública, aquela mais tradicional, ela vem perdendo sua importância. Então, percebemos também vários movimentos de tentar ressignificar e trazer à tona de novo a importância dessas manifestações de caráter permanente, porque elas guardam a memória de uma determinada época. De certa forma, a arte pública tem esse papel não só do artista poder se manifestar no espaço público, mas de deixar esse legado construído em um material rígido o suficiente para que as próximas gerações entendam o que aconteceu nessa época e tenham esse legado transmitido nos próximos anos.

2 – Podes nos dar alguns exemplos de arte pública, de obras que se caracterizaram ou se caracterizam como um marco no ambiente urbano de Porto Alegre?

Vinicius: Temos desde obras de arte que são recentes, dos últimos 30 anos, que são obras que se caracterizam como monumento – a palavra monumento está associada a uma homenagem a alguém, através de alguma liderança comunitária, alguém que teve um papel importante na sociedade, ou mesmo em outra esfera, ou uma referência a uma data comemorativa, isso é o que caracteriza monumento –, e um exemplo que a gente pode destacar como um monumento no âmbito contemporâneo é uma obra de arte de 2004, do André Venzon, em Porto Alegre, que é fruto de um concurso público realizado pela Federação Israelita do Rio Grande do Sul, onde participaram diversos artistas e organizações. Ela fica ali no encontro da Rua Fernandes Vieira com a Avenida Osvaldo Aranha, junto ao antigo Mercado do Bom Fim (embora no local da obra não haja título que a identifique, porque, segundo André Venzon, não permitiram ficha técnica, o artista a intitulou “Nada está perdido para sempre”). Temos outras manifestações artísticas anteriores a essa, também frutos de concurso público, que são do Espaço Urbano Espaço Arte, uma iniciativa bem bacana da municipalidade no governo popular, na década de 1990, que conseguia destinar um recurso anual para que as obras de arte fossem construídas no espaço público através de concurso. Claro que hoje elas não estão em condições adequadas para visitação e para o diálogo com a comunidade. Não estão bem cuidadas, mas são obras que vieram nesse contexto. Teve um projeto que eu participei e que teve início na virada do século, depois ele se constituiu e só veio a ser executado a partir de 2008, 2009.

3 – Isso eu queria te perguntar: De que forma a tua produção artística se insere no contexto urbano?

Vinicius: Esse projeto que eu participei é o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre, que surgiu a partir de uma demanda do Centro de Referência Afro-brasileiro, o Crab, que reuniu diversas organizações que atuam no Rio Grande do Sul: participaram Angola Janga, o Instituto de Assessorias de Comunidades Remanescentes de Quilombos (IACOREQ), o Movimento Negro Unificado (MNU) e diversas outras instituições que construíram um comitê gestor para organizar, e tinha também um grupo de artistas. Esse grupo de artistas se reunia no castelinho do Alto da Bronze para discutir ideias e concepções, e foram fruto dessa construção coletiva quatro obras: o Tambor, na Praça Brigadeiro Sampaio; a Pegada Africana, na Praça da Alfândega; o Bará do Mercado, no centro do Mercado Público e o Painel Afro-brasileiro, ali no Chalé da Praça XV. Então, a partir dessa experiência de cunho artístico-político, junto a essas organizações do movimento negro, que culminou nesse projeto do Museu de Percurso do Negro, eu passei a desenvolver o trabalho que eu já tinha com um universo de pesquisa em caráter de desenho e escultura no atelier, a trazer ele para a rua. E nos últimos doze anos, de 2008 até agora, eu venho trabalhando com projetos para o espaço público, procurando manter essa identidade original do trabalho que eu vinha desenvolvendo a partir dessa pesquisa, mas dialogando também com outros personagens, outros fatores que vão fazendo o trabalho se transformar.

© Nilton Santolin 2018

Painel Afrobrasileiro, 2014. Mosaico cerâmico. 100 x 600 cm.
Obra de Pelópidas Thebano em parceria com Vinicius Vieira, instalada no muro do Chalé da Praça XV, integrando o Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre. Foto de Nilton Santolin.

4 – Além dessas obras que hoje estão no espaço público, tens te dedicado a trabalhar com obras para espaços privados, sejam espaços comerciais ou jardins de prédios residenciais. De que forma se deu o início desse teu trabalho e a partir de que momento isso começa a ficar mais latente na tua produção?

Vinicius: Pensando que o espaço público é aquilo que a gente enxerga, lembrando um pouco das ruas do Bom Fim dos anos 80, quando não tinha grades na frente dos edifícios e nós sentávamos na calçada de mármore do acesso dos edifícios, porque hoje tem uma grade a 4 metros de distância, aquele espaço visual, o recuo do jardim, ele pode ser interpretado ainda como espaço público. Pensando em artes visuais, até considero como um espaço público esse território privado nos quais essas obras estão.

E eu tenho um sonho que um dia um prefeito tire todas as grades da cidade. Estou falando isso porque eu acho que essas obras na frente dos edifícios são obras que, no campo das artes visuais, podem ser entendidas como públicas. O próprio processo que resultou com que hoje a gente tenha obras de diversos artistas espalhadas na cidade – e hoje, no universo da Lei 10036/06, em poucos anos de aplicação, deve ter mais de 100 obras de mais de 40 diferentes artistas na cidade de Porto Alegre – esse processo nasceu e se concretizou nessa Lei das Obras de Arte, inspirado em diversas cidades do mundo que estavam fazendo leis semelhantes.

Desde a década de 60, cada vez menos a iniciativa privada estava entendendo a obra de arte como algo essencial, assim como é essencial ter o jardim na frente do edifício, assim como é essencial ter a calçada para a acessibilidade universal. A obra de arte foi sendo deixada de lado. Cidades como Recife, Teresina, Florianópolis, diversas cidades brasileiras, e também Nova York, Chicago e Paris têm leis que entendem as artes visuais no contexto de um edifício como algo essencial para a vida humana. Então, a partir do momento em que essa lei foi colocada em prática aqui em Porto Alegre, eu tive a oportunidade de fazer diversas obras para edifícios. Mas sempre mantendo a minha identidade original.

5 – O que essa lei nos diz ou regulamenta? Foi uma demanda dos próprios artistas?

Vinicius: A Lei 10036/06 teve os primeiros esboços ainda na década de 1990 e foi apresentada na Câmara de Vereadores em 2005 por um grupo de artistas e de diversas organizações, dentre as quais a Chico Lisboa e a Associação dos Escultores do Estado do Rio Grande do Sul. Ela foi aprovada em 2006, mas só foi regulamentada pelo prefeito José Fortunati em 2011, depois de seis anos da sua aprovação. De acordo com essa lei, todos os projetos arquitetônicos com mais de 2000 metros quadrados de área adensável, que é uns 3000 de área total, aprovados na cidade de Porto Alegre, a partir do projeto protocolado em outubro de 2011, eles precisam incluir uma obra de arte. Em 2014/2015, quando esses prédios começaram a ficar prontos, e como essa lei está vinculada ao Habite-se, começaram a surgir os primeiros exemplares. Então, hoje, nós temos quase cinco anos de aplicação da lei e quarenta e poucos artistas tiveram oportunidade de trabalhar, resultando em cerca de 110, 120 obras espalhadas em Porto Alegre. Em breve, a cidade vai ser uma galeria a céu aberto.

© Nilton Santolin 2018

Inversões, 2018. Aço. 1,3x3m.
Obra de Vinicius Vieira, instalada em edifício na Av. Cristóvão Colombo, 2955, em Porto Alegre. Foto de Nilton Santolin.

6 – Do ponto de vista da gestão pública, como é que as cidades poderiam ser planejadas de forma a privilegiar ainda mais a presença da arte nos seus espaços?

Vinicius: Observando outras cidades em iguais condições que a nossa, percebemos vários instrumentos possíveis de conseguir fazer com que isso se concretize. Além da própria lei vinculada a uma edificação, outra alternativa seria transferir parte dos recursos oriundos de impostos para abatimento. Por exemplo, tinha um projeto de lei que foi pensado pela Associação dos Escultores, que era os edifícios já existentes terem uma forma de contribuir com a parte do que pagam de IPTU, destinando-o para uma obra de arte que dê visibilidade à população nas suas fachadas. Outro aspecto muito importante de se comentar é a importância de preservarmos as obras de arte que estão no espaço público de Porto Alegre. A gente tinha em torno de 400 exemplares de manifestações artísticas, mas nos últimos anos, com o advento desses furtos e roubos, pichações e vandalismos de diversas ordens, as obras vêm desaparecendo. Então, parte dessa memória vai desaparecendo, talvez por uma falta de apropriação da própria população. Os jovens que se manifestam, que fazem com que parte da sua manifestação se sobreponha a de um monumento é também fruto da carência de um processo no campo da educação e que faça com que se crie um sentimento de pertença com aquele objeto. Então, em Porto Alegre, não temos um departamento exclusivo que cuide da arte pública. Hoje, em nossa cidade, temos muita dificuldade para encontrar um departamento específico que cuide tanto das manifestações novas quanto da preservação daquele legado existente. Carecemos de uma iniciativa nesse sentido. Seria interessante termos um departamento ou alguém a quem se reportar. Não temos nem instrumento e nem pessoas pensando nisso. A situação está nesse abandono. E não é um abandono só físico, ele é um abandono de ideias também.

7 – Como estão as políticas públicas de financiamento para a arte hoje no Brasil? Elas existem? Estão conseguindo suprir a demanda ou a necessidade dos artistas e da população? Ou ainda está muito aquém daquilo que seria o ideal?

Vinicius: A partir da entrada do ministro Gilberto Gil, se constituiu todo um processo positivo de apropriação das comunidades, dos diversos grupos artísticos no Brasil, e se avançou até um aprimoramento que culminou no nosso Plano Nacional de Cultura. O próprio sistema vinha num processo bem bom, funcionando através da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) ou mesmo através do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), até em torno de 2012/2013, quando chegou ao seu ápice. Depois, teve um novo processo eleitoral para o Conselho Nacional de Política Cultural, e as pautas setoriais de cultura do âmbito nacional pensavam as diretrizes, que culminavam em bons editais para as populações. Esses editais todos que a gente viu nos últimos anos, da FUNARTE, Prêmio de Culturas Populares, Prêmio da Cultura Afro-brasileira, ou seja, diversas premiações e diversos editais através de fundo ou prêmio, eles foram oriundos dessa construção política que nasceu desde o início da gestão do então ministro Gilberto Gil, e que se sucedeu por diversos ministros, culminando com a aplicação direta desses recursos a partir de 2010. Pelo menos, é a maneira como eu enxergo. Infelizmente, recentemente, esses conselhos foram esvaziados e agora a gente está vivendo um momento bem ruim. Um exemplo direto que pode ser dado é que agora temos um edital aberto da FUNARTE que destina três prêmios, se não me engano, de R$ 30 mil, R$ 60 mil e R$ 100 mil, para as instituições poderem adquirir obras de arte. Esse mesmo prêmio de aquisição, em outros momentos, foi muito maior. Isso é um reflexo, não somente de alguns editais que deixaram de acontecer, como de outros que permanecem acontecendo, mas que estão com uma quantia muito menor. Também está aberto o edital de prêmio de culturas populares, que é o Prêmio Teixeirinha, mas agora também com muito menos recursos, que ele é mais destinado mais aos pontos de cultura.

Uma coisa importante que a gente pode colocar nesse contexto no âmbito nacional é a Lei Cultura Viva (lei 13018), quando ela foi aprovada, em 2014, um pouco antes da lei 13019, ela escapou um pouco desse engessamento que depois veio com a lei 13019, que de certa forma afasta as comunidades desse processo. Hoje, para tu firmares um termo de cooperação, uma mútua cooperação, ou qualquer termo nesse sentido, para angariar recursos com a União, com o estado ou mesmo com o município, depois da implementação da 13019, aumentou a quantidade de papéis e a burocracia para que isto se constitua. Então aqueles que já estão bem são os que conseguem ser contemplados. Nesse sentido, dá para afirmar que a lei Cultura Viva isentou essas organizações todas desse excesso de burocracia, priorizando assim aqueles coletivos que se constituíram como pontos de cultura, minimizando essa necessidade de atender a grandes exigências. Isso porque o Programa Cultura Viva possui uma lei própria, e isso é um ponto muito positivo.

8 – A arte pública pode contribuir com o planejamento das cidades? De que forma isso seria possível?

Vinicius: Eu acredito que sim. É possível, embora a gente não tenha referências recentes muito boas. No campo do urbanismo, as revisões dos planos diretores se dão, em média, a cada dez anos. E a gente está vivendo esse processo agora, em diversas cidades, inclusive em Porto Alegre. Esse é o momento de debater a importância da arte pública. O plano diretor acaba sendo essa carta que todos vão ter que seguir, a cidade de comum acordo, diversos entes participam dessa construção para poder garantir a arte nesse processo.

A sensação que eu tenho, é que o fomento e o incentivo às artes deveria se dar através de iniciativas que sejam através de seleções públicas, de concurso. O concurso tem um papel importante, e não só pela qualidade do objeto a ser selecionado, que tende a ser melhor. Se a gente garante, através de um plano diretor, que diversas áreas da cidade, aquelas menos favorecidas, vão ter obras de arte, e que esse processo de seleção se dê através de concurso público, a gente tem uma divulgação maior, uma apropriação desse conhecimento por parte das pessoas que não são da área. Esses editais atuais, quando são lançados, eles são muito direcionados do governo, numa relação direta com o artista, que protocola o projeto. Ele é contemplado ou não, e ele o realiza. No momento que a gente faz uma seleção através de um concurso, o concurso tem uma publicidade espontânea, ele tem uma forma de aparecer junto à sociedade que já, por si só, teria esse papel educativo. Isso é uma forma que a gente teria de conseguir garantir que a obra de arte tenha essa visibilidade.

No contexto do planejamento da cidade, poderia se dizer que vivemos um momento de tendência de verticalização do objeto construído. Os edifícios estão cada vez mais altos. Existe uma tensão dos empreendedores que atuam no campo, de construir em altura, o que é algo mais relevante e lucrativo. E até no campo teórico se diz que isso otimiza as relações na cidade. Tu consegues ter um controle maior sobre as zonas e um impacto menor na cidade no momento em que se constrói em altura e se densifica aquelas zonas onde isso deve acontecer, deixando mais horizontal a paisagem em outros pontos. Nesse sentido, nessas áreas onde têm uma densificação maior, principalmente onde tem um maior impacto e tendência de rejeição por parte da comunidade local, a obra de arte pode assumir esse papel de transição. A escala de um edifício e de um pedestre é muito diferente, este tem um tamanho e um edifício tem uma escala monumental. Quando se tem uma instalação artística ali, ela cria uma transição, assim como o jardim. Tu tens um objeto intermediário, que dialoga com o edifício e também com a escala humana. Então ele assume esse papel de mediação na imagem da cidade. Esse também seria um ponto importante para ser colocado pelos arquitetos e artistas agora que a gente está vivendo o debate do plano diretor.

Vou te dar outro exemplo: Quando chega uma edificação nova num bairro, a obra de arte também cria essa relação com a vizinhança. A obra de arte não ocupa lugar, ela cria lugar. No momento em que ela é instalada ali, ela tem toda a ambiência necessária para que as relações possam também começar a acontecer. É animar, de fato, utilizar o conceito de rua animada, da fachada viva, que tanto se fala. Ela tem essa importância nesse contexto, se tornando um ponto de encontro modal. “Onde é que eu vou te encontrar?” “Ah, eu vou te encontrar na escultura em homenagem a Dea Coufal.”, por exemplo, eu não vou me encontrar no posto de gasolina, na esquina da Rua Dea Coufal com a Rua Tramandaí, na zona Sul de Porto Alegre. Eu vou me encontrar junto à escultura em homenagem à Dea Coufal – que foi uma pessoa importante, construiu esse bairro, seu esposo era um empreendedor que construiu todo esse arruamento. Então a placa vai estar ali e cria também essa identidade, contribui a esse sentimento de pertencimento da comunidade local.

© Nilton Santolin 2019

Atlas, 2019. Bronze. 4,5 metros de altura.
Obra de Vinicius Vieira em parceria com Mario Cladera, instalada no edifício JBZ, na esquina das avenidas Carlos Gomes e Anita Garibaldi, em Porto Alegre. Foto de Nilton Santolin.

9 – O que a gente pode aprender com a experiência de outros países e quais seriam os países que poderíamos tomar como referência? Que fizeram investimentos, principalmente nas últimas décadas, em arte pública?

Vinicius: Talvez eu não tenha bem clara a percepção a respeito de em quais países esse é um processo natural, da própria característica das pessoas, do lugar e da cultura, ou o que é garantido a partir de lei. Mas independente de qual é a origem, a gente poderia citar Tóquio, por exemplo, que é uma cidade que tem muitas obras de arte públicas. É uma quantidade realmente bastante significativa. Colocaria ainda Chicago e São Francisco nesse contexto, muito em função de suas legislações. Lá, a lei é um pouco diferente da daqui. Aqui, por incrível que pareça, é mais livre. Até essa demora que teve aqui, entre 2006 e 2011, para garantir a implementação dessa lei das obras de artes nos edifícios, foi porque ela era um pouco rígida e exigia um percentual em cima do investimento do prédio. Quando as entidades flexibilizaram um pouco e permitiram que o construtor utilizasse o percentual que quisesse, acabou sendo aprovada.

Lá em Chicago, em São Francisco, existe um percentual em cima do investimento do prédio. Por isso lá eles têm edifício com uma escultura enorme do Alexander Calder na entrada. Porque aquele prédio precisava ter um investimento milionário, e 1% (não me lembro bem qual é o índice, mas é um percentual sobre o valor total do prédio) fez com que se fosse possível comprar uma obra do Calder, que é um dos principais artistas do mundo.

Então, Chicago, São Francisco, Tóquio e eu colocaria o Rio de Janeiro nesse processo também. Claro que no Rio é muito mais orgânico, por ser também uma capital cultural da América Latina e ter essa ideia muito mais forte no imaginário coletivo dos cidadãos do que em outros lugares, que foi através de lei. Então, o Rio não tem lei para obras de arte em edifícios, mas tem muitas obras de arte pública e muita produção. Inclusive, tem aquele departamento público responsável que não tem aqui, em Porto Alegre, para cuidar das obras de arte especificamente, tanto para as novas instalações quanto para cuidar da memória daquelas que as antecederam.

10 – De que forma a participação cidadã pode contribuir, ajudar a promover a construção de espaços urbanos que deem à arte um papel de destaque?

Vinicius: Tem algumas referências que podem ser trazidas para isso. As organizações no Rio Grande do Sul são muito tenazes nesse sentido e construíram formatos como a Lei do Artista de Rua, que é uma batalha antiga do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão, SATED/RS, que garantiu que a Lei dos Artistas de Rua fosse implementada e colocada em prática.

Hoje a gente tem em Porto Alegre uma lei, que infelizmente não está sendo cumprida e ainda se tem uma série de restrições para os artistas se manifestarem. Mas ela atende não somente o pessoal da área das artes cênicas, quanto o artesanato, as artes visuais, todo mundo, teoricamente, tem direito a produzir no espaço público. Então isso é um exemplo, abro esse exemplo para mostrar que é fruto de uma participação direta da comunidade, de associações de pessoas interessadas que, em parceria com o sindicato, naquele momento, garantiram a implementação da Lei de Artistas de Rua.

Eu vejo que a forma de realizar isso hoje, nesse contexto de maior fragilidade das organizações, com os próprios sindicatos passando por um processo bem difícil, estrutural, inclusive, é as comunidades se reunirem e conseguirem ter o entendimento de que a arte é importante, através dos mecanismos de participação.

Só que, infelizmente, a arte é a primeira a ser cortada, sempre. Ainda mais as artes visuais, que exigem um investimento significativo, principalmente aquelas no espaço público. Uma obra para permanecer à intempérie ela custa R$ 50 mil, R$ 100 mil para que consiga ser durável o suficiente.

É pouco provável, em função das necessidades que a gente está vivendo na sociedade hoje, de segurança, de educação, que uma região do Orçamento Participativo vá estabelecer como prioridade uma obra de arte pública, numa assembleia da sua regional. Eu não me lembro de isso ter acontecido nem nos momentos áureos da cidade, quando se tinha condições para atender a isso.

A participação popular tem que estar associada a uma destinação de verba já garantida na esfera pública, através de lei, ou através de um direcionamento de um recurso público para isso. E daí, por sua vez, a comunidade vai decidir qual seria o conteúdo desse recurso a ser aplicado. Mas o processo natural, na nossa situação atual, a inserção cultural que a gente tem no Brasil não é suficiente, por si só, para garantir que seja estabelecido como prioridade.

11 – Podes nos dar exemplos de obras que modificaram de alguma forma nossa paisagem? Qual foi o impacto dessas obras na cidade e que mudanças aconteceram a partir do momento em que elas passaram a compor a paisagem urbana?

Vinicius: Tem duas obras fisicamente muito próximas e de épocas distintas, hoje, na cidade de Porto Alegre. Uma delas é o monumento ao Zumbi dos Palmares, de 1999 ou 2000, e a outra é o monumento aos Açorianos, de 1974. As duas ficam próximas à ponte dos Açores. O monumento aos Açorianos, de 1974, é a primeira obra em aço corten instalada no Rio Grande do Sul, é de autoria do Carlos Tenius e mudou aquela paisagem. Ela é muito criticada por alguns urbanistas, não a obra de fato, mas a forma como ela foi instalada, porque está dentro de um conjunto de arruamentos e de um planejamento, onde, naquela época, se rasgaram as avenidas e aquele tecido urbano foi um pouco rompido nesse processo. Essa obra, de certa forma, integra um arruamento urbano onde foi cortada a relação do bairro Cidade Baixa, território negro, com o centro de Porto Alegre. Era um fluxo contínuo de pessoas ali, que aconteceu durante mais de 100 anos, e ele foi interrompido. Então, uma comunidade, para ser representada, acabou, talvez sem intenção, não priorizando a relação com a história das lavadeiras, com aquele braço do Dilúvio que tinha ali. Ela acabou cumprindo um papel que, talvez hoje, no contexto atual, nas pesquisas todas que se sucederam, principalmente em relação à matriz afro-brasileira em Porto Alegre, não aconteceria. Creio que talvez tenha sido por falta de conhecimento naquela época que a prefeitura e o artista fizeram isso.

Em contrapartida, nos anos 1999-2000, o monumento ao Zumbi dos Palmares – fruto de um concurso público –, da artista Cláudia Stern, é uma lança, reterritorializando aquele lugar. A lança do Zumbi hoje, perto do largo que carrega esse mesmo nome, o largo Zumbi dos Palmares (antigo largo da Epatur), é uma lança que acaba no solo, envolta por uma base de concreto que tem a palavra liberdade gravada nela. Ao longo do dia, conforme vai passando o sol, cada uma das letras da palavra liberdade vai sendo iluminada. Sobre essas duas obras, ao que me parece, a “lança” é uma resposta a essa intervenção um pouco mais agressiva no tecido urbano promovido pela prefeitura na época, em 1974. As duas mudaram, a primeira mudou a paisagem, a segunda tenta resistir, uma lança cravada.

12 – Existem obras que interferiram de forma a não contribuir esteticamente com o ambiente urbano? Temos algum exemplo desse tipo?

Vinicius: Tenho algumas restrições a me manifestar nesse sentido, claro que tenho uma opinião pessoal, toda vez que a gente olha para uma obra, internamente a gente estabelece através dos nossos juízos o que seria adequado ou não. Mas acho que mesmo aquelas obras que são criticadas por parte da opinião pública, pelo próprio fato de estarem sendo visíveis nesse contexto, favorecem a arte. Trago aqui um exemplo: quando o saudoso vereador Bernardino apresentou um projeto de lei que buscava fazer com que a Câmara de Vereadores começasse a estabelecer o que seria e o que não seria arte na cidade, houve uma reação, um fortalecimento e uma união da comunidade artística que foi positiva em contraponto a esse projeto de lei. Então, o próprio existir das obras que, por consequência, faz com que as pessoas se manifestem contra e inclusive elaborem projetos de lei nesse sentido, faz com que a comunidade se organize e demonstre que não deve ser assim.

Eu gosto da obra do Saint Clair Cemin, a chamada “Super Cuia”, e eu sei que aquela é uma obra que muita gente olha de outra forma. Mas sua existência por si só, já faz com que a gente reflita sobre sua importância ou do tradicionalismo gaúcho como ele se coloca ali. A importância ou não de uma obra que tem uma liberdade estética, que não necessariamente precisa agradar a todos.

Mas eu acho que, de todas as manifestações artísticas que a gente tem, como teatro, dança, circo, artes visuais, música, todas essas tu tens a oportunidade da escolha de não conviver. Tu tens a oportunidade de escolher ir para o teatro, como tens a oportunidade de não olhar para a obra Super Cuia. É possível tu saberes da existência e não olhar. A única manifestação cultural que a gente é obrigado a conviver é a arquitetura. A arquitetura, a gente é obrigado a usar o espaço, por pior que ele seja. Então, eu penso que, se tem uma manifestação cultural que poderia ser objeto de algum questionamento estético, é a arquitetura, porque ela carrega a forma associada à função. Quando é a forma por si só, só o elemento estético, sem uma função de uso, cai em um aspecto mais de opinião, e por melhores que sejam as justificativas, a gente não consegue fazer através de um bom texto com que as pessoas compreendam e mudem de opinião. Então, num contexto urbano, eu tendo a achar que todas as obras de arte são positivas e se justificam a partir do projeto que as instalou.

13 – Nesse sentido, como a arte pública pode contribuir para melhorar a vida das pessoas?

Vinicius: Eu tenho vontade que a arte pública interaja mais. Que as pessoas tenham oportunidade de interagir com ela, que tenha uma proximidade maior. A gente vinha falando muito em forma, em estética, numa pureza do que seriam as artes visuais. O próprio conceito, quando deixou de ser artes plásticas e passou a artes visuais, ele já pressupõe que tenha uma influência contemporânea da fotografia, ou a própria interação nossa com esse objeto. Tem uma obra do Mário Cladera no Parque Chico Mendes, em Porto Alegre, onde se percebe bem a importância da arte na vida das pessoas. É uma escultura, objeto de um concurso público vencido por esse artista, numa zona da cidade que não tem arte, que tem um índice ruim de desenvolvimento humano. Tem todos os problemas de criminalidade do contexto urbano. Mas é uma obra que se consegue interagir com ela. Ela cumpriu todas as etapas, desde um bom projeto, um artista com capacidade, um bom material, numa temática do Chico Mendes, e é uma obra com a qual se consegue interagir. A pessoa entra na obra e a atravessa, consegue tirar fotos, enfim. E ela realmente é uma obra, que faz bater o coração quando se atravessa aquele portal. Então, eu acho que a arte tem esse papel. Falo da obra do Mário Cladera, porque mexeu comigo a primeira vez que eu fui lá e eu percebo que isso também acontece quando tem programas de visitação, de jovens, de escolas que a visitam. Essa obra tem papel multiplicador muito forte, assim como o Painel Afro-brasileiro, que o artista Pelópidas Tebano pintou, fez as pinturas e eu tive a oportunidade de executar o mosaico dessas pinturas dele no muro do Chalé da Praça XV. Toda vez que eu passo ali tem algum jovem negro, algum jovem não negro olhando aquele painel. Eu tenho certeza que aquilo comunica, a obra de arte não está falando sozinha, ela tá militando ali. Então eu acho que a obra tem esse papel militante também.

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