Diálogo e esforço coletivo em defesa da Cultura

jessé oliveira

Jessé Oliveira, diretor da Casa de Cultura Mario Quintana.  Foto: Reprodução Facebook

Este artigo parte de uma análise dos acontecimentos recentes que envolvem a extinção de políticas culturais, o sucateamento dos espaços culturais públicos e a censura às manifestações artísticas, de seus desdobramentos e da repercussão que estes eventos tiveram. Assim, proponho uma reflexão conjunta para pensarmos soluções coletivas de políticas culturais que impeçam o triunfo definitivo da ignorância e da barbárie.

Embora a nível nacional o sentimento de muitos seja de derrota, principalmente com a extinção do Ministério da Cultura e das perdas daí decorrentes – para ficarmos só neste exemplo de retrocesso –, como contribuição, mais que apontar para os ataques que artistas e intelectuais sofreram e vêm sofrendo, intensificados desde o cancelamento da Queermuseu, pretendo pontuar algumas iniciativas individuais e coletivas que, mesmo neste cenário político sombrio, têm contribuído para manter uma agenda de atividades que movimenta a cena cultural gaúcha.

Se no governo passado a Secretaria de Cultura do RS foi transformada em Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer pelo governador José Ivo Sartori (MDB), professor de filosofia, que também propôs a extinção de instituições importantes como a Fundação Zoobotânica, a Fundação Piratini e a Fundação de Economia e Estatística, coube ao bacharel em direito Eduardo Leite (PSDB), que assumiu o Palácio Piratini neste início de 2019, devolver a Secretaria de Cultura aos gaúchos, indicando para a pasta a produtora cultural Beatriz Araújo.

Mesmo com a criticada atuação do governo passado, é importante reconhecermos o trabalho e o legado de alguns profissionais que dele participaram. Poderia falar da boa gestão de Gaby Benedyct no Museu Júlio de Castilhos, mas outro exemplo talvez melhor demonstre o que quero dizer: mesmo com todas as dificuldades, quando profissionais qualificados e competentes são indicados para determinadas funções, não tem como as coisas não darem certo. Foi assim com Jessé Oliveira à frente da Casa de Cultura Mário Quintana (CCMQ).

Diretor de teatro, Jessé assumiu a CCMQ em novembro de 2016, quase dois anos depois da posse de Sartori. Antes dele, no mesmo governo, a direção havia sido ocupada por pessoas com pouca ou nenhuma experiência na área cultural, indicadas sem qualquer critério técnico, bastando seu envolvimento com a campanha que elegeu o então governador. O resultado todos conhecem. Encontrando um centro cultural decadente, com equipamentos sucateados e dificuldades financeiras (o governo anterior, do petista Tarso Genro, realizou uma grande obra de restauração arquitetônica e estrutural do prédio), no segundo dia de trabalho Jessé já estava discutindo a situação em uma audiência pública na Assembleia Legislativa.

Com anos de estrada, entendendo as dificuldades da classe artística e conhecendo os meandros para realizar obras mesmo em situações adversas, Jessé arregaçou as mangas e em pouco tempo transformou a realidade da casa: Além de estabelecer uma programação fixa, contemplando diversas linguagens artísticas, com abertura de editais para a ocupação dos espaços, realizou projetos importantes, como o Teatro de Rua na Travessa, a Casa Dança e o Cenas Diversas, dando visibilidade para a cena negra, a cena LGBT e a cena acessível, com os espetáculos tendo pelo menos uma apresentação com tradução em Língua Brasileira de Sinais.

Em pouco tempo, Jessé renegociou com o Banrisul a verba destinada para a manutenção anual da CCMQ em 2018, aumentando-a de 600 mil para 900 mil, dos quais, 500 mil são repassados via Lei de Incentivo à Cultura e 400 mil via projeto de incentivo direto. Todo esse esforço resultou em inúmeras melhorias: uma equipe fixa de técnicos, a compra de uma mesa de luz e cinco raques para o Teatro Carlos Carvalho, instalação de varas de luz no proscênio e nas laterais do Teatro Bruno Kiefer, troca de todo o sistema de som, com caixas de som (PA), Subwoofer e de retorno para os dois espaços, além de duas mesas de som digital de última geração, que o diretor conseguiu a preço de custo em uma parceria com a empresa fabricante. Ainda foram comprados refletores do tipo lipsoidal par led e par comum para os dois teatros.

No início de 2019, com a troca do governo estadual, contrariando o que geralmente acontece, numa iniciativa incomum, reconhecendo o trabalho de Jessé, a nova Secretária de Cultura não pensou duas vezes ao convidá-lo para permanecer na direção da CCMQ. Beatriz Araújo demonstrou o que se espera de uma gestora: o que deve importar é a capacidade técnica dos profissionais indicados para gerir os espaços públicos, a preocupação com o bom andamento dos equipamentos culturais e com a qualidade da programação oferecida.

Ao reconhecer também a trajetória e o trabalho de André Venzon, convidando-o para voltar à direção do Museu de Arte Contemporânea do RS (MACRS), Beatriz sinalizou não estar preocupada com vínculos partidários. Venzon, que dirigiu o MAC no governo de Tarso Genro (2011-2014), transformou a instituição numa das mais atuantes e prestigiadas daquele período. Um trabalho que não devia ter sido interrompido e que terá agora a chance de um recomeço.

Recentemente, em outro esforço coletivo, Rogério Beretta e Zé Victor Castiel, organizadores do Porto Verão Alegre, doaram cinco aparelhos de climatização de 60 mil BTUs, dois para a Sala Álvaro Moreyra e três para o Teatro Renascença, ambos administrados pelo município. Agora, a comunidade acompanha atenta os morosos desdobramentos burocráticos da prefeitura para suas respectivas instalações. Esperamos que não fiquem jogados em um depósito qualquer.

Outras iniciativas individuais e coletivas estão surgindo como resposta a estes tempos difíceis. Penso ser importante registrar a mais recente: integrantes da cena teatral criaram o MOVE – Rede de artistas de Teatro de Porto Alegre. Dentre as atividades do grupo, destaque para o MOVE conversa, que propõe diálogos entre artistas e espectadores após os espetáculos, e que teve suas primeiras edições dentro da programação do Porto Verão Alegre. Nas palavras da atriz Deborah Finocchiaro, a iniciativa aproxima o público dos artistas, permitindo que o mesmo opine sobre os trabalhos e discuta aspectos da cena local, como os detalhes das produções, as dificuldades dos grupos, a qualidade e os problemas dos teatros da capital, as políticas culturais. Para mensurarmos o impacto de ideias como essa, no MOVE conversa do dia 02 de fevereiro, após a apresentação da peça “Como emagrecer fazendo sexo”, a manifestação de um espectador que se identificou como policial causou espanto e chamou a atenção de todos, talvez por ter resumido algo que artistas, intelectuais e professores sempre defenderam. Disse ele: “A arte é a melhor coisa para diminuir e combater a violência”.

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre, edição de 23 de fevereiro de 2019.

Um comentário sobre “Diálogo e esforço coletivo em defesa da Cultura

  1. Muito bem colocado, Cristiano. Todas as pessoas e entidades citadas merecem nosso aplauso mais caloroso. Você somente esqueceu dos coletivos reunidos no Projeto Usina das Artes que foram transferidos da Usina do Gasômetro para a KZA TereZinha e encontram-se trabalhando em condições precárias, resistindo solidamente e fincando as bases de um novo centro cultural para Porto Alegre.
    Um abraço,

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