Ocupação e Despejo na Companhia de Arte

IMG-20181220-WA0017

Foto de Margarida Peixoto

Artigo publicado no Caderno de Sábado do Correio do Povo, de Porto Alegre, edição de 12 de janeiro de 2019.

“Uma construção de concreto, um monte de tijolo empilhado, pode dar uma esperança tão forte que talvez aquele possa ser um lugar pra descansar da barra diária que é não ter um lugar pra chamar de seu.” Marcelo Ádams

Nos dias 11, 12 e 13 de dezembro, a Cia. Teatro ao Quadrado levou ao palco da Cia de Arte a montagem de O Concreto Sobre Nossas Cabeças, texto de Marcelo Ádams escrito especialmente para a oficina de montagem ministrada por Margarida Peixoto. O elenco é formado por 19 atores e atrizes, alguns experientes, outros dando os primeiros passos na arte teatral. Acompanhei os ensaios por três meses, todas as segundas e quartas-feiras.

Ator, diretor teatral e dramaturgo, Marcelo Ádams recebeu por duas vezes o Prêmio Açorianos de Melhor Ator, a mais prestigiada premiação do teatro gaúcho. Doutor em Teatro, Ádams também é professor da graduação em Teatro-Licenciatura da Uergs, e recentemente sua montagem de Nosso Estado de Sítio (inspirada em Estado de Sítio, de Albert Camus), produzida com alunos da universidade, foi um dos 10 espetáculos selecionados (de 230 inscritos) pela convocatória a_ponte – Cena do Teatro Universitário, promovida pelo Itaú Cultural, cujo objetivo é dar visibilidade ao que de melhor se faz no teatro universitário do país. Único representante do Rio Grande do Sul, o grupo de alunos dirigido por Ádams viajará para São Paulo, onde se apresentará no próximo dia 26 de janeiro.

O Concreto Sobre Nossas Cabeças, texto de Ádams levado ao palco da Cia de Arte pelas mãos de Margarida Peixoto, trata de conflitos a partir da ocupação de prédios abandonados, narrando histórias de indivíduos e famílias que sofrem com suas tragédias individuais e coletivas e enfrentam o preconceito da sociedade. Abandonados à própria sorte, sem o amparo do Estado, e muitas vezes vítimas dele, há ali as dores dos que desafortunadamente, e não por opção, chegam à triste condição de sequer terem um teto para morar.

O texto foi escrito para contemplar um grande número de atores em cena, e a inclusão de um coro, segundo Ádams, é uma tentativa de dinamizar a cena para que a passagem entre umas e outras crie um senso de teatralidade e o desejo de contar coletivamente várias histórias.  Assim, as personagens, em voz uníssona, introduzem o tema central: “Pensa num prédio de nove andares que tá caindo aos pedaços há não sei quantos anos. Os donos são um pessoal cheio da grana que nem mora mais no Brasil, mas que tem uma fortuna em imóveis por todo o país. Entre as propriedades que eles têm tá esse prédio, no centro da cidade, que já foi usado por banco e sindicato patronal. O prédio fica ali, perto de tudo…”.

Resultado de uma pesquisa séria, comprometida em esclarecer os motivos e os critérios que levam grupos de pessoas a ocuparem certos imóveis, o texto é recheado de informações esquecidas ou ignoradas pela imprensa que noticia as ocupações e que prefere falar em invasões, criminalizando os movimentos que lutam por moradia.

Para que uma ocupação aconteça, é preciso que o prédio esteja abandonado, sem cumprir com alguma função, ou com dívidas acumuladas, como o IPTU. Os que ocupam buscam um espaço que possibilite a sua permanência perto dos seus locais de trabalho. Muitas vezes trabalhando na informalidade, ou em condições precárias, optam por um local de fácil acesso, perto de tudo. E mais uma vez o coro entra em cena: “(…) do descaso, do que é abandonado pelos donos, pode surgir um espaço de companheirismo, de união, de acolhimento e de luta pelo direito de se manter digno, de viver com um mínimo de conforto e tranquilidade”.

O autor buscou o que há de mais triste na realidade para escrever sobre uma parcela da população que vive marginalizada. Vivendo constantemente entre a esperança e o medo, sem garantias de permanência e de segurança, empurrados quase sempre para regiões periféricas, nas ocupações dividem o mesmo espaço desde aqueles que perderam o pouco que tinham aos que nunca tiveram nada. No palco, estão retratadas as histórias de idosos que precisaram optar entre pagar o aluguel ou os remédios de uso contínuo, vendedores ambulantes, catadores de lixo reciclável, domésticas e prostitutas, um incontável número de profissionais cujo trabalho é ignorado ou desprezado pela sociedade. Vítimas da crueldade de um sistema político e econômico excludente.

Diretora experiente, Margarida Peixoto sabe o que dizer e mostrar aos atores para deles extrair o seu melhor, e embora o elenco seja composto por estudantes de teatro ainda em formação, alguns conseguem se destacar, fazendo com que o espectador se emocione com boas atuações. O Concreto Sobre Nossas Cabeças, pela qualidade dramatúrgica, pela atualidade do tema, mas também porque há ali algumas promessas que aos poucos ocuparão a cena teatral gaúcha, deveria voltar aos palcos de Porto Alegre, cumprindo uma temporada de pelo menos duas semanas. Seria uma excelente oportunidade para o público refletir e discutir sobre um problema muitas vezes apresentado com pouca seriedade e por um viés preconceituoso.

IMG-20181220-WA0014

IMG-20181220-WA0004

IMG-20181220-WA0013

IMG-20181220-WA0008

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s