O Ferreiro e a Morte: adaptação gaúcha traz mulher interpretando Jesus

O Ferreiro e a Morte

Foto de Giuliano Bueno

A Cia Cena Viva, de Santa Rosa (RS), trouxe para o 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE) a comédia O Ferreiro e a Morte, texto de Mercedes Rein e Jorge Curi. A montagem, dirigida por Jadson Silva (que também atua, assina figurino, iluminação, sonoplastia, maquiagem e cenografia), foi apresentada no Teatro Carlos Carvalho da Casa de Cultura Mario Quintana na noite do dia 08 de dezembro. No elenco, estudantes de diferentes escolas públicas do munícipio do Noroeste gaúcho, alunos das Oficinas de Teatro ministradas por Jadson naquela cidade.

A história gira em torno de Miséria (Jadson Silva), um ferreiro que vive com a irmã Peraltona, ou Pobreza (Vitória Ribas). Amante da liberdade, dos amigos e da bebida, tudo o que Miséria deseja é sossego, mas sua rotina sofre reviravolta após receber a visita de Nosso Senhor Jesus Cristo (Joana Dorfer) e de São Pedro (Lucas Vieira). Sensibilizado com a generosidade de Miséria, que não mede esforços em oferecer-lhes o pouco que tem para comer e beber, Nosso Senhor concede a ele o direito de fazer três pedidos.

Viciado em jogos, Miséria pede que nunca perca um jogo, o que o transforma em um homem rico, vencendo um jogo atrás do outro, amealhando a fortuna dos adversários. A irmã Pobreza, de olho no dinheiro do irmão, convence Miséria a conceder um empréstimo ao Governador (Josafa de Souza) para que este se case com ela. O Governador, por sua vez, fazendo jus à fama dos maus políticos, convence Miséria a repassar-lhe toda a fortuna, prometendo administrar os bens de forma a ajudar os que precisam. Convencido pelo cunhado a abrir mão de tudo, Miséria volta a ficar pobre, sendo alvo do desprezo da irmã, agora rica e avarenta, casada com o Governador e cercada de serviçais.

Outro pedido feito por Miséria à Nosso Senhor é a oportunidade de permanecer vivo por mais trinta minutos para aproveitar os prazeres mundanos quando chegar a sua hora de partir. Vítima de uma facada quando se envolve em uma briga com um advogado (Fernanda Hirt), Miséria se depara com a Morte (Alexia Ribas), que vem lhe buscar. Enganada pelo ferreiro, a Morte é presa no alto de uma escada, ficando impossibilitada de levá-lo consigo e de cumprir sua missão.

Com a Morte presa na escada, o céu e o inferno deixam de receber os mortos, dando início a uma grande confusão terrena. A aparição de Lillith (Kennedy Batista) diretamente do inferno, acompanhado de duas odaliscas (Gabriela Vogt e Lucia Gasen), traz diversas artimanhas, tentativas de convencer Miséria a libertar a Morte para que essa cumpra com suas obrigações.

A escolha de O Ferreiro e a Morte pelo diretor Jadson Silva foi uma aposta perigosa que acabou dando certo. Formada por um elenco grande, neste caso atores e atrizes iniciantes, com pouca ou nenhuma experiência nos palcos, a montagem cumpre com seu objetivo e proporciona aos espectadores momentos de muito riso, indicando cuidado na direção e harmonia em cena.

Mesmo com todo esse cuidado, a inexperiência do grupo fica evidente em certas passagens, com alguns exageros e certa insegurança, imaturidade profissional que tende a se dissipar com o estudo e o trabalho contínuos. Pequenos equívocos que não comprometem seu desempenho, e a montagem apresenta um resultado final satisfatório, com atores e atrizes dominando o texto e o espaço cênico. Claro, há erros que precisam ser reparados, como os momentos em que atores ficam uns na frente de outros, comprometendo a harmonia da cena e a visibilidade do público. Talvez o fato de o próprio diretor estar em cena contribua com a dificuldade em identificar esses pequenos erros.

Adaptada com coreografias, figurinos (homens de bombacha, mulheres de vestido de prenda) e trilha sonora típicos do Movimento Tradicionalista Gaúcho, chama nossa atenção a escolha de uma mulher para interpretar Nosso Senhor Jesus Cristo. Intencional ou não, essa corajosa e acertada escolha do diretor contribui para tornar o espetáculo ainda mais interessante, e a atriz soube dar conta do recado.

Uma figura feminina interpretando Jesus Cristo contribui para as discussões em torno das questões de gênero, presentes em montagens recentes, e, neste caso, nos remete à encenação de O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu protagonizada pela atriz e mulher trans Renata Carvalho, que teve sessões censuradas em algumas cidades do Brasil e tentativa de censura em Porto Alegre.

O Ferreiro e a Morte tem ainda no elenco Eduarda Moura (que se reveza entre as personagens Vizinha, Jogador 2 e Sargento), Rafaela Hennig (intérprete de Dona Jesusa) e Rafaela Alves (Mendigo, Lacaio e Papa Defuntos). Com um elenco grande, o diretor conseguiu contornar as dificuldades e levar ao palco um espetáculo bonito, com o qual o público se identifica e se diverte, e é compreensível que algumas falhas tenham permanecido. A torcida é para que Jadson Silva dê continuidade ao seu trabalho, para que os jovens de Santa Rosa continuem estudando e fazendo teatro, e para que as escolas continuem apoiando iniciativas como essa, contribuindo para a profissionalização do teatro no interior do Estado.

Essa crítica foi escrita por Cristiano Goldschmidt a convite da organização do 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE), que aconteceu entre os dias 06 e 09 de dezembro de 2018 na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. A equipe de críticos é composta por Camilo de Lélis, Cristiano Goldschmidt, Débora Rodrigues, Marcelo Ádams, Pedro Delgado e Raquel Guerra, sob a coordenação de Renato Mendonça.

Todas as críticas podem ser lidas na página do evento: http://festecriticaccmq.blogspot.com/

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