Alma Valente propõe e discute conflitos contemporâneos

 

Alma Valente

Foto de Giuliano Bueno 

Apresentada no Teatro Bruno Kiefer, na tarde do último sábado, 08 de dezembro, Alma Valente, da Cia Retalhos de Teatro, da cidade de Santa Maria (RS), integra a programação do 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE).

Com texto e direção assinados por Julio Cesar Aranda, a peça, que gira em torno de conflitos contemporâneos, propõe discussões interessantes, dando ao espectador a oportunidade de olhar para questões importantes a partir da perspectiva de diferentes gerações.

Martírio (Débora Matiuzzi), de origem pobre, ao largar seu povo e juntar-se ao governo, sofre uma espécie de aprisionamento no chamado “novo mundo”, tendo sua mente manipulada pelo governo, negando seu passado e escondendo-o de sua filha, Alegra (Alexia Karla). Com vergonha de sua origem cigana, seu objetivo é servir ao governo, ajudando-o a capturar Rafael (Victor Lavarda), Azul (Natalia Krum) e Âmbar (Camila Marques), os três rebeldes do “velho mundo”, passando a controlar passado, presente e futuro, transformando-os em marionetes, ou em escravos não pensantes. Estes se juntam a Mau e Alegra, tornando-se os valentes que livrarão a todos das terríveis consequências da manipulação de um governo abusivo e autoritário.

Conflitos de gerações, excesso de vaidade (nas figuras de Mau e de Martírio), romance e gravidez na adolescência são abordados de forma leve, dando um toque de realidade a esta peça que transita entre o real e o imaginário. O “novo mundo”, no qual Martírio vive com a filha Alegra, com o companheiro e fiel escudeiro Maximus (Helquer Paez), é um retrato de nosso tempo: ali se desenrolam os conflitos,  confrontando os perigos do excesso da tecnologia com as coisas simples da vida e com os valores que realmente contribuem para a nossa felicidade.

Em tempos de Fake News, a peça nos alerta que o sistema dominante é muito maior do que podemos imaginar, e aborda isso com clareza ao apresentar um governo que pretende resetar a mente das pessoas e exercer sobre elas um controle opressor. Ao afirmar que “o povo precisa de trabalho e não de cultura”, a personagem Martírio, representante do governo (manipulada por ele), faz uma forte crítica política, mostrando que domínio e censura são características de indivíduos autoritários, e que devemos estar sempre atentos a estes.

A crítica política está presente ainda em rápida passagem que aborda a meritocracia como um sistema justo de ascensão social, como se todos nascêssemos com as mesmas condições de igualdade e de oportunidades. Ao refletir sobre questões contemporâneas, abordando temas espinhosos que de alguma forma sempre fizeram parte da história da humanidade, Alma Valente dá seu recado e nos pergunta qual o propósito de resistirmos num mundo naufragado em preconceitos.

Mesmo sendo um texto que transita entre o romance, a comédia e a aventura, há momentos em que a personagem Martírio traz uma densa carga emocional, mostrando que muitas vezes somos resultado de nossas frustrações, que estas podem nos empurrar para perigosas armadilhas, mas que podemos vencê-las com amor, reconhecendo nossas falhas, mudando assim o rumo de nossas vidas.

Embora pouco confusa nas transições entre uma cena e outra, falhas que talvez possam ser reavaliadas pela direção, Alma Valente mostra um elenco afinado, com boa preparação corporal e vocal, o que se evidencia nas interpretações. Sem fazer uso de cenário, a produção conta com iluminação e trilha sonora que ajudam a criar o clima necessário para o desenvolvimento das ações e para causar certo suspense no espectador. Figurinos e adereços são bem acabados e mostram o cuidado com que o grupo se dedica ao ofício, deixando claro que o teatro produzido no interior do Estado cresce e se aperfeiçoa.

Essa crítica foi escrita por Cristiano Goldschmidt a convite da organização do do 3º Festival Estadual de Teatro do Rio Grande do Sul (FESTE), que aconteceu entre os dias 06 e 09 de dezembro de 2018 na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre. A equipe de críticos é composta por Camilo de Lélis, Cristiano Goldschmidt, Débora Rodrigues, Marcelo Ádams, Pedro Delgado e Raquel Guerra, sob a coordenação de Renato Mendonça.

Todas as críticas podem ser lidas na página do evento: http://festecriticaccmq.blogspot.com/

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