Professores e alunos espectadores de Arte

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Como professor do curso de Licenciatura em Pedagogia, em Instituições Privadas de Ensino Superior, procuro propiciar aos meus alunos, futuros professores da Educação Básica, momentos de recepção e fruição estética, acompanhando-os em eventos cênicos e exposições de artes visuais, ou indicando oportunidades e espaços de arte acessíveis da cidade. Tal iniciativa é motivada pela constatação de que o hábito de frequentar espaços culturais não faz parte da rotina dos alunos, e do quanto a grande maioria não se sente atraída pela ideia de frequentá-los.

Inicialmente me parecia estranho que futuros pedagogos e pedagogas, muitos vindos do magistério, já atuando na Educação Básica, não se sentissem atraídos pelas manifestações artísticas, mas o convívio com meus alunos mostrava que essa desmotivação devia-se à falta de conhecimento. Durante nossas visitas a espaços de arte, recebo, não raro, relatos de alunos que dizem estar pela primeira vez num teatro, ou num museu. Ou seja, minhas observações em sala de aula me levam a acreditar que a falta de contato com as artes seja uma das causas dos problemas que os estudantes de Pedagogia encontram durante o seu processo de aprendizagem em alguns momentos de sua trajetória acadêmica. Essa constatação me fez perceber que muitos professores da educação básica também têm dificuldades para entender a contribuição das linguagens artísticas no desenvolvimento de crianças e jovens, e que o fato de não serem espectadores de arte contribui para dificultar o planejamento de aulas que contemplem práticas artísticas mais bem elaboradas e conduzidas. Nesse sentido, se, por um lado, temos poucos professores de artes nas escolas, por outro, temos professores de outras áreas de conhecimento que não frequentam espaços culturais, o que compromete não só a sua atuação docente, mas dificulta que ajudem a defender a presença de um professor artista no ambiente escolar.

Ao questionar meus alunos sobre os motivos que os distanciam dos espaços culturais e das salas de espetáculos, as principais justificativas são a falta de estímulo no ambiente familiar (os pais não costumam frequentar teatros ou exposições) e a falta de estímulo dos professores (no período em que eram estudantes da Educação Básica). Ou seja, em momento algum foram ou são incentivados a entrar em contato com manifestações artísticas para além das atividades de caráter lúdico desenvolvidas no ambiente escolar.

Na vida adulta, esse distanciamento é mantido e justificado pela inexistência de experiências de apreciação estética pregressas que os levassem a desenvolver o gosto pelas artes e reconhecer nelas uma possibilidade de lazer aliada à produção de conhecimento. Alguns justificam “ignorar” tais espaços, considerando as dificuldades de acesso aos equipamentos culturais, dificuldades decorrentes de suas trajetórias de vida, nas quais a arte passa ao largo de sua educação e de suas prioridades. Além de apontarem o custo dos ingressos como um dos motivos desse distanciamento, no caso de espetáculos de teatro, dança, ou música; a ideia de que os museus são locais frequentados apenas por uma elite que conhece e entende de arte é o motivo alegado para não frequentarem as exposições, embora os museus e centros culturais de Porto Alegre (e de outras cidades brasileiras) ofereçam, muitas vezes, entrada franca, ou tenham ingressos com valores simbólicos.

As experiências com meus alunos da Licenciatura em Pedagogia, através das quais constato que muitos professores da Educação Básica não são espectadores de arte, ilustram e indicam os motivos das dificuldades que eles encontram para entender a importância da arte na educação e para inserir atividades artísticas na rotina de seus alunos. E mesmo quando se manifestam sobre a qualidade de um espetáculo teatral, por exemplo, costumam alegar motivos genéricos, alheios a questões de ordem estética.

No intuito de demonstrar o que o teatro pode proporcionar quando nos colocamos como espectadores, e de que forma podemos inserir o teatro em nosso cotidiano, trago a contribuição do professor e pesquisador Flávio Desgranges, referente aos estudos em teatro a partir da perspectiva do espectador. Na concepção do autor, as possibilidades didáticas do teatro não se resumem, não se limitam, e vão muito além da “transmissão de informações e conteúdos disciplinares”, como muitas vezes se observa nas propostas artísticas realizadas no ambiente escolar. Para Desgranges (2006, p. 26), o importante é “compreender a arte como sendo educadora enquanto arte, e não necessariamente como arte educadora”.

Uma das inquietações demonstradas pelos meus alunos quando vão ao teatro pela primeira vez é a necessidade que sentem de comentar sobre o que assistiram, como se tivessem uma obrigação de extrair “uma mensagem” e, a partir dela, elaborar uma opinião, um parecer, a ser compartilhado no momento seguinte à apreciação. Quando isso acontece, costumo comentar que uma produção teatral, ou uma exposição de arte, não deve nos obrigar a comentar algo, tampouco deve nos pressionar a demonstrar uma aquisição repentina de conhecimento, decorrente do processo de recepção vivenciado. Digo-lhes, também, que a elaboração desse possível saber nem sempre é momentânea, e nem sempre acontece, pois a arte, e seus sentidos, demandam tempos e processos distintos, variáveis, para cada espectador; e que o valor da experiência está na possibilidade de nos tornarmos espectadores de um acontecimento artístico, o que ocorre a partir do momento em que a contemplação estética passa a fazer parte de nossa rotina.

Quando me dirijo aos meus alunos iniciantes, orientando-os a não se preocuparem em emitir uma opinião imediata sobre um espetáculo que acabaram de assistir, desejo ponderar que, assim como o artista carece de tempo para desenvolver sou trabalho e levá-lo a público, o que envolve processos de pesquisa e estudos teóricos e práticos, quem aprecia arte também precisa de tempo para se tornar um espectador. É a experiência de apreciação, aliada à reflexão, que permite ao espectador dialogar com a obra de arte, conferindo a ela sentidos próprios, numa relação de coautoria com o artista. Obviamente que, assim como lhes desobrigo da emissão de uma opinião tão logo o espetáculo termine, não lhes censuro caso sintam a necessidade de falar ou de trocar ideias com o grupo. O que importa, nesse caso, é a liberdade de manifestação conferida à experiência de cada um.

Ao refletir sobre a posição do espectador, Desgranges (2006, p.28) considera que o contemplador da obra participa do diálogo com o autor, compreende os signos apresentados na obra artística de maneira própria, de acordo com a sua experiência pessoal, sua trajetória, sua posição na vida social, seu ponto de vista, o que torna o sentido de uma obra inesgotável. Mas Desgranges (2006, p. 171) chama a atenção, também, para uma confusão muitas vezes presente na leitura de uma obra, quando confundimos liberdade interpretativa com compreensão inadequada: “Ressalte-se, contudo, que o fato de a análise da obra ser pessoal e intransferível, e que cabe a cada espectador elaborar sua compreensão dela, não quer dizer que uma interpretação formulada não possa ser questionada, pois há na obra um princípio de coerência linguística que o leitor precisa respeitar para colocar-se em diálogo e elaborar um juízo de valor dela. Por mais criativa que seja, a leitura solicita coerência também. Por mais subjetivo que seja o ato do espectador, liberdade interpretativa é uma coisa, compreensão inadequada é outra”.

Se os teatros e os centros culturais estão distantes da realidade de muitos de nossos alunos, a televisão está presente diariamente em sua rotina, responsável por ocupar grande parte de seu tempo livre. É nos programas de auditório, nas telenovelas, nos telejornais, nos desenhos animados, nas séries e nos filmes de TV que a grande maioria das crianças e jovens em idade escolar encontra espaço para a distração e a diversão. Ocorre que a comodidade da tela da TV não lhes proporciona muitas opções, o que os torna vítimas de uma mesma narrativa, oferecida em semelhantes formatos e canais. A situação é apenas um pouco melhor, mas não muito diferente, para aqueles que têm condições de manter uma assinatura de TV paga. De qualquer forma, todos permanecem reféns do mesmo padrão de linguagem e conteúdo.

De uns anos para cá, é também nas redes sociais que as crianças e os jovens encontram alternativas de lazer e entretenimento. Em função, por um lado, da superexposição, e, por outro, da possibilidade de anonimato, as redes sociais têm se mostrado um terreno cada vez mais perigoso: solo fértil para a proliferação de conteúdos ilusórios, exacerbados, notícias falsas e geração de intrigas, prestando um desserviço para o desenvolvimento das crianças e dos jovens.

A falsa impressão de conhecimento e o contato com as formas padronizadas, das redes sociais e da grande mídia, são razões suficientes para estimular os jovens de hoje a tornarem-se espectadores de artes cênicas e de outras manifestações culturais e artísticas. Desgranges (2006, p. 154) afirma que o âmbito da formação de espectadores de teatro se restringe ao conhecimento da linguagem teatral, mas se liga diretamente à conquista de uma autonomia para elaborar os fatos da cena e da vida. Uma autonomia crítica e criativa. Uma autonomia interpretativa.

Ao argumentar sobre a necessidade de formarmos espectadores de arte, Desgranges (2006, p. 155) apresenta inúmeros motivos, dentre eles a perspectiva de formação de um observador atento e crítico com o que lhe é dado a ver pelos meios de comunicação: “Assim, a primeira das razões citadas que apontam para a importância de uma pedagogia do espectador em nossos dias diz respeito à espetacularização da sociedade, potencializada pela proliferação dos meios de comunicação de massa, que condicionam a sensibilidade e a percepção dos indivíduos contemporâneos, e indicam a importância da formação crítica do observador, visando a sua aptidão tanto para perceber os recursos espetaculares utilizados, quanto para analisar a produção de sentidos veiculada por esses canais de comunicação”.

Sob essa ótica, a Arte configura-se como contraponto aos meios de comunicação e às atuais redes sociais, que utilizam estratégias de sedução para aprisionar o espectador, condicionando-o a aceitar discursos prontos, em defesa de interesses que muitas vezes não são os seus. A Arte vem para jogar luz em nossa forma de ver o mundo, contribuindo para aumentar nossa sensibilidade, para ampliar nossa visão e nossa capacidade crítica, tornando-nos capazes de perceber, reconhecer e combater as fontes e os discursos nem sempre confiáveis aos quais somos expostos diariamente, por isso ela é tão necessária, e cada vez mais, na rotina de professores e alunos.

Artigo publicado no Caderno de Sábado, suplemento de cultura do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre: 22 de setembro de 2018.

Um comentário sobre “Professores e alunos espectadores de Arte

  1. Adorei teu comentário. Eu enquanto professora levei meus alunos sempre a museu, teatro, cinema e atividades culturais de Porto Alegre. Quando via um anúncio estava eu lá me inscrevendo. Trabalhava em escola com alunos com situação econômica baixa. Conseguia a entrada franca e transporte também. As vezes eles mesmos me indicavam onde está acontecendo. Fui a tudo que foi possível. Aprendi muito. Alguns colegas me criticavam pois diziam que eu saia muito da Escola com as turmas. Pra mim escola é vivência. Escola tem que proporcionar Cultura. Alguns só foram a esses locais quando estavam na escola. Meu papel como professor era esse ensinar o caminho. Hoje estou aposentada e quando revejo alguns dos alunos eles lembram de onde fomos e o que vimos. Penso que cumpri meu dever como profissional e cidadã.

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