Não se bate em professores, mas desde criança vejo-os sendo espancados

agressão

Fotos: Reprodução Facebook

Na última quarta-feira, 14 de março, dois acontecimentos chocaram o país: o espancamento de professores, promovido pela prefeitura de São Paulo, sob o comando de João Dória (PSDB), e a execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL do Rio de Janeiro, e de seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Mesmo que estejamos acostumados com notícias semelhantes, porque lamentavelmente viraram rotina no Brasil, a comoção tomou conta da população.

Embora esteja preparando para os próximos dias uma reflexão sobre o assassinato de Marielle, hoje quero comentar a brutalidade e a covardia com que foram agredidos os professores de São Paulo. Não faz muito, vimos o mesmo acontecer em Curitiba. Desde criança assisto professores sendo espancados. Quando não é pela polícia truculenta e movida a ódio, a mando dos governantes, os agressores são os próprios alunos, ou seus pais. Professores, aos olhos da sociedade, raramente são as vítimas. Basta acompanharmos os comentários nas matérias que circulam na internet e nas redes sociais para percebermos a falta de solidariedade e apoio neles depositada. Compreensão e apoio que os mesmos receberiam em qualquer país decente que enxerga nos professores seus ídolos maiores.

Desde criança trago na memória lembranças de suas lutas e das greves na busca por melhores condições de trabalho e salários mais justos. A desvalorização da classe é histórica, e não há vontade nem movimentação política para uma mudança. Os acontecimentos de agora na cidade de São Paulo são a prova disso. Mas o problema não está só lá. Basta olharmos para o que acontece em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, onde os docentes são tratados com total desprezo pelo prefeito e pelo governador. Salários são parcelados e escolas fechadas. Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul são os exemplos mais próximos e recentes, mas sabemos que situações semelhantes podem ser encontradas em outras cidades e Estados, porque multiplicam-se no país os cortes na educação, sobrando até para os alunos, cujas refeições são reduzidas sob a absurda alegação de que os estudantes não podem ficar obesos.

Os acontecimentos desta quarta-feira, em São Paulo, onde professores foram espancados porque lutavam pelo mínimo de dignidade, ilustram e sintetizam a grave crise que nunca deixou de existir, mas que agora se agrava. Enquanto professores não forem tratados como devem ser, com o devido respeito, tendo todo o suporte para o exercício da sua profissão, esse país não irá para a frente. Professores deveriam ser reverenciados, ter os melhores salários, pelo significado e pelas exigências da própria profissão, que impõe uma rotina de afazeres para além do ambiente escolar. Professores merecem uma carga horária de trabalho reduzida ou flexibilizada, merecem uma boa alimentação, um bom plano de saúde e todos os benefícios que lhes possam ser concedidos, incluída aí a garantia de uma aposentadoria tranquila (como, aliás, deveria ocorrer com qualquer trabalhador).

Nada vai mudar no Brasil enquanto políticos e sociedade não entenderem que é pela valorização dos professores e pelos investimentos em educação, do ensino básico ao superior, que se constrói uma sociedade mais igualitária e socialmente justa. Talvez os primeiros saibam disso, e até apostem nessa desvalorização para se manterem no poder, mas que os segundos não consigam enxergar, me custa acreditar.

Um comentário sobre “Não se bate em professores, mas desde criança vejo-os sendo espancados

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s