Aos Sãos: um espetáculo (não só) sobre o horror no Hospital Colônia de Barbacena

Espetáculo Aos Sãos

Juliana Wolkmer e Luis Manoel – Foto: Luis Paulot / Divulgação

Um homem e uma mulher em cenas quentes pelas ruas, esgueirando-se pelas paredes de um beco da cidade, fazendo sexo a céu aberto. Eis o início da peça Aos Sãos [uma referência à carta de Antonin Artaud aos médicos chefes dos manicômios (1925)], que assisti no último dia 20 de outubro, na sala Álvaro Moreyra do Centro Municipal de Cultura.

O que inicialmente parece ser um casal de namorados ganha outra dimensão quando, ao final do ato, a jovem Maria de Jesus (interpretada por Juliana Wolkmer) cobra pelos serviços sexuais prestados. Seu cliente é o atual prefeito da cidade e candidato a reeleição (interpretado por Luiz Manoel Oliveira Alves), que a manda para um manicômio como vingança por ela ameaçar tornar pública a relação entre ambos (uma retaliação por não ter recebido pelos serviços prestados como profissional do sexo ao excelentíssimo prefeito).

Essa cena inicial, que acontece do lado de fora do teatro, retrata muito do atual panorama político do Brasil. Ao ser confrontado com a verdade que pode ser exposta a seus eleitores (e também aos seus desafetos), o prefeito usa de sua força política para reprimir e punir a prostituta (o lado mais fraco), discursando ao povo, lembrando o seu compromisso com a família, tal como vemos diariamente, numa referência aos arautos da moral e dos bons costumes que tomaram conta da política no país.

O discurso hipócrita do prefeito e sua truculência ao impor o cárcere àquela que até então satisfazia seus desejos sexuais demonstra a falta de caráter, a mentalidade machista e perversa de grande parte dos políticos brasileiros, acostumados a usarem seus cargos para enriquecimento ilícito, acobertarem seus relacionamentos extraconjugais e cometerem atrocidades contra aqueles que ousam levantar a voz para denunciar os seus delitos. Crimes quase sempre impunes, ou porque são beneficiados pela imunidade parlamentar, ou porque são protegidos e absolvidos pelos seus pares em conchavos e negociatas pagas com o dinheiro roubado dos cofres públicos.

Terminado o discurso moralista do prefeito, a plateia é conduzida para dentro do teatro, e a cena precedente, com Maria de Jesus sendo enviada ao sanatório, serviu para introduzir o espectador na história dos cinco pacientes psiquiátricos internados no Hospital Colônia de Barbacena, Minas Gerais. A prostituta confinada injustamente personifica a realidade de milhares de pessoas que foram internadas naquele lugar pelas mais diversas razões, a maioria sem nunca ter sido diagnosticada com alguma doença mental.

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Cena de Aos Sãos – Foto: Luis Paulot / Divulgação

No momento em que vivemos a maior crise política da história recente de nosso país, Aos Sãos nos lembra as barbáries cometidas contra grupos de pessoas esquecidas e marginalizadas, vítimas de uma política de higienização de governos não só inaptos para gerir o bem público, mas também com propostas claras para isolar “os diferentes”, tirando-os de circulação por considera-los desprezíveis, tornando-os invisíveis aos olhos da sociedade.

O que acontecia no Hospital Colônia de Barbacena, o maior sanatório do Brasil (e em tantos outros assemelhados espalhados pelo país), é o retrato do que há de mais cruel na humanidade. Entre 1969 e 1980, dezesseis pessoas morriam diariamente naquele ambiente, totalizando, em onze anos, milhares de vítimas das condições desumanas a que eram submetidas: tratamentos de eletrochoques, desnutrição, frio, tuberculose e outras doenças eram comuns, levando a óbito centenas de pessoas anualmente, cujos cadáveres eram vendidos para as faculdades de medicina do país (1823 cadáveres vendidos entre 1969 e 1980, segundo o livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex).

A atuação do elenco, que conta ainda com Bruna Casali, Rafael Bricoli e Raíza Auler Rolim, mostra que o grupo mergulhou de cabeça no projeto, pesquisando não só a história dos crimes cometidos no interior dos manicômios, mas também o impacto destas internações na vida das pessoas que sobreviveram. A interpretação dos atores reproduz comportamentos, gestos e falas característicos de alguns pacientes, e o cuidado que o grupo teve para não tornar as personagens caricatas confere veracidade as atuações.

As condições degradantes do ambiente somadas ao abandono familiar do qual muitos eram vítimas acabavam contribuindo para a miséria existencial daqueles que em pouco tempo eram transformados em trapos humanos. E a prostituta vivida por Juliana Wolkmer traz à tona uma situação muito comum aos que eram jogados nestes espaços: muitos dos que chegavam em boas condições psíquicas e físicas acabavam adoecendo fisicamente ou enlouquecendo em decorrência dos tratamentos recebidos de médicos e enfermeiros, que mais pareciam carrascos nazistas.

Duas questões chamam a atenção do público neste comovente espetáculo dirigido por Thais Andrade. A primeira delas diz respeito a um destes grupos que iam parar em lugares como o Hospital Colônia de Barbacena: eram os considerados “deserdados sociais”, aquela gente que não merecia ter os mesmos direitos que os outros, porque estavam fora do padrão de normalidade considerado ideal pela sociedade. Pacientes com problemas mentais leves eram misturados a infratores que cometeram delitos graves, e estes dividiam o mesmo espaço com os demais. A outra questão nos remete àqueles que, tal como a prostituta Maria de Jesus, eram vítimas de perseguições políticas e vinganças, e que também eram enviados aos sanatórios. O local escolhido não era por acaso. As autoridades sabiam que por trás daqueles muros encontrava-se um verdadeiro depósito de seres humanos, uma prisão que aniquilava com a singularidade dos indivíduos.  A única coisa que havia em comum entre eles era o tratamento a que todos eram submetidos: abuso sexual, tortura psicológica e física que levava muitos deles à morte.

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Bruna Casali interpreta Toninha – Foto: Luis Paulot / Divulgação

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