IN/compatível? desestabiliza e rompe com a ideia tradicional de um espetáculo cênico

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Figura 1 – IN/compatível?: estranhamento / Fonte: Luis Paulot (2016)

IN/Compatível? é uma coreografia da Eduardo Severino Cia de Dança que desde os primeiros minutos causa certo estranhamento no público. E o desconforto acompanha o espectador do início ao fim do espetáculo, principalmente àqueles que desconhecem ou que não estão habituados com algumas propostas características da cena contemporânea. Com concepção e coreografia assinadas por Eduardo Severino e Luciano Tavares, também integram o elenco os bailarinos Andrew Tassinari e Viviane Gawazee. Os quatro emprestam seus corpos à uma sequência de movimentos criados para levar ao espectador não uma performance linear, no sentido cartesiano do termo, mas sim uma série de partituras que desestabilizam e rompem com a ideia tradicional que se pode ter de uma proposta das artes da cena, seja do teatro, ou, como neste caso, da dança.

Neste sentido, pelas suas características, a coreografia apresentada pela companhia nos remete àquilo que poderíamos denominar de teatro pós-dramático. Não à toa a plateia sente-se mais como participante de uma cerimônia a ser desvendada, na medida em que os rituais vão sendo executados, do que como mera espectadora-receptora de uma narrativa pronta, de uma história com início, meio e fim. O que nos leva à tal conclusão é justamente essa diversidade de procedimentos de representação sem referencial presentes na cena, e da qual nos fala Lehmann (2007, p. 115):

“O teatro pós-dramático é a substituição da ação dramática pela cerimônia, com a qual a ação dramático-cultual estava intrinsecamente ligada em seus primórdios. Assim, o que se entende por cerimônia como fator do teatro pós-dramático é toda a diversidade dos procedimentos de representação sem referencial, conduzidos porém com crescente precisão: as manifestações de uma comunidade particularmente formalizada, construções de processos rítmico-musicais ou visual-arquitetônicos com a celebração (não raro profundamente negra) do corpo, da presença; a ostentação enfática ou monumental.”

O atordoamento causado pelo espetáculo não diz respeito a uma possível falta de qualidade técnica ou artística apresentada pelo grupo. É algo presente na proposta e que mexe com o imaginário de quem está na plateia. O piano freneticamente dedilhado aleatoriamente nos primeiros minutos de cena dá a tônica do que se verá daquele momento em diante no palco: A força bruta de quatro dançarinos em luta coreográfica que levam seus corpos à exaustão, intercalando momentos de brutalidade com gestos pontuais delicados que rompem com a tensão e dão uma chance ao suspiro: aos dançarinos e aos espectadores.

PARTE-8

Figura 2 – IN/compatível?: trégua / Fonte: Luis Paulot (2016)

Ao “barulho” inicial do piano seguem-se longos minutos de uma coreografia executada na ausência de uma trilha sonora, onde o som predominante é o dos corpos que ocupam a cena, em confronto ou em momentos de trégua. Este talvez seja o instante em que as atenções da plateia se voltem mais para uma quase ausência de figurino, que contribui para a identidade visual proposta pelo espetáculo e que ganha destaque com a iluminação: Eles vestem cuecas, sapatos, óculos, perucas e um sobretudo. Para ela, o mesmo, à exceção da cueca, substituída por um maiô.

O sobretudo e os sapatos são postos de lado na sequência, deixando os corpos em evidência, o que lhes confere maior conforto na execução da coreografia, rica em movimentos robotizados e repetitivos, conferindo um aspecto virtual às cenas que se seguem, com abundância de imagens e sensações que sugerem a aridez e a artificialidade das relações humanas em tempos de conexões virtuais. O espetáculo – conduzido a partir de um segundo momento por uma trilha sonora que contribui para uma atmosfera de angústia que deixa o palco e se espalha pela plateia – embora nos remeta à virtualização das relações contemporâneas, apresenta corpos dançantes cuja presença física se faz sentir do início ao fim da coreografia, deixando claro, para tomar emprestadas as palavras de Pierre Levy (1996, p. 2), que:

“(…) o virtual, rigorosamente definido, tem somente uma pequena afinidade com o falso, o ilusório ou o imaginário. Trata-se, ao contrário, de um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a platitude da presença física imediata.”

Trilha sonora, figurino, iluminação e coreografia estão bem amalgamadas, e nos remetem, em alguns momentos, à cenas de ficção científica. Ficção aqui no sentido virtual, daquilo que não está ao nosso alcance e que permeia apenas nosso imaginário. Não importa neste momento se causar tal impressão tenha sido ou não a intenção desta proposta cênica, o que importa é o efeito que atrai a atenção do público e o faz permanecer atento aos desdobramentos da cena até o final da apresentação. Afinal, tudo ali é imprevisível, o que torna o espetáculo ainda mais atraente, deixando o público sempre à espera de algo inesperado e que o surpreenda.

Com poucos elementos cênicos, a segunda e a terceira partes do espetáculo (que não tem intervalos e com duração aproximada de uma hora), tem como base de apoio principal aos dançarinos duas cadeiras e uma escrivaninha, ao redor da qual e sobre a qual estes dispõem de seus corpos em uma sequência coreográfica que privilegia a sensualidade e o erotismo, talvez denunciando a superficialidade bastante comum das relações atuais, em que prevalecem os encontros casuais sem compromissos ou vínculos afetivos duradouros. Assim, as práticas cotidianas destas relações voláteis são apresentadas à plateia com uma boa dose de ironia, e até de certo sarcasmo.

“Os atores/dançarinos sobre o palco repetem alguma coisa da práxis (cotidiana) por meio de uma práxis (teatral) – razão pela qual para uma pluralidade de formas tomada pela primeira responde uma pluralidade de comportamentos possíveis para a segunda.” (CHEVALLIER, 2004, p. 4).

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Figura 3 – IN/compatível?: dançarinos e desenho espacial / Fonte: Luis Paulot (2016)

O culto ao corpo e a preocupação com as formas físicas perfeitas impostas pela sociedade de consumo também são apresentados em tom de deboche em uma passagem bem humorada em que os dançarinos masculinos se refestelam com generosas fatias de pizza enquanto a dieta da dançarina está restrita a folhas de alface. E salta aos olhos do público o seu desconforto, indicando que se pudesse, teria optado pelo cardápio do qual abriu mão em detrimento das exigências impostas pelos padrões de beleza vigentes.

O que permanece em evidência do início ao fim de IN/compatível? é o jogo de força e de poder entre corpos que se colocam em choque, em conflito. O que nos faz pensar sobre que relações são essas que nos são dadas a ver. O próprio título do espetáculo nos remete às possíveis compatibilidades ou incompatibilidades de relacionamentos nos dias atuais. E a leitura do que se vê fica à cargo do espectador, que enxerga nestas relações infinitas possibilidades.

A única característica que nos faz diferenciar os gêneros masculinos do feminino em cena são os seus corpos. E mesmo assim chama a atenção do público a relação que se constrói entre eles, onde a força e a sensibilidade, os desejos, as conquistas e as vitórias demonstram que ali ninguém perde e ninguém ganha, estando todos em pé de igualdade. Nas relações que se estabelecem entre os dançarinos, o que fica evidente é a união de corpos que buscam em suas singularidades o respeito à diversidade destas relações.

Como proposta cênica aberta, onde o que importa é a atenção e o olho do espectador, fica evidente o objetivo do grupo: impactar, desestabilizar e mexer com os sentidos da plateia, levando para o palco experiências reais transformadas em arte através de uma estética estranha e ao mesmo tempo encantadora.

Com IN/compatível?, a Eduardo Severino Cia de Dança trouxe à público uma experiência coletiva cuja essência é a da resistência, consolidando a ideia de que um pequeno elenco pode articular grandes transformações de conceitos através de uma linguagem que prima pela liberdade, tal como nos diz Lehmann (2007, p. 139): “liberdade de submissão a hierarquias, liberdade de obrigação de perfeição, liberdade de exigência de coerência.”

E se é ao som do piano que tudo teve início, é também com ele, mesmo que por poucos segundos, que o espetáculo chega ao fim, com espectadores saindo do teatro desnorteados mas pensativos, como a se perguntar qual o propósito dos criadores. Mas para os que estão sempre em busca de repostas para as proposições artísticas, lembremos mais uma vez de Lehmann (2007, p. 141), para quem:

“O aparato sensorial humano dificilmente suporta a falta de referências. Privado de seus nexos, ele procura referências próprias, torna-se “ativo”, fantasia “descontroladamente”, e o que lhe ocorre então são semelhanças, conexões, correspondências, mesmo as mais remotas.”

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Figura 4 – IN/compatível?: casais de beijos / Fonte: Luis Paulot (2016)

REFERÊNCIAS

CHEVALLIER, Jean-Frédéric. O gesto teatral contemporâneo: entre apresentação e símbolos. In: L´Annuaire théâtral, revue québécoise d´études théâtrales, n. 36, 2004, Université d´Ottawa.

LEHMANN, Hans-This. Signos teatrais pós-modernos. In: Teatro Pós-dramático. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

P. Levy. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. p. 2.

Paulot, Luis. IN/compatível?: estranhamento. Porto Alegre. [S.I.; s.n.], 2016.

______. IN/compatível?: trégua. Porto Alegre. [S.I.; s.n.], 2016.

______. IN/compatível?: dançarinos e desenho espacial. Porto Alegre. [S.I.; s.n.], 2016.

______. IN/compatível?: casais de beijos. . Porto Alegre. [S.I.; s.n.], 2016.

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