Meu amigo Ramiro Rosário

Ramiro Rosário e Cristiano Goldschmidt 2003

2004 – Passeio no Guaíba.

Tive um amigo, de quem sinto muita falta. Convivemos, a partir de 2001, de forma bastante intensa, por sete anos. Nos conhecemos na Oficina de Teatro Olga Reverbel, e como gente de teatro, era natural nosso interesse pelas demais linguagens artísticas. Frequentávamos os diferentes espaços culturais da cidade, sempre discutindo, com sensibilidade e lampejos de sabedoria (de uma pretensa sabedoria) aquilo que víamos: Arte nas suas mais diferentes linguagens e manifestações. Arte da qual nos nutríamos e que servia, ou deveria ter servido, para nos constituirmos como pessoas sensíveis ao diferente. Até porque, aos olhos da maioria, também éramos diferentes.

Lembro desse amigo ao visitar meu álbum repleto de fotografias que registram nossos encontros, provavelmente por ele hoje esquecidos. Momentos em que dividimos não apenas os mesmos espaços, mas intimidades, desejos e sonhos. Lembro do seu abraço apertado e dos afagos trocados, do afeto no olhar e nos gestos de quem frequentava minha intimidade. Fecho os olhos e me vêm à memória muitas lembranças, os jantares regados a vinhos e conversa agradável, depois das aulas de teatro, dos ensaios ou das leituras dramáticas.

Eram reveladoras nossas incursões noturnas pela Porto Alegre do início dos anos 2000. Dois jovens ávidos e sedentos de vida em busca de aventuras, algumas inocentes, outras nem tanto. Lembro de nossos passeios de sábado pelo Guaíba a bordo do barco Princesa Daiana (escrito assim mesmo). Nos finais de semana também visitávamos os asilos e casas de abrigo da cidade, onde levávamos voluntariamente nosso apoio e nosso abraço àqueles que precisavam de afeto. Desbravamos juntos os caminhos rurais de Porto Alegre muito antes de se tornarem atração turística. Muitas vezes estacionamos o carro nos morros que emolduram a cidade e ali ficamos, os dois, curtindo as belas paisagens e sonhando, entre outras coisas, uma capital cada vez mais plural, livre de preconceitos e ódio. Menos provinciana.

O Ramiro Rosário que conheci era bom ator, atuou em Mateus e Mateusa (peça que fala de sexo em pleno século XIX), de Qorpo Santo (1829 – 1883), sob a direção de Vera Potthoff, arrancando aplausos entusiasmados da plateia de um auditório lotado, na Feevale. Era um cara sensível, nada amargurado, apreciador e defensor das diversas manifestações culturais. Teve uma boa professora de teatro, uma boa professora de artes e um bom professor de música, no colégio Pastor Dohms. Em suma, uma formação, até o Ensino Médio, voltada para os aspectos sensíveis e humanistas da vida. Era engajado, respeitava e defendia as minorias. De certa forma pertencia à elas.

Jornal do Comércio, 15.07.2002

Caderno Panorama – Jornal do Comércio – Porto Alegre. Segunda-feira, 15 de julho de 2002.

Não deve ser o mesmo que conheci e com quem convivi o Ramiro Rosário, atual secretário municipal de Serviços Urbanos, ligado ao MBL, que na última semana promoveu ataques de ódio à exposição QueerMuseu, ao curador Gaudêncio Fidélis e aos visitantes, insuflando seus seguidores a realizarem orações em frente ao Santander Cultural e também a apresentarem queixa na Polícia por exposição de obscenidades.

Aquele Ramiro, o que tinha o teatro nas veias, o que visitava comigo os museus, não pode ser este que agora prega a intolerância e incita ao ódio e à violência. “É o símbolo do ultraje e do nojento”, escreveu ele sobre QueerMuseu. Não consigo imaginar o companheiro que tive cerceando a liberdade e adjetivando dessa maneira uma exposição que trouxe de forma tão expressiva uma multiplicidade de formas e cores, e que apresentou, através de diferentes olhares de artistas consagrados, uma pluralidade de leituras que levam a muitos caminhos e diferentes significados.

Onde anda aquele meu amigo? Que caminho tomou e que escolhas fez a partir de determinado momento de sua vida? Perde a sensibilidade, o bom senso, o olhar crítico ou a razão uma pessoa que convive por tanto tempo com a arte e que repentinamente dela abre mão? Para mim, suas recentes manifestações mostram que ele continua fazendo teatro. Uma pena ter abandonado os palcos para atuar no que há de pior na política conservadora e retrógrada. O que pensam seus antigos professores e professoras de artes sobre sua recente atuação?

10 comentários sobre “Meu amigo Ramiro Rosário

  1. Comentar o que está escrito é bem fácil. Vou comentar o que está por trás do texto.
    Alguém que se chama de amigo e trata de revelar assuntos contidos e insinuar outros tantos não é amigo. É pessoa com algum interesse ainda não declarado. Sendo assim, o conteúdo não tem valor. Triste. O verdadeiro amigo busca o outro no erro (se for o caso) não o expõe dessa maneira vil. A isso damos o nome de intolerância e má fé, certamente por questões não resolvidas e frustrações. Uma pena.

    • Arnaldo, não existem insinuações nem mensagens subliminares neste texto. O que existe é o que nele está posto: o desabafo e a saudade de um amigo com quem se tinha interesses em comum, entre eles as artes, e com quem dividi muitos momentos de alegria. 

  2. Tempos difíceis estes, onde o fundamentalismo toma conta da prática.
    Gostar ou não gostar é de nosso direito. Intransigir com o que não é de nosso gosto é doentio. Não gosto de sertanejo, não ouço. Quem não gostar de rock, não ouça.
    Jamais proibir o rock ou o sertanejo.
    Ou seja lá o gênero que for.
    Entender o diferente como parte do imenso mosaico da humanidade é o que nos diferencia doa inquisitores medievais.

  3. Pois achei que o Ramiro Rosário havia mudado somente comigo…
    Um dia ele reflita sobre os verdadeiros valores da vida…

  4. Difícil foi para o Ramiro que abandonou seu sonho de ser ator e livre para ser comandado por um intolerante e prepotente! Da meiguice da vida na arte para rigidez disfarçada num corpo que não lhe pertence!

  5. Cristiano, não sei o que aconteceu com parte daquela geração. Eu estudei com ele no mesmo Dohms, turma C até a oitava.
    Realmente não sei o que ocorre, se o fanatismo se apoia em ideias caseiras, ou algo aprendido na faculdade. Mas pelo que tu escreves, são dois abismos.
    Obrigado pelo texto e pela reflexão que me trouxe.

    Abraço Matheus

  6. Sabemos bem que isto é ego. Ele contra-se agora em face de uma maior quantidade de aplausos de uma turma nada exigente numa campanha moralista, e vê seu ego no altar dessa galera.

  7. Eu sei o que aconteceu com o teu amigo. Ele estudou direito na PUCRS. Tenho uma experiência idêntica com um amigo. Isso não pode ser só coincidência.

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