Perdi a fé no Brasil

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Imagem de vídeo revela momento em que João Victor, 13 anos, é perseguido e arrastado por gerente e supervisor do Habib’s

Perdi a fé no Brasil. E acho difícil recuperá-la. No momento em que trabalho na proposta de duas palestras para professores, me deparo com a triste notícia do jovem de 13 anos morto por funcionários de uma rede de fast food, em Itaberada, SP. Segundos depois vejo a manchete de um jovem de 29 anos, doutorando de Física pela UFRGS, assassinado a tiros na zona norte de Porto Alegre. Queriam sua mochila. Não muito antes leio sobre a terrível morte de uma travesti assassinada com requintes de crueldade, no Ceará.

Essas notícias são diárias. A crueldade é corriqueira e banal. Se antes a barbárie era manchete dos telejornais em horários específicos do dia, com a internet ela passou a ser atualizada na nossa linha do tempo, caso a caso, minuto a minuto, em diferentes fontes, formatos e linguagens. E assim a barbárie visita-nos com uma frequência antes inimaginável. Tornou-se vizinha próxima, muitas vezes familiar. Penso. Busco na memória algo que possa ter sido bom do pouco que vejo e leio nos noticiários nos últimos tempos. Não encontro nada.

Na grande imprensa, revolta a distorção dos fatos e a manipulação, escancarada como nunca, tentando esconder as verdades e apresentando mentiras como se verdades fossem. Quando está bom para o povo, eles dizem que está ruim, e quando a situação está péssima, eles retratam o paraíso.  No programa Conta Corrente, da Globo News, a representante de uma grande empresa brasileira afirma que a crise pode ser positiva por favorecer uma nova linha de produtos de um setor específico. Quanto descaramento!

O jornalismo da grande mídia, sabemos, não se solidariza com as vítimas da crise e da barbárie. Ele próprio ajuda a produzir as crises e as barbáries que noticia. Ofendido, pode até negar. Em se tratando de Brasil, nada diferente. Sempre foi assim. E alguns ainda acreditam neste jornalismo, porque não têm ou não buscam outras opções, por desconhecimento, por ingenuidade, por ignorância, por comodidade, por preguiça, por alienação.

O que vejo na imprensa alternativa é o retrato de um Brasil que se torna cada vez mais cruel. Um país tomado de assalto e conduzido por um grupo de pilantras da pior espécie. Aquela espécie que se forma, em parte, graças ao analfabetismo político de muita gente, aqueles mesmos ingênuos, cômodos, preguiçosos e alienados citados ali acima.

Assim, a imprensa nos adoece de qualquer maneira, ou porque mostra-se criminosamente manipuladora, ou porque nos apresenta uma realidade terrivelmente assustadora, expondo-nos as vísceras de um país dilacerado, esquartejado, quebrado, com o filé mignon (a sua riqueza) oferecido gratuitamente para poucos. A carne de pescoço, claro, é distribuída ao povo a preço de primeira. Afinal, alguém tem que pagar a conta.

Me pergunto se o que acontece na política de nosso país reflete o povo que somos ou se o povo que somos é o reflexo da política que temos. Vivemos tempos sombrios, de perdas e retrocessos, de dilaceramentos, de revés em todas as áreas, de falta de honestidade, de ausência de humanidade, de indecência generalizada. Aliás, que tipo de humanos somos? Em que nos transformamos? Somos ainda humanos ou estamos em um processo de mutação que está nos transformando em seres insensíveis e bárbaros capazes de qualquer maldade sem medir as consequências? Existe ainda algum sentimento de coletividade em nossa sociedade? Se considerarmos que sociedade é um conjunto de seres que vivem de forma organizada, que a palavra vem do latim societas, que significa “associação amistosa com outros”, podemos chamar a isto em que vivemos atualmente de sociedade?

2 comentários sobre “Perdi a fé no Brasil

  1. Sempre muito lúcidos e retratando a realidade Professor. Eu acredito que está faltando para a humanidade é a Ética. A ética da e para a vida.

  2. Parabéns, pela escrita Cristiano! Realmente muito lúcidas colocações. Acredito que “o povo que somos é o reflexo da política que temos”, infelizmente. Pois a maldade, o desrespeito, a falta de empatia, a incompreensão está, desde a muito tempo, em todas as esferas da nossa sociedade. Agora com o advento da internet se potencializou.

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