O FEIO – OS ATRAVESSAMENTOS NO DIÁLOGO TEXTO-VISUAL

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Foto: Ramon Brant

O espetáculo O Feio é uma peça teatral do dramaturgo alemão Marius Von Mayemburg, e a versão a que assisti recentemente é trabalho originado na disciplina Atelier de criação e composição cênica I do Departamento de Arte Dramática do Instituto de Artes da UFRGS. A peça narra a história de Lette, interpretado por Rossendo Rodrigues, um criativo engenheiro de sistemas elétricos que pensava que era “normal”, até o dia em que a empresa onde trabalha o proíbe, por considera-lo “feio”, de participar da promoção de sua mais recente invenção, a tomada de alta tensão 2CK.

Convencido, inclusive por sua mulher, da sua catastrófica feiura, Lette acaba se dirigindo a um cirurgião plástico que lhe (re)cria o rosto ideal, tornando-o irresistível à sua esposa, a uma série de admiradoras no circuito de palestras que se seguem, à chefe de uma grande empresa e ao seu próprio filho gay. Como montagem contemporânea a que se propõe, a encenação, dirigida por Mirah Laline, insere projeções impactantes que enriquecem o trabalho do grupo, mostrando que o uso de tecnologias contribui para uma dinâmica e uma visualidade que acrescentam vigor e novas perspectivas ao espetáculo teatral.

Dialogando ininterruptamente com diferentes linguagens, a montagem proporciona aos espectadores um olhar que transita, assim como os atores em cena, por um universo de variadas interações tecnológicas. E os atores, ora alinhados com os registros audiovisuais, ora focados em sua própria experiência corporal, levam o público a voltar seu olhar para atravessamentos que transformam e ressignificam a experiência teatral. Estrutura cênica, jogos, gestos e movimentos se entrelaçam então com linguagens vindas de outros fazeres artísticos, proporcionando novas vivências, surpreendendo a plateia ou até mesmo atendendo a uma possível expectativa, a uma necessidade de atender aos desejos por novas propostas que foram se amalgamando ao contexto cênico contemporâneo.

De acordo com Christophe Bident (2016, p. 50):

[…] o teatro se encontrou assim atravessado, mais e mais, pelas outras artes (a mímica, a dança, o circo, a marionete, o vídeo, a escultura móvel ou industrial…), a ponto de criar categorias novas por concatenação (a dança-teatro, o teatro de objetos), ou por globalização (a performance) – e, particularmente, há um quarto de século, pelo que nomeamos de novas tecnologias, sob a forma de intermidialidade, de transmidialidade, a fim de produzir, outro conceito novo, um “ator ampliado”.

Com poucos elementos que compõem o cenário, a proposta de encenação de Mirah Laline privilegia sobretudo a força da atuação dos atores, atuação que é potencializada pelo diálogo cuidadosamente bem pensado para estar em sintonia com o figurino, e este com as projeções e as músicas. A trilha sonora é aqui igualmente potencializadora de uma atuação que visivelmente leva os atores à exaustão, criando no espectador uma sensação de perfeita harmonia entre o trabalho corporal, a voz e as imagens que ajudam a conduzir a narrativa, e sem as quais o trabalho não renderia o impacto que arrebata a plateia do início ao fim do espetáculo. Considerando as características desta montagem, importante ressaltar que a proposta do espetáculo poderia se inserir também naquilo que denominamos teatro-performance, sem entrar em discussões pormenorizadas sobre o conceito, por não ser este o objetivo deste ensaio e por não termos espaço para esta discussão. Para finalizar, considero importante trazer a contribuição de Ricardo Nascimento Fabrini (2016, p. 21), ao falar do Teatro marcado pela incorporação de registros de mídias como fotografia, holografia, cinema ou vídeo, daí resultando diferentes regimes de imagens. Citando Hans-Thiens Lehmann, ao se referir ao Teatro como campo expandido, diz Fabrini:

O teatro enquanto campo expandido, enquanto amálgama de mídias – como mostrou Hans-Thiens Lehmann em Teatro pós-dramático – é composto de signos corporais e signos de luz. Não se supõe aqui, evidentemente, um teatro multimídia como “máquina de imagens que efetua apenas uma reprodução da realidade”; como algo subsidiário, “de mero reforço do texto” (Lehmann, 2007, p. 368).

Ficha técnica:
Direção: Mirah Laline
Elenco: Danuta Zaghetto, Marcelo Mertins, Paulo Roberto Farias e Rossendo Rodrigues.
Figurinos: Marina Kerber
Iluminação: Lucca Simas e Luciana Tondo
Operação de luz: Luciana Tondo
Cenografia: O grupo
Vídeos: João de Queiróz e Maurício Casiraghi
Operação de vídeos: Maurício Casiraghi / Rodolfo Ruscheinsky / João Gabriel de Queiroz
Trilha sonora pesquisada: Mirah Laline
Operação de som: Manu Goulart
Produção: Danuta Zaghetto, Luciana Tondo e Marcelo Mertins
Assessoria de imprensa: Leo Santanna
Realização: Ato Cia.Cênica
Classificação etária: 14 anos
Duração: 1h15min
Foto: Ramon Brant

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