O que diria Paulo Freire sobre o momento atual?

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Paulo Freire

“Que é mesmo a minha neutralidade senão a minha maneira cômoda, talvez, mas hipócrita, de esconder minha opção, ou meu medo de acusar a injustiça? ‘Lavar as mãos’ em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele.” Paulo Freire

Recentemente me envolvi em polêmica ao publicar em minha conta pessoal no facebook opinião em que questionava o fato de profissionais e estudantes das licenciaturas defenderem o MBL, a PEC 55 e o Projeto Escola Sem Partido. Considerei, em poucas palavras, ser impossível estudar Paulo Freire e defender ideologias fascistas.

Os dias que se seguiram àquele momento de tensão em que fui acusado – mesmo sem ter dado maiores detalhes das circunstâncias de meu desabafo – de não permitir a pluralidade de ideias em sala de aula, me levaram a refletir e a organizar meus pensamentos para voltar ao assunto. Tenho revisitado constantemente os pensadores que li no período de minha formação e que ajudaram a me tornar um profissional da educação, lembrando que a prática diária não deve fugir do objetivo para o qual fui preparado nos anos de estudos.

O professor deve estar apto a atuar após comprovar o domínio dos conhecimentos de sua área de atuação, e tão importante quanto, após demonstrar preparo para interferir e conduzir um debate franco e aberto sobre as ideias defendidas pelos educandos e que eventualmente possam comprometer suas futuras práticas docentes. Ideias que não podem se opor ao que eles aprenderam em sala de aula. Não pode haver contradição entre o que o aluno de ontem aprendeu e o que o professor de hoje ou de amanhã defenderá ou praticará no ambiente escolar ou universitário. Em outras palavras, o professor não pode ensinar algo do qual não esteja imbuído. Não há a menor possibilidade de convencer seus alunos da importância das obras dos educadores se não concordar com elas. Não pode dizer que defende a liberdade de expressão se compactua com ideologias sabidamente opressoras e cerceadoras da liberdade.

Meus argumentos são simples porque partem da incompatibilidade de se buscar uma formação profissional para atuar na docência em cursos de licenciaturas (embora possamos dizer que não só nas licenciaturas) e ao mesmo tempo defender movimentos fascistas. Não se pode, como educador, defender uma educação libertadora e demonstrar empatia às ideias defendidas, por exemplo, por Jair Bolsonaro. É contraditório com a prática que se espera de um professor.

Aos que defendem a neutralidade da educação e que acham que a atuação do professor deve limitar-se a transmissão exclusiva de conteúdos, sem instigar o pensamento crítico e a discussão entre os estudantes (discussão que conscientiza e produz conhecimento); aos que defendem o projeto Escola sem Partido, convido-os a (re)lerem toda a obra de Paulo Freire. Em seu livro Pedagogia da Autonomia (1997, p. 124), Freire nos diz: “É na diretividade da educação, esta vocação que ela tem, como ação especificamente humana, de ‘endereçar-se’ até sonhos, ideais, utopias e objetivos, que se acha o que venho chamando politicidade da educação. A qualidade de ser política, inerente à sua natureza. É impossível, na verdade, a neutralidade da educação. E é impossível não porque professoras e professores ‘baderneiros’ e ‘subversivos’ o determinem. A educação não vira política por causa da decisão deste ou daquele educador. Ela é política.”

Resolvo abordar o assunto após constatar, em minha prática docente, que muitos alunos das licenciaturas, Pedagogia inclusive, estão saindo dos cursos superiores sem lerem os grandes educadores, dentre os quais, Paulo Freire. Há inclusive professores de cursos superiores em Pedagogia que não o leram. Bastam poucos minutos tentando discutir suas obras para perceber a falta de repertório. Assim como não leram Vygotsky, Piaget ou quaisquer outros. Na maioria das vezes seu contato com os autores fica restrito a citações nos livros das disciplinas, que superficialmente os situam biograficamente, sem oportunizarem aos alunos conhecerem os mesmos com profundidade, o que só acontece quando temos a oportunidade de um contato estreito com suas obras.

Importante frisar, no entanto, que mesmo que os alunos desconheçam a profundidade das ideias dos pensadores que construíram a história da educação, é a minoria que se posiciona de forma a defender movimentos e regimes políticos caracterizados por medidas extremas ou autoritárias que prejudicam a vida de um país, causando o enfraquecimento gradual das diferentes áreas que são o alicerce da justiça social de uma nação, como educação, saúde e cultura.

Toda e qualquer pessoa que tenha passado por uma formação humanista e libertadora tem a obrigatoriedade de, principalmente no campo educacional, mostrar o que está por trás de certas ideologias. Isso é construção de conhecimento. A pluralidade de pensamentos não só é válida, como necessária, defendida por quem prega a democracia, pelos grandes nomes da educação e por nós, professores que estamos em sala de aula. O que alguns precisam entender, é que a defesa da liberdade de pensamento não deve estar alinhada à defesa de instituições que colocam em risco essa mesma democracia da qual falamos e defendemos. Não podemos, como professores, concordar com movimentos políticos reacionários, de repressão e de opressão à maioria marginalizada. Vai na contramão do que aprendemos em nossa formação docente, e do que deveríamos ter aprendido no ambiente familiar. Defender a liberdade de pensamento não deve implicar em dar eco a vozes que apregoam a desigualdade social, a homofobia, o racismo e o preconceito de qualquer natureza.

A educação é libertadora justamente porque as ideias que ela defende não devem tornar o educando de hoje o opressor de amanhã. Paulo Freire, também em Pedagogia da Autonomia (1997, p. 114), já nos dizia: “Não junto a minha voz à dos que, falando em paz, pedem aos oprimidos, aos esfarrapados do mundo, a sua resignação. Minha voz tem outra semântica, tem outra música. Falo da resistência, da indignação, da ‘justa ira’ dos traídos e dos enganados. Do seu direito e do seu dever de rebelar-se contra as transgressões éticas de que são vítimas cada vez mais sofridas.”

4 comentários sobre “O que diria Paulo Freire sobre o momento atual?

    • Como sempre brilhante professor. Compartilho porque penso assim também. Só que o que vejo é que a maioria dos professores não pensa assim e, muito menos age. Principalmente na educação básica, barbaridades acontecem. E,com aqueles que não tem nenhum amparo familiar. O que lhes resta então é o abandono escolar. Eu sinto muita tristeza. Talvez quem está no meio acadêmico não fique sabendo mas, coisas absurdas acontecem. O desrespeito a todo e qualquer tipo de inclusão é o que acontece nas redes públicas por este país afora. Ainda bem que existe um grupo, e você está incluído nele professor Cristiano, que pensa e atua com respeito.Por isso gosto tanto de ti, porque te admiro.

  1. Gostei muitíssimo de sua reflexão professor, muito bem colocadas suas palavras no atual momento em que estamos vivendo em nosso país.
    Como sempre, admiro muito seus textos. Sábias palavras com excelentes aconselhamentos para seus educandos, claro que vamos ler pelo menos uma obra desse educador maravilhoso. Paulo Freire.

    • Em seu livro A importância do ato de ler, Paulo Freire fala que é lendo que se aprende a ler, é escrevendo que se aprende a escrever, é com as palavras do grande mestre Freire que o “homem” começa a se reconhecer, aprende a conhecer o mundo, é lendo é escrevendo que antes oprimido ele começa a libertar-se um ser mais crítico com uma nova leitura de sua vida.

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