O Brasil é feito de gente corajosa

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Faculdade de Direito da UFRGS ocupada. Foto de Mariana Vellinho

O Brasil é feito de gente corajosa. Corajosos são os estudantes secundaristas que resolveram ocupar as escolas. Corajosos são os estudantes universitários que agora ocupam as universidades país afora. Somos uma nação historicamente corajosa. Olho para o passado e revisito a coragem daqueles que por séculos lutaram para ver nascer um Brasil independente e forte, para poder ter na mesa mais que as refeições básicas, para merecer mais que a educação e a saúde básicas, para poderem ir além do básico que sempre lhes foi ofertado como migalhas jogadas aos pombos nas praças das cidades.

Cansados da exploração, interna e externa, lutamos por conquistas que nos encheram de orgulho. Passamos a (vi)ver tempos mais generosos com aqueles que antes nada tinham além da esperança e da coragem.

Os filhos dos pobres (negros, pardos, indígenas) ingressaram nas universidades, nas melhores instituições de ensino superior, públicas e privadas. Passaram a dividir o mesmo espaço, sentando lado a lado, cursando os mesmos cursos que os filhos historicamente abastados deste país, um país que sempre gostou de manter pobres e analfabetos os que aos ricos serviam como serviçais exemplares que sempre foram. Exemplares principalmente porque nada questionavam. De uniforme e avental, claro.

O Brasil conquistou independência financeira. Pagamos nossa dívida com o Fundo Monetário Internacional. Milhões saíram da miséria graças às políticas públicas que se tornaram públicas de fato. E apesar de sabermos que ainda havia muito a ser feito, sabíamos também que estávamos no caminho certo. Alguns, no entanto, ao não perceberem, ou ao não darem o devido valor aos avanços conquistados, passaram a achar pouco o muito que se fez em tão curto espaço de tempo, e então cuspiram no prato que comeram, endossando o discurso dos opressores.

Desconhecendo os meandros da política(gem) – partidária e econômica – esquecendo sua história recente de submissão, privações e dificuldades, parte significativa dos que antes eram excluídos, por ingenuidade ou cegueira, manipulados feito marionetes, passaram a apoiar seus algozes. E contribuíram para a consumação de um novo golpe de Estado.

Se não tivéssemos uma classe política tão reconhecidamente corrupta, nos treze anos em que mais crescemos como nação muitas coisas ainda poderiam ter sido feitas. Graças a estes políticos, corruptos em sua maioria (vide o número dos que votaram a favor do impedimento da presidenta Dilma Rousseff), não conseguimos avançar a patamares ainda mais altos. Na visão destes, passados treze anos de avanços, chegara a hora de desarticular os movimentos sociais, manipular a opinião pública e jogar a população contra o governo, desestabilizando-o até derrubá-lo.

Mas não foi o povo que derrubou Dilma Rousseff. A culpa deste golpe não deve ser jogada no colo dos incultos habituados a formarem sua opinião regidos por um jornalismo tendencioso e manipulador. Estes são apenas vítimas do sistema. A culpa está nas mãos dos articuladores, da mídia perversa e seus aliados da FIESP, da FIERJ e suas coirmãs de outros estados. Uma imprensa, vale lembrar, pertencente a um grupo pequeno de famílias ligadas também ao que existe de pior no cenário político nacional. A culpa desta crise social, educacional, política e moral em que nos encontramos está também nas mãos do judiciário, do STF, que nada fizeram quando podiam ter feito para manter a ordem e o rumo certo do país. O resto, os que de verde e amarelo tomaram as ruas das cidades vociferando sua ignorância ou sua maldade, não passam de massa de manobra.

E consumado o golpe, chegara a hora de retirar as conquistas. Em um único passo retroceder ao pior da história de nosso passado, e voltando ao passado, com a destreza de um atleta do salto à distância, dar um pulo adiante. Volta-se ao passado para acabar com as conquistas de nossa história recente. E anula-se então tudo o que de bom foi feito. E o salto para o futuro não é do ruim para o melhor, é, isto sim, um salto para o abismo. A política atual não se restringe a retirada de direitos há pouco conquistados. Ela é retrógrada porque sua agenda principal é a curto e a médio prazo extinguir a possibilidade de construção de um país verdadeiramente independente, justo e igualitário. A política atual volta a marginalizar uma imensa maioria para privilegiar uma pequena parcela de afortunados sedentos pelo poder. Sem esquecer que movidos pelo ódio, pelo preconceito e pelo racismo.

Vivemos em pouco mais de treze anos avanços antes inimagináveis. Nos tornamos referência internacional, logramos êxito em várias áreas, adquirimos reconhecimento e respeito. Saímos da periferia. Nossos estudantes puderam, além de cursar nossas universidades com um número expressivo de bolsas integrais, ter a experiência antes impensável de também estudar fora, em intercâmbios com incentivos do governo federal, iniciativas comuns em países que privilegiam a educação.

Mesmo sabendo que muito ainda precisava ser feito para continuar melhorando nossa educação, básica e superior, há um consenso, um sentimento coletivo das conquistas dos últimos anos. E é em nome deste consenso que instituições de ensino e sindicatos Brasil afora se mobilizam contra os pacotes de maldades preparados pelo governo federal e por alguns governadores em sintonia com o ilegítimo de Michel Temer, caso de José Ivo Sartori, no Rio Grande do Sul.

É contra medidas que afundam o país que as mobilizações estudantis e sindicais se ampliam, com a crescente adesão e apoio de diversos setores da sociedade civil. E é sobre a coragem e o perfil dos jovens estudantes engajados nestas mobilizações que voltarei a falar na sequência, esclarecendo aos leitores o que de fato está por trás de propostas como a PEC 55 (que congela investimentos em saúde e educação por pelo menos 20 anos), do projeto de Reforma do Ensino Médio e do Programa Escola Sem Partido.

Traçando um paralelo entre as medidas adotadas por Michel Temer, abordarei também a atual crise no Rio Grande do Sul, lembrando que somente em 2016, R$ 4,5 Bilhões foram sonegados por grandes empresas em ICMS ao Estado, segundo informam os técnicos tributários. Este é o dinheiro que falta para a saúde, a segurança e a educação, valor aparentemente ignorado pelo governo gaúcho, que prefere penalizar a população ao invés de cobrar seus devedores.

2 comentários sobre “O Brasil é feito de gente corajosa

  1. Excelente reflexão de alguém que não está sentado em seu escritório olhando a ‘avalanche ‘ chegar. Cristiano está conosco nas ruas, nas reuniões, nos cafés.. Conversando e debatendo sobre a triste crise que a Educação brasileira passa hoje. PARABENS MEU AMIGO. SEGUIMOS DE MÃOS DADAS!

  2. Parabéns pelo texto. É bom, nesses momentos em que pessimismos avançam e tornam turvo o nosso olhar para o futuro, lembrar da coragem. Enfatizar a força de enfrentamento! Seguimos na luta por uma sociedade com valores de justiça em destaque!

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