Morrer deve ser bom como dormir

Às vezes fico deitado, meio acordado meio dormindo, com a sensação de que morrer deve ser bom como dormir. Morrer é colorido, viver é dolorido. Há dias em que a única coisa que gostaria é a morte, porque a vida parece tão dolorosamente doída, tão insuportavelmente doída, que não vislumbro saída. Não que eu pense que viver deva ser constantemente felicidade. Pensar sobre a morte tampouco significa que esteja pensando em abreviar-me a vida. Sim, às vezes penso, um pouco só, porque estar vivo nestas circunstâncias apenas me faz refletir sobre o quão duro é viver, e que de alguma forma a morte é algo que não dói, que não sofre, porque morte é ausência, é silêncio, é não vida.

Quando me deito, como ontem e como hoje, há um estado profundo em mim, ou no qual mergulho e do qual não quero sair, que me faz não querer voltar para a superfície. É um estado no qual pensar é a única coisa que faço, e penso no distante, no inalcançável mundo dos justos, no inalcançável justo mundo, suplantado pelas injustiças diárias que nos fazem tão não merecedores do amor e da justiça. Quando estou imerso para além da confortável cama na qual meu corpo repousa, lá onde não sei bem onde me encontro, sabendo apenas ser longe daqui, sinto a angústia de saber ser possível um outro mundo que não este no qual fomos jogados e onde vivemos tão desesperadamente buscando, sem sucesso, a paz e a felicidade. Mas onde estará este mundo? Como torna-lo possível?

Morrer deve ser bom como dormir, porque acordado, vejo que há algo de errado num mundo em que prevalecem juízos (ou seriam juízes?) de valores que de valor nada tem. Há algo de errado em amores não correspondidos, em juízes vendidos, em tristezas constantes, em políticos bandidos. Há algo de errado em uma imprensa que tem um lado que não o da justiça social. Há algo de muito errado com países carcomidos por elites corruptas. Não é possível vivermos tempos tão sombrios e obscuros, com gente que planta sementes da discórdia em lavouras do egoísmo para fazer crescer o ódio e colher desigualdade para desta se alimentar.

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