Vícios e Desafios da Docência Acadêmica na Educação à Distância

A educação à distância tem conquistado cada vez mais adeptos no Brasil. A facilidade no ingresso e as mensalidades acessíveis (geralmente equivalem ao valor pago por uma única disciplina do mesmo curso na modalidade presencial, podendo variar um pouco, para mais ou para menos), são alguns dos atrativos que fazem com que muita gente procure os cursos superiores oferecidos pelas instituições especializadas em EaD. E por ter dado tão certo, instituições públicas e privadas que até pouco tempo ofereciam somente cursos presenciais voltaram também sua atenção para a crescente procura por esta modalidade, ampliando significativamente sua oferta nos últimos anos.

O perfil dos alunos que buscam o ensino à distância é variado. E apesar de ter aumentado a procura por aqueles que já concluíram um curso superior na modalidade presencial e que buscam uma segunda formação, as turmas são compostas, em sua maioria, por egressos do ensino médio com diferentes níveis de aprendizado e por pessoas de diversas faixas etárias, o que proporciona uma troca positiva para a formação do profissional, que aprende a lidar com as diferenças. Se os mais velhos trazem a seriedade, o compromisso e a experiência de vida, os mais novos entram tendo uma maior facilidade na aprendizagem. Mas ambos têm em comum em seu histórico a falta de oportunidades ou condições de ingressar em universidades tradicionalmente conhecidas e que oferecem uma formação em cursos de graduação presenciais.

Considerando que o acesso à educação é um direito universal e não uma oportunidade para os “melhores”, os docentes creditam na facilidade do ingresso aos cursos superiores da EaD um dos pontos positivos desta modalidade. Mesmo com as dificuldades apresentadas pela mesma, o ensino à distância traz a vantagem de ser a possibilidade de uma formação para milhares de estudantes que não teriam chances na disputa ainda desigual pelo ingresso nas instituições de prestígio espalhadas pelo Brasil, sejam elas públicas ou privadas.

Com metodologia eficiente e professores preparados, o ensino à distância tem proporcionado a alunos aplicados a oportunidade de uma formação superior com qualidade em diversas áreas do conhecimento. Se de um lado a modalidade se apresenta como excelente oportunidade para estudantes disciplinados; por outro, um grande número de alunos a procuram apostando na facilidade da conquista de um diploma do ensino superior.

Entre os alunos deste segundo grupo há uma falsa crença de que os cursos à distância, com encontros semanais ou não, simplificam ou reduzem seu compromisso com os estudos. Mas enganam-se os que acreditam que o ensino à distância é uma versão resumida do mesmo curso na modalidade presencial. Não se trata de simplificar em um único encontro semanal aquilo que é visto ao longo de vários encontros nos cursos presenciais.

O estudante da EaD que desconsidera a necessidade de seu envolvimento efetivo com os estudos em horários extra classe potencializa as dificuldades naturais do processo de aprendizagem nesta modalidade. Ao ignorar a importância da leitura de seus cadernos de estudo, da resolução das atividades (com a desculpa de que as mesmas não caem nas provas), de seu engajamento em leituras complementares, como as oferecidas pelo Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), fóruns de debates e cursos, o aluno tende a transferir para o professor tutor a responsabilidade pelas suas frustrações e falta de sucesso nos estudos.

Por terem uma formação básica de baixa qualidade, apresentando déficit de aprendizagem, muitos estudantes mostram-se despreparados para enfrentar um curso superior (o que não acontece só na EaD); desta forma, o professor tutor tem o desafio de lidar com situações extremas, com alunos da graduação em Pedagogia, por exemplo, escrevendo “poriço” (por isso), “retomagem e recapitulagem de tópicos” (recapitulação de tópicos), dentre tantos outros erros absurdos.

Excesso de repetição, erros de gramática e ortografia, falta de objetividade, de coesão e de unidade na escrita, tornando o texto desorganizado e de difícil leitura para o interlocutor, é o que podemos observar em avaliações dissertativas (realizadas com consulta) da disciplina “Língua Portuguesa: Expressão Escrita e Compreensão de Texto”, feita por alunos do quarto semestre de um curso de letras, e cujo enunciado e proposta eram: “Para que haja a comunicação, são necessários alguns elementos fundamentais para sua efetivação. Com estes elementos, os diferentes sistemas de linguagem podem ser utilizados como forma de comunicação. Assim sendo, escreva uma redação com o tema: Os elementos fundamentais da comunicação”.

Redação do aluno A:

Redação Aluno A

Redação do aluno B:

Redação Aluno B

Redação Aluno C:

Redação Aluno C

Mesmo a proposta de avaliação permitindo ao aluno a consulta ao caderno de estudos, o resultado mostra uma grande dificuldade na construção textual. Ao transcrever trechos do caderno de estudos, os alunos demonstram falta de domínio da escrita e dificuldade em estabelecer um diálogo com o tema proposto.

O que de maneira geral se caracteriza como um problema sério se torna ainda mais grave quando tais erros são cometidos por estudantes das licenciaturas. Ou seja, aqueles profissionais que estarão nas salas de aula alfabetizando as próximas gerações, replicando os mesmos erros dos quais foram vítimas.

Muitos alunos da graduação, e isso não é privilégio da EaD, não conseguem destacar, pontuar aspectos relevantes de um texto, reflexo da má formação de alunos leitores desde a educação básica até o ensino superior, por isso, enquanto profissional docente, defendo a inserção da literatura na vida dos estudantes de qualquer área de estudos. Literatura, filosofia, história (até mesmo a leitura diária de periódicos, jornais, revistas) gradualmente tornarão mais fácil a compreensão de textos acadêmicos e científicos, porque enriquecem nosso vocabulário, ampliam nosso repertório. E há quem defenda (professores inclusive) que cobrar dos alunos leituras paralelas é desviar o foco de suas áreas de formação. Ora, se um estudante é incapaz de entender, pela leitura, questões básicas do conteúdo de disciplinas específicas de sua área de estudos, é porque muitas vezes faltou-lhe, ou ainda lhe falta, o entendimento do que deveria ter aprendido em sua formação anterior ao curso superior, por isso temos os chamados analfabetos funcionais, os que sabem ler, mas não entendem nada do que leem. Professores inclusive, o que é bem pior e mais preocupante ainda.

E se o aluno chega despreparado ao ensino superior, o professor tutor tem sua parcela de culpa ao não assumir o desafio de apresentar-lhe alternativas para trabalhar as deficiências de aprendizagem herdadas da educação básica, decorrentes, na maioria das vezes, das injustiças sociais e da ausência de políticas públicas voltadas para a educação. O professor da EaD também erra por não ter o domínio necessário para estabelecer e manter uma ordem sobre a dinâmica dos encontros. Por não conseguir lidar com as diferenças dos alunos, por não exigir deles seriedade e compromisso com os estudos, muitas vezes acaba facilitando a vida dos mesmos, fazendo vistas grossas ao não cumprimento de suas responsabilidades, flexibilizando a obrigatoriedade de sua participação nas aulas presenciais ou permitindo a consulta ao caderno de estudos em dias de prova.

Sabemos que a graduação presencial tem um professor responsável para cada disciplina do curso. Esse profissional, por afinidade ou por ter se especializado em uma ou mais disciplinas de sua área de atuação, tem amplo domínio dos conteúdos que estão sob sua responsabilidade, podendo assumir uma ou mais disciplinas na formação dos alunos, de acordo com suas afinidades ou especializações.

Na educação à distância existe um equívoco, de parte dos alunos, quanto ao entendimento do papel do professor tutor em sala de aula. Enquanto na graduação presencial o aluno conta com a oportunidade de estar com diferentes professores, na EaD ele terá um único professor tutor em sala de aula acompanhando-o ao longo de todo o período de sua formação. E por mais que o profissional esteja preparado para a tutoria, é praticamente impossível que tenha amplo domínio de todas as disciplinas que compõem o currículo de um curso superior. Em educação à distância, conforme Sá (1998), o tutor recebe o significado de “orientador de aprendizagem do aluno solitário e isolado”, que, frequentemente, necessita do docente ou de um orientador para indicar o que mais lhe convém em cada circunstância. Outros termos utilizados para tutor em educação à distância seriam “orientador acadêmico” ou “facilitador”.

Quando o estudante opta pelo ensino à distância, deve considerar que precisará de dedicação redobrada para alcançar seus objetivos, caso contrário, se chegar de outra forma ao final do curso, a conquista do diploma pouco ou nada representará em sua vida profissional. E, independentemente do termo que lhe é designado e de sua real função em sala de aula, o professor da EaD tem nesta modalidade a oportunidade de resgatar a autoestima e a confiança dos alunos, desenvolvendo projetos paralelos de incentivo ao aprendizado, diminuindo o abismo que os separa dos demais, contribuindo, num processo contínuo de inclusão social, para a formação de profissionais realmente capacitados para atuar nas mais diversas áreas do saber e do mercado de trabalho.

4 comentários sobre “Vícios e Desafios da Docência Acadêmica na Educação à Distância

  1. Texto bastante relevante e que aborda com muita propriedade alguns dos desafios da EaD. Considero que tem muito a contribuir e estarei recomendando para colegas de trabalho e também alunos. Obrigado pelo empenho em publicar tais questões.

    Att,

    Livio Claudino
    Tutor EaD 2012-2014 (PLAGEDER/UFRGS)

    • Texto muito bom para reflexão. Vou encaminhar o link para todos os alunos das turmas de Gestão da TI e Análise e Desenvolvimento de sistemas que atendo atualmente no EaD. Já faço um trabalho de resgate da comunicação escrita com todos os alunos por meio da redação (prova 1). Tenho tido bons resultados. Esse texto atenderá ao meu desejo de sempre lembrá-los da importância da comunicação escrita. Parabéns!

  2. Excelente texto que aborda diversos desafios da EAD. Estou inserida na gestão de um curso de graduação na modalidade EAD (UFRGS) há 10 anos e as questões abordadas no texto são pertinentes e retratam com muita propriedade os desafios diários.
    Ressalto que um grande desafio têm sido o planejamento das disciplinas EAD, pensar as disciplinas: material didático, atividades e discussões fora de uma sala de aula “tradicional” têm demandado uma mudança do pensar e fazer didático para os professores, que na maioria das vezes têm suas experiência didática construída em salas de aula presenciais, centradas na oralidade e em espaço e tempo previamente definidos.
    Neste aspecto os tutores, normalmente alunos de Pós-Graduação têm desempenhado um papel fundamental e estão vivenciando um novo fazer didático/pedagógico que contribuirá para o futuro da Educação.
    O texto é excelente ao abordar as falsas expectativas de “facilidade” da EAD para uma parcela significativa dos estudantes, fato que contribui para a evasão. No mesmo sentido as questões, não exclusivas da EAD, referentes a leitura e escrita são uma realidade que precisa ser discutida.
    Parabéns pelo texto.
    Tania Cruz
    PLAGEDER/UFRGS
    Núcleo de EAD

  3. Caro Professor Cristiano! Penso que este texto diz muito do que penso também! Uma abordagem significativa e muito importante! Todos deveriam dedicar um pouco de seu tempo e refletir sobre o que aqui está exposto!!! Muito bom! Parabéns!!! Vêm de encontro ao que conversamos!!! Abraços.

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