Crônica de um Sonho (O Teatro Brasileiro de Comédia – 1948 – 1964)

TBC Teatro Brasileiro de Comédias

No livro Crônica de um Sonho (O Teatro Brasileiro de Comédia – 1948 – 1964), Alberto Guzik faz um resgate memorável de uma das companhias que marcaram a história do teatro brasileiro. Sábato Magaldi, na apresentação, lembra que o autor, para escrever a obra “utilizou os recursos mais fecundos da pesquisa universitária – exame atento das fontes, leitura dos textos encenados, levantamento e comparação dos juízos, referência a dados numéricos, ampla bibliografia e sobretudo fina meditação sobre o conjunto do material, vazada em estilo fluente e agradável.”

tbc capa

A companhia Teatro Brasileiro de Comédia nasceu do sonho do italiano Franco Zampari, que chegou ao Brasil em 1922 vindo de Nápoles. A convite do amigo Francisco Matarazzo Sobrinho, o engenheiro Franco desembarcara na capital paulista para organizar a Metalúrgica Matarazzo. Já estabelecido em São Paulo, com laços afetivos e profissionais, homem culto que trouxera consigo a experiência pregressa de frequentador dos teatros italianos, em setembro de 1945, aos 48 anos de idade, Zampari escreveu a peça A mulher de Braços Alçados. Dirigida por Abílio Pereira de Almeida, nela atuaram sua esposa, Débora Prado Zampari, Sofia e Paulo Assunção, Majô Rheingantz, Carlo Zampari e Isabel Moraes Barros. No dia 1º de junho de 1946 a peça estreou em um pavilhão de lona nos jardins da casa do empresário, oportunidade em que compareceram 400 pessoas. Até a data da estreia, no entanto, foram seis meses de ensaios na residência de Zampari. Os encontros eram marcados por jantares regados a bebidas, o que dificultou o processo e retardou a data de estreia do trabalho do grupo de amigos.

Essa primeira experiência pessoal, mais o movimento de teatro amador da capital paulista, foram o pontapé inicial para uma empreitada que mudaria sua vida a partir de 1948, qual seja, a fundação do TBC. Nas palavras do próprio Zampari, “É simples o que me fez criar o TBC. Cheguei ao Brasil, vindo da Itália, em dezembro de 1922. Sempre trabalhei como engenheiro. Em 1948, pertencendo à organização de dez fábricas, pude sentir que o que parecia empreendimento louco logo se justificava, em virtude do progresso imenso do país. Amante do palco desde os 17 anos, notei com tristeza que o meio teatral brasileiro era precário, não obstante o esforço heróico de alguns homens e grupos. Decidi fundar um grupo amador e orientei a transformação de uma garagem, na Rua Major Diogo, 315, num teatrinho com trezentos e sessenta e cinco lugares.” (GUZIK, 1986, p.12)

Franco Zampari

Franco Zampari

Para levantar fundos destinados à instalação da sala de espetáculos e o capital necessário para seu funcionamento, Zampari e Ciccillo Matarazzo criaram a Sociedade Brasileira de Comédia, entidade sem fins lucrativos para a qual convidaram duzentas figuras da sociedade paulistana, destacando-se banqueiros e industriais.

A ideia inicial era de que a sede do TBC fosse junto ao MASP (Museu de Artes de São Paulo), que também se constituía na época em uma iniciativa encabeçada pela família Matarazzo. Diversos fatores fizeram com que as duas empreitadas não se viabilizassem ocupando o mesmo prédio. O TBC foi então para o Bexiga, e mesmo localizada em um bairro nada aristocrático, a casa de espetáculos erguida por Zampari era um teatro bonito, cômodo e bem iluminado. Sua inauguração, no dia 11 de outubro de 1948, foi um momento histórico para o teatro paulista: o Teatro Brasileiro de Comédia estreava em São Paulo com A Voz Humana, de Jean Cocteau, e A Mulher do Próximo, de Abílio Pereira de Almeida.

Foi grande o sucesso conseguido por A Mulher do Próximo na abertura do teatro. Na ficha técnica aparecem alguns nomes que teriam atuações marcantes no futuro do TBC e do teatro brasileiro: Abílio Pereira de Almeida, Carlos Vergueiro, Marina Freire Franco, Delmiro Gonçalves e Cacilda Becker Fleury Martins. Esta última, já profissionalizada desde 1941, aceitou a incumbência desde que fosse tratada como profissional que era e recebesse um pagamento adequado pela tarefa. Tornou-se então a primeira atriz contratada pelo TBC.

Cacilda Becker 2

Em 1949 Zampari dá um passo decisivo para o futuro do TBC contratando Adolfo Celi como diretor artístico da casa. Jovem encenador italiano (estava com 25 anos), formado em direção pela Academia de Arte Dramática de Roma, encontrava-se em Buenos Aires desde o início de 1948. Chegou em São Paulo com planos de ficar um mês, acabou ficando 15 anos. Foi casado com Tônia Carrero de 1951 a 1963.

Adolfo Celi

Adolfo Celi

 

Entre o processo de profissionalização do TBC e a implantação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, 1950 encontra o edifício da Major Diogo em efervescência. É nesse contexto que chega ao TBC o polonês Zbigniew Ziembinski, que chegara ao Rio de Janeiro em 1941 depois de atravessar a Europa fugindo da guerra. Formado em direção, era ator com experiência em Wilna, Lodz e Varsóvia. Ao ingressar no TBC, seu currículo lhe credita a direção ontológica de Vestido de Noiva e uma sequência de montagens memoráveis, entre as quais, Desejo, de O’Neill, Pelléas e Melisande, de Maeterlinck, Anjo Negro, de Nelson Rodrigues, e Uma Rua Chamada Pecado, de Tennessee Williams.

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Zbigniew Ziembinski

Em 1950, Adolfo Celi, Zbigniew Ziembinski e Luciano Salce são os três diretores em atuação no TBC. E se até agosto a companhia apresentou nove espetáculos, em setembro aumenta esse número para doze.

Ao fim de 1950 Zampari sentia-se vitorioso. Com a Vera Cruz exibindo suas primeiras produções cinematográficas, o TBC encerrava o ano com 16 montagens, com bom afluxo de público, estímulos por parte da imprensa especializada e unanimidade de elogios. O empresário passou a administrar seu teatro, fazendo-o como se fosse uma indústria. O TBC chega ao fim do ano mais articulado como empresa e companhia.

Em três anos o grupo de Zampari conseguiu partir de uma experiência amadora e chegar a um nível extraordinário de refinamento profissional, e a última montagem de 1951 estreia no dia 06 de novembro, não na sala da Major Diogo, mas no Teatro Municipal. O TBC comemora seu terceiro aniversário com a ponposa e divulgadíssima versão de A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho. O elenco é formado por Cacilda Becker, Maurício Barroso, Paulo Autran, Carlos Vergueiro, Benedito Corsi, Fredi Kleeman, Luiz Linhares, Ruy Afonso, Luís Calderaro, Rubens Costa, Ruy Cerqueira, Elisabeth Henreid, Labiby Maddy, Maria Lúcia, Cleyde Yáconis e Wanda Primo.

Cleyde Yaconis

Cleyde Yaconis

Infelizmente, o TBC termina 1952 endividado, desfalcado de valores também, mas ainda impávido. Se o ano foi mau para o conjunto da Major Diogo, foi péssimo para os demais grupos que atuavam na cidade.

Depois de alguns sucessos e uns poucos fracassos, nos últimos dias de dezembro de 1953, o TBC coloca em cena uma comédia de André Roussin, Uma Certa Cabana. Atraindo perto de 28 mil espectadores em 109 sessões, essa foi a peça escolhida para a estreia de Tônia Carrero no TBC.

Tônia Carrero

Tônia Carrero

Em agosto de 1955 o TBC sofre uma perda importante e grave. Adolfo Celi dele se afasta para formar sua própria companhia. Ao seu lado partem Tônia Carrero e Paulo Autran. Outras figuras, como Margarida Rey e Felipe Wagner, acompanham-nos. Segundo Cacilda Becker, o desligamento de Celi provocou em Zampari a maior de suas desilusões artísticas, porque este via em Celi o continuador de seu trabalho naquele teatro.

Tentando equilibrar-se depois da saída de Celi, Tônia e Paulo, em 1956 o TBC integra em suas fileiras atores jovens e talentosos, na grande maioria cariocas. Destacam-se Nathália Timberg, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Sérgio Brito e Ítalo Rossi.

Ítalo Rossi

Ítalo Rossi

Em maio o conjunto de Zampari sofre um golpe que agrava sua situação financeira mais e mais instável. O Teatro, sede da equipe, é destruído por um incêndio que consome todo o material que lá se encontrava. A produção de Gata em Teto de Zinco quente, a peça em cartaz, é queimada por inteiro, figurino inclusive. A eclosão da primeira grande crise é adiada com o espetacular sucesso de público alcançado pela montagem que substitui Nossa Vida com Papai. Rua São Luiz 21, 8º é bem recebida por público e crítica.

E 1958 é um ano de comemorações para o TBC, que atinge uma idade a que poucas companhias chegam: 10 anos. Mas com esse momento memorável, ocorre a crise que não podia mais ser adiada. Há muitos anos já que o TBC vivia de espetáculo para espetáculo.

Panorama Visto da Ponte, de Arthur Miller, estreia em junho e determina o início oficial das comemorações da década de existência da sala de espetáculos. Essa montagem torna-se um dos maiores sucessos da companhia, destacado dessa forma pela crítica: “…uma grande peça, uma grande representação e um grande desempenho individual”, registra Décio de Almeida Prado.

É importante não esquecermos que as condições técnicas oferecidas pelo TBC possibilitaram a afirmação de talentos que se destacaram. Cacilda Becker, Cleyde Yáconis, Tônia Carrero, Fernanda Montenegro, Tereza Rachel e Nathália Timberg, numa enumeração muito restrita, como primeiras atrizes. Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Leonardo Vilar, Ítalo Rossi, Walmor Chagas e Juca de Oliveira, igualmente numa lista muito apressada, como primeiros atores.

Fernanda Montenegro

Fernanda Montenegro

O legado deixado pelo Teatro Brasileiro de Comédia é minuciosamente documentado por Alberto Guzik neste livro lançado em 1986 pela Editora Perspectiva, mas neste resumo, que pode servir de incentivo para o leitor debruçar-se sobre a obra, é importante assinalarmos que em 16 anos de companhia, foram levadas ao palco da Major Diogo 144 obras, vistas por quase 2 milhões de pessoas. Franco Zampari morreu em 1966, infelizmente sem que lhe fossem prestadas as mesmas homenagens mais tarde tributadas a Ziembinski e Paschoal Carlos Magno, pioneiros de mesma têmpera.

Cartaz TBC

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