Pode um aluno não gostar de ler?

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Como pode alguém iniciar seus estudos e avançar ano após ano sem pegar o gosto pela leitura? Como pode um estudante concluir o ensino médio sem gostar de ler? Onde erram os professores e onde erram os pais no processo de alfabetização e de educação de uma criança que, ao avançar nas séries iniciais, distancia-se cada vez mais dos livros e da literatura? Formam-se bons profissionais os que não conseguem, ao longo da vida acadêmica, dedicar algumas horas semanais para a leitura?

Minha mãe sempre investiu um pouco do pouco que ganhava como professora na compra de livros. Primeiro foram os títulos infantis, depois foram enciclopédias, os clássicos da literatura mundial. Na época em que morávamos no interior do Paraná, onde sequer existiam livrarias, os livros eram adquiridos em catálogos, ou de vendedores ambulantes que mensalmente visitavam as pequenas cidades oferecendo os últimos lançamentos.

Além do incentivo que tínhamos em casa, o papel dos professores foi importante para estimular e aumentar o gosto pela leitura. Lembro-me de alguns que marcaram profundamente meus primeiros oito anos de escola, em Porto Ocoy, no oeste paranaense. Aleni Lava Tones e Oraci Reinheimer, professores de Língua Portuguesa, não mediam esforços para fazer com que os alunos descobrissem o prazer da literatura, com prazos para a leitura, resumos e discussões sobre as obras em sala de aula. Mas talvez o mais importante seja o fato de que a responsabilidade não ficava só com eles. Lúcia Carolina Dietrich, professora de História e Geografia, e Cícero Dionísio, professor de Ciências, também tiveram papel importante na formação dos alunos daquela época. Era uma força tarefa para que não só lêssemos, mas para que escrevêssemos sobre o que estudávamos. Mais tarde, já no Rio Grande do Sul, onde ingressei no ensino médio do Colégio São José, em Guarani das Missões, o gosto pela leitura intensificou-se com as inspiradoras aulas da professora Ana Otelakoski (hoje Ana Otelakoski Kowalski).

As experiências iniciais são importantes para despertar nosso interesse pelos diferentes gêneros e para definir nosso gosto por um tipo de literatura específica. O convívio social, as amizades e a posterior vida acadêmica ampliam nossas referências e acessos.

Depois de relembrar minhas experiências iniciais com os livros volto ao tema central deste texto, refletir sobre a atual falta de interesse pela leitura por grande parte dos estudantes, principalmente daqueles que estão em curso superior. Não que o desinteresse seja recente, mas talvez por ser recente minha carreira docente no ensino superior. É importante deixar claro que este artigo não tem como objetivo uma crítica que busca apontar culpados. Meu objetivo é contribuir de alguma maneira para que os colegas docentes das diversas áreas e níveis também reflitam sobre seus papéis na formação de leitores, e de que maneira a leitura pode contribuir para que tenhamos alunos egressos dos cursos não só capacitados para a atuação profissional, mas principalmente com condições de fazer uma leitura crítica da realidade que os cerca.

Como professor da graduação, minha preocupação teve início ao constatar a falta de interesse pela leitura de parte dos alunos dos cursos de licenciatura, minha área de atuação. Não que o desinteresse seja exclusividade destes alunos, mas se a falta do hábito de ler pode prejudicar a formação humanista dos profissionais das exatas, dos egressos dos cursos de bacharelado, como será a formação e a atuação dos professores que estarão nas salas de aula trabalhando com a alfabetização das gerações atual e futuras?

É fato que nos últimos anos tivemos um extraordinário avanço nas políticas educacionais em nosso país, com um número expressivo de brasileiros alcançando o ensino superior. Foram mais de sete milhões entre 2003 e 2012, segundo o INEP/Censup, como podemos ver no gráfico abaixo.

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O problema é que estes que hoje alcançam os cursos superiores na maioria das vezes chegam aos bancos das universidades vindos de uma educação básica deficitária. Ou seja, ao ingressarem nos cursos superiores, as dificuldades encontradas pelos alunos e docentes são enormes. Os primeiros, por não estarem devidamente preparados, não possuem o conhecimento esperado de um aluno que ingressa no ensino superior. Os segundos, ao constatarem as dificuldades dos primeiros, precisam não só dar conta do currículo dos respectivos cursos da graduação, mas também auxiliar os alunos a resgatarem o que perderam ou deixaram de aprender até então.

Nesse contexto, como formar leitores, ou como tornar leitores aqueles que passaram uma vida distante dos livros? Como fazer com que os alunos dos cursos superiores mudem suas rotinas e passem a colocar algumas horas semanais de leitura como prioridade em suas agendas? Como fazer com que substituam outras atividades (algumas delas fúteis) pela leitura? Como fazer com que um adulto que nunca pegou em um livro passe a gostar de ler? Como formar professores que não repitam os mesmos erros dos quais foram vítimas? Se alguém chega ao curso superior desconhecendo o universo da leitura, é porque na educação básica não foi devidamente apresentado ao mundo dos livros. Pode ser que tenha sido vítima de uma educação básica de qualidade duvidosa, o que é bem provável. Podemos considerar também a falta de incentivo no ambiente familiar, mas temos muitos exemplos de pessoas cujos pais eram analfabetos e que tiveram suas vidas transformadas pelos livros graças ao incentivo de excelentes professores.

Seja qual for sua área de atuação, o estudante precisa saber que dificilmente será um bom profissional se não demonstrar um amplo domínio de repertório. E na maioria das vezes, é fundamental que possa transitar de um universo a outro. É importante que demonstre conhecimentos para além de sua área de interesse. E respondendo à pergunta inicial deste texto, a que dá título ao mesmo, é direito do aluno manifestar suas dificuldades no processo de aprendizagem, e para isso deverá contar com o auxílio do professor. Mas para aprender de fato o aluno não pode não gostar de ler. E se ele for de qualquer curso de licenciatura, é inconcebível o seu desapego pelos livros. E cabe a nós, professores de hoje, não deixarmos que este se torne o professor do amanhã.

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