A morte de Lois e a hipocrisia dos justiceiros

reprodução ZH

Foto: Reprodução Zero Hora

Daniel Silveira, 45 anos, vivia com sua companheira, a dócil cachorra Lois Laine, na Praça Brigadeiro Sampaio, no centro de Porto Alegre. Mas Lois não era a mascote só de Daniel. Assim como o dono, Lois recebia ajuda e carinho de grande parte dos frequentadores da praça.

Quando preciso, Daniel também era repreendido por aqueles que se preocupavam com seu bem-estar. De resto, Daniel é um cara tranquilo, na dele, daquelas figuras simpáticas, bom papo, e que nunca causou problemas aos moradores da região. Uma característica marcante de sua personalidade é que, mesmo morando em condições desumanas, debaixo de uma lona improvisada que lhe dava guarida em dias de chuva ou de sol, Daniel nunca pedia nada a ninguém, nem dinheiro, nem comida. A ajuda que recebia, e quando recebia, era voluntária. A cachorra, acostumada a andar solta, era acariciada e brincava com os frequentadores do espaço. Tinha nos cachorros que ali passeiam diariamente a amizade que lhe garantia momentos de felicidade, com correrias e latidos, brincadeiras que só terminavam quando estes voltavam para suas casas. E a Lois sempre ficava, porque ela já estava em casa. E quando um ia embora, logo vinha outro para lhe fazer companhia.

Na semana passada, Lois foi encontrada morta. A causa permanece sem esclarecimentos, e as circunstâncias são estranhas. Num primeiro momento, todos pensavam em atropelamento, mas alguns frequentadores da Praça Brigadeiro Sampaio afirmam que a Lois não tinha marcas ou ferimentos pelo corpo. E como poderia ela ter sido atropelada se estava sobre a calçada da Rua Sete de Setembro, próximo à Marinha do Brasil, local de pouco tráfego e de baixa velocidade dos carros que por ali transitam? É o que perguntam alguns moradores da região inconformados com a partida repentina e trágica de Lois Laine.

E como se não bastasse a tristeza de sua inexplicável partida, a história ganha contornos ainda mais revoltantes com os posteriores desdobramentos. Depois que encontrou Lois sem vida, Daniel foi espancado e expulso da praça por dois frequentadores que julgaram não ser ideal o sepultamento que ele ofereceu à cachorra. Sem saber o que fazer com o corpo, e preocupado em não deixa-la se decompor ao relento, Daniel enrolou-a no colchão em que dormia e depositou-a em um dos containers que ficam ao lado da praça, na Rua General Portinho. A “atitude desumana” de Daniel foi então motivo para o “ato superior” dos dois indivíduos que resolveram que ele merecia apanhar. E apanhou tão feio que Claudete Wolff, moradora da Rua dos Andradas e frequentadora da praça, o levou ao Hospital de Pronto Socorro, onde foi atendido e medicado. Sob os cuidados de Claudete, Daniel se recupera dos ferimentos em outro local. Continua na rua, em outra praça. Perdeu, além da companheira Lois, mais um pouco da pouca dignidade que lhe restava.

No link abaixo você pode conferir matéria feita com Daniel e Lois Laine. Assinada pela jornalista Lara Ely, foi publicada em Zero Hora no dia 31/07/2015.

http://zh.clicrbs.com.br/rs/porto-alegre/noticia/2015/07/o-que-os-moradores-de-rua-tem-a-nos-ensinar-sobre-a-relacao-com-os-cachorros-4814462.html

 

 

4 comentários sobre “A morte de Lois e a hipocrisia dos justiceiros

  1. Hoje fui surpreendido pela notícia da morte de Louis Lane e da agressão sofrida pelo Daniel. O mínimo que posso expressar é que estou indignado. Quem conheceu estas 2 “figuras marcantes” da Praça como eu, certamente está perplexo. Lamentável

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