Performance e Educação: (des)territorializações pedagógicas

Performance e educação capa livro

Publicada em 2013 pela Editora UFSM, organizada por Marcelo de Andrade Pereira, a obra contempla 14 artigos distribuídos em 303 páginas. Surgiu da necessidade de não só introduzir os leitores brasileiros no universo da arte da performance, mas também, por meio de textos de diversos autores e de variadas abordagens, possibilitar uma reflexão sobre o ato performativo nos diferentes campos de atuação (ou de estudo).

Tema bastante discutido no mundo anglo-saxão, a performance, apesar de conhecida e incorporada há algum tempo como prática ou manifestação artística pelos brasileiros, ainda  carecia de uma abordagem teórica mais abrangente sobre a qual (e com a qual) pudéssemos estabelecer um diálogo a fim de tentar entender não só sua gênese, mas também as características que a tornam uma linguagem artística tão defendida por alguns e atacada por outros. Neste sentido, a obra organizada por Pereira cumpre o papel de nos colocar em contato com um conjunto de textos de pesquisadores que nos auxiliam a entender a performance não só como linguagem artística, mas também como possibilidade de nos percebermos performativos (atuantes e comunicadores) tanto nas ações involuntárias quanto nas planejadas e executadas após período de preparação.

Se por um lado somos seres performáticos, mesmo que involuntariamente, onde nossas ações cotidianas caracterizam-se como performances (estamos sempre performando), por outro, Gisela Reis Biancalana (p. 159), em seu artigo Reflexões sobre os processos de produção do conhecimento performativo nas culturas populares, nos diz que  “Uma performance competente depende de diversos fatores que extrapolam a habilidade técnica. Sua qualidade depende da predisposição do performer naquele instante; do jogo que se estabelece com os parceiros, no momento; do ânimo do público, de seu repertório de conhecimentos; e da capacidade de utilizá-los. O performer precisa de conhecimento do ofício, bagagem de vida e sensibilidade para utilizá-la. Para tal, torna-se imprescindível atingir um estado de concentração que permita a boa performance. O que se pode ver, é que as manifestações performativas, quando competentes, mostram corpos construídos pela cultura, carregados de um saber técnico e poético, que se destaca claramente.”

Se até o momento carecíamos de bibliografia que nos permitisse refletir de maneira mais aprofundada sobre o tema, tendo que recorrer a autores estrangeiros para o estudo da performance, a pluralidade dos textos que compõem esta obra (dos quatorze autores, doze são nacionais e dois estrangeiros)  nos oferece um vasto e rico manancial de conceitos que contribuem para esclarecer muitas dúvidas a respeito do assunto.

As diferentes abordagens dos artigos, refletindo sobre a performance nas artes cênicas, na dança, na literatura, na cultura popular, e de maneira muito rica na performance docente, mostram que há um movimento de pesquisadores brasileiros que vem se consolidando como referência pela forma exitosa com que tratam o tema.

Os autores que contribuíram com os artigos que compõem este livro conseguiram, cada qual a sua maneira, e de acordo com suas áreas de pesquisa e atuação, traçar um panorama amplo e esclarecedor sobre a performance. É importante esclarecer que, mesmo que alguns destes autores tenham, de maneira crítica, analisado e refletido sobre seus próprios processos de criação ou de pesquisa (individual ou coletiva), não deixaram em momento algum de se apoiar ou de buscar guarida em outros pesquisadores e pensadores para contextualizar e discorrer sobre seus trabalhos.

Gilberto Icle, em seu artigo Da Performance na Educação: perspectivas para a pesquisa e a prática (p. 10), nos diz que “a performance e os estudos que lhe são correlatos parte, de fato, da confluência de ao menos três campos distintos, a saber, as Artes, a Antropologia e a Filosofia. Não obstante o seu caráter interdisciplinar e indisciplinado, a cada uma dessas áreas correspondem acepções distintas, práticas específicas, noções diversas.”

Elyse Lamm Pineau, Bryeant Keith Alexander, Gilberto Icle, Naira Ciotti, Regina Pollo Müller, Elaine Conte, Aldo Victorio Filho, Inês Alcaraz Marocco, João Gabriel Teixeira, Luciana Hartmann, Gisele Reis Biancalana, Paola Zordan, Tatiana Mielczarski dos Santos e Marcelo de Andrade Pereira são os autores dos artigos que compõem o livro Performance e Educação: (des)territorializações pedagógicas.

Se há algo que situa cada autor dos artigos apresentados nesta obra em um campo específico de atuação e de pesquisa, de certa forma distanciando-os, há muito mais sobre o que os aproxima, ou seja, sua prática pedagógica, seu respectivo interesse e sua reflexão sobre a performance. O conjunto de artigos apresentados por eles possibilita-nos, como dito anteriormente, transitar de um terreno a outro, mas sempre pisando o mesmo solo. Podemos migrar das artes cênicas para a dança, podemos penetrar no campo das questões de gênero, como no artigo de Bryan Keith Alexander, que fala sobre a performatividade da política da identidade e das relações professor-aluno; podemos também viajar com Paola Zordan nas conceituações de corpo e o seu papel no ato performativo. Luciana Hartmann faz uma incursão pelo interior do sul do Brasil, apresentando o resultado de rica pesquisa sobre as performances de contadores de causos (crianças contadoras de histórias) da região da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai, fornecendo um breve panorama dos estudos da performance na Antropologia.

O importante na obra organizada por Marcelo de Andrade Pereira é o fato de que mesmo que transitemos por terrenos pouco familiares, ou até mesmo desconhecidos, teremos a segurança de sermos conduzidos por guias especializados, os autores dos artigos, que escrevem e refletem sobre assuntos diferentes, mas sempre sob a perspectiva da performance. E não deixamos nunca de estar em contato com o solo fértil da educação, que é de onde vêm ou de onde partem os autores.

Segundo Gilberto Icle (p.21), “Performance não é outra coisa senão a junção idiossincrática entre ser e fazer. Aquilo que a tradição educacional se esmerou em separar reencontra na performance uma possibilidade infinita de variação, de criação. O corpo aparece não mais como algo a ser docilizado, mas como a ser potencializado, colocado no centro da atividade. Performance e Educação se fazem no corpo e para o corpo. Não há performance sem o olhar do outro, portanto falamos aqui de um corpo compartilhado, partilhado na ação de fazer e olhar, interagir e reagir.”

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