Infelizes acasos ou tristes rotinas

Algumas pessoas não enxergam ou não admitem os erros que cometem. Outras, por mais graves que tenham sido suas atitudes, tendem a minimizar o impacto naquele que sofre seus efeitos. Podemos ser vítimas da ofensa, mas dificilmente admitimos o mal que, voluntária ou involuntariamente, causamos aos outros.

As relações afetivas precisam ter como ingredientes, além do amor, a lealdade e o perdão. Sem estes, é impossível que uma relação sobreviva. Se causar algum mal, preciso ter humildade para admitir meus erros e pedir perdão. Assumir um erro demonstra não só a sua não intencionalidade, mas principalmente o zelo que se tem pelo outro. Esconder ou negá-lo, ou atribuir-lhe menor intensidade, é demonstração de egoísmo, falta de cuidado com o outro, desconsideração.

Mas, o que é o perdão? Talvez seja a capacidade de se passar por cima daquilo que de errado foi feito, superar os desentendimentos, não ficar remoendo o que foi dito num momento de fúria. Ao contrário do que muitos pensam, as coisas ditas em discussões podem não ser verdades que vem à tona, mas palavras que surgem como armas de ataque ou defesa num instinto de proteção.

Quando há amor, sente-se muito mais a dor do outro que a própria. Se palavras ou atitudes magoaram, a capacidade de perdoar será o termômetro que demonstrará o quanto de verdade existia na relação, e se o que se sentia de fato era amor. Afinal, é ultrapassando os momentos de crise que as relações se consolidam. É ali, na mais dura e doída das dificuldades que descobrimos o valor e a intenção de quem está conosco.

Na imaturidade da juventude muitas vezes somos levados a dizer e a fazer coisas sem pensar nas consequências. Essa é a fase da vida em que estamos mais propensos a cometer erros, mas é também nesse período, e com esses tropeços, que amadurecemos e aprendemos sobre a importância de consolidar laços afetivos.

Há os que vão de um lugar a outro sempre à procura daquilo que talvez já tenham encontrado. E em tempos de redes sociais, onde tudo salta-nos aos olhos em formas esteticamente perfeitas, idealizamos as pessoas, as relações de afeto e de trabalho. Buscamos uma falsa felicidade e deixamos de viver o real. Paramos de conversar com quem está ao nosso lado para teclar com quem está do outro lado da tela. Na superficialidade das relações virtuais os defeitos inexistem e as qualidades são superlativas. Na solidez do mundo real os defeitos são suplantados e as qualidades naturais não necessitam publicidade.

Escrevo essas linhas porque discutia com uma amiga, a Dra. Maria Helena Rigatto, sobre o fato de algumas pessoas passarem a vida cometendo os mesmos equívocos.  “Há outras que, por mais graves que sejam seus erros, só os cometeram porque se atrapalharam com determinadas circunstâncias de suas vidas. O importante é que infelizes acasos não se tornem tristes rotinas”, disse-me ela.

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