Memórias afetivas da infância

Tenho sentido saudades dos meus tempos de infância. Lembro-me da época em que morávamos na região oeste do Paraná. Nasci em uma pequena localidade chamada Santa Cecília, depois nos mudamos para Dom Armando, e finalmente nos estabelecemos em Portão Ocoy, município de Missal, região de Foz do Iguaçu. Sinto saudades de quando vínhamos passar as férias de verão e de inverno no interior do Rio Grande do Sul, na casa de meus avós maternos, em Sete de Setembro, região das Missões. Também visitávamos tios e primos paternos na vila Ipê, interior de São Paulo das Missões.

A viagem que nos trazia ao Rio Grande do Sul era uma aventura à parte. Nos primeiros anos, nosso deslocamento era pela Rodovia PR-495, cujo primeiro trecho, de pouco mais de 17 quilômetros, era conhecido como Estrada do Colono. O que um dia foi um antigo e precário caminho de chão batido em meio a uma densa floresta, fora transformado em estrada por volta de 1950. Nas décadas seguintes, com o aumento populacional da região e a criação de dezenas de cidades, crescia também o desmatamento no oeste Paranaense. Com isso, houve uma pressão de grupos ambientalistas para o fechamento da Estrada do Colono, que cortava ao meio o Parque Nacional do Iguaçu. O fechamento da estrada pelo Ministério Público Federal, em 1986, foi imprescindível para a manutenção do ecossistema do Parque Nacional, uma área de preservação permanente.

De Sete de Setembro, no interior do Rio Grande do Sul, tenho saudades do sítio do vô Lawisch e da vó Clarinda (ou Nena, como a chamávamos), com o moinho de pedra e sua roda d’água gigante junto ao Rio Comandaí, onde pescávamos, nadávamos e navegávamos com a canoa do tio Renato. Saudades das cavalgadas dominicais e das caminhadas, do cheiro do mato, de acompanhar o tio Carlos na ordenha das vacas nos finais de tarde, de colher bergamota e laranja nas bergamoteiras e laranjeiras que ficavam espalhadas aleatoriamente pelo potreiro e não enfileiradas em um pomar, de subir nos pés de pêra e de observar, encantado, o trabalho de um joão-de-barro em um frondoso exemplar de uva-do-japão. Saudades do vô e da vó que já se foram, e do bisavô, que apesar de estar em uma cama acometido pelo mal de Parkinson, também tive a oportunidade de conhecer.

Meus pais migraram para a região oeste do Paraná no início da década de 1970, seguindo uma leva anterior de gaúchos que fez o mesmo caminho. Minha mãe levava nos braços meu irmão mais velho. Eu e minha irmã mais nova nascemos lá. Eu, em Santa Cecília, onde minha mãe era a única professora da comunidade, sendo responsável pela direção, secretaria, sala de aula e cozinha. Como não tinha com quem me deixar, cresci acompanhando-a nesta escola. As recordações que tenho dessa época são as melhores possíveis.

A região oeste paranaense, ainda era, nesta época, rica em biodiversidade. As estradas eram de chão batido e as opções de deslocamento precárias. Tivemos um dos primeiros aparelhos de televisão da comunidade, e o carro também foi uma novidade, uma Brasília amarela. Fauna e flora se destacavam. Era comum visualizarmos diversas espécies de primatas, os “micos”, bugios, e mais raramente, a onça-pintada, o que deixava moradores alvoroçados e atiçava o pior do instinto de homens que dia e noite andavam livremente com espingardas penduradas nos ombros. Os animais eram caçados e vendidos, quando não mortos e expostos como troféus pelos caçadores e moradores. Em uma região rica em fauna e flora, era paradoxal que praticamente todas as casas exibissem, nas varandas, ou mesmo penduradas em árvores, gaiolas com inúmeros pássaros de diferentes espécies. Macacos também ficavam presos em coleiras como se fossem animais de estimação. Foi talvez um pouco antes deste período que começou a devastação naquela região, com o corte de árvores para abastecer as madeireiras ali instaladas, e também transportadas para outros estados.

Depois de algum tempo, quando meus pais já estavam bem estabelecidos, meus avós paternos também migraram da região das Missões do Rio Grande do Sul para o oeste do Paraná. Foram em busca das oportunidades que lá se apresentavam. Na sequência, foram alguns tios com suas respectivas famílias. Proprietários de terras no noroeste gaúcho que trocaram o Rio Grande pelas terras férteis do interior paranaense, com muitos hectares de mata nativa ainda em pé. O sítio de meus avós, em Santa Cecília, era um paraíso, com córregos de águas cristalinas, açudes e infinita biodiversidade.  Ali criavam patos, marrecos e gado. Mas isso não era privilégio deles, era comum entre os imigrantes daquele período. Aliás, as paisagens campestres eram igualmente belas no Paraná como no interior do Rio Grandedo Sul, com a diferença de que o interior deste último, por ser colonizado em período anterior à região oeste do Paraná, já havia perdido muito de sua biodiversidade, algo que começava a acontecer naquela região paranaense.

Hoje entendo o que o ecologista José Lutzenberger quis dizer quando comparou os gaúchos a formigas cortadeiras. Tal como estas, os gaúchos, por onde passavam, deixavam um rastro de devastação. Foi assim no período de migração para os estados vizinhos, Santa Catarina e Paraná. Posteriormente para o centro-oeste brasileiro e mais recentemente para o norte do país.

Saindo de Santa Cecília, fomos morar em Dom Armando, para só então se estabelecer em Portão Ocoy, lugar que não podia ser considerado de forma alguma uma cidade, mas que era o meio do caminho entre as cidades de Medianeira e Missal. Em Portão Ocoy, meu pai foi o proprietário do único posto de combustível, além de ter duas colheitadeiras e dois caminhões que atendiam aos agricultores da região, transportando as safras de grãos e a madeira, fruto do desmatamento oficialmente incentivado e apoiado pelo governo militar. Lamentavelmente a atividade que mais gerava riquezas naquela época.

No interior de Portão Ocoy, meu pai também tinha um sítio onde criava suínos para atender a demanda dos frigoríficos que por lá se instalavam. Nesta época, meus avós paternos moravam e cuidavam desta propriedade. A sede do sítio era uma casa espaçosa, e contava com uma boa infraestrutra de lazer, com campo de futebol, cancha de bocha e uma espécie de oca, construção arredondada com estrutura de madeira e cobertura de capim, onde nos reuníamos para os encontros familiares dos finais de semana. Em um Chevrolet Veraneio bordô, que me impressionava pelo tamanho e causava inveja pela beleza, chegavam o tio Abílio e a tia Diva (irmã de meu pai), que vez ou outra vinham de Matelândia passar o final de semana com a gente. Com eles, para nossa alegria, chegavam os primos, Adriano, Chico, Tuti e Simone. E eu esperava ansioso pela oportunidade de ir para o sítio de carona naquele carro tão grande e bonito.

Um rio de águas cristalinas cortava a propriedade, no meio dele, uma ilha. Nesta ilha, ligada ao “continente” por uma ponte de cordas e madeira, ficava a cancha de bocha, onde os adultos se divertiam após o almoço. As crianças corriam pelos campos e tomavam banho de rio, ora pulando dos troncos das árvores que o margeavam, ora se jogando da ponte na parte mais funda do mesmo, ou ainda lançando-se rio abaixo penduradas em cipós.

Em dezembro de 1992, como de costume, vim ao RS passar as férias de verão na região das Missões. Acabei ficando. Fui acolhido pelo tio Wilson Lawisch (irmão de minha mãe) e sua esposa, a tia Lourdes. E iniciei, no ano seguinte, em Guarani das Missões, o ensino médio. E assim minha infância foi ficando para trás. São muitas as histórias, memórias afetivas que trago na lembrança daquele período, e que aos poucos vão tomando forma pela escrita. Em 1994 meus pais também retornaram ao Rio Grande, estabelecendo-se em Guarani das Missões. No decorrer de sua vida, foram muitas as atividades com as quais meu pai se envolveu. Morreu dono de uma empresa de ônibus e de turismo no final da década de 1990.

Encontro de família na casa da vó Clarinda Nicoletti Lawisch, em Sete de Setembro, RS, entre 1988/1989.  Atrás: tia Elaine Lawisch Bayer (irmã da mãe), ao seu lado, tia Lourdes Milanesi Lawisch (casada com o tio Wilson, irmão da mãe), a menina ao lado da tia Lourdes, em pé, deve ser sua filha Naila, minha prima, e ao lado desta, minha mãe Dilene Lavich Goldschmidt. Ao lado da mãe, a tia Olinda Baron, irmã da vó Clarinda, que traz em seu colo a Patrícia Paz Baron. Ao lado da tia Olinda, de lenço na cabeça, minha avó Clrinda Nicoletti Lawisch, e ao seu lado Nair Baron com o Rodrigo Paz no colo. Ao lado da Nair está o Vinicius Paz Baron, e o loirinho a sua frente ainda precisa ser identificado. Na frente, da esquerda para direita, EU, e ao meu lado, a tia Diva Lawisch Kulakowski, entre suas pernas deve ser sua filha Fernanda, minha prima. Ao lado da tia Diva, minha tia Ilse Colovini, também irmã da mãe, e ao seu lado, sua nora Keka com o filho Marlon.

Encontro de família na casa da vó Clarinda Nicoletti Lawisch, em Sete de Setembro, RS, entre 1988/1989.
Atrás: tia Elaine Lawisch Bayer (irmã da mãe), ao seu lado, tia Lourdes Milanesi Lawisch (casada com o tio Wilson, irmão da mãe), a menina ao lado da tia Lourdes, em pé, é minha irmã Sara, e ao lado desta, minha mãe Dilene Lavich Goldschmidt. Ao lado da mãe, a tia Olinda Baron (irmã da vó Clarinda), que traz em seu colo a Patrícia Paz Baron. Ao lado da tia Olinda, de lenço na cabeça, minha avó Clarinda Nicoletti Lawisch, e ao seu lado, a Nair Baron com o Rodrigo Paz no colo. Ao lado da Nair está o Vinicius Paz Baron, e o loirinho a sua frente ainda precisa ser identificado. Na frente, da esquerda para direita, EU, e ao meu lado, a tia Diva Lawisch Kulakowski, entre suas pernas deve ser sua filha Fernanda, minha prima. Ao lado da tia Diva, minha tia Ilse Colovini, também irmã da mãe, e ao seu lado, sua nora Keka com o filho Marlon.

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