Carlos Mödinger e Marli Susana Sitta falam dos novos profissionais das artes cênicas e da formação de professores artistas

Carlos Mödinger

Carlos Mödinger

O Rio Grande do Sul é um dos precursores no ensino do Teatro na educação escolar, tendo em Olga Reverbel (São Borja, RS, 1917 – Santa Maria, RS, 2008) uma das teóricas pioneiras no que se refere às relações entre Teatro e Educação no Brasil. Olga criou o Teatro Infantil Permanente do Instituto de Educação General Flores da Cunha, em Porto Alegre, e escreveu duas dezenas de livros sobre o ensino do teatro. Foi professora da UFRGS e formou artistas e professores. Ministrou palestras e cursos em todo o país. Atualmente, o RS conta com quatro universidades que oferecem Bacharelado e Licenciatura em Teatro. Conversei com os professores da unidade de Montenegro da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), Carlos Roberto Mödinger e Marli Susana Carrard Sitta, que falaram das características dos cursos, dos novos profissionais das artes cênicas e da formação de professores artistas, destacando, de um lado, as dificuldades encontradas por eles em se inserirem nos espaços formais de educação e, de outro, as possibilidades oferecidas por um mercado de trabalho cada vez mais amplo. Os professores falaram ainda sobre o PIBID (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência), programa do Ministério da Educação que oferece bolsas de iniciação à docência aos alunos de cursos presenciais que se dediquem ao estágio nas escolas públicas e que, quando graduados, se comprometam com o exercício do magistério na rede pública.

Cristiano: O RS é um dos precursores do teatro na educação no Brasil, com o pioneirismo de Olga Reverbel. A atuação da Olga na formação de artistas e docentes é reconhecida país afora…

Carlos: A Olga é com certeza uma precursora, principalmente no Instituto de Educação General Flores da Cunha, em Porto Alegre, com a formação de professores. Um trabalho que foi muito difundido. Mas imagino que existissem outras experiências também, inclusive no interior, de teatro semiprofissional, de presença do teatro na escola.

Marli: Mas que não foi registrado.

Carlos: O mérito dela é o registro, a publicação de livros, a difusão desse trabalho.

Marli: Que eu acho que foi corajoso na época em que ela iniciou.

Carlos: A gente conhece o trabalho dela porque essas coisas ficaram registradas.

Cristiano: Como está a formação de professores de teatro atualmente, e qual o papel das universidades na contemporaneidade? Como vocês avaliam a Pedagogia Teatral hoje no Brasil? 

Carlos: Nos últimos anos aumentaram bastante as oportunidades em teatro, as licenciaturas em teatro. Até pouco tempo, no RS, o curso era oferecido na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, e na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Hoje, temos em Montenegro, na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), e na Universidade de Pelotas. Pelo menos dobraram as oportunidades. Sobre a Pedagogia Teatral, existe uma tendência nos cursos de licenciatura em teatro, que é a valorização da formação artística, essa ideia de que a gente trabalha para formar um professor artista, que seja capaz de propor, de fazer teatro com seus alunos, que tenha domínio do fazer teatral. É uma perspectiva que me parece estar presente em muitos cursos no Brasil. Você perguntou qual é o papel da universidade. Eu acho que é a valorização da formação de um profissional com conhecimento de teatro, mas também de possibilidades pedagógicas dele. E penso que a formação é uma coisa, porque tem uma distância entre o espaço da formação e a inserção no campo do trabalho. Nos concursos públicos para professores de arte, por exemplo, predominantemente os que entram nas escolas públicas são os professores de Artes Visuais e de Música. Principalmente Artes Visuais. Teatro e Dança é raro abrir vaga.

Cristiano: E a que se deve essa dificuldade?

Marli: Tem uma carta aberta que tá rodando por aí que fala dessa dificuldade. Na verdade ainda não se tem essa inserção no mercado de trabalho, pelo menos nos concursos. Pede-se que se coloquem vagas à disposição porque não tem pra dança e pra teatro, ou tem muito menos, muito pouco. A ideia é que se faça essa inserção.

Cristiano: Mas tem uma lei que regulamente isso?

Marli: A partir dos Planos Curriculares Nacionais (PCNs), com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996, que é constantemente atualizada, que se discute essa ideia das quatro linguagens artísticas, que estejam presentes no espaço de educação formal. Que as pessoas tenham a oportunidade de ter contato com todas as áreas, e não que optem por uma, porque essas áreas todas são importantes no processo de construção do conhecimento. Mas até ter essa oportunidade, de saber que é importante, e pra isso realmente acontecer, precisa-se de muita luta. Precisa-se principalmente de gente que acredita nesses espaços e lute por eles. Então tem alguns projetos de lei em cima desta lei e que vão regulamentando, como é o caso da música, que acabou regulamentada.

Carlos: É, mas regulamentando de uma maneira bem torta, porque obriga a ter atividades musicais na escola, mas não precisa ter professor de música. Essas atividades podem ser desenvolvidas, ou devem ser desenvolvidas por todos os professores. A informação que temos é que o CIEP aqui em Montenegro tem uma sala cheia de instrumentos encaixotados, e que eles não sabem o que fazer com esse material, porque não tem profissional com conhecimento, que saiba o que fazer com aquilo.

Marli: Não se questionam as coisas. As leis vêm de cima e não se questiona por que aquilo, por que a lei e para que ela existe. O que ela vem trazer pra esses alunos que estão aqui. Eu acho que ainda falta um olhar para o aluno. Isso está em função de quem? Do professor, do aluno, da escola, ou de um governo? Falta realmente olhar para o aluno e para sua formação, e também para o seu espaço.

Cristiano: Muitas vezes nos deparamos com professores sem formação teatral lecionando nas escolas, por outro lado, nos últimos anos percebemos um aumento considerável no número de profissionais licenciados em teatro. Esses professores estão sendo absorvidos pelo mercado de trabalho? Os professores de teatro estão sendo contratados pelas escolas privadas? O que é preciso fazer para mudar a situação nas escolas públicas? 

Carlos: Professores sem formação específica assumindo disciplinas de artes é bem comum. Os profissionais egressos dos cursos estão conseguindo se inserir num mercado de trabalho mais amplo do que o do ensino formal. Tem casos, por exemplo, de um ex-aluno que tem vinte horas na prefeitura, e ele equilibra isso com o trabalho no grupo de teatro. E muitos não estão no espaço formal. O espaço chamado não formal absorve muito mais, o oficineiro de teatro, o professor de teatro.

Marli: E nas escolas privadas a situação também é difícil. Até porque na própria escola o professor de teatro às vezes é contratado extraclasse, de uma forma marginal dentro da escola, não no currículo. A dar aulas, mas não nesta formação que a gente luta enquanto professor, que todos os indivíduos tenham acesso e oportunidade de estar neste contato teatral.

Carlos: Quanto a essa questão de profissionais sem formação, isso acontece há muito tempo, mas a gente não pode olhar com preconceito pra esse profissional, pra essa professora que muitas vezes é quase que coagida a assumir a disciplina na escola. Eu já trabalhei com professores que se viram muito bem. Claro que isso não é o ideal. Não estou defendendo que isso deva continuar, o que eu estou dizendo é que às vezes a gente achincalha educadores que estão fazendo o maior esforço na escola pra tentar fazer e dar conta disso, buscando informação pra isso. Penso que não se trata da gente atacar essas pessoas, mas pensar em termos de políticas públicas, de educação, que é disso que a gente está falando. O conhecimento artístico é um patrimônio que está escrito na LDB, nos documentos oficiais, e que diz que todas as pessoas merecem ter acesso. Temos que batalhar pra exigir mais concursos, formas de inserir, mexer na infraestrutura da escola, porque a arte também é um pouco problema na escola, porque a escola é historicamente um lugar de disciplina, silenciosa, limpa, e o teatro faz barulho, a arte faz sujeira. E a arte não dá pra esse controle disciplinar que a escola tem tradicionalmente com sua entrada, porque senão não vai ser arte.

Marli: Parece-me que o que a gente tá falando tem a ver com essa experimentação criativa, que a arte não se coloca nesses espaços que são muito fechados pra se experimentar.

Carlos: Inclusive nesse modelo arquitetônico da escola. Numa sala pequena, com trinta e poucas pessoas amontoadas. Como é que tu vais trabalhar o corpo num espaço como esse, que corpo se constrói numa arquitetura dessas?

Marli Susana Sitta

Marli Susana Sitta

Marli: Em relação a isso que o Carlos fala, me preocupam os professores que se põem à disposição de trabalhar com arte mesmo não tendo uma formação. E às vezes me irrita até. Incomoda-me muito essa atitude do professor, de se acomodar diante daquilo que aparece nesse sistema, de se enquadrar nesse sistema, buscando sempre desculpas, porque isso é necessário fazer, é dessa forma que tem que ser feito. Faço porque é assim que eu sou abrigada a fazer. O professor precisa compreender melhor qual é o seu papel enquanto educador. E não é na questão de especialidade, de dizer: Bom, eu tenho conhecimento de teatro, então só eu posso trabalhar com teatro. Não é nesse sentido, mas no sentido de que se estou sendo convidada a trabalhar, se eu tenho essa possibilidade, como é que eu vou procurar me tornar mais capaz de trabalhar com isso. Eu não conheço a realidade próxima de Porto Alegre. Sempre trabalhei no interior, em Passo Fundo, e sempre fui professora da Educação Básica no interior. Então realmente eu nunca vi professor de teatro. Na verdade nem eu tinha formação teatral. A minha formação era Educação Artística, a formação era nas várias linguagens, e fui optando por teatro.

Carlos: Porque nessa atitude, Viola Spolin, Olga Reverbel, viram nada. Fica uma coisa vamos fazendo de qualquer jeito, sem conhecimento, vamos empurrando com a barriga.

Marli: Tanto que o livro da Viola Spolin, Improvisação para o Teatro, que eu tenho, ganhei da biblioteca da minha escola, porque a bibliotecária me disse assim: isso aqui pode levar, isso aqui nunca ninguém ocupa. E quando trabalhei na Universidade de Passo Fundo, ia pras escolas e visitava as bibliotecas, realmente eram os livros que estavam novíssimos nas bibliotecas. Nunca eram mexidos.

Carlos: Quando existem livros.

Marli: Eram distribuídos. O da Viola Spolin foi muito distribuído em todas as escolas, mas eles estavam extremamente novos. E quando falamos em Olga Reverbel, os livros mais utilizados eram os dela, porque me parece que tinham o desenvolvimento dos exercícios de uma forma mais limpa. Não digo mais fácil, mas mais próxima do mundo do professor, da sua realidade escolar. E essa atitude de se acomodar no mesmo lugar, de não ser curioso, não estou afirmando que aconteça com todos os professores.

Carlos: É um problema de gestão. Parece-me que os gestores vão resolvendo as coisas pela facilidade, desconsiderando critérios como, por exemplo, um professor de arte conhecer arte, ou pelo menos ter vontade de ir atrás pra dar conta destes assuntos.

Cristiano: Falta entender qual é a importância de se ter esse espaço pra arte na escola formal?

Marli: Exato. Qual é a importância disso? Por que é importante todos os indivíduos passarem por esse processo de experimentação criativa e artística?

Carlos: De se fazer perguntas que não têm respostas certas. Porque a escola é um lugar de respostas certas.

Marli: Do teatro não como um espaço para este que está indisciplinado, para aquele que não consegue ficar parado. Estes vão fazer teatro. O gordinho vai jogar xadrez porque ele não se movimenta muito. A escola tenta encaixar as pessoas naquilo que ela considera importante.

Carlos: E de modo a causar menos barulho e menos problemas.

Marli: Exatamente, porque é o modelo que se instala. E eu entendo também, tu estás numa sala, e isso acontece na uergs, estou na sala aqui trabalhando teoria, psicologia. Lá em cima batidas, aqui do lado instrumentos tocando. É difícil trabalhar assim, mas a estrutura como se põe não favorece essa expressão criativa, essa experiência criativa.

Carlos: E aí eu acho que entra a importância dos gestores entenderem isso. Se um gestor de uma escola entende essa importância, ele pode encontrar uma sala mais lá ao fundo para essas atividades barulhentas. Existem escolas que tem esse entendimento e que vão resolver, querem resolver. Não veem isso como empecilho, mas representam a minoria.

Marli: Mas se esperar por uma suposta circunstância ideal, eu nunca vou trabalhar. Porque na verdade isso se põe, e como é que eu trabalho dentro disso que se põe? Mas anterior a como eu trabalho, é entender porque estou trabalhando aquilo. Digo eu enquanto profissional, e pensando enquanto formadora – se é que posso falar assim – de profissionais que vão trabalhar com isso.

Calouros 2015 de Graduação em Teatro: Licenciatura em aula de Improvisação Teatral I (UERGS)

Calouros 2015 de Graduação em Teatro: Licenciatura – aula de Improvisação Teatral I (UERGS)

Cristiano: E o Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID), de que forma ele está contribuindo para colocar os alunos das licenciaturas em teatro nas escolas e quais são os resultados desse trabalho?

Carlos: Acho que o PIBID é uma das coisas mais legais que se fez no Brasil nos últimos anos em relação à Educação Básica. O PIBID cria uma situação em que a universidade e a escola pública precisam trabalhar juntas e dialogar. Não é só a universidade que olha pra escola e critica e analisa, e também não é só o professor que fica se justificando pras rotinas lá instaladas.

Marli: Eu acho que é esse movimento que a gente quer.

Carlos: Do desconforto, tanto lá quanto cá, porque a maior parte dos alunos de um curso de licenciatura em teatro entra pensando em ser artista. E no decorrer do curso a gente vê uma mudança de perspectiva. Eu li um trabalho de uma aluna essa semana e chorei, porque ela disse “eu me vi saindo de uma escola com vontade de ser professora”. Depois de dois anos e pouco lidando com isso ela cogitou, ela vislumbrou. E essa é uma trajetória bem comum. Precisamos entender que a escola não é um lugar onde as pessoas estejam loucas pra ir trabalhar, e ser professor não é um modelo que as crianças digam “quando eu crescer eu quero ser professora”. Tem uma construção histórica que colocou o professor num lugar de depressivo, com baixos salários. A imagem que se tem do professor é marginal, a de um pobre coitado. Por isso acho que a bolsa do PIBID é uma coisa que se criou e que inverte um pouco esse jogo. Mas é tão sério o caso, que proporcionalmente o bolsista do PIBID recebe um salário maior que um professor estadual. Uma incoerência. Uma bolsa de quatrocentos reais pra oito horas por semana proporcionalmente é mais do que um professor de quarenta horas recebe.

Marli: Concordo. Mas acho que a gente tem que ir além, tem que se jogar. Se fizer uma escolha, tenho que estar consciente dessa escolha. Talvez me deslumbre por essa questão mais artística, pelas razões que o Carlos nos traz, mas se escolher um curso que tem essa formação pedagógica, se eu vou pra escola, bom, eu sou responsável para que alguma coisa se transforme, ou então eu saio dali, porque o grande ganho de ser educadora é contribuir pra que alguma coisa aconteça.

Carlos: E a escola é lugar de ser artista também. As coisas não são separadas. E é isso que eu vejo os alunos descobrirem nessa caminhada com o PIBID, com as aulas.

Marli: É um lugar de vida, de energia, de ser aquilo que tu és.

Carlos: E tentativas às vezes são feitas de priorizar, por exemplo, a questão artística. Eu acho que é possível a gente ocupar esses espaços de uma maneira diferente da que a gente está aí criticando.

Marli: É a gente se colocar como professor aqui, como aluno ali, é esse igual, de que eu posso ser o que eu sou e que eu acredito ser. Ser artista ali nesse espaço, porque é isso que vai me dar energia, me dar vida.

Carlos: Pra mim é o que justifica a presença do teatro na escola. Ele tá ligado com a vida, e não ensinar um manual de exercícios que a cada semana vai se passando.

Marli: E me parece que se a gente vê dessa forma, alguma coisa vai acontecer, não consigo ver que não aconteça.

Cristiano: E considerando as diversas possibilidades de se fazer acontecer com esse fazer teatral, com o fazer artístico, se vocês tivessem um encontro com os gestores públicos e escolares, de que forma defenderiam a inserção do teatro na escola formal? Por que o teatro, enquanto disciplina, deve ser adotado pelas escolas públicas e privadas?

Carlos: Considero a arte extremamente importante de se estar na escola porque toda a coisa mais científica da educação lida com um jeito de pensar as consequências, e a arte lida com os pensamentos divergentes. Acho que isso é uma contribuição importantíssima que a arte tem, de que a gente pode olhar uma imagem, um espetáculo, e não ver a mesma coisa, a riqueza dela te amplia e te põe num outro lugar. E o teatro e a dança tem a questão do corpo também. Se a gente olha pra escola, como que o corpo dessas crianças é formado na escola? Tem a educação física, com um horário na semana pra fazer uma atividade física. Mas o teatro e a dança tem uma contribuição que talvez nenhuma outra área tenha de relação com o corpo, de possibilidade de fazer metáfora, de possibilidade de amplidão.

Marli: Eu falo da função simbólica que a arte tem, e que é uma necessidade humana se expressar através da simbologia, que não é só do real. Jean Pierre Ryngaert fala que a criação é inerente ao fato de viver. E às vezes na escola não tem espaço pra isso, se sufoca isso. Acredito no teatro exatamente por essa função de você se colocar inteiro, no corpo, com o outro, na relação. Você se colocar no lugar do outro e poder olhar pra si mesmo.

Carlos: Acho esse exercício coletivo que é o teatro extremamente fundamental nessa sociedade individualista que a gente está.

Marli: E eu não estou dizendo que o teatro é terapia, mas ele tem essa função também, de olhar pra si e poder olhar pro outro, e nesse exercício é que tu podes te construir. Então eu vejo o teatro como lugar de essência pra isso. É o único que tem a linguagem de você se colocar no lugar do outro, de você se ver de fora e de se permitir olhar como alguém que pode ser construtor desse mundo, dessa vida, de momentos. E Ryngaert diz ainda que se não houver espaço pra essa pulsão criativa durante esse processo de desenvolvimento humano as pessoas acabam por não encontrar o sentido de sua existência. E eu falo isso e me emociono porque eu acredito extremamente nisso. E acho que se essa pulsão criadora não tiver espaço pra vir à tona nem na família, nem na escola, ela vai virar violência, frustração, coisas que a gente vê pelo mundo afora que a gente não gosta e que a gente não quer. Por isso é tão fundamental esse espaço que seja na educação formal, onde todos tenham a oportunidade de estar se olhando, e olhar o mundo.

Carlos: Mas eu acho que a arte não é a salvadora da escola, acho que há que se repensar esse jeito de ser escola. Como a Marli diz, é uma questão de educador, não é só de educador de artes.

Marli: Eu me lembro de uma professora de ciências que dava aula no ensino médio. A aprovação dos alunos dela no vestibular era ótima. Mas o que ela fazia? Ela era professora de yoga, e quando os alunos estavam nesse espaço apertado de corpo, ela dizia: vamos levantar, vamos lá pra fora. Lá fora fazia todo um movimento corporal com os alunos e voltava pra aula. Ou voltava, ou ficava lá trabalhando o conteúdo. Então eu acho que muito mais do que o professor de que que tu és, é o professor daquilo que tu te constrói, te permitindo sair do lugar pra agregar conhecimentos específicos e novos, múltiplos. Isso que eu acho importante.

Carlos: Acho que o teatro é terapêutico, mas não é pensando que ele é terapêutico, ou propondo terapia, que as coisas acontecem. Os espaços de educação precisam ser propositivos para as pessoas se relacionarem com o teatro, de lidarem com isso, de experimentar, de fazer. É isso que vai transformar as pessoas, e não ter a pretensão, como às vezes os professores têm, de dar um exercício pra os alunos se “darem” melhor. Como professor, durante algum tempo já faço isso. E percebo que com o foco nas coisas do teatro a gente vê as pessoas se transformando, com a linguagem específica, se preocupando em resolver a cena, em ampliar a capacidade de jogo e de escuta. Vou pra casa e essas coisas não ficaram lá no ensaio, isso está em mim. Amplio-me como ser humano. A arte tem muito a contribuir principalmente por essas questões de interação com outro, do corpo, e desse pulso criativo, dessa vontade que a gente tem de ser Deus, de criar.

Cristiano: Estamos falando de transformação, e vocês trouxeram ainda há pouco a questão de algumas experiências dos alunos com o PIBID, alunos que procuraram o curso pensando na carreira artística e que se apaixonaram pela docência. Podem falar um pouco mais sobre que tipos de transformações há nesse percurso, de anseios, de busca profissional, transformações pessoais.

Carlos: Os egressos falam de uma transformação no sentido mais amplo mesmo, no sentido de que o curso os transformou, os fez olhar o mundo de outro jeito, falam em política, em questões de uma formação geral, vários depoimentos de alunos falando que o curso lhes ampliou os horizontes.

Marli: Da forma de se colocar no mundo. Eu queria dizer que o que a gente tá falando tem a ver um pouco com a experiência estética, que o curso proporciona. No início, quando eu entrei, em 2011, achei que tinha uma resistência maior à pedagogia, tanto que em alguns momentos me calava, porque achava que era melhor ouvir, porque a experiência estética é viva, e ela é assim. Quando tu tá experimentando corporalmente, de outra forma que não a mecânica, é uma experiência muito viva, muito intensa. E quem tá ali experimentando isso, e depois vai pra esse ambiente de escola, que é extremamente rígido, não é algo a que o artista quer se enquadrar. Claro que ele se questiona sobre esses espaços, o que fazer nesses espaços. Acho extremamente normal. Mas também vejo o contrário, alunos que entraram no curso e disseram: “Eu não quero ser artista, quero fazer as disciplinas teóricas, será que preciso fazer um TCC com essa visão só do artista, de construir um trabalho prático, artístico?” E aí no terceiro semestre eles já dizem: “Bah! estou me vendo capaz de também produzir artisticamente, de construir”. Claro que pode até ter falhas no processo de formação, porque a gente não dá conta de tudo em quatro anos. A gente tem um perfil de profissional que quer para o final do curso, e tenta ir pra esse lado. Mas esse perfil que a gente pensa de professor artista, percebemos que muitos alunos saem pensando sobre essa possibilidade, e a grande maioria praticando, procurando olhar esse espaço escolar, que é um espaço possível de se trabalhar, ainda que não ideal, mas possível de se trabalhar na educação formal.

Carlos: Mas que é melhor ir pensando em ocupá-lo no sentido de se colocar nele para transformar e não para se adaptar. É uma perspectiva que a gente tem conseguido. Eu me lembro de uma fala de uma aluna, que dizia: “Eu sou professora quando estou ensaiando com meus colegas, e sou aluna quando estou dando aula”. Essa mistura de funções, de que os aprendizados acontecem em via dupla o tempo todo. E tem gente que entra no curso porque quer fazer teatro e que nem pensou direito sobre esse ofício ou aquele. Tem gente que entra pensando em ser ator, que a coisa primeira que define teatro é a figura do ator. Tem gente que já tem experiência em grupos. Ou que tem experiência pedagógica, que tá trabalhando e quer uma formação pra isso. É muito diversificado, e essa diversidade é muito rica pra se trabalhar. No final do ano passado, trabalhando com metodologia, avaliando a turma, um aluno disse: “Eu não penso muito em ser professor, minha coisa é mais com o teatro”, e outra respondeu: “Pois pra mim é o contrário, eu não me vejo como atriz. Penso em ser professora”. E eu, quando comecei, me apaixonei por isso porque me vi pego e transformado. Vislumbrei no teatro uma possibilidade de existir que em outras coisas talvez não fosse possível.

Cristiano: Pelo que estou entendendo, no meio disso tem muitas possibilidades e combinações.

Carlos: É. O teatro é uma formação que muitas outras áreas chamam. Várias possibilidades. Tem até gente que trabalha com saúde, a Fabíola, uma ex-aluna, foi fazer uma especialização na Escola de Saúde Pública. Tem quem lide com produção, com fazer teatro, com educação, formação de professores. Eu diria que as possibilidades de trabalho são quase que infinitas. Pode-se trabalhar em muitas coisas a partir do teatro, a partir de uma formação em teatro. E a formação em licenciatura é a melhor opção. No Brasil não temos companhias esperando atores pra contratar, diretores pra fazer audição. O trabalho com teatro é muito mais cooperativado. A formação em licenciatura te permite ocupar espaços e resolver questões de trabalho, de se organizar e de se estruturar. Como citei o ex-aluno com vinte horas na escola e que tem um tempo que dedica ao grupo. Deixa um espaço aberto pra outras possibilidades, e não fica uma vida rotineira.

Marli: Eu acho que faltam projetos pedagógicos que compreendam melhor a importância das atividades artísticas teatrais na escola, no espaço da escola. Falo em espaço formal, porque todos passam pela escola. Tenho essa vontade de que todos possam passar por esse processo.

Carlos: É que ainda nos espaços não formais as condições são mais propícias pra se fazer teatro. Existe uma compreensão no sentido das condições de espaço, materiais mesmo. E se tem mais liberdade pra fazer barulho, pra criação, pro caos que a criação precisa. Temos muito a brigar ainda pra ocupar a escola, o espaço formal de educação, e de como ocupar esse espaço. Porque não é só contratar professores, dar uma grade curricular pra ele, e ele entrar numa sala cheia de classe, porque o outro professor não quer barulho do lado. O teatro permanece numa marginalidade dentro das escolas, e como já foi dito, a maioria das atividades de teatro em escola formal é muito mais fora do currículo. É um profissional que não tem décimo terceiro, que não tem férias remuneradas. Ele não é nem aquele professor que ganha pouco que a gente sabe, ele é menos que isso.

Marli: Mas aí é que eu chamo pra que haja uma discussão sobre a importância desse espaço para o teatro na escola. Sou agente transformadora, quero ser educadora, nunca pensei em ser outra coisa e escolhi o teatro pra isso. Então, como é que eu posso pensar junto numa reunião de professores, argumentar a favor. É difícil argumentar a arte, porque ela é muito viva, é muito corpo, é difícil intelectualizar, dizer dessa experiência se a gente não passa por ela. Por isso que se num processo normal de formação todos os indivíduos pudessem passar por essa experiência, talvez não tivéssemos que lutar tanto pra dizer da importância que isso tem, porque quando tu experimentas o teatro, quando tu te possibilitas entrar no jogo, é fácil compreender.

Carlos: Ninguém questiona por que a matemática é importante, por que eu tenho que aprender isso? As crianças questionam. Mas me refiro às discussões dos educadores. É intocável essa questão. Agora o teatro, a arte, parece que sempre tem que estar se explicando. É importante porque é um patrimônio secular. Quem seríamos se não tivessem criado a tragédia grega? Que brasileiros nós seríamos sem o Nelson Rodrigues, sem o Ariano Suassuna, sem o Érico Veríssimo? Essas coisas estão ligadas à alma, ao intangível, e há que se entender que essa área da vida é importante.

Marli: É pela expressão cultural de um povo, e é inaceitável colocar à margem. Eu não consigo compreender isso. Então, quando dentro dessa estrutura de escola tem um conselho de classe e falam: “Ah, tu professora de artes não fala porque não reprova”, prontamente respondo: “Não. Mas eu não quero que reprove. Eu estou aqui e quero ter vez e voz. E quero dizer pra vocês que graças a Deus que um aluno não reprova em artes, e acho que talvez não tenha que reprovar em nenhuma outra disciplina”. Então, é nesse sentido, que discurso é o meu? Tem a ver com aquilo que eu experimento teatralmente, mas também com aquilo que eu me proponho a ler, estudar, e olhar pra essas pessoas como a Olga Reverbel, que pode ter tido defeitos sobre sua teoria, como afirmam alguns, mas que se colocou pra ser criticada, se expôs, escreveu sobre isso, dedicou a vida pra trabalhar e escrever sobre isso. Claro que toda a teoria tem defeitos, tem suas limitações. Mas vamos pensar no que eu posso tirar disso e que possa auxiliar essa pessoa a se construir melhor. Não com essa pretensão. Mas o que dentro desse espaço eu vou buscar enquanto educador, porque o educador tem que ir além daquilo que ele experiencia corporalmente. Experiência corporal que é importante, mas dentro dela, dentro dessa experiência criativa, qual é a teoria que pode me embasar pra que eu possa argumentar também nesses momentos de discussões coletivas, e que obviamente como professora também me preocupa.

Cristiano: Falamos um pouco da teoria, da atuação dos professores, dos alunos do curso, mas queria ouvir um pouco mais sobre as experiências destes nas escolas. Como são recebidos pela equipe escolar e pelos alunos?

Carlos: Eu lembro quando os bolsistas entraram na escola, tinha muito choro em função do desconhecimento dessa realidade muito dura. E tinha também um olhar muito pessimista, um olhar que só queria ver a violência, a desgraça, o sofrimento, um olhar muito depreciativo, e achavam que não podiam fazer nada ali. Eles diziam sentir muito medo, não se sentiam bem naquele espaço. E nós dizíamos: mexe-te, vai. E hoje se está numa outra relação com isso tudo, porque eles propuseram coisas, conversaram, conheceram pessoas que conseguem criar algumas ilhas no meio dessas dificuldades, tendo a parceria de professores que fazem um trabalho significativo, que dialogam com as crianças e que acabam virando referência pros “pibidianos”. Professores que conseguem fazer porque tem uma atitude diferente.

Marli: Lógico que quando eles entraram na escola a primeira reação das professoras que os receberam era: “Ah, vão lá na sala dar aula pra nós”. E o PIBID tem outro objetivo, o de como eu olho pra tudo isso, e de que com esse olhar transformador eu não repita aquilo que já existe. Mas que também não estou lá para julgar. Eu posso beber daquilo. No primeiro ano o aluno do PIBID não entra em sala de aula, ele vai, olha, observa, e a partir dessa observação vamos ver que necessidades eu vejo de propor artisticamente, de propor espaços artísticos. E foi genial nesse sentido.

Carlos: E a gente teve uma ou outra ação no sentido de pequenas oficinas, mas a maior parte das ações que os bolsistas fizeram foi no sentido de ajudar na perspectiva de que a escola é um espaço de convívio, do imaginário daquele lugar e daquelas pessoas. Com isso, recolheram histórias, lendas, criaram intervenções com as mulheres de branco que aparecem no banheiro, as assombrações.

Marli: Um material muito rico para o fazer teatral. Ou seja, que material está aqui que a gente pode utilizar nessa linguagem?

Cristiano: São quantos alunos hoje no PIBID?

Carlos: Tínhamos 25 no ano passado e agora temos 22.

Cristiano: Pra finalizar, o que muda na vida e na formação do aluno bolsista do PIBID?

Carlos: Faz muita diferença o PIBID. Por exemplo, agora estou orientando o último estágio da turma que se forma esse ano, e vários ali passaram pelo programa. E é outro nível a relação com os estágios, os planos, a ideia de sua função como professor. Antes, quando não tinha o PIBID, a escola era um lugar estranho na hora de fazer estágio. Hoje não. Também por isso o PIBID é importante.

Marli: E agora, com o programa, o aluno bolsista tem um ano inteiro pra refletir sobre essas questões que estão em torno da pedagogia escolar, do teatro e da arte na escola. Porque além de ir lá e propor, eles vêm pras reuniões, eles refletem, discutimos juntos, indicamos bibliografia. Participam de seminários, precisam ler muito, não podem dizer qualquer coisa sem pensar naquela escrita. Elaborar e reelaborar aquilo que estamos propondo. O PIBID é um programa que tem como objetivo fazer com que se pense mais o espaço da arte na escola.

Calouros 2015 da Graduação em Teatro: Licenciatura (UERGS)

Calouros 2015 da Graduação em Teatro: Licenciatura (UERGS)

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