Entrevista com Lilly Lutzenberger lembra os 13 anos de falecimento de José Lutzenberger, no próximo dia 14 de maio

Lilly Lutzenberger - foto Carlos Stein

Lilly Lutzenberger é Licenciada e Bacharel em Ciências Biológicas pela UFRGS, com ênfase em Plantas Medicinais. Realizou atividades de docência na Universidade Nacional de Misiones, na Argentina, na área de Línguas Estrangeiras. Fluente em alemão, inglês, francês e espanhol, atualmente é curadora e organizadora do amplo acervo deixado pelo ambientalista José Lutzenberger, do qual foi filha primogênita.

Nesta entrevista inédita, realizada em maio de 2003 (um ano após a morte do pai), e resgatada de arquivos dados como perdidos, Lilly relembra a trajetória do ecologista, fala dos 13 anos que passou longe da família, período em que morou na Argentina, de seu posterior retorno ao RS, do envolvimento e da responsabilidade que teve ao assumir a organização das atividades profissionais de Lutzenberger quando este já estava em idade avançada e com saúde debilitada. A relação do pai com a imprensa e as iniciativas individuais e coletivas que podem contribuir para a preservação do planeta também foram tema de nossa conversa.

Cristiano: Você nasceu em Caracas, na Venezuela, morou no exterior até os nove anos de idade e teve a chance de acompanhar seu pai por vários países. Apesar da pouca idade que tinha, consegue lembrar-se de eventuais manifestações sobre as questões ambientais feitas por ele nos lugares por onde passava?

Lilly: Minhas lembranças desta época são escassas, pois eu ainda era muito pequena. Recordo melhor os anos passados no Marrocos, de 1967 a 1970. Naquela época meu pai não era um ecologista militante, mas suas atitudes frente ao ambiente que o rodeava já denotavam sua grande preocupação com a integridade de Gaia. Lembro-me dele se indignando com todo tipo de destruição de ambientes naturais e sempre tentando impedir maus tratos aos seres vivos. Os árabes, em decorrência de sua crença religiosa de que as plantas, os animais e as mulheres não possuem alma, e, portanto podem ser maltratados e até assassinados sem culpa, são muito cruéis, e meu pai sofria muito vendo a violência ambiental e social que isso gerava.

Cristiano: Qual foi a reação da família quando soube que seu pai estava deixando a segurança de uma carreira executiva bem sucedida em uma multinacional para voltar ao Brasil e se dedicar exclusivamente à defesa da Ecologia? Lembra-se do impacto que essa notícia lhes trouxe?

Lilly: Quanto a mim, não recordo conscientemente se sofri internamente com esta mudança ou não. Provavelmente sim. Como toda criança, devo ter experimentado uma forte sensação de “estão virando meu mundo de cabeça para baixo” e ficado insegura com isso. Mas recordo muito bem o choque sofrido por minha mãe. Ela estava com minha irmã recém-nascida nos braços e ficou arrasada com a perspectiva de ter de enfrentar outra complicada mudança internacional, desta vez com resultado incerto, pois meu pai agora era um homem desempregado com mais de quarenta anos de idade.

Cristiano: Até que ponto você foi influenciada por seu pai e de que maneira isso aconteceu?

Lilly: Não sei ao certo, acho que aconteceu naturalmente, desde pequena, convivendo com meu pai no dia a dia, aprendendo com ele a admirar e respeitar o milagre da vida em todas as suas formas e manifestações. Isso fez com que eu me preocupasse mais que outras crianças de minha idade com as agressões ambientais que via acontecer ao meu redor. Lembro de ter me alterado muito com a histeria coletiva causada por uma minúscula lagartixa que apareceu em minha sala de aula, na escola primária – alunas, em pânico e  aos berros, trepadas sobre suas escrivaninhas, e meninos enlouquecidos ensaiando manobras heróicas para exterminar o monstro. Tudo isso sob o olhar complacente da professora, a qual assim deu um péssimo exemplo a todos nós. Fiquei tão abalada, que escrevi uma redação em defesa da pobre lagartixinha, tão covardemente trucidada. Meu pai gostou da iniciativa e a redação acabou saindo num jornal com o título de “Lagartixinha Tuca” ou coisa parecida.

Lilly Jardim Lutz

Cristiano: Você é a filha mais velha. Quando sua mãe faleceu já estava com 20 anos de idade. A partir daí, suas responsabilidades aumentaram. Enquanto sua irmã Lara ficou sob a tutela de uma de suas tias, você passou a administrar a casa e a estar sempre com seu pai.  Depois, você se casou e fixou residência na Argentina, onde ficou até o ano de 1998. Como foi esse período longe de seu pai?

Lilly: Durante esse período perdi bastante o contato com ele, pois vivi os 13 anos que passei na Argentina confinada numa fazenda de acesso e comunicação muito difíceis. Era comum passar vários meses sem poder falar ao telefone com minha família. As visitas ao Brasil eram escassas e curtas, o correio muito lento e não havia Internet.

Cristiano: E como aconteceu sua reaproximação com seu pai, com a militância dele e com a Fundação Gaia, depois de 13 anos vivendo na Argentina? Ele foi um homem que costumava externar sentimentos com facilidade?

Lilly: Saí de casa cedo e só voltei quase uma década e meia depois, quando a Fundação Gaia já era uma instituição sólida e bem encaminhada. De certa forma, caí nela de paraquedas, pois meu pai acabava de ficar sem secretária trilíngue e ele me pediu de assumir seu lugar. Não sou o tipo de pessoa que se poderia considerar militante ambiental no sentido em que ele o foi, não possuo este perfil. Sempre admirei profundamente o trabalho, o empenho e a genialidade de meu pai, mas suspeito que meu caminho e interesses são um pouco diferentes. Considero-me ecologista na alma, sou consciente dos graves problemas ambientais do momento, me preocupo com isso e procuro agir de acordo no meu âmbito pessoal, mas me falta o grande idealismo e espírito de luta conservacionista dele. Por isso, não posso dizer que batalhei ao seu lado, mas bem o apoiei e acompanhei em seus últimos anos de vida e isso foi muito bom, tanto para ele como para mim e minhas filhas, suas netinhas queridas. Quanto a sentimentos, meu pai não costumava exteriorizá-los com facilidade na vida familiar e pessoal, mas havia entre nós um grande carinho mútuo, um entendimento silencioso. Orgulho-me de ter tido o pai que tive e guardo uma grande e eterna saudade dele no coração.

Cristiano: Mas ao voltar para Porto Alegre, você passou a organizar e a preparar suas viagens. A agenda dele era de sua responsabilidade. Quais eram os critérios adotados para ele participar de eventos ligados à questão ambiental?

Lilly: Quando retornei a Porto Alegre, depois de tantos anos, meu pai havia mudado muito, tornara-se um homem idoso e muito doente. Sofria de insuficiência cardíaca e enfisema pulmonar, e qualquer esforço físico, por leve que fosse, o colocava em sério risco. Era muito penoso para ele, pois havia sido sempre um homem muito saudável, ativo e transbordante de energia. Em função disso, ele passou a aceitar somente aqueles compromissos que não lhe exigiam demais em termos de estresse físico e emocional. Já quase não viajava ao exterior e, mesmo no Brasil, os deslocamentos longos de carro e avião eram raros. Limitava-se a fazer palestras e dar entrevistas. Passava muito tempo no Rincão Gaia, estudando e escrevendo artigos.

Cristiano: Como você avalia a relação de seu pai com a imprensa?

Lilly: Meu pai possuía uma personalidade muito forte e decidida, era um idealista incansável e, como tal, soube enfrentar e superar muitos obstáculos que para outros teriam sido intransponíveis. Na realidade, ele encontrou na imprensa uma forte aliada, principalmente na época da ditadura militar. Foi graças a ela e a seu destemor diante das ameaças que às vezes recebia que conquistou muitos de seus objetivos na defesa do meio-ambiente.

Cristiano: Por outro lado, o próprio Lutzenberger dizia que a imprensa é campeã em publicar notícias falsas, distorcer fatos e demonstra profundo desconhecimento quando fala ou escreve sobre as questões ambientais.

Lilly: Acho que a solução seria a população em geral se manter melhor informada em questões ambientais, jornalistas incluídos. Meu pai sempre se empenhou em esclarecer e informar as pessoas sobre os perigos ambientais, usando para isso seus grandes conhecimentos nas mais variadas áreas da ciência. Com isso queria motivá-las a tomar uma atitude. Sem conhecimento não há sensibilização e sem sensibilização não pode haver ação. Suas inúmeras palestras, entrevistas e escritos refletem bem essa sua preocupação.

Cristiano: Por que o Lutzenberger se refugiou no Rincão Gaia, em Pantano Grande, depois de tantos anos de luta?

Lilly: Lutzenberger se refugiou no Rincão Gaia porque amava este lugar. Ele o criou a partir de uma inóspita paisagem desértica, deixada por uma pedreira de basalto desativada. No decorrer de poucos anos, transformou uma horrível chaga de destruição ambiental num maravilhoso florescer de vida. Ali se sentia feliz, entre plantas, animais, e junto do lago, às margens do qual gostava de passar horas lendo, refletindo e observando a natureza. Foi sua obra mais bela e o porto seguro de sua velhice. Foi por isso também que pediu para ser enterrado ali, abraçado a Gaia.

Cristiano: Seu pai fundou a empresa Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico em 1979, e a Fundação Gaia em 1987, gostaria que você falasse um pouco sobre a atuação da empresa.

Lilly: Com a empresa Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico, meu pai procurou demonstrar na prática o que durante muitos anos preconizou na teoria, ou seja, que é possível encontrar e praticar soluções ambientalmente corretas para as atividades industriais poluentes humanas e ainda gerar lucro com isso. A Vida, através de seus trabalhos em consultoria ambiental, biodiversidade e reciclagem de resíduos industriais, transformando-os em adubos orgânicos, beneficia duplamente ao meio ambiente, reduzindo a devastação e a poluição e fomentando uma agricultura mais sã. Além disso, ela também é socialmente desejável, pois gera empregos em atividades até a pouco inexistentes.

Cristiano: No início dos anos 70, seu pai e mais alguns amigos, como o Augusto Carneiro, dentre outros, foram pioneiros no Brasil ao criar a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN). Passadas três décadas, como você analisa o processo de conscientização ambiental? O que falta em termos de governo, de sociedade civil, e de que maneira empresas privadas podem contribuir para evitarmos um colapso geral no planeta terra? 

Lilly: Hoje se fala em ecologia em toda parte. Existe uma maior difusão e conscientização do assunto do que há três décadas, quando meu pai começou a luta ambiental aqui no Brasil. Mas também há uma maior banalização do tema, a ecologia está na moda e muitas pessoas e empresas acham que para ser ecológico é suficiente vestir ou produzir alguma marca ou folheto “verde”. Muitas iniciativas não passam de puro marketing comercial e carecem de qualquer fundamento e engajamento real. Isso não é totalmente negativo, mas de certa forma diminui a credibilidade daqueles que realmente estão empenhados em proteger e salvar nosso planeta com ações concretas. A militância de Lutzenberger e outros que lutaram com ele teve um imenso valor no sentido de alertar e sensibilizar a sociedade para os graves problemas ambientais. Mas, juntamente com a educação e a conscientização deve vir a ação, e esta ainda está deixando muito a desejar. Fala-se muito mais do que se faz. É preciso que cada um de nós mude de hábitos para consumir menos recursos não renováveis, produzir menos lixo e invadir e desvirtuar menos santuários naturais, por exemplo. Quanto às empresas, há muitas iniciativas isoladas muito boas e esta tendência deve aumentar. No que diz respeito ao Governo, penso que ele deveria dar o exemplo, além de se preocupar mais com a instrução de seu povo, em todos os sentidos. Povo instruído compreende mais e está mais disposto a preservar.

Lilly Lutzenberger e Cristiano Goldschmidt

 

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