Entrevista inédita com Augusto Carneiro, realizada em janeiro de 2003.

Augusto Carneiro foto Christian Goldschmidt

Augusto Carneiro faleceu no dia 07 de abril de 2014, aos 91 anos, e durante cinco anos visitei-o semanalmente. Todas as terças e quintas-feiras, das 14h às 17h30min, ajudava-o a organizar sua biblioteca, colocava ordem nos livros e em seus imensos arquivos que contavam a história do ambientalismo gaúcho e brasileiro. A maior parte do tempo era dedicada à leitura de recortes de jornais, livros, análise de artigos, notícias e fotos, tudo sempre com as explicações minuciosas e detalhadas do ecologista. Em muitas oportunidades aproveitei para entrevista-lo, anotando cuidadosamente seus relatos e gravando nossa conversa. Nesta entrevista inédita, realizada com Carneiro em janeiro de 2003 e resgatada recentemente de meus arquivos, ele fala de sua trajetória como ecologista, do encontro com o companheiro José Lutzenberger, cujos 13 anos de morte lembraremos no próximo dia 14 de maio. Apesar da necessidade de considerarmos algumas informações relativas à época em que a entrevista foi feita, passados pouco mais de 12 anos, seu depoimento mostra a atualidade de temas como o crescimento desordenado das cidades, a preservação do patrimônio ambiental, a dificuldade de lidar com os gestores públicos, o desinteresse geral pela questão ecológica e a criação da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN).

Cristiano: Carneiro, quando e como começou seu envolvimento com o ambientalismo no Rio Grande do Sul?

Carneiro: É muito clara essa questão. Inicialmente, quando jovem, eu já tinha algumas tendências naturais, porque no fim da década de 1920 e década de 1930 já vivia num bairro cheio de fauna, o bairro Glória. Lá eu ouvia um verdadeiro bombardeio, era um bairro rural e as pessoas caçavam, era tiro de todos os lados, e a gente tinha que ter cuidado. Mas quando criança eu nunca matei um passarinho. Sempre me interessei pela natureza, achei muito valiosa. Mais tarde, comecei a pensar sobre o desperdício que gerava o lixo, porque nós não tínhamos lixo, o lixo que existe hoje. Nós temos que deixar de ser imbecis e de dizer que sempre houve lixo, como tem escrito aí num manual do DMLU (Departamento Municipal de Limpeza Urbana).  Nós não tínhamos o mesmo lixo de hoje, nós não podemos, e é um crime dizer que era lixo aquilo que tínhamos nas décadas de 1920 e 1930, em Porto Alegre. Mas tenho que falar sobre o meu envolvimento, de maneira que eu observava essas coisas já na minha juventude.

Havia também um pouco de preocupação com a fauna, muito pequena, até meio avessa, porque eu achava tudo muito bonito, o Jardim Zoológico eu achava a coisa mais linda que havia, quando na verdade o mesmo é uma prisão de animais. Na época, eu era do Partido Comunista, ao qual pertenci até o momento da Revolução Húngara, de 1956. Naquele momento nós fizemos a grande divisão do Partido Comunista, o que acabou com ele. O Partido Comunista decaiu a partir daquele momento, é só ver as provas que existem. Aí eu me afastei deles e fui estudar junto com um grupo de ex-comunistas jovens. Um deles foi o verdadeiro campeão dos estudos, o Ibsen Pinheiro. O fato é que eu me retiro para estudar, e certo dia, ao chegar em casa, resolvemos assinar o Correio do Povo, o qual tinha uma crônica ecológica naquele ano de 1957, uma crônica de Henrique Luís Roessler, a quem eu não conhecia, mas que eu lia com religiosidade. Foi em fevereiro de 1957 a primeira crônica dele, e a última em novembro de 1963. Eu o li todo esse tempo, enquanto estava estudando na Contabilidade, e depois na Faculdade de Direito. Ele, por uma questão de gênio, também de boa vontade, de cabeça bem dirigida, começou a esclarecer as pessoas no sentido ecológico. Então ele escreveu 303 crônicas, e eu li todas. Aí fiz um julgamento: a Ecologia era uma política, o Partido Comunista era outra política. A ecologia é uma frente política como todas as outras, como qualquer outra. Foram os meus raciocínios daquela época. Ela não teve o êxito que deveria ter por causa da diferença dos programas. Um programa político partidário oferece gratificações imediatas, começa pelos empregos, com os cargos de confiança. A ecologia, além de não oferecer gratificações, já entrava lidando com a tragédia, não entramos com dinheiro nenhum. A partir desse momento eu comecei a me dedicar ao ambientalismo, procurando ajudar a evitar a futura crise ambiental que ocorreria.

Então, meu envolvimento foi através do Roessler, tanto que logo depois da morte dele eu fiquei meio que seu representante. O filho dele colocou todo o estoque de material de propaganda dele no meu carro e mandou pra minha casa. Sim, porque o Henrique Luís Roessler era um produtor de material de propaganda ecológica. Então, eu fiquei comprometido desde o ano da sua morte, em 1963. Neste ano eu fiquei portador de um enorme estoque de propaganda ecológica do Roessler, e que até hoje eu tenho aqui em casa. Esse material todo que tu conheces. O Roessler foi meu mestre e eu aceitei a linha dele. É a ecologia do futuro. Vinculei-me e resolvi não sair mais. Fiquei Roessleriano até a descoberta do José Lutzenberger.

Cristiano: O Senhor é igualmente adepto do naturismo. Qual a ligação entre naturismo e ecologismo? Como se deu a iniciativa de se tornar um naturista? Foi paralela ao ecologismo?

Carneiro: É independente. O naturismo nasceu como uma aproximação com a natureza. Eu passei a achar que, se na praia tinha um cara tomando banho de roupa, outro sem roupa também tinha direito. Mas não era assim e não é. Nega-se o direito. Eu sempre achei que para entrar na água não devia se usar roupa. Assim há uma identificação pequena com a natureza. Depois eu vi que o naturismo tinha outras vantagens também. Por exemplo: é contra o “taradismo”. O cara se acostuma, e principalmente a criança não pode vir a ser um tarado nunca. E o adulto deixa de sê-lo se estiver há muito tempo vinculado ao naturismo. O naturismo é uma exposição sem roupa ao sol, ao vento, à natureza. E eu achava interessante, embora no início não conseguisse ser praticante. Nós tínhamos um grupo teórico aqui em Porto Alegre, um grupo pequeno, e um dia o Lutzenberger nos descobriu lá na Europa. Havia e há na França um guia internacional do naturismo que coloca o nome de todos os naturistas organizados em sociedade. O nosso companheiro de Porto Alegre, Tácito Antônio Heit, botou o nome dele como representante do naturismo no Brasil. E era mesmo. Embora não tivesse prática, era teórico, um grande correspondente. Ele botou no guia, e o Lutzenberger, vivendo na Europa, pegou o guia, olhou e disse assim: “Pô, a minha cidade é a representante do naturismo no Brasil”. Daí o Lutzenberger escreveu aos naturistas de Porto Alegre. O Tácito mostrou a carta pra Hilda Zimmermann. A Hilda era naturista também e era conhecida do Lutzenberger. Então, o Lutz diz o seguinte, em 1970: “Vou voltar para minha cidade e quero conhecer vocês. Quando eu chegar, quero uma reunião”. A Hilda marcou a reunião, e nós tivemos a reunião. Apareceu o Lutzenberger, e ao nos testar, nos testar eu digo involuntariamente, porque ele viu que nós não tínhamos prática, viu que o Tácito botou o nome dele no guia porque era um grande amante das correspondências, e que nós não tínhamos prática nem organização. Então o Lutz desviou o assunto para a poluição, pra natureza e pra ecologia. Demonstrou ser um grande conhecedor. Deu um monte de aulas pra nós. E na mesma hora eu comuniquei, falei do movimento do Roessler. Sim, eu sei que tem umas pessoas que querem dizer que foi a Hilda que comunicou. Não! A Hilda colaborou todo o tempo ininterruptamente. Ela realmente colaborou, mas nós já tínhamos uma organização aqui em Porto Alegre, que era a organização do Roessler. Pobre! Diminuir a organização do Roessler é um verdadeiro absurdo. É o que uma cidadã aí da ADFG (Associação Democrática Feminina Gaúcha) procurou fazer num livro histórico publicado há pouco aqui em Porto Alegre (Carneiro refere-se ao depoimento de Giselda Castro para o livro Pioneiros da Ecologia – Já Editores, Porto Alegre – 2002.).

Cristiano: A ideia da Fundação da AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural) foi sua então?

Carneiro: Sim, sim. A ideia de fundar a AGAPAN foi minha, mas a pessoa fundamental foi o Lutzenberger, porque eu já tinha feito duas tentativas. Veja bem, eu tinha prometido para o filho do Roessler que ia tentar fundar uma entidade. As duas tentativas fracassaram. Eu não entendia, eu não tinha despacho para isso e estava fazendo errado. Primeiro eu tinha procurado um elemento que tinha sido patrocinador do Roessler. Patrocinador de meter a mão no bolso e dar dinheiro para ele. Mas o homem era burro mesmo. Eu fui procurar esse homem e ele era muito burro. Então eu dei com a cabeça na porta e tive que desistir. Depois eu cometi outra burrice maior ainda, que foi procurar um chefe de escoteiro. O chefe de escoteiro era um idiota, ele só sabia a ordem unida e outras bobagens mais. Mas eu contei isso para o Lutzenberger, que essa organização estava em debate e que o pessoal do Roessler estava atento dentro do Jardim Zoológico, que também não tinha organização, mas que havia dois elementos sérios. É bom lembrarmos os nomes: Renato Petry Leal e Gilberto Conrado Mattes. A Hilda não foi convidada para as primeiras reuniões, e nós nos esquecemos dela não por maldade, mas porque as primeiras reuniões foram no grupo de São Leopoldo. A primeira grande reunião do grupo contou com a presença do Lutzenberger, e foi em São Leopoldo, no Jardim Zoológico. A Segunda reunião foi sob o patrocínio do, eu quero que fique bem claro, e que esse nome não seja esquecido, foi o Antônio Tavares Quintas. Infelizmente nosso companheiro morreu num acidente, colega de aula durante todo o curso, amigo e influenciador do Lutzenberger.

Vamos ver dois exemplos da influência fundamental dele. Primeiro, no aniversário do Lutzenberger, ele mandou de presente o livro do Padre Balduíno Rambo, Fisionomia do Rio Grande do Sul. Bom, nós tivemos em São Leopoldo a grande reunião no Jardim Zoológico, num Sábado à tarde. Compareceram todos do grupo de São Leopoldo ligados ao Roessler. Compareceu muita gente já sabendo que seria fundada uma entidade. O segundo exemplo que caracteriza a influência de Antônio Tavares Quintas, é que além do livro que ele deu ao Lutzenberger, em Porto Alegre ele era representante da Fundação Brasileira de Conservação da Natureza (FBCN), que era nossa entidade mais antiga, porém um pouco mais nova que a do Roessler, mas que sempre funcionou. A do Roessler não funcionou depois de sua morte. A FBCN funcionava só para defender os parques, não era uma entidade ecologista global como nós somos hoje.  E isso é parte da história. Tem muita gente que intencionalmente mistura as coisas, tem que separar. Nós tivemos pessoas que souberam separar, souberam definir, e outras que souberam confundir.

Cristiano: Nos seus longos anos como defensor do meio ambiente, quais as experiências mais frustrantes e as mais gratificantes?

Carneiro: As frustrantes é que, em primeiro lugar, as pessoas comuns, em sua grande maioria, não querem aprender sobre ecologia. Hoje mesmo eu falava para um grupo de professoras e elas demonstravam que não estavam a fim de comprar livros ecológicos, que isso em nada iria ajudá-las. Aí eu já chamei uma de burra, e falei o seguinte: “E ontem, a tragédia lá de Belo Horizonte, com 40 mortos, como é que tu explicas?” Aí ela nem respondeu. Eu discuti muito hoje. O povo nem tá aí. O povo é muito bom para futebol e para eleger ladrão. Eles reelegeram o Jader Barbalho. Os ladrões estão aí por isso, e o povo está aí para isso.

Outra característica principal e frustrante que eu vou dizer é a seguinte: eu e minha mulher viajamos por todo o Brasil. Nessas andanças sempre vemos uma situação muito triste, que é a pintura das árvores. No Rio Grande do Sul estamos aos poucos acabando com isso. É histórico e obra nossa. Foram dois companheiros nossos que trabalhavam no DMLU que passaram uma resolução acabando com a pintura das árvores em Porto Alegre. Por isso tem gente continuando esse trabalho e devagarinho acabando com isso. Nós também influenciamos pessoalmente, batemos na porta quando vemos uma árvore pintada no pátio ou na calçada. Vamos lá e damos um folheto de propaganda onde diz que isso é prejudicial. Então, queremos caracterizar o Rio Grande do Sul como um estado assim, bonito, sem ter árvores pintadas. Já tivemos uma prova da diferença que isso faz. O deputado federal Guerreiro, não me lembro do primeiro nome dele, do Belém do Pará, deu uma volta comigo em Porto Alegre, isso já faz 10 anos, e me disse: “há algo aqui que me agrada e eu não sei o que é”. Na hora de nos despedirmos ele falou: “Olha, me deu um estalo: as árvores de Porto Alegre não são pintadas”. Na época, fiquei imensamente contente. Já estamos caracterizando isso como uma diferença entre o Rio Grande do Sul e o resto do Brasil.

Das experiências mais gratificantes, foram, em primeiro lugar, a criação da AGAPAN tendo sempre a orientação do Lutzenberger. E a ajuda da Hilda houve também, ela fez algumas coisas importantes, mas ela não compareceu à reunião de São Leopoldo, nem na da Sociedade de Agronomia, com o Antônio Tavares Quintas. As atividades iniciais da AGAPAN foram gratificantes e brilhantes até o final de 1984, quando houve a invasão do grupo de Gert Schinke, entre outros. Então, nós trabalhamos de 1970 a 1984 só em progresso, influenciando e cobrindo o Brasil através do brilhantismo do Lutzenberger. Foi um trabalho muito bom. Agora eu quero mostrar que estou me concentrando mais no Rio Grande do Sul, para mostrar as diferenças. Confio nas doutrinações que nós fizemos e continuo com a venda dos livros ecológicos através de outras pessoas.

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Cristiano: E com relação à atuação dos governos na defesa do Meio Ambiente?

Carneiro: A atuação dos governos reflete um pouco a nossa pressão, que é organizada e próxima. As leis vieram pelo nosso movimento na década de 70 e com a ajuda de outro grande ecologista brasileiro, que é o Paulo Nogueira Neto.

Cristiano: E em relação ao trabalho que a SMAM (Secretaria Municipal do Meio Ambiente) desenvolve em Porto Alegre?

Carneiro: Ai que coisa horrível meu Deus. Na época da fundação da SMAM, da construção do Parque Marinha do Brasil, houve alguma coisa boa lá. O Lutzenberger deu uma assistência. Ajudou a fazer parques em Porto Alegre e que depois foram destruídos. O Lutzenberger fez a Doca Turística, fez o balneário de Espírito Santo, depois de Ipanema. Ele fez o Parque de Belém Novo, com uns dois ou três quilômetros de comprimento, arrumou toda a orla. Fez trabalhos grandiosos e baratíssimos. Esse foi o erro dele, quase nunca ter cobrado. E se cobrava, era uma miséria. Foi tudo destruído. Depois ele fez o Parque da Guarita, em Torres. São trabalhos maravilhosos que ele fez para administrações públicas. E depois ele fez o parque da empresa Riocell, em Guaíba.

Cristiano: Ele realmente contribuiu muito com Porto Alegre. Depois de certo tempo foi meio que deixando de lado por vários motivos. Mas então você avalia de forma negativa a atuação da SMAM?

Carneiro: A SMAM não foi fundada pelo Lutzenberger, teve uma pequena influência dele. Quem fundou foi um jornalista, o Roberto Eduardo Xavier, um homem muito bonzinho que já morreu de câncer. Ele fundou a SMAM, foi o primeiro secretário na gestão de 1976/1979, e no início colocou o Lutzenberger lá dentro pra dar uns conselhos. O Lutzenberger ajudou a caracterizar a criação de lagos sem margens de cimento. Os lagos dos projetos paisagísticos Brasil afora são feitos com margens de concreto, enquanto que os lagos do Lutzenberger estão aí para serem vistos, é só ir no Parque Marinha do Brasil e ver que não tem cimento. Mas o fato é que as grandes obras do Lutzenberger não foram conservadas. Aqui só se salvou o Parque da Guarita, em Torres, porque eu fiquei morando na casa do Lutzenberger. Aluguei a casa dele em 1978, quando o Lutz saiu de lá, e fiquei até 1984. E teve mais uma característica, quando o Lutz foi pra rua por motivos políticos, os empregados que continuaram eram os que nós tínhamos admitido e que aprenderam ecologia com a gente. Só por isso o parque se manteve, caso contrário, teriam destruído, como as belíssimas obras que ele fez em Porto Alegre.

A SMAM de Porto alegre, atualmente, nem devia ter o nome de SMAM, trabalha muito mal, devia ser a Secretaria da Destruição da Natureza. Os caras são sem vergonhas e desonestos, nas reuniões eles estão lá só para nos tapear. Pode botar isso em qualquer lugar. Eles vão às reuniões dos conselhos para nos enrolar, para mentir. Eles tomam resoluções que não podiam tomar.

Cristiano: O senhor continua muito ativo. Conta com a ajuda de alguém?

Carneiro: O Mozart Pereira Soares está muito mal, mal de Alzheimer, não trabalha mais, é surdo, com 88 ou 89 anos. Eu estou sozinho, sem conhecer algum defensor de árvores que esteja na ativa. Agora todo mundo me telefona. Ontem eles continuaram agredindo árvores, todo mundo me telefona e eu não sei o que fazer, não sei quem é a pessoa que vai fazer alguma coisa quando a gente já não estiver mais aí. No Conselho Municipal do Meio Ambiente tem gente, companheiros nossos, se vendendo pra SMAM, pelas homenagens deles, pelos favores e alguns trocados a mais. Eles se vendem pra não criticar e não apontar os erros.

Cristiano: Muitos acham que toda pessoa ligada ao ambientalismo é um extremista. Como é a vida de quem se dedica a cuidar e lutar pela preservação do Meio Ambiente?

Carneiro: Primeiro vamos falar dos extremistas entre nós. Eles existem, dizem asneiras, mas vamos ver quem são eles: Eles são recentes e sairão em breve. Eles entram já como extremistas, sem experiência nenhuma, dizem asneiras à vontade, duram seis meses, um pouco mais, depois vão para casa, pegam seus empregos e não falam mais, viram às costas para nós. São esses os extremistas. Eu não me considero um extremista, embora eu tenha vontade de jogar uma bomba nessa gente toda. Mas não me considero porque na prática não adoto seus métodos, apenas desejo a morte para eles. Mas isso de desejar não adianta nada, eles não morrem. Eu não consigo fazer com que morram apenas desejando. Se morressem eu ia ter um enterro para festejar. Ia dizer: Ôpa, faleceu! Mas essa gente não morre, não tem jeito. Quem morreu foi o Lutzenberger. Tu vês como somos perseguidos, como a gente não é extremista. Quanto ao extremismo, era isso.

Quanto à vida de quem se dedica continuamente à defesa do Meio Ambiente, é difícil te responder sem estudar e analisar a questão. Cada caso é um caso. Eu tenho o meu exemplo e o do Lutzenberger. Em primeiro lugar, o Lutzenberger voltou pro Brasil com uma pequena indenização que ele trouxe e com a qual ele podia viver. Além disso, ele ganhou um serviço do primo dele que estava no governo e era secretário estadual. Primeiro ele fez uma tradução, depois, pequenos serviços que davam para sustentá-lo. Depois, ele ficou desempregado mesmo. Eu era o organizador e o tesoureiro da AGAPAN e cheguei a temer que ele nos abandonasse se ele recebesse uma proposta boa para trabalhar. Ele sempre recebia pequenas propostas. Os primos dele, tanto esse que estava no governo, como o Luís Adams, o ajudaram. Eu também o ajudei como tesoureiro da AGAPAN. Eu pagava, por iniciativa minha, sem resolução coletiva, pagava telefone e todas as despesas pequenas dele como militante. Eu quero lembrar neste momento, essas coisas, é bom dizer, sabe. Nós tínhamos uns bobalhões que o atacaram quando ele começou a trabalhar na Riocell, o Flávio Lewgoy e o Caio Lustosa. Vamos ver quem são eles. O Caio Lustosa deve ganhar pelo menos uns R$ 15.000.00 (quinze mil reais) por mês como procurador do estado, esse é o salário dele. O Lewgoy ganha menos, uns R$ 4.000.00 (quatro mil reais) de cada emprego, mas tinha, e têm dois empregos. Já é um bom salário, não é uma maravilha como o do Caio, mas tinha estabilidade. O Lutzenberger não tinha nada. Era muito bom para esses caras, com bons empregos e altíssimos salários, ficarem criticando o Lutz. É lindo de morrer, é lindíssimo poder dizer “Ah! Eu sou independente.”

Cristiano: Talvez o que mais deixa um ambientalista indignado é a incapacidade das administrações públicas, a inexistência de leis que viabilizem a defesa do patrimônio ambiental, ou o descumprimento das leis existentes e a falta de punição aos infratores.

Carneiro: O ambientalista inicialmente se indigna com a incapacidade dos governos. O governante, o político, é desonesto antes de ser governante, ele já é desonesto ao entrar para um partido político. Veja o problema do enriquecimento. Temos o exemplo da fortuna do Sarney. Ele é político desde 45 anos atrás. Ele era pobre, hoje até dono de ilha é, tem um patrimônio de mais ou menos uns 150 milhões, só não lembro se em dólares ou reais. Isso tá numa revista dessas que assino, só não lembro em qual, se na Veja ou na IstoÉ. A vida toda ele só foi político. Beleza, né? E ninguém lembra dele. Aí vem os bobalhões da própria AGAPAN falar que o Lutzenberger tinha se vendido para a Riocell. O Lutzenberger estava fazendo os jardins mais lindos do mundo, só isso já gratifica. Infelizmente a Riocell já parou com a manutenção daqueles jardins.

E eu fico indignado porque a coisa não vai pra frente. Mas já foi um pouco, graças ao nosso trabalho. Um exemplo do nosso trabalho é a orientação do lixo. Ela não veio da cabeça de engenheiros. Essa orientação atual que proclama a reciclagem, essa orientação é trabalho nosso. O Lutzenberger foi um pioneiro, abriu a cabeça de todo mundo, trabalhou a questão do lixo em várias cidades, a principal foi Recife. Um dia hei de achar o material de Recife. Fomos nós. E esse é um dos grandes êxitos nossos. Se não eles já teriam acabado com essa sociedade aí, eles iriam nos afogar no lixo. Os ricos não se afogam no lixo, mas os pobres que colocam lixo nos próprios arroios sim, eles moram do lado do arroio e despejam o lixo todo pela janela. Muitos não querem aprender. As autoridades neste momento deveriam ser mais autoritárias e mostrar para os que moram lá na beira do rio, do arroio, que eles precisam botar o lixo na frente da casa, e não da janela para fora, dentro do riacho. O lixo deve ir lá pra frente para ser recolhido. Se bem que os ricos não jogam lixo pela janela mas contribuem com o esgoto, com os inseticidas das lavouras e outras coisas absurdas.

E sobre os recicladores que existem em Porto Alegre, na beira da estrada, na saída da cidade, passamos ali e vemos tudo branco de lixo. Eles recolhem o lixo na cidade e colocam a sobra nos fundos das casas mesmo. Sairia muito mais barato para a sociedade se o DMLU fosse lá recolher o lixo deles, a sobra que eles não podem aproveitar. Mas eles ficam com raiva do pobre nesses momentos e não fazem nada. Eu acho que eles tinham que ir lá, é uma coisa que tinha que ser examinada conosco, mas o DMLU e a SMAM se afastaram de nós, as grandes autoridades se afastaram dos grandes ecologistas. No começo eles aceitavam o Lutzenberger todos os dias, aceitavam nossas palestras, nossas discussões. Hoje, eles se julgam autossuficientes, mas não são. Então nós nos indignamos com as autoridades por terem se afastado de nós, porque nos julgam dispensáveis.

Quanto às leis, não se trata de incapacidade em criar leis. As leis existem, só não são aplicadas. E existem os monopólios, existem os prejudiciais e aqueles que estão aceitando a ecologia. Nós não nos vendemos a eles. Já houve quem se vendesse, um grupo dentro da nossa organização, em 1985, mais ou menos por aí. Diziam que toda vez que a grande empresa reciclava, ela estava cometendo um crime. Este absurdo está lá escrito nos trabalhos do Gert Schinke. Absurdamente! Toda iniciativa que traz algum benefício para a natureza é respeitável. É, e será apoiada. Olha a Riocell. Posso falar mais sobre a Riocell?

Cristiano: Estou aqui justamente para te ouvir.

Carneiro: É o seguinte, o Lutzenberger, junto com o Jorge Ossanai, que agora voltou para Porto Alegre, um companheiro oficial do esquema governamental, mas boa pessoa, eles sobrevoaram o Guaíba na época em que a Borregaard lançava nas águas do rio todo aquele volume de lodo que saía de dentro da empresa. A Borregard ia entupir o Guaíba, basta ver o que já saiu de lá, são 200 toneladas por dia. Tudo aquilo em 20 anos dentro do Guaíba, o que é que não aconteceria? Já estava acontecendo. Havia uma mancha enorme de poluição. Muito bem, o Lutzenberger protestou, o governo apoiou, e o Lutzenberger arrumou onde botar a imundice deles. Tudo isso são trabalhos heroicos, fantásticos. O Lutzenberger solucionou o problema enquanto os outros só diziam bobagens. Eu não sou cientista, mas sou testemunha desse lixo todo que ia parar dentro das águas do Guaíba e que agora não vai mais, graças, principalmente ao Lutzenberger. Sabe-se lá o que seriam 20 anos com 200 toneladas de lixo por dia para dentro do Guaíba? O que aconteceria? É só nisso que eu resumo a situação. Quem quiser pode contestar-me.

Vamos voltar ao fato de que os monopólios só visam o lucro. É verdade. Só visam o lucro, mas isso não nos interessa a partir do momento em que eles resolvem o problema do lixo de modo aproveitável, principalmente se a solução vier em forma de reciclagem, que é o aproveitamento e a eliminação total dos resíduos. Então eu te pergunto, eu devo chorar se os grandes monopólios só visam o lucro? Por que é que eu vou chorar?

Agora, quanto ao povo, é verdade também que o povo é muito difícil. Porque o brasileiro não aceita a ecologia. Está sempre poluindo, botando lixo na rua, no arroio, como eu já falei. As provas em Porto alegre são fáceis de encontrar, é só ir até o arroio dilúvio ou no Guaíba depois de uma chuva ou tempestade. Até mesmo em dias normais. Na Riocell, no tempo do Lutzenberger, a limpeza era semanal nas margens do Guaíba. No Parque Itapuã também sobra muito lixo. O povo não quer aprender. Por que é que na Europa eles aprendem? Não foi porque a Europa fez cartazes e publicidade. Porque na Europa eles punem mesmo. Por que não punir aqui também? Porque são sem vergonhas e não querem trabalhar. As leis são boas, só não querem aplicar. Na SMAM eles não aplicam as leis e escrevem que não vão aplicar. Eu tenho provas e eles não podem esconder, tá nos meus arquivos: “pareceres para não fiscalizar”. Deve ter vários dos meus, porque eu fiz 20 ou 30 denúncias e só fui buscar cópia de duas ou três. E nelas eles dizem que não se deve fiscalizar. Tá escrito, tu lestes e todo mundo que veio aqui leu.

Cristiano: Ao longo de todos esses anos o senhor acompanha grandes processos de desenvolvimento sem qualquer planejamento urbano em Porto Alegre. Gostaria, se possível, que o senhor fizesse um breve relato das áreas que mais sofreram com esse crescimento desordenado.

Carneiro: Nós tínhamos, em Porto Alegre, as linhas de bonde. O Lutzenberger dizia que as linhas de bonde mostravam o limite da cidade. Onde acabavam as linhas, acabava a cidade. Não é bem assim, é quase assim. Existiam bairros que continuavam depois da última parada do bonde. Um era o Passo D’Areia. O próprio Partenon continuava depois do final da linha do bonde. O bairro Glória também. Na sequência do bairro Teresópolis vinha a Cavalhada. O limite do bonde era, em alguns bairros, o limite da cidade. Além disso, tinha muito terreno vago e muito mato, mato mesmo, e era uma beleza. Ainda temos mato nos bairros de Belém Velho, Vila Nova, mas parece que a prefeitura quer acabar com isso através do imposto, agravando o imposto dos terrenos sem construções, obrigando seus donos a entregá-los à especulação imobiliária, substituindo esses locais verdes por espigões. Isto está errado.

Porto Alegre era agradável. Basta dizer que a cidade, quando comecei a caminhar na rua para ir para a escola, mais ou menos em 1928/1929, eu pegava o bonde para ir para a aula e não tinha mal nenhum. Não era como hoje, que há perigo para as crianças em pegar um ônibus. Naquele tempo não havia, os bondes nem andavam muito cheios. Era uma Porto Alegre de 200 mil habitantes, muito agradável. Só que a maioria de nós diz o seguinte: “Ai, queremos uma cidade grande”. Eu lembro que os professores falaram para mim assim: “O Brasil tem 40 milhões de habitantes, as maiores cidades brasileiras são Rio de Janeiro, com um milhão de habitantes, e São Paulo, com 800 mil”. Nós tivemos uma explosão e não se reconhece o crescimento desordenado das cidades, com falta de planejamento e destruição da natureza e dos prédios históricos.

Cristiano: Como capital pioneira na defesa da ecologia, e tendo como um de seus filhos mais ilustres o ecologista José Lutzenberger, seu amigo e confidente, o senhor não considera que Porto Alegre está tratando muito mal a arborização pública?  À que ou a quem se deve esse abandono? Existem culpados?

Carneiro: Em primeiro lugar, as áreas que mais sofreram em Porto Alegre foram os bairros. O Partenon, a partir da Aparício Borges, foi uma região que cresceu muito. A prefeitura, quando administrada pelo Alceu Collares, fez destruições enormes nas últimas matas do Morro da Polícia, na parte baixa, nos fundos do Partenon. O Morro da Polícia era um dos encantos de Porto Alegre. Ele já teve florestas. Depois veio a destruição, as queimadas. O primeiro incêndio, segundo um amigo meu, durou quase um mês. Os incêndios eram constantes. E ainda são, mesmo com vegetação rasteira. Há dois anos vêm chovendo constantemente em Porto Alegre, e os incêndios diminuíram muito, mas a semana passada (segunda semana de janeiro de 2003), que foi seca, incendiaram de novo o Morro da Polícia. E não é porque o fogo é espontâneo. Eu tenho provas disso. É muito interessante quando dizem que o fogo é espontâneo, ou que foi por causa de bitucas de cigarro. No Parque da Guarita, no nosso sítio de naturismo, a Colina do Sol, em Taquara, e no Rincão Gaia, em Pantano Grande, nós combatemos e vencemos o fogo no grito. Os incêndios eram provocados por dois motivos. Pelos guris empregados que faziam a limpeza dos galhos e a varredura das folhas secas ou por elementos que incendiavam propositalmente para evitar o crescimento da vegetação. No primeiro caso, o incêndio não progredia porque já estava tudo podado, mas um dia progrediu, deu uma briga daquelas e houve a proibição. Já faz muitos anos que não se vê mais fogo nesses lugares. Mas os morros de Porto Alegre sofreram muito. Todos os morros foram queimados de forma criminosa, e as matas desapareceram. Esse é um dos tristes detalhes dos nossos morros.

Outras regiões bastante ameaçadas atualmente são Belém Novo, as adjacências da Avenida Oscar Pereira, na Glória. Vila Nova, Belém Velho, Belém Novo, tudo isso está ameaçado. Belém Novo tem até um loteamento monstruoso lá. E as avenidas lindíssimas que nós tivemos anos atrás, as Avenidas Carlos Gomes e a outra, a continuação dela, a nova Perimetral. Esses dias nós fomos lá e é de desanimar, porque aquilo não tem utilidade, porque quanto mais avenidas botam, mais proibido se é de estacionar, e mais a gente se perde e mais a gente faz quilometragem. Regiões diversas da cidade que sofreram e vão sofrer com essas obras modernas. O próprio Thompson Flores foi um agressor de Porto Alegre, com esses viadutos, que ele arrumou dinheiro não sei onde pra fazer. Mas nós tivemos prefeitos, que embora a tendência fosse a mesma, mas porque os tempos eram outros, fizeram obras boas, como o Loureiro da Silva. Ele fez boas avenidas. Mas a tendência atual é a destruição total. Os impostos aumentando sobre os terrenos vagos para que eles deixem de ser vagos, para facilitar as construções de edifícios. Por falar em construção de edifícios, é bom que se saiba que Porto Alegre não tinha edifícios na década de 1930, era só o Hotel Jung, que é o mesmo que está ali na esquina da Praça XV com a Avenida Otávio Rocha. Aquele prédio era o edifício que existia. Existiam mais um ou dois edifícios de quatro andares, nada mais. E para os bairros então, era uma surpresa quando nós vimos o primeiro edifício em um bairro. Nós não sabíamos que poderia haver edifício em bairro, nós pensávamos que não ia chegar a isso. E o crescimento exacerbado e desordenado continuará se limites não forem entendidos e respeitados, e se a ecologia continuar por baixo como está.

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2 comentários sobre “Entrevista inédita com Augusto Carneiro, realizada em janeiro de 2003.

  1. Pois é… Além de tudo, mais uma fonte de orientação que já não temos. Parabéns pelo trabalho, Cristiano.

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