Do bem estar individual ao mal estar coletivo.

A orla do Guaíba, apesar da poluição de suas águas e da sujeira que se acumula em toda sua extensão, ainda é o espaço mais bonito de Porto Alegre, uma capital desprovida de atrativos para moradores e visitantes.

Sim, temos os Caminhos Rurais, o Jardim Botânico, os demais parques. Mas de todas as áreas naturais da urbe, a que tem maior potencial de descanso e lazer, ideal para a realização de atividades físicas, é, sem sombra de dúvidas, a nossa orla. E fica cada vez mais evidente a falta de perspectivas de investimentos para garantir uma infraestrutura necessária para que possamos usufruir dos espaços públicos com segurança. Com isso, evidencia-se também o deboche das administrações públicas, que na certeza da impunidade pela maneira desastrosa e inconsequente com que conduzem as políticas públicas, transformam os espaços das cidades de acordo com negociatas e conveniências.

Investimentos em infraestrutura, paisagismo, segurança e lazer, só em bairros reconhecidamente elitizados. E enquanto centenas de milhares sofrem abandonados na precariedade e na miséria das periferias, outros tantos sofrem com o aumento da violência, porque é em função da segregação dos espaços de uma cidade, pelo abandono de uma região em detrimento de outra, pela decisão política de não se investir em segurança e em educação pública de qualidade que os abandonados se voltam contra os privilegiados.

Difícil entender a lógica das administrações públicas, talvez justamente porque não há lógica em sua forma de governar. Ou talvez porque a lógica resida, desde sempre, neste ilógico sistema individualista de benefícios, num esquema de patriarcado e de apadrinhamento, onde uma meia dúzia governa para si e para os seus, onde o verdadeiro significado de coletividade inexiste e onde a sociedade serve para sustentar o topo de uma pirâmide sedenta por mais dinheiro e poder.

Olho para as estruturas administrativas e corporativistas e as vejo exatamente como um dia pude ver as centenas, milhares de cupins que tomaram conta da mesa de madeira que tive em minha sala de jantar. Devoram incessantemente, incansavelmente, e se a gente vai deixando, se proliferam até sugarem tudo o que podem. Se bem que cupins são mais fáceis de combater do que políticos ineficientes e corruptos. Ao não conseguir combater os cupins, a solução foi desfazer-me da mesa. Quanto aos políticos, não posso, individualmente, desfazer-me deles. Sozinho venci milhares de cupins, mas não posso sozinho vencer uma horda de políticos incompetentes e desonestos.

Aliás, a sensação que se tem, é de que a falta de ética e a desonestidade viraram lugar comum. Antevejo um futuro não muito distante em que ambas entrarão para o currículo como qualidades exigidas de candidatos a oportunidades de trabalho nas mais variadas áreas. Desconfio, inclusive, que já devem ser pré-requisito em algumas instituições públicas e privadas.

Médicos batem ponto, mas não cumprem o horário de trabalho. E colocam em risco a vida de pacientes quando integram esquemas criminosos, como vimos recentemente no caso da “Máfia das Próteses”. Juízes dirigem embriagados. E, como se corretos estivessem, dão voz de prisão a quem tenta dizer-lhes que estão errados. E apesar dos altos salários, exigem auxílio moradia. Alguns para adquirir, outros para manterem seus imóveis em Punta Del Este, Montevideo e em outros paraísos de descanso e consumo. Privilégio para poucos. Jornalistas camuflam dados, publicam inverdades, defendem seus próprios interesses e os de seus empregadores em detrimento da sociedade. Tudo isso para garantir seus empregos.

É um vale tudo no jogo pela manutenção de seu próprio bem estar, mesmo que algumas iniciativas e atitudes possam desencadear um mal estar coletivo.

Em completa desvantagem, sentimo-nos como se estivéssemos entrincheirados em um campo de batalhas, fazendo parte de uma guerra sem termos aderido à mesma. E é nesse contexto que mais um inocente teve sua vida ceifada na semana passada. O jovem Maurício Bartz de Moura, 22 anos, foi brutalmente assassinado a facadas enquanto pedalava pela orla de nossa cidade, exatamente como fazemos, às centenas, todos os finais de tarde. E principalmente nos finais de semana. Alguns para exercitarem-se, outros para contemplarem aquele que é considerado o mais bonito pôr-do-sol do Brasil. O jovem, conforme indicam resultados preliminares da investigação, foi vítima de latrocínio.

Mas não entremos em pânico, nos dirão as autoridades. Não há o que temer. Este foi só mais um caso isolado. Talvez os culpados sejamos nós, porque votamos em políticos cuja medida emergencial, ao assumirem seus mandatos, foi o aumento de seus próprios salários. Há dinheiro para locupletarem-se, mas não há para um melhor aparelhamento da segurança pública. Aliás, emergência, para eles, deve ter outro significado que não “ocorrência de perigo” e “situação crítica”, situações a que estamos constantemente expostos pela ineficácia de seus mandatos.

Talvez sejamos culpados pelo abandono da orla do Guaíba porque questionamos e rejeitamos os projetos de gostos duvidosos e megalomaníacos que apresentaram até agora para a mesma. Afinal, temos o mau hábito de questionar e rejeitar iniciativas que podem impactar negativamente nos espaços de nossa cidade e na respectiva perda da qualidade de vida de seus moradores.

A boa vontade existe – assim como as vultosas verbas – para projetos cujas principais características são excludentes, que desconsideram a inserção da maioria, mas que obviamente beneficiam empreiteiras e construtoras que provavelmente desviarão milhões através de notas frias.

Se aceitássemos a ideia segundo a qual alguns espaços devem ser para poucos, talvez não chorássemos a morte de mais uma vítima. Ah! Mas como somos insensíveis. Não conseguimos entender que não se trata de má vontade. Um bonito paisagismo, uma iluminação decente, uma estrutura a mais para lazer e atividades físicas, uma segurança adequada e permanente? Isso tudo é dispensável numa cidade que pouco ou nada tem a oferecer para sua população. E enquanto alguns morrem vítimas da incompetência e do descaso de outros, a regra parece ser simples: É apenas a (má) administração pública que não consegue resolver o mínimo se não tiver a oportunidade de (com conchavos, propinas e obras superfaturadas) desviar o máximo.

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