Memória, narrativa, experiência e conhecimento em artes cênicas

 

Imagem

Sou filho de pais gaúchos que, na década 1970, migraram para Missal, na região de Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná. Então, minha lembrança mais remota do contato que tive com aquilo que posso chamar de teatro vem da minha infância, numa localidade chamada Santa Cecília, no interior daquele Estado, onde minha mãe por muito tempo foi a única professora e diretora da escola. Lembro que na época ela já trabalhava muito os jogos tradicionais e atividades de cunho teatral (mesmo sem qualquer formação específica) e cantigas de roda com seus alunos.

Um pouco mais tarde, nas cidades de Missal e Medianeira, iniciei no ballet clássico com a professora Dóris Beduschi Della Pasqua, que me marcou profundamente. Fiz ballet e jazz de 1984 a 1992, e esse foi o período em que tive minhas primeiras experiências no palco. Em 1993, quando me mudei para o interior do Rio Grande do Sul (em 1993 morei em Sete de Setembro, 1994 e 1995 em Guarani das Missões) na região das Missões, participei de um grupo de danças folclóricas polonesas, que, de certa forma, preenchia a necessidade que sentia de me envolver com alguma manifestação artística.

Em Guarani das Missões cursei o antigo magistério no Colégio São José (das Irmãs Franciscanas da Sagrada Família de Maria), onde éramos incentivados para as práticas artísticas pela então professora de literatura, Irmã Ana Otelakoski. Na ocasião, poderia ter optado pela tranquilidade de estagiar no próprio colégio das freiras, com todas as facilidades que isso representava. Escolhi, no entanto, ir para a Escola Municipal São Estanislau, na Linha Harmonia. Madrugava, pegava o ônibus na cidade por volta das 06h30 da manhã, e ainda caminhava de dois a três quilômetros em uma estrada de terra até chegar à escola. Graças às aulas da professora Ana Otelakoski, durante meu estágio, consegui proporcionar aos alunos, dentro das possibilidades de minha pouca formação, experiências únicas com práticas teatrais e danças. Também organizei algumas viagens, oportunizando aos alunos de toda a escola conhecer um pouco da cultura, das artes e da história da região. Muitos saíam pela primeira vez da comunidade. Levei-os à Santo Ângelo, onde visitamos exposições no Centro Municipal de Cultura e assistimos a um espetáculo teatral da “Turma do Dionísio”. Em São Miguel das Missões puderam conhecer as ruínas jesuítas da antiga redução de São Miguel Arcanjo, declaradas Patrimônio Mundial pela UNESCO, em 1983.

Só passei a ter um contato mais estreito com o teatro em 1996, quando viajei para estudar na Polônia, em Cracóvia. Estudando língua, história e cultura polonesa no Instituto Polônico, ligado à Universidade Jagueloniana, tive a oportunidade de fazer uma disciplina de teatro, oferecida aos alunos como forma de intensificar o aprendizado da língua. O teatro era utilizado como ferramenta para aumentar a fluência e o vocabulário, além de aproximar a relação entre os alunos provenientes de diferentes países.  Piotr Horbatowski, reconhecido diretor de teatro e professor da Universidade, costumava fazer excursões com os alunos pelos teatros da cidade, levando-nos semanalmente para assistir aos espetáculos teatrais e musicais. Com ele tive o privilégio de conhecer de perto e de ir aos shows do Paco de Lucia e da Cesária Évora.

Em Cracóvia conheci o brasileiro Edilson Ribeiro de Lima, professor de dança radicado há muitos anos na Polônia, cujo companheiro polonês, Pawel Miskiewicz, é um reconhecido e premiado diretor de teatro. Fiquei amigo deles, visitava-os com frequência, e sempre era convidado por eles para ir ao teatro, principalmente quando o Pawel estreava a direção de um novo trabalho. Hoje, olhando para aquele período, percebo o quanto tais experiências foram importantes para mim.

Então foi fora do Brasil que tive a oportunidade de, pela primeira vez, entrar em contato com o teatro profissional, assistindo a grandes espetáculos naqueles teatros europeus imponentes e maravilhosos. Gostei tanto das aulas de teatro com o professor Horbatowski, que no final do ano letivo participei de três montagens com diferentes turmas do Instituto Polônico, quando a média era de uma peça por aluno.

Naquele ano, frequentei por um período um dos grupos mais antigos de Danças Folclóricas Polonesas, o Krakus, cuja sede ficava no outro extremo da cidade. Certo dia, voltando de um dos ensaios, passeando pelo Centro Histórico, minha atenção se voltou para a movimentação que se formava em torno de uma moça. Estava acompanhada de um velhinho que caminhava apoiado em uma bengala. Muitas pessoas os interpelavam, pediam-lhes autógrafos e posavam para fotos ao lado dela. Aproximei-me sem que percebessem que os observava de longe e pedi-lhes uma informação qualquer, com o único objetivo de tentar descobrir alguma coisa sobre eles. Em passos lentos foram comigo até a parada do bonde que eu desejava pegar. No trajeto, contou-me que era atriz, e que o senhor que a acompanhava era diretor de teatro. Convidaram-me para assistir a peça que estava em cartaz em um dos teatros da cidade e deram-me dois ingressos. Pedi-lhes então um autógrafo, sem mesmo saber direito de quem se tratava. Quando contei ao professor Horbatowski e mostrei-lhe o autógrafo, disse-me que tive sorte, a atriz era Katarzyna Figura (Kasia Figura), uma das mais lindas e talentosas do teatro e do cinema polonês. A primeira a posar nua para a edição polonesa da Revista Playboy – informação que poderia ser desconsiderada se quisesse apenas levar em conta o seu talento na arte de representar.

No final daquele ano, fluente em polonês, saí da casa de estudantes para estrangeiros e aluguei um apartamento no centro da cidade. No corredor, sempre encontrava uma senhora de certa idade que puxava assunto comigo. Sem adentrarmos na intimidade um do outro, percebia que algo a diferenciava dos poloneses de sua idade, geralmente “ásperos”, “frios” e não muito simpáticos com os estrangeiros. Uma amargura que seguramente refletia os anos de sofrimento que os mais velhos enfrentaram primeiro com a guerra, e depois com as dificuldades do período do comunismo, com a escassez principalmente de alimentos. A empatia, a confiança e a cumplicidade aumentaram quando descobriu que eu era brasileiro. Mãe de um antigo cônsul da Polônia em São Paulo, ela esteve no Brasil mais de uma vez, e sua neta, que tinha mais ou menos a minha idade, falava português fluentemente. Essa senhora chamava-se Janina Krause-Swiderska, artista plástica e uma das atrizes da antiga companhia de teatro de Tadeusz Kantor, cuja obra e trajetória eu até então desconhecia. Foi ela quem me apresentou à obra de Kantor, me mostrou fotos da época em que atuava com ele, me levou à Cricoteca de Kantor e passou a me carregar pelos teatros da cidade. Mais tarde Janina me apresentou ao consagrado cineasta e diretor de teatro Andrzej Wajda.

Em julho de 1997, no período das férias de verão, viajei até a cidade de Lublin, onde permaneci por 30 dias com dançarinos de vários países, aperfeiçoando-me nas danças polonesas, com aulas nos turnos da manhã e tarde.

No final de 2000, com a crise que se abateu sobre o Brasil um ano antes, causando a desvalorização do real, e com o falecimento de meu pai, retornei ao país, estabelecendo-me definitivamente em Porto Alegre, onde, por indicação de um amigo, procurei a Oficina de Teatro Olga Reverbel. Comecei a frequentá-la, passando a conhecer de perto a trajetória de sua fundadora. Naquela época Reverbel já residia em Santa Maria, no interior do estado, para onde viajei algumas vezes acompanhado da professora Vera Potthoff. Além de amiga, Potthoff trabalhou por muitos anos com Reverbel, ficando sócia e responsável pela Oficina de teatro aqui na capital.

Com a mudança de Reverbel para Santa Maria, a Oficina teve que deixar o casarão bem localizado da Rua Coronel Bordini, antiga residência do casal Olga e Carlos Reverbel, e se instalou em um endereço “pouco nobre” na Avenida São Pedro, perto da Avenida Farrapos, próximo a uma zona de prostituição. A má localização da escola fez com que os alunos fossem deixando de frequentá-la. Os poucos que restaram se reuniam para fazer leituras dramáticas e ensaiar algumas peças. Paralelamente às minhas atividades ligadas à Oficina, assumi a Comunicação e Marketing de uma instituição da cidade. Esse trabalho possibilitou a continuidade do meu vínculo com o fazer teatral. A Oficina se transformou em um grupo de teatro, com o qual montamos algumas peças. Nosso último trabalho foi uma peça infantil “O mundo é assim…”, que escrevi em coautoria com Vera Potthoff. Aprovada na Lei Estadual de Incentivo à Cultura, o espetáculo ficou um ano em cartaz no Teatro Bruno Kiefer da Casa de Cultura Mario Quintana, entre agosto de 2006 e agosto de 2007, período em que levamos ao teatro um público de mais de 21 mil crianças das escolas de Porto Alegre e região metropolitana.

Durante esses anos, conheci muitas pessoas que iniciaram suas vidas no teatro pelas mãos de Reverbel. Numa determinada oportunidade a professora Vera Potthoff comentou sobre o seu desejo de ver contada em livro a história da Oficina de Teatro criada por ela. Então, já conhecendo um pouco da sua trajetória, achei que podia fazer mais, e pensei que a vida de Reverbel merecia um trabalho de pesquisa mais aprofundado. Percebi que era uma história que precisava ser registrada e contada para a atual, e futuras gerações. Aos poucos, através de entrevistas com ex-alunos, amigos, admiradores, colegas de trabalho e familiares, além das pesquisas em arquivos particulares, o projeto foi tomando proporções maiores. A vontade de voltar a estudar e de me envolver novamente com a prática teatral, aliada a necessidade de dar uma organicidade no meu trabalho, empurrou-me para o curso de Pós-graduação em Pedagogia da Arte, na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assim, contextualizando na contemporaneidade e ressignificando sua obra, a precursora do Teatro na Educação no Rio Grande do Sul passou a ser um de meus objetos de pesquisa, indo cada vez mais fundo na sua vida e obra, resgatando o que de fato essa pensadora, escritora e professora representou, não só na formação de toda uma geração de artistas gaúchos, mas também na formação de um público frequentador de teatro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s