Uma obra que faz agitar a alma e tremer a carne

O artista Ubiratã Braga (Porto Alegre, RS, 1965) leva uma vida modesta que não reflete, de forma alguma, o conjunto de sua obra. Avesso a vernissages e badalações que costumam fazer parte do circuito das artes visuais, ele prefere ficar em casa, um apartamento pequeno e aconchegante no andar térreo de um edifício de três andares no bairro Petrópolis, em Porto Alegre. No escritório, onde recebe amigos e visitantes, chama atenção e impressiona sua coleção particular, que contempla obras de diversos artistas (e que divide espaço com peças de sua própria autoria). São desenhos, pinturas e esculturas adquiridos ao longo de vários anos. “Se eu, enquanto artista, não consumir arte, como poderei incentivar ou cobrar que outros profissionais o façam?”, questiona.

O ateliê funciona em dois espaços localizados nos fundos do imóvel. O pátio, de tamanho considerável e atmosfera agradável, onde além de pintar ele cultiva cactos e suculentas, separa o apartamento da sala que fica no limite final do terreno. É lá que Ubiratã dedica parte de seu tempo entre telas, tintas, pincéis, papéis e demais materiais que utiliza para dar vida a sua arte.

Se grande parte do material utilizado na sua produção encontra guarida entre as quatro paredes e o teto do ateliê, é no desguarnecido pátio do jardim que a ação do sol e da chuva se encarrega de preparar e deixar no ponto pigmentos como a ferrugem de pregos e outros metais que são utilizados de forma recorrente em suas telas. Quando o tempo permite, é também neste espaço externo que ele se dedica às telas, esticando-as em uma mesa que facilmente sai do ateliê e para ele volta, no chão ou na parte interna do muro do jardim.  Por opção, ele não conta com a ajuda de auxiliares. Como companhia diária, apenas dois cães.

Depois de 15 anos sem expor individualmente, Céus de chumbo sobre horizontes de ferro (Destaque em Pintura – Prêmio Açorianos de Artes Plásticas 2013), com curadoria de Paula Ramos, marcou a volta do artista ao circuito expositivo em agosto de 2013, ocupando a Galeria Xico Stockinger do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS), na Casa de Cultura Mario Quintana (CCMQ), em Porto Alegre.

A ausência de uma década e meia dos espaços expositivos foi uma decisão do próprio Ubiratã Braga, que aproveitou para repensar algumas questões após a boa repercussão de sua última grande exposição individual, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de janeiro, em 1997. Antes disso, seu currículo já contava com dezenas de exposições, entre coletivas e individuais, além de importantes prêmios, como o Prêmio Viagem ao Exterior, do Museu de Arte Contemporânea de Curitiba (PR), por ocasião do 47º Salão Paranaense, em 1990.

O longo período longe dos espaços expositivos não repercutiu negativamente na consolidada carreira do artista, que continuou produzindo e vendendo. Entre os clientes, além de conhecidos empresários e colecionadores, amigos e antigos colegas dos tempos de faculdade.

Seu retorno ao universo expositivo, em agosto de 2013, possibilitou aos mais jovens a oportunidade de conhecer um dos maiores artistas contemporâneos da atualidade. Ao público que já conhecia seu trabalho, proporcionou um reencontro com sua obra, “[…] convidando-o a um papel indeciso de leitor-espectador e propondo-lhe pensamentos-emoções, pois a emoção é esse movimento que faz a alma agitar-se, propagando-se espontaneamente de alma em alma.” (FOUCAULT, 2011, p. 99).

O que vemos é o que vemos, mas o que não vemos também nos interessa.

Entregar-se à contemplação das obras de Ubiratã Braga não é apenas se deparar com telas grandes de cores neutras ou vibrantes. Sua arte exige do interlocutor uma dedicação que ultrapassa aquela passada de olhos performática e habitual de grande parte dos frequentadores de espaços expositivos, cuja atenção geralmente está mais voltada para a circulação dos garçons dos vernissages que para o menu das obras expostas.

Embora haja exceções, as telas e os desenhos do artista dificilmente recebem legendas. Ele prefere deixar ao público a tarefa, árdua ou prazerosa, de com elas estabelecer um diálogo. Um exercício de desvelamento pelo qual o interlocutor possa lhe dizer não necessariamente o que vê, mas o que nelas encontra, o que sente e o que pensa. A grandeza do que nos oferece Ubiratã Braga reside na possibilidade das várias leituras que podem desvelar não só a alma do artista, mas a daqueles que se propõem a olhar para, falar de, ou sobre sua obra.

É esse importante contato com o público, seja ele esporádico, seja frequente, que faz com que sua obra, repleta de símbolos e significados nem sempre compreensíveis, saia do anonimato, encurtando caminhos e diminuindo distâncias, fazendo com que ela, mesmo que não volte a ser vista, nunca mais esteja sozinha, marcando uma presença atemporal, porque, como nos diz Didi-Huberman, “o que nos cativa empaticamente em toda imagem – ‘livre’, ‘artística’ ou ‘moderna’ – seria uma força de atração vinda de sua própria obscuridade, ou seja, da perduração dos símbolos que trabalham nela” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 357).

O trabalho de Ubiratã ganha importância na medida em que consegue aprisionar o observador que se depara com sua obra arrebatadora, como acontece com aquele que se vê diante desta tela de 2013:

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UBIRATÃ BRAGA (Porto Alegre, RS, 1965)

Sem título, 2013

Acrílica, óleo e pigmentos sobre tela, 134 x 280 cm

Coleção do Artista

O fascínio provocado no espectador de sua obra não depende tão somente dela. Requer um engajamento do interlocutor. Não que a obra por si só não se sustente, mas porque precisamos de tempo e dedicação para que ela possa nos fazer perceber as presenças que nela constam e indicar as ausências que também ali se encontram.

Mesmo que identifiquemos elementos facilmente reconhecíveis, como os pregos, presentes em outros trabalhos do artista, ao dedicar-lhe o tempo necessário (variável de um indivíduo a outro), podemos nos questionar se o que enxergamos na obra é realmente aquilo que vemos ou aquilo que supostamente o artista quisera nos induzir a ver.

Podemos nos perguntar se os pensamentos que contornam a obra, como objeto passível de diferentes olhares e questionamentos – no calor da emoção contemplativa ou na racionalidade fria pós-análise –, pertencem de fato àqueles que se propuseram a dissecá-la, ou ao artista que, ao oferecê-la ao público, mesmo não pretendendo, apontou para um possível caminho confortável de entendimento, como se – gratuitamente – nos entregasse um texto pronto.

Em todo caso, o próprio artista deixa claro não ser essa sua intenção quando nos apresenta suas telas “Sem título”. Para ele, a ausência de legendas, neste caso e em grande parte de sua produção, justifica-se por sua intenção oposta, a de não querer explicar ou “dizer o que há na imagem como se tivesse medo de ela não mostrar o suficiente por si mesma” (FOUCAULT, 2011, p. 98).

A excitação causada pela ausência na obra de Ubiratã Braga transforma-se em angústia na medida em que mergulhamos no infinito de suas telas. Infinito de perspectivas, de múltiplas possibilidades, de diferentes caminhos e enredos que apresentam o que o interlocutor se permitiu vislumbrar. Aqui devemos considerar que o ato de entrega ao exercício contemplativo de uma obra de arte não deve ser – necessariamente – um exercício de análise cartesiana. O prazer do encontro está no descompromisso, na despretensiosa entrega que faz agitar a alma e tremer a carne. E quando isso acontece, podemos de alguma forma dividir a autoria da obra com o artista.

Ao debruçar-me sobre a tela de 2008 que apresenta uma figura humana supostamente de contornos femininos, procurei nas ausências desvendar um emaranhado de interrogações que acabaram por me levar a outra questão já levantada por Michel Foucault, “como reaprender não simplesmente a decifrar ou a alterar as imagens que nos são impostas, mas a fabricá-las de todas as maneiras?” (FOUCAULT, 2009, p. 349).

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UBIRATÃ BRAGA (Porto Alegre, RS, 1965)

Sem título, 2008

Acrílica e pigmentos sobre tela, 200 x 132 cm

Coleção Particular

Apesar de aparentemente feminina, a imagem esconde-se atrás de si mesma. Há nela também uma intenção oculta. Uma presença marcada fortemente pela tentativa de comunicação impossibilitada por algo ainda a ser descoberto. Uma figura extraordinária que murmura a necessidade de um descortinamento. Como se aquilo que vemos acenasse para algo existente em outro plano. Como se estivéssemos em lados opostos. Frente a frente na insuficiência de elementos reconhecíveis.

Uma figura cuja angústia está estampada na ausência de uma face que nos olha de soslaio, mas que não se dá a ver. Face que aparentemente se multiplica em outras quatro que circundam a primeira. Ou seriam essas imagens novos e estranhos elementos a acompanhá-la? Talvez a figura central deseje apenas comunicar sua passagem de um universo a outro, indicando o encerramento de um ciclo e o início de outro.

Notemos o círculo na altura de sua cintura e o gesto de suas mãos como se conduzissem (sem forçar, porque o gesto não aparenta usar de força) o emergir do corpo a um novo plano. Sem considerarmos aqui, porque a isso não nos cabe conjecturas, a que plano ela se dirige ou é conduzida. E no rito de passagem que nos remete ao leve movimento de uma bailarina, ao atravessar o círculo que a conduz de um plano a outro, ela deixa para trás, como que num processo de purificação da alma e do corpo, as angústias e os males de toda uma vida pregressa. Então, pela morte ela alcança o renascimento.

Tudo isso não sem antes uma última tentativa de contato, como se a partida prematura a impossibilitara de dizer coisas que precisavam ainda ser ditas. Ali, na superfície da tela, um corpo em transição que busca se livrar de um sufocamento causado pelo silêncio imposto repentinamente a uma alma que se encontra entre a escuridão do túmulo e a luz de um palco. A tênue linha que separa o sofrimento da liberdade que se avizinha. A tomada de consciência se expressa agora não mais em sussurros, mas num salto libertador que aponta para o abandono de ressentimentos e para o reconhecimento de um corpo que ficará no passado e de um espírito que logo conhecerá a leveza e a paz proporcionada pela separação do corpo e da alma, da matéria e do espírito. É chegada a hora do paraíso.

E quando o momento da cisão chega, para além da saudade que fica ainda lhe resta uma ponta de esperança. O desejo da permanência. E descobrimos então que durante todo o tempo aquela angústia pode ter sido não outra coisa que uma ansiedade, uma insegurança do próprio interlocutor admitindo suas falhas, suas fraquezas, seus medos e sua incapacidade de aceitar a possibilidade de uma provável, imprevisível e repentina ausência sua sem qualquer chance de despedida. É nesse momento que, valendo-nos de Georges Didi-Huberman, perguntamos:

“Que fazer diante disso? Que fazer nessa cisão? Poderemos soçobrar, eu diria, na lucidez, supondo que a atitude lúcida, no caso, se chame melancolia. Poderemos, ao contrário, tentar tapar os buracos, suturar a angústia que se abre em nós diante do túmulo, e por isso mesmo nos abre em dois. Ora, suturar a angústia não consiste senão em recalcar, ou seja, acreditar preencher o vazio pondo cada termo da cisão num espaço fechado, limpo e bem guardado pela razão – uma razão miserável, convém dizer. Dois casos de figuras se apresentam em nossa fábula. O primeiro seria permanecer aquém da cisão aberta pelo que nos olha no que vemos. Atitude equivalente a pretender ater-se ao que é visto. É acreditar – digo bem: acreditar – que todo o resto não mais nos olharia. É decidir, diante de um túmulo, permanecer em seu volume enquanto tal, o volume visível, e postular o resto como inexistente, rejeitar o resto ao domínio de uma invisibilidade sem nome” (DIDI-HUBERMAN, 2010, p. 38).

Por mais que sua obra esteja aberta a diferentes leituras, e que cada interlocutor possa ter opiniões divergentes sobre o grau do impacto causado pela mesma, o que Ubiratã Braga nos oferece não passa despercebido, não causa indiferença. Sua aura, presente ou “oculta”, é o que efetivamente dá sentido (múltiplos sentidos) ao resultado primoroso de seu trabalho. Uma obra “desafetada” e sublime – que apresenta um artista com um domínio técnico sutil e magistral – que transforma em acontecimento único o momento daqueles que se entregam a contemplação de qualquer uma de suas peças.

Depois de mergulhar suficientemente fundo, descobrimos que o que há de singular em sua obra provém inteiramente de sua espontaneidade – como podemos ver nesta outra tela de 2008, abaixo. Nela, a implacável capacidade do artista que transforma percepções de mundo (e principalmente experiências) em construção artística. E pela identificação afetiva o interlocutor recebe como recompensa a liberdade de poder estabelecer uma relação viva e inequívoca com a contemporaneidade ali estampada.

Sem conclusões finais, mas especulativas porque a obra aberta nos permite especulações, podemos ir mais longe e dizer que existe um olhar diante do qual se evidencia uma vida a procura de afeto e abrigo. Uma linha que mostra o distanciamento de dois corpos, mas que também pode ser a linha condutora através da qual se ensaia uma reaproximação entre dois que buscam um desejado reencontro. Não há ali qualquer ameaça. Há uma intensidade festiva que mostra nos traços o entusiasmo no fluxo deste deslocamento, que pode ou não conduzi-los a uma reconciliação. É pelas memórias afetivas que a vida nos mostra quando podemos ir mais longe e operar transformações profundas e ousadas. No turbilhão das relações que se estabelecem, não é a toa que o refúgio seguro da cumplicidade seja também a indubitável redenção que a grande maioria busca. E por nos mostrar isso tão magnificamente o artista merece já de antemão ser felicitado.

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UBIRATÃ BRAGA (Porto Alegre, RS, 1965)

Sem título, 2008

Acrílica e pigmentos sobre tela, 160 x 200 cm

Coleção Particular

Um artista cuidadoso e atento que busca alcançar o máximo do que pode em grandeza, beleza e perfeição, apresentando-nos como resultado final uma obra de características que se desdobram, com traços e elementos nem sempre evidentes num primeiro olhar, mas continuamente diversos. Na experiência contemplativa das suas telas temos a sensação de participar de um cerimonial perturbador de caráter naturalmente fascinante. Uma obra complexa e dinâmica cuja metamorfose visual constitui nosso mundo – imaginário ou real.

Mesmo que seja difícil compreender a capacidade transformadora de sua arte, fica claro se tratar de alguém que tem como principal atributo a facilidade de lidar com formas que nos olham e que se permitem ver – ainda que por caminhos ou mecanismos nem sempre confortáveis. Aliás, o que cativa no espetáculo imprevisível de suas obras é o poucas vezes transparente contexto das experiências que resultam no que elas nos apresentam. Não importa. O que importa, afinal, é a maneira inteiramente envolvente e verdadeira que o artista tem de nos dizer, como Walter Benjamin, que “tudo o que é percebido e tem caráter sensível é algo que nos atinge.” (BENJAMIN, 2012, p. 207).

 

Bibliografia:

FOUCAULT, Michel. O Pensamento, a Emoção. In: ______. Ditos e Escritos VII – Arte,epistemologia, filosofia, e história da medicina. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011, p. 94-101.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Da empatia ao símbolo: Vischer, Carlyle, Vignoli. In: ______. A imagem sobrevivente. História da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p. 355-368.

FOUCAULT, Michel. A pintura fotogênica. In: ______. Ditos e Escritos IIIEstética: literatura, pintura, música e cinema. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009. p. 346-355.

DIDI-HUBERMAM, Georges. A inelutável cisão do ver. O evitamento do vazio: crença ou tautologia. In: ______. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010, p. 29-48.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: ______. Magia e técnica, arte e política. (Obras escolhidas, v. 1). São Paulo: Brasiliense, 2012, p. 179-212.

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