Os Alienados de Koetz

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Queixas, pedidos de socorro, confidências, ou ainda questionamentos cujas respostas estariam ou não com o artista

No presente artigo analiso o conjunto de treze desenhos (de um total de 24) da série Alienados, produzidos em 1964, no Hospital Psiquiátrico São Pedro, pelo artista plástico Edgar Koetz (Porto Alegre, RS, 1914 – 1969). Internado por familiares em decorrência de forte depressão e com problemas de alcoolismo, Koetz permaneceu no hospital da capital gaúcha (após ter residido em Buenos Aires e fixado residência em São Paulo) por um período de trinta dias, tempo suficiente para retratar, utilizando nanquim sobre papel, os pacientes com os quais conviveu.

Na tentativa de entender (se é que isso seja possível) a relação que o artista construiu com os pacientes que para ele posaram, visitei suas obras, pertencentes ao acervo do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli, em quatro momentos distintos, tomando o distanciamento necessário para que em cada oportunidade pudesse analisa-las experimentando as diversas sensações que essas apreciações me proporcionavam, procurando desvelar os sentimentos estampados nos semblantes daqueles desconhecidos por ele retratados.

Somente em minha última visita ao museu, e depois de ter concluído minhas anotações decorrentes das longas observações empreendidas diante dos desenhos nas quatro oportunidades em que lá estive, é que me permiti a leitura de uma análise dos mesmos feita pelo psicanalista Cyro Martins (2004). No artigo, o psicanalista, que trabalhou durante vinte anos no Hospital Psiquiátrico São Pedro, reconhece, entre outras coisas, deparar-se com o conhecido, e chama a atenção para o fato de os modelos eleitos pelo artista serem, em sua maioria, doentes mentais crônicos, pacientes esquizofrênicos e autistas, já bastante deteriorados psiquicamente. Segundo Martins, os desenhos de Koetz são figuras que assumem detalhes de anotações psicológicas, sobrando sempre espaço para o detalhe marginal e para a fantasia do espectador.

Fantasia ou não, o resultado da imersão do autor deste artigo é muito mais questionador que elucidativo. Tomado por uma inquietude resultante da intensa observação destas figuras imortalizadas nos traços de Koetz, demorei a entender que a raiz de minha aflição era mais profunda que a tristeza estampada nos rostos daqueles indivíduos. Não que julgasse sua tristeza superficial ou insuficiente para mexer com meus sentimentos, mas por ter percebido que provavelmente essa tristeza não tivesse a ver exclusivamente com sua condição de doentes. Afinal, passados cinquenta anos desses registros, sabemos que a grande maioria dos que para lá eram enviados acabava ficando abandonada à própria sorte, esquecida pelas famílias que, por vergonha de suas enfermidades, ou por falta de condições, negavam-se a trazê-los de volta para o convívio em sociedade.  Por sorte, não foi esse o destino do artista, que após trinta dias de internação deixou o local levando consigo seus desenhos. Talvez a oportunidade do exercício de suas habilidades, registrando seus companheiros em nanquim sobre papel, tenha contribuído para sua rápida recuperação. Como também escreveu o psicanalista Cyro Martins, “o nosso artista venceu o quadro depressivo e, já fora do hospital, iniciou uma nova fase de sua atividade criadora. Passou a pintar quadros de um colorido muito vivo, como nunca o fizera.”

Num processo investigativo semelhante ao de um arqueólogo, delimitei visualmente o espaço do museu ocupado pelas obras de Edgar Koetz e mergulhei no terreno fértil de seus desenhos, analisando individualmente os traços de cada um dos treze pacientes por ele retratados.

  Os vestígios encontrados nas observações – ou análises – daquelas figuras mostraram existir aspectos psicológico-comportamentais bastante singulares em cada uma delas, mas também outros que indicavam uma forte similaridade em suas sofridas expressões. A partir daí, busquei tecer uma rede de hipóteses que me permitisse pensar na (e entendê-la) rotina de suas vidas pregressas até o momento que culminou com suas internações. Talvez o próprio artista, ao realizar magnificamente seu trabalho, tivesse a intenção de captar não só aquele presente sombrio e frio, mas materializar para a posteridade a desgraça de um passado estampada de forma tão violenta na fragilidade daqueles seres humanos.

O exercício a que me proponho, fazendo uma leitura dessas imagens de Edgar Koetz, não é uma tentativa de desconstruí-las. É o desejo de emprestar-lhes minha voz para que suas perguntas possam ainda ser ouvidas. Afinal, o que queriam ou gostariam de dizer essas figuras ao deixarem-se retratar daquela maneira? Dada sua passividade aparente, é bem provável encontrarmos pessoas que neguem ou duvidem que estes doentes mentais tenham sido ouvidos ou compreendidos em seu diálogo com o artista quando por ele foram retratados. Particularmente, acredito e defendo a existência de uma forte comunicação entre as partes envolvidas. Minha defesa fundamenta-se principalmente nas expressões e nos olhares carregados de sentimentos que o artista conseguiu captar tão perfeitamente, e que cinquenta anos depois continuam vívidos e reais, demonstrando uma intimidade presente para além do espaço e do tempo em que foram concebidas.

Ao inverter a análise, partindo do ponto de vista dos pacientes, e não do ponto de vista do artista, percebemos a existência de uma vontade própria nessas imagens. É bem provável que os pacientes que lhe serviram de modelo foram dirigidos quanto ao modo de sentar e a postura a ser adotada. Também foram orientados quanto ao melhor ângulo a ser captado. No entanto, ao olharmos fixamente para suas faces, e mais precisamente para os olhos de cada um deles, percebemos ali a existência de um diálogo. Poderia ser uma queixa, um pedido de socorro, uma confidência, ou ainda questionamentos cujas respostas estariam ou não com o artista.

As feridas da alma doem mais. Não cicatrizam. Não curam. Independentemente das causas, apenas sobrepõem-se umas às outras ao longo da vida. Então, a única saída que vislumbro para amortizar a dor que provocam, amenizando o sofrimento, é a abstração. A abstração pode não curar, mas pelo menos proporciona o equilíbrio na medida necessária para aprender a conviver com as dores da alma tanto quanto seja possível. Talvez nunca saibamos o fim desses personagens retratados por Koetz.  E pensar no que terá acontecido com eles após a saída do artista daquele espaço é um exercício do qual abro mão. Prefiro pensar que para além de suas enfermidades de diferentes naturezas, a oportunidade de conviver com o artista tenha sido a possibilidade de alguns dias mais felizes em sua trajetória. Ironicamente levado ao Hospital Psiquiátrico São Pedro em estado de depressão profunda, acredito ter o artista também encontrado dias felizes enquanto lá permaneceu. Se não nos primeiros dias, nos que se sucederam. Por mais paradoxal que isso seja, ao encontrar inspiração para sua arte naquelas pessoas, certamente podemos dizer que ele se deparou com dias perfeitos naquele ambiente. 

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