Recortes

Porto Alegre, 07 de junho de 2013.

Deixem-me ser o louco que sou. Não aceito outro diagnóstico que não a loucura. Na loucura tudo posso. A loucura tudo me permite e tudo justifica. Não me venham com essas amenidades e modernidades do tipo bipolaridade. Não sou o tipo de pessoa que se deixa rotular por coisas demasiadamente simples como alternâncias de humor. Aliás, humor é o que não me falta. Bom humor, que fique claro. Não posso ser enquadrado entre os depressivos. Não me sinto um inútil. Muito menos cultivo sentimentos de culpa. Não carrego qualquer desapontamento, nem me sinto rejeitado. Comigo não tem achismos. Trago em mim a certeza de que vivo fora do esquadro. Minha inconstância é surpreendentemente devastadora. E posso garantir-lhes que na loucura inconteste de meus devaneios terei sempre razão.

Porto Alegre, 02 de junho de 2013.

Sempre rodeado de pessoas, mas no coração um vazio imenso. Amado e elogiado, mas nada o suficientemente bastante a ponto de me fazer ver que a vida possa continuar valendo a pena. Vazio aqui não tem a ver com carência. Meu vazio é o vácuo no qual pulei esperando tocar a lua e as estrelas. Nele encontrei o breu. A escuridão me fez cego. Mas não é a tíbia, muito menos a fíbula que me doem a cada tropeço que dou e a cada tombo que levo. A pancada dói na alma. Tecem-me elogios com a mesma frequência diária com que se trocam os curativos de um enfermo cujas feridas expostas são tão fétidas quanto repulsivas. Ou repulsivas porque fétidas. Não. Minha lesão não é visível. Muito menos cheira mal. Não é dessas de causar qualquer desconforto ou mal estar ao observador. Não é um ferimento no organismo produzido por golpes de instrumentos cortantes. Tampouco posso dizer-lhes tratar-se de uma enfermidade para a qual existam tratamentos alopáticos ou homeopáticos. Meu ferimento pertence tão somente a mim quanto a dor que ele provoca. Até onde sei, desse ‘mal’ não se morre. A menos que se queira morrer. Para curá-lo, necessito apenas de um interlocutor. Não qualquer um. Isso me seria fácil demais. Minha cura está naquele que já partiu e levou consigo as partes que me faltam.

Porto Alegre, 30 de maio de 2013.

Estou partindo. Vou em busca do frio porque já não tenho alguém que me aqueça. Eu vou mas eu volto. É logo ali. Num lugar que não é longe, mas distante o suficiente pra tentar encontrar a mim mesmo. Porque não acredito que tenha ido tão longe a ponto de não conseguir alcançar sequer a ponta dos dedos de minhas mãos. E ao encontrar-me, precisarei agarrá-las com toda a força que me resta. Não. Não é uma fuga. É um resgate. Preciso resgatar-me antes que o vento me leve por sobre as montanhas. Antes que a correnteza doce das águas me leve para o infinito salgado do mar. Vou ali, e assim que me encontrar, se tudo der certo, eu volto. Necessito buscar-me enquanto o olfato indica o caminho e me permite uma esperança. Busco-me também pelo cheiro, porque na razão já não posso confiar. Vou ali onde o frio talvez tenha me congelado. Sei que lá devo estar. Sinto isso. E na volta quero permanecer o mais frio tanto quanto for possível, porque com a frieza eu consigo conviver. Só não me peçam para salgar ainda mais a vida. E se for impossível atender ao meu pedido, permitam-me pelo menos a delicadeza do agridoce.

Porto Alegre, 29 de maio de 2013.

1 – Quando a memória falha
Dormi pouco essa noite. Tive um sonho. Não sei ainda se bom ou ruim. O tempo dirá. Depois do sonho veio a insônia. Acordei e fui para o banho, como o faço todas as manhãs. Lembrei então da minha infância, quando minha avó paterna preparava para os netos uma receita bastante comum entre os imigrantes alemães, um composto resultante de uma mistura dos mais variados chás fervidos em um litro de vinho tinto (seriam dois?) ao qual eram adicionados alguns pregos enferrujados. Esse composto foi o nosso “fortificante” nos primeiros anos da infância. Sadol e Biotônico Fontoura vieram bem mais tarde. Lembrei-me disso porque ultimamente tenho alguns lapsos de memória lastimáveis. Troco o nome das pessoas. Esqueço o nome de outras. Dia desses, quando estávamos na atividade de observação dos corpos celestes, em Itapuã, dirigia-me a professora Luciana Loponte chamando-a de Paola. Que vergonha! Ao apresentar uma amiga a um grupo de amigos no Santander Cultural, “um branco” tirou de minha memória qualquer referência ao nome do Cassio Maffazzioli. Justo do Cassio. Imperdoável. Tornam-se comum situações em que não me recordo do nome de pessoas queridas e admiradas, lembrando-me posteriormente, quando a gafe já foi cometida. Dia desses cruzei com o Martin Heuser aqui na Andradas, batemos um papo. E cadê o nome do Martin perdido em algum canto de meu cérebro? Talvez o que ilustre ainda mais perfeitamente essa falta de comprometimento de minha memória comigo, é aquela situação em que encontrei no ônibus a Ana Cândida. Fique ali parado por alguns segundos olhando para ela – ela para mim. Até que lhe disse: Desculpe-me, pensei que fosse uma grande amiga minha. Ao que, ela respondeu: Mas eu sou tua amiga! Vexame total! É, acho que estou precisando da mistura milagrosa da minha avó. Talvez ela consiga salvar minha memória.

2 – A madrugada foi de tragédia em Porto Alegre, e ao invés do tradicional silêncio, encerram o Jornal do Almoço em clima de festa com um tal de Dudu Gaiteiro. Pão e circo.

3 – Os eco-chatos
Marina Silva e Fernando Gabeira estiveram na segunda-feira passada (27/05/2013) em Porto Alegre palestrando no Fronteiras do Pensamento. Interessante constatar que aqueles que lá estavam, formando a plateia do salão de atos da ufrgs, todos ávidos por ouvir a “crème de la crème” do movimento ambientalista nacional, sequer se manifestam a respeito dos trágicos acontecimentos que assombram a capital gaúcha. Nitidamente uma plateia formada por ouvintes (que podem pagar os quase mil reais pelo passaporte que lhes dá direito ao ciclo de conferências que acontece ao longo do ano) cujo objetivo maior é mostrar o quanto estão ou são “IN” na “high society” porto-alegrense. Poucos dos ali presentes estavam ou estão verdadeiramente preocupados com as questões ecológicas e com os rumos da sociedade. Lara Lutzenberger, presidente da Fundação Gaia, como de costume, linda, loira e de olhos azuis, saiu bem nas fotos, mas foge dos debates sempre que procurada pela imprensa para opinar sobre assuntos polêmicos que afetam nosso cotidiano, nossas vidas e o futuro da cidade. Foi assim em anos anteriores quando se discutiam os impactos do aumento da silvicultura no RS e da respectiva expansão da indústria de celulose sediada em Guaíba (para ficar em só um exemplo), empresa à qual está diretamente ligada, e da qual recebe alguns milhões de reais anualmente em prestação de serviços por meio de sua empresa, a Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico. Não questiono a validade e o efeito positivo dos serviços prestados pela Vida, empresa criada pelo saudoso Lutzenberger. Só penso que essa parceria de sucesso não deveria mantê-la em silêncio sempre que se discutem os impactos da silvicultura e da produção de celulose em nosso estado. Agora se cala novamente sobre a derrubada das árvores na cidade. Como herdeira de um legado de defesa do meio ambiente, significativo e reconhecido internacionalmente, sua manifestação deveria ser voluntária, espontânea e sobretudo combativa. Deveria atuar na linha de frente com as demais ONGs cujo papel têm sido fundamental na história contemporânea. Lara deveria fazer valer o peso do sobrenome que carrega, sair pra rua, escrever artigos, procurar a imprensa como fazia seu pai, manifestar-se publicamente, mesmo correndo o risco de ser chamada de louca. Afinal, foi por sua loucura que Lutzenberger passou a ser uma das figuras mais respeitadas do Estado (e do mundo). E é ela quem hoje representa a instituição por ele criada. Quando a questão é polêmica, Lara entra em cena muda e sai calada. Talvez mude de postura depois dessa crítica, já feita pessoalmente, e agora tornada pública. Pra finalizar, mais uma consideração. Talvez a mais importante. O debate público, as discussões sobre a questão ambiental são fundamentais para a formação de uma consciência crítica, como mostraram Marina e Gabeira em sua conferência – obviamente àqueles que realmente prestaram atenção em suas falas – mas essa “tomada de consciência” de nada vale se não servir para transformar argumentos e teorizações e ações práticas que contribuam para inverter os valores distorcidos e infelizmente vigentes, principalmente no cenário político local. E como diz aquele velho ditado, cuja autoria não me recordo, “canta tua aldeia, e cantarás o mundo!” Me corrijam, caso necessário!

4 – Ainda sobre o público presente na conferência da Marina e do Gabeira, ressalte-se que ouvir uma palestra de ambientalistas não te faz ser um. Agir te faz. E isso, o público que lá estava não costuma fazer. Cada vez que surgia uma ponta de crítica ao governo (federal), os presentes aplaudiam. Será que aplaudem as críticas à prefeitura de Porto Alegre no dia de hoje? E é triste como, me parece, algumas vezes a violência acaba sendo a única forma de se estabelecer um “diálogo”. Se as instituições públicas (prefeitura) e seus parceiros não levam a sério a mobilização popular, pelo menos voltam sua atenção para estes na hora que o povo opta pela quebradeira geral (o que aconteceu de forma bastante tímida considerando o tamanho da sandice do atual prefeito). E isso só leva a uma polarização que talvez prejudique mais e mais um diálogo limpo, transparente e honesto. Mas como esperar honestidade de um governo quando o que se tem visto é justamente o contrário? Infelizmente temos mais 3 anos de trevas pela frente, no mínimo.

Porto Alegre, 28 de maio de 2013.

Uma angústia me consome por não conseguir atender aos inúmeros convites para almoços, cafés e encontros que me fazem todos os dias. E assim as negativas que se repetem diariamente me transformam de um cara admirado virtualmente em uma pessoa cujos adjetivos atribuídos passam a ser desde uma simples antipatia aos piores possíveis. Passo então a ser renegado, desprezado e rejeitado. Tenho dedicado todo meu tempo aos estudos, e minha vida social limita-se aos encontros fortuitos nos vernissages, e ainda assim por serem justamente as obras de arte e as relações que as pessoas estabelecem – ou não – com estas o meu objeto de estudo e pesquisa. Tenho um carinho enorme por todos, só não tenho a mesma disponibilidade de tempo para cada um que me solicita.

Porto Alegre, 27 de maio de 2013.

Como explicar a falta que você sente de uma pessoa? Eu não sinto saudade apenas, porque a saudade é doce, suave, nostálgica. Sei que sinto falta porque essa ausência me dói fisicamente, porque o coração fica apertado e porque também me falta a razão. Sei que sinto falta quando caminho, faço minhas coisas, não mudo minha rotina, mas lembro-me a todo instante daquilo que já foi presença e agora inexiste. Então, respiro fundo e olho para baixo antes de olhar para frente e iniciar uma nova caminhada. Dou o próximo passo e sigo adiante, não sem antes olhar para cima, para a esquerda e para a direita com o canto do olho, como se buscasse o caminho mais seguro a ser escolhido, mesmo certo de que caminho algum oferece a garantia da tranquilidade do acerto. Sinto falta porque pra sentir tem que querer, desejar. Sinto falta porque estou vivo e porque vivi. E quem não sente é porque não viveu.

Porto Alegre, 26 de maio de 2013.

William Kentridge me fez chorar
Aproveitei o domingo lindo para pedalar até o Museu Iberê Camargo. Nem mesmo o sol das 13h me atrapalhou como eu pensei que pudesse acontecer. O sol, o céu de um azul anil e a temperatura agradável – nem quente, nem demasiadamente fria – foram a companhia ideal no trajeto de pouco mais de 20 minutos que faço desde casa até o museu. Tem dias que sinto uma necessidade tremenda da solidão. E hoje eu precisei dela mais do que nunca. Talvez não necessariamente da solidão. Talvez eu precisasse mesmo era da minha companhia. Olhar-me, conversar comigo mesmo. Fazer uma autoanálise. Enfim, me sentir e sentir o pulsar por vezes angustiante e silencioso da vida. Eu queria muito ter ficado sozinho, mas Kentridge não permitiu. Ele fez questão de me acompanhar, de estar comigo, de marcar presença. E há muito um artista não me arrebatava como o fez Kentridge. A epifania que experienciei com sua obra me arremessou às profundezas de meu ser, levando-me aos prantos. Provocou-me uma sensação de realização no sentido de entender o significado de algumas coisas, compreender a essência de certos acontecimentos e tudo o que pode estar no âmago das pessoas. Kentridge iluminou meus pensamentos, clareou meus sentimentos e inspirou-me como se somente ele fosse capaz de fazê-lo. Sua obra é indescritível e única. Um acontecimento cujo resultado é uma experiência metafísica. Willian Kentridge me fez chorar.

Porto Alegre, 25 de maio de 2013.

Acabo de excluir um primo (com quem tive bons momentos na infância e um “rala e rola” na adolescência) de minha rede amigos no facebook por seu caráter exibicionista em publicar fotos com seus carrões e vídeos de práticas de tiro ao ar livre com espingarda calibre 12 e S&W 38 Special. Na verdade essa postura de incentivo à violência é o que realmente mais me incomodou. É médico a criatura.

Porto Alegre, 24 de maio de 2013.

Do que ou de quem têm medo os artistas e intelectuais de Porto Alegre? Não há hoje, com raríssimas e honrosas exceções, uma arte contestadora em nossa cidade. Artistas e intelectuais rendem-se ao mercado e ao sistema de bajulações imposto pela mídia, num toma lá da cá que beneficia e retroalimenta um círculo vicioso e venenoso que só faz perpetuar ditos padrões castrantes e moralizantes. Não tenho visto exemplos de música, fotos, vídeos ou textos de nossos colunistas que revelem uma postura crítica aos mecanismos de manipulação da sociedade. Já tivemos períodos de maior transgressão, onde a arte questionava e discutia criticamente a realidade. Artistas e intelectuais mostraram seu olhar sobre o regime militar, que criava uma série de restrições às possibilidades de expressão. Foi-se o tempo em que o artista criticou, de modo muitas vezes bem-humorado e poético, a realidade do momento. Queria ver nossos ricos colunistas, cineastas, pensadores e realizadores na linha de frente, marchando pelas ruas com o povo, empunhando cartazes e escrevendo em suas colunas na imprensa sobre os últimos acontecimentos de Porto Alegre. De que essas pessoas têm medo? de exporem sua opinião ou de perderem seus espaços, suas notas, seus elogios, suas críticas positivas ou, em último caso, suas verbas? É fácil escrever e opinar sobre a história quando há um certo distanciamento no espaço e no tempo. Interessa-me a atitude do agora. Participar, fazer história, é muito mais interessante que escrever sobre. Isso, deixemos para o futuro.

Porto Alegre, 23 de maio de 2013.

1 – A RBS TV já foi mais discreta na defesa dos interesses das empresas denunciadas por irregularidades (e das pessoas envolvidas nestes casos). A defesa discreta e subliminar que se fazia em épocas anteriores passou a ser escancarada de uns tempos para cá. Ontem o presidente da ATP, em um quadro criado para discutir temas de interesse público, esteve no Jornal do Almoço defendendo os interesses dos empresários, respondendo a perguntas nitidamente formuladas de forma a deixar o entrevistado confortável, não causando-lhe mal estar algum. Ao telespectador mais atento ficou a impressão de que aquele espaço também foi comprado, maquiando um provável “a pedido” (uma nota paga), transformando-o assim em “tema a ser debatido”. Hoje, no mesmo quadro, foi a vez de um especialista (médico?) defender que o nível de ureia e formol encontrado na adulteração do leite não representa riscos à saúde. Nem aí para discussões sobre posturas éticas e críticas mais efusivas à práticas desonestas que lesam os consumidores. Ainda carrego em mim a esperança de que um dia teremos no Brasil um jeito decente de se fazer jornalismo. Não falta muito. Só vontade política.

2 – Apenas uma constatação: a produtora responsável pelo projeto do livro que conta a história do Paralamas do Sucesso pediu mais de 700 mil reais para a Lei Rouanet a fim de editar a obra. Muito obviamente movido pelas polêmicas anteriores envolvendo outros artistas, o Ministério da Cultura não aprovou o projeto e sugeriu em torno de 50% de corte no orçamento. O que, na minha opinião, ainda é muita grana para um livro.

Porto Alegre, 22 de maio de 2013.

Eu gosto dos travestis. De um em especial. Explico. Aqui no centro moram muitos travestis. Eles circulam pela Andradas, geralmente em grupos. Pelo menos entre dois. As companhias dos travestis não são necessariamente travestis. Acontece que este que me chama atenção está sempre sozinho, e assim o vejo há pelo menos uns 10 anos. Antes, ele passeava com um poodle. De uns bons tempos para cá, nem ao poodle ele tem. Solitário, frequentemente o vejo com sacolas de supermercado ou de farmácia. São sempre os mesmos estabelecimentos comerciais que ele frequenta. É um travesti de bunda e seios avantajados, como o são quase todos os travestis. Não importa a época do ano, faça chuva ou faça sol, ele está sempre de óculos escuros. Talvez falta-lhe coragem de olhar nos olhos da grande maioria que lhe olha com desaprovação. Confesso que dói em mim a sua solidão.

Porto Alegre, 20 de maio de 2013.

Em nota publicada nos jornais do RS nesta segunda-feira, 20 de maio, a Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP) desconsidera e ignora o poder de mobilização da população da capital gaúcha e afirma que “grupos com interesses eleitorais” promoveram protestos, “valendo-se do recurso da violência, da depredação e afronta à ordem pública”, contra o que chama de “valor oficial” da tarifa “legalmente definida”. Tentam, com isso, dar caráter de briga político-partidária a uma demanda real da sociedade, que mostra através das manifestações sua indignação contra o abuso do poder das empresas que controlam o setor em nossa cidade. Ao querer fazer a sociedade acreditar tratar-se de questão político-partidária, a ATP quer tornar “desimportante” e desqualificar as crescentes mobilizações populares que tomam corpo e tornam-se frequentes em Porto Alegre.

Na necessidade de afirmar não tratar-se de ameaça, a nota da ATP afirma-se como tal. Carregada de maldade, afirma que “o valor da tarifa de R$ 2,85 está causando um dano de proporções catastróficas ao transporte coletivo de nossa cidade”, e que as empresas “estão ficando sem condições de prestar um serviço com eficiência, qualidade e continuidade”. A ATP tenta induzir a um sentimento de pavor coletivo, e ao partidarizar o problema, deseja fazer-nos esquecer da legalidade do parecer do Ministério Público de Contas (MPC) e dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que já apontou várias irregularidades e a existência de preços inflacionados. O procurador-geral do Ministério Público de Contas, Geraldo da Camino, em oportunidade anterior afirmou que se fossem considerados os critérios de uma auditoria realizada em 2012, na época em que houve o reajuste para R$ 2,85, o valor da passagem poderia ter sido reduzido para R$ 2,60.

O crescente número de pessoas que mesmo debaixo de chuva sai às ruas para defender os interesses públicos, em atos de repúdio e em “lutas” para garantir os direitos da coletividade, talvez assuste aos habituados à tranquilidade e acostumados a agir na obscuridade dos gabinetes, como bem mostram os rumos das investigações que vez ou outra eclodem e viram manchete na imprensa. Talvez o medo da opinião e das ações públicas justifique a tentativa de desclassificarem a legitimidade de movimentos organizados, adjetivando-os, entre outras coisas, de arruaceiros. O silêncio substituído pelo coro da multidão marchando pelas ruas de Porto Alegre produziu efeitos até então inimagináveis, provando que a cidadania exerce influência direta na conquista de vitórias importantes para o restabelecimento de uma ordem pública que considere prioridade o pleno e saudável desenvolvimento de uma cidade pensada para todos, e não para uma meia dúzia de empresários.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s